—Eu não bebo.

—Não? Então por que me chamou logo pra um bar?

Também não sei. Passar mais tempo no presente com Noah pode me ajudar a superar sua aparição do passado. Pelo menos tento me convencer disso. Nada funciona, bater todos esses fatos no meu cérebro e ainda minhas emoções teimam em se aliar a ele.

—Imaginei que quisesse — minto.

—Que desculpa esfarrapada. Olha, se estiver planejando me abusar pelo menos me paga algumas rodadas.

—A conta é minha.

—Ah, sim, claro. Espera, oi?

Sorrio, apoiando o cotovelo bom na bancada. Meus ombros continuam tensos. Acabamos parando no bar mais próximo do dormitório, recheado de alunos de diversos cursos em todas as mesas deixando disponíveis apenas os bancos no balcão. A mulher servindo bebidas tem seus trinta anos e usa o cabelo preso de uma forma estranhamente diferente, não consigo dizer a razão.

Andrea e Tetsuro se separaram de nós logo ao chegarmos perto do dormitório falando sobre voltar cedo para casa. Recebo algumas mensagens de Yuri, Louis e bloqueio o contato de Ryder no celular. Não devo me sentir de forma alguma obrigada a aturar suas baboseiras.

—Pode deixar que eu pago.

Noah inclina o corpo na minha direção, as sobrancelhas juntas.

—Eu vou te dar prejuízo.

—Sem problemas.

Ele arruma a postura, desconfiado. Procura a cerveja perto do braço e ergue-a até os lábios tomando alguns goles. Aproveitando estar com um cotovelo na bancada e o outro solto ao seu lado, virado para mim. Me sento da mesma forma, de frente a ele apesar do olhar desviar para outro lado constantemente.

—Vai me contar a razão de não beber?

Pouso o braço machucado em cima da perna, a lateral do meu corpo dolorida devido impacto bruto contra o chão da pista de dança. No caminho até aqui ficou mais claro que deve ter atingido algo importante só pela certa dificuldade ao andar.

—Pode ser — pesco a garrafa de água que pedi a moça. — Não é segredo nenhum, pra falar a verdade.

—Oh. Alguém abusou de álcool na família?

—Meu pai. Antes de se separar da minha mãe ele... Chegou em casa bem chapado. Não sei o que usou. Ameaçou nós duas e só não fez nada porque a minha mãe trancou a gente no quarto do pânico. Não é a cena que uma criança de cinco anos goste de participar.

Noah escuta com atenção, ignorando os sons externos de outras pessoas.

—Entendi. Você... Soa ter se recuperado disso.

—Terapia. E também... Todos os dias me lembro que sou privilegiada demais pra reclamar sobre alguma coisa do meu passado.

—Privilegiada com o quê?

Bebo alguns goles de água.

—Branca, de família rica.

—Tem visão.

—É, isso também.

Noah solta uma risada baixa.

—Ter esses privilégios não te impede de reclamar —ele diz se virando para o bar e bebendo mais um pouco — Que tal tentar se esforçar para não se aproveitar deles? Sei lá, tornar o mundo melhor lutando por igualdade.

—Pra lutar precisa de coragem. Isso eu não tenho — encaro minhas mãos — Minha mãe é quem faz bastante disso. Lutar pela igualdade.

—Sério? Como ela faz?

—A empresa dela se foca em contratar todo o tipo de gente contanto que tenha talento ou experiência. Alguns dos programas de estágio colocam dezenas de pessoas com apenas o ensino médio dentro da empresa e até ajudam nos custos do ensino superior. Sem distinção de cores, nem classe ou sexo.

—Não muda o mundo, mas o que tem ao seu alcance, é isso?

—Basicamente.

—Faz o mesmo, então.

Arqueio uma sobrancelha e Noah pede mais petiscos e outra cerveja ao escutar os passos da moça do balcão.

—E como a instrumentista desempregada pode fazer isso?

—Não tenho ideia.

—Nem eu.

A moça entrega uma porção de batatas fritas esquentadas no forno a Noah. Cutuco seu braço para avisá-lo e o mesmo procura o alimento mordiscando até o barulho de vidro batendo na madeira contornar sua atenção para a cerveja.

—Já sei — Noah quase engasga com a bebida e lhe dou algumas palmadas nas costas — Somos artistas, não é?

—Na teoria.

—Então, o que podemos fazer é dar esperança. Dar coragem. Inspirar as pessoas a mudarem.

Olho ele. Analiso seu perfil, sem conseguir ver a tatuagem. E se Noah soubesse que foi exatamente isso o que fez comigo? Me inspirou a mudar, me deu coragem. De toda forma, acabei confundindo admiração e paixão e cá estou.

—É uma boa ideia — murmuro.

—Acha mesmo?

—É. Não esperaria algo assim vindo de você.

Noah bufa.

—Eu já pedi desculpas por ser babaca naquela vez.

Roubo algumas batatinhas e bebo mais água.

—Eu sei.

—Tá de boca cheia? — ele cobre as batatas usando os dois braços — Pede pra você!

—Mão de vaca.

Noah faz bico e continua comendo batatas. Conforme ele se distrai, mais coragem e menos vergonha sinto. A dormência do machucado já passou só de lavar no banheiro do bar, levando agora apenas as pontadas de dor.

—Noah.

—Hum?

—Por que aceitou vir comigo?

Ele dá de ombros.

—As pessoas me conhecem e pensam que eu sou indefeso. Incapaz. De início todo mundo toma muito cuidado ao meu redor. Palavras como “ver”, “enxergar” e “olhar” parecem proferir o demônio da identidade moral de todo mundo se eu estiver por perto. É um saco.

—Eu faço isso?

—Não até onde eu sei. Por isso... Eu pedi desculpas. Achei que era mais uma curiosa pela minha cegueira.

—No jantar eu fiquei mais curiosa sobre a tatuagem.

Noah inclina o pescoço tomando mais goles de cerveja.

—A da orelha, não é?

—É.

—Fiz aos quatorze. Minha mãe quase me matou.

Ele sorri, entristecido.

—Se não quiser falar...

—Me contou sobre o seu pai alcóolatra, posso te falar daquela velha — Noah arruma a postura, empurrando as batatas — Eu nasci com visão e ela piorou muito até chegar ao ponto que os médicos não conseguiam fazer mais nada e determinaram que seria cego antes dos dezoito. Com treze eu só via borrões mesmo usando óculos de grau tão alto que fazia qualquer um ficar tonto. Minha mãe foi diagnostica assim que fiz quatorze, então fiz a tatuagem da flor favorita dela. O rosto dela provavelmente foi a última coisa que eu vi na vida antes de fazer a cirurgia que me deixou cego.

Quero tocar sua mão. Quero reconforta-lo.

—Ela acabou gostando?

—Como é?

—Da tatuagem. Ela acabou gostando?

Noah relaxa a expressão e sorri.

—Perguntou por que diabos um cego teria tatuagem, mas achou bonita.

Vejo-o tomar mais alguns goles de cerveja, respirando fundo.

—Fui adotado pelos Morretti depois da morte dela. Eles me deixaram ficar com o meu sobrenome.

—Seu pai...?

—Nunca conheci.

Avalio sua expressão. Noah tem muito mais história do que eu esperava. As sobrancelhas tensas, os lábios curvados na boca da garrafa de cerveja. Deve sofrer ainda com tudo isso, mas parece estar cuidando bem de tudo.

—Brown.

—O quê?

—Sabe tocar Jazz?

Desvio os olhos dele, distraída de como suas linhas são bem feitas.

—Dependendo do instrumento, sei.

—Consegue no violão?

—Não, só piano.

Noah termina de comer as batatas.

—Que tal a gente invadir a sala de música agora? Me deu uma baita vontade de escutar Jazz.

—Você tá bêbado.

—Não, ainda não. Quando fico começo a cantar sertanejo.

Solto uma risada. Procuro a carteira no bolso e pago a conta deixando ainda uma gorjeta gorda para a garçonete. Lhe agradeço na primeira oportunidade. Toco o ombro de Noah que se ergue usando a bengala para se orientar até a saída.

—Onde vamos? — ele pergunta.

Paro no exterior sentindo os braços arrepiarem graças ao frio e minha incapacidade de trazer casacos. Encaro Noah perfeitamente vestido com as roupas adequadas tanto ao frio quanto ao quente. Faço bico.

—Quer mesmo continuar?

—Não saio com outra pessoa além da minha irmã e do Tetsuro tem quase anos.

Sorrateiro, o sorriso toma meu rosto