Amor Cego
18 Confusão
Mais espantado que o próprio Ryder, Tetsuro recua um passo colocando Andrea atrás de si, a mulher surpresa e erguendo um sorriso satisfeito. A vítima do soco parece mais magoado que ferido, irritantemente me olhando como se eu fosse algum tipo de vilã.
—Acho que já chega, não é?
Ryder me olha de volta, levando a mão até o local atingido. Vejo o lábio inferior cortado. Apesar de terem sido poucas as brigas que tive na vida foram o suficiente para me ensinar a como desferir um bom soco. Em situações como essa, agradeço por não ser tão passiva quanto acho.
—Ryder! — Tyson grita.
Viro-me, vendo o baixinho atravessando a multidão paralisada pela cena. Afasta algumas pessoas até conseguir chegar onde estamos. Carrega o violão que entreguei a Yuri, a mesma estando bem atrás dele. Os dois avaliam a situação e logo se vê a diferença entre os sexos. Tyson se aproxima de Ryder e Yuri confere meu cotovelo ralado.
—Precisa limpar...
—Tô bem.
—Melhor irmos embora.
O segurança parrudo e moreno usando camiseta colada e de olhos miúdos ameaçadores se aproxima analisando bem a mim e a Ryder. Não sabe se está de frente para uma relação abusiva ou como proceder. Antes de arrumar mais alguma confusão, suspiro, derrotada e olho Noah.
Passo pelos outros desviando de seus corpos, atenção focada no cego carregando uma expressão preocupada. Minto a mim mesma confiante de estar preocupado comigo. Tento me iludir com isso, mesmo sabendo não ser o caso. Pelo menos me faz abrir um sorriso e manter a voz mais confiante.
—Noah.
—Brown... O que acabou de acontecer? Cadê a Andrea e o Tetsuro?
Estendo o braço tocando o seu. Sinto uma pontada aguda no cotovelo que acertou o chão, porém ignoro ao sentir o quão quente o corpo dele está.
—Uma discussão na pista de dança.
—Ouvi você gritando.
Faço uma careta.
—Eu não gritei.
—Mas estava envolvida, não é?
Encolho os ombros. Dou uma espiada nas minhas costas encontrando Yuri acertando um tapa forte e bem dado do outro lado do rosto de Ryder, Tyson tentando acalmar a ambos discutindo e o segurança em meio aos 3 buscando arrastá-los juntos para fora. Tetsuro está assistindo a discussão enquanto Andrea chama nomes nada educados a respeito da mãe de Ryder.
—Ao que parece agora todo mundo se envolveu — murmuro.
—E como está?
Relaxo a expressão, voltando a Noah. Não consigo decifrá-lo. Suas palavras doces fazem meu coração acelerar, o rosto calmo me lembra tanto da memória no festival que torna muito difícil lembrar como ele era antes. Respiro fundo passando a olhar suas mãos pousadas na mesa.
—Bem. Esse lugar tá bem... Agitado. Quer ir beber em algum outro canto?
O canto da boca de Noah se ergue.
—Convidando seu aluno pra beber? Isso é crime, sabia?
—É?
—Não tenho ideia. Aceito. Boates não fazem muito o meu tipo.
Viro-me, pronta para ter que enfrentar os outros saindo pela área VIP. Contudo, a mão quente e macia parando ao lado do meu rosto e descendo até o ombro me congela de todas as maneiras possíveis. Olho mortificada para Noah, sem entender.
—Desculpe, deveria ter avisado — comenta — Não sou muito acostumado a esse ambiente e... Pode... Me ajudar?
Conhecendo-o a pouquíssimo tempo sequer visualizo a quantidade de coragem que lhe exigiu me pedir ajuda quando fora tão hostil ainda no início da semana. Novamente meu coração falha uma batida e me questiono quanto tempo vai demorar para Noah me causar problemas cardíacos.
—Claro, sem problemas.
A batida eletrônica é insignificante. O órgão em meu peito é mais afoito e alto. Onde Noah toca formiga e esquenta de forma a me deixar de rosto avermelhado em segundos. Cada passo cuidadoso, o aperto ao nos distanciar e o leve afrouxar ao se aproximar.
—O casal feliz...
—Bem na nossa frente. Mais alguns passos.
Tetsuro nota nossa aproximação, os olhos indo diretamente para a mão de Noah no meu ombro e em seguida para meu rosto. Vejo-o segurar uma risada e de imediato faço uma careta, o pensamento de aproveitar o embalo e acertar ao menos alguns socos no seu rosto. Acalmando-se, ele segura Andrea pela cintura puxando-a longe do segurança e lhe sussurrando algo. Imediatamente a atenção dela também está em nós dois.
Bato duas vezes na mão de Noah e ele para. Lentamente tento aumentar a distância entre nossos corpos sem parecer suspeita.
—Nós vamos sair. — Noah avisa e arregalo os olhos. Ele disse nós? Nós no sentido eu e ele? Sem os...? — Querem vir junto?
Andrea passa as íris verdes dos meus sapatos até o topo da minha cabeça.
—Acompanhamos vocês até lá fora, não é, Tetsu?
Seu namorado solta um risinho. Noah solta um muxoxo, perfeitamente ciente da insinuação de ambos.
—Idiotas.
—Elise.
A voz macia de Yuri. Passo minha atenção a sua aproximação. Continua bonita, desarrumada e decepcionada, mas ainda cheia de brilho.
—Já vai?
Assinto. Yuri põe minha mão entre as suas, carinhosamente. Sorrio e sinto o toque de Noah sumir. Meu corpo institivamente relaxa.
—Ainda vamos sair amanhã, não é?
—Claro.
Ela sorri e afaga minha bochecha esquerda.
—Foi bem valentona. Louis iria adorar. Te vejo amanhã.
—Obrigada. E... Toma cuidado, ok? Ryder...
Yuri suspira.
—Ele não vai encostar um dedo em mim. Se fizer sabe que eu posso muito bem enfiar o baixo inteiro dentro do...
—Cristo, já sei de quem se inspirou na violência. —Tetsuro interrompe.
Aperto as mãos de Yuri.
—Sinto muito por hoje. E por não tocar amanhã.
—Depois da cena do Ryder eu duvido muito ainda aceitarem a banda amanhã. Mas tudo bem. —seus olhos se desviam para Noah — Espero que ele valha a pena.
Pisco. Pressiono os lábios, percebendo algo que me magoa.
—Ninguém... Vale — minha garganta fica seca — Eu só sou uma idiota.
Seu olhar se torna doce.
—Faça o que achar melhor. Até amanhã.
—Até.
Yuri caminha até Tyson, fala algo e o mesmo devolve o violão. Agradeço a ele silenciosamente e o mesmo me dá um sorriso amarelo. Pressiono o centro da testa esperando não acabar sofrendo dor de cabeça no dia seguinte. Tentando não pensar no que acontecera, nem nas minhas reações impulsivas, viro-me acompanhando os outros três para a saída.
Ninguém vale a pena assim. Não me sai da cabeça que venho fazendo demais. Essa sensação é diferente. Sinto estar animada em frente a uma pedra sem emoções que não reage como eu reajo. Noah não sente nada por mim, então por que eu o defendo? Por uma memória?
Massageio meus ombros tensos, olhos lacrimejando. Sou uma idiota. Venho fazendo demais por alguém que me vê apenas como oportunidade de passar em uma disciplina. A verdade dói, porém não há nada que eu possa fazer. Não posso usar a memória dele do ensino médio como motivo para defende-lo.
Caminhando entendo ainda mais a necessidade de superar Noah. Não é certo nem comigo e nem com ele continuar a agir desse jeito. Preciso deixar sua imagem de salvador da minha música de lado e me concentrar nele no presente. Um colega de sala. Nada mais.
Fale com o autor