Tetsuro senta-se ao lado de Noah que logo lhe passa seu celular, o rosto contraído em uma careta. Não sei que diabos tem de errado com ele, pedindo que eu ligue para seu amigo. Lion deve ter enfiado alguma porcaria em sua mente. Olho de onde estava Samir e de volta para os dois, questionando-me se a presença do meu antigo amigo teria causado algum fator negativo nele.

—Me diz o que tem aí — pede engolindo o seco.

Tetsuro, cabelo bagunçado, olhos inchados, expira como se tivesse acabado de acordar e já tivesse uma pilha de tarefas a fazer.

—Parece a Elise e o Samir — ele vira o celular de lado — Abraçados.

A careta do cantor piora. Minha paciência, acumulada e maltratada durante o ano inteiro, o semestre letivo que acabou reativando todos os sentimentos de bons e ruins guardados em mim, simplesmente desaparece. Não reparo nisso até estar com os olhos semicerrados fuzilando Noah.

—O que foi? — questiono alto. — Qual é o problema?

—Eu me declaro pra você e no minuto seguinte já tá nos braços de outro cara?

—É, do meu amigo. Pode falar de vez o problema nisso?

Noah ergue os ombros.

—Talvez o fato dele ainda ser apaixonado por você.

—Sabe, eu sou horrível em matemática, mas sei que se multiplicar qualquer número por zero ainda dá zero. Então que tal você lembrar que eu não gosto dele dessa forma?

—E mesmo assim o beijou.

—Beijei. Tentando tirar você da minha cabeça.

—Essa é a chave da questão. Não precisa fazer isso, então não precisa dele.

—Se seguir essa lógica você também não precisa da Kya.

—Eu nunca tive nada com ela.

—Então por que ela carregava o meu violão que eu dei pra você?

Noah engole o seco arrumando a postura. Tetsuro ergue as sobrancelhas e deixa o celular na mão de seu amigo antes de sorrateiramente se retirar.

—Se era meu eu podia fazer o que quisesse, não é?

Bufo, ficando de pé. Parece uma cutucada na ferida.

—Sabia o quanto aquele violão era importante pra mim.

Noah relaxa a expressão. Limpo a garganta, percebendo que minha voz saiu trêmula. Ando de um lado a outro, a mão apoiada contra os lábios, esperando controlar a respiração acelerada e os olhos marejados.

—Fala como se eu só magoasse você.

—E o que sabe, Noah? — olho para o céu — Não foi você que me esperou por mais de dois anos.

—Eu não tive culpa. Não sabia que você...

—Eu sei — respondo baixo e passo o olhar para ele — Talvez parte de todas as vezes que senti meu coração sendo partido por você tenha sido só um conjunto de expectativas não realizadas.

Noah estremece. A expressão dele muda novamente, sobrancelhas juntas, lábios contraídos. Ele fica de pé, dando a volta na mesa e me procurando.

—O que foi?

Encontra meu ombro. Passa a mão até o outro e me puxa contra si. Meu rosto apoia-se no seu peito. Fico surpresa, não há como negar. A mão dele desce pelas minhas costas e prende-se na base, aproximando meu quadril do seu conforme a sua esquerda mergulha nos meus cabelos. Sinto o nariz de Noah pressionado contra meu pescoço e ele inspira fundo, quase arrependido.

Nessa posição encaro do outro lado do pátio duas figuras indefinidas, na sombra, observando nós dois. Deveria me preocupar? Não acho que seja alguém perigoso, mas posso jurar que um deles é Lion Cooper. Um arrepio percorre minha espinha, mas logo todos os meus pensamentos se voltam novamente para Noah.

—Desculpe — murmura baixo e seu hálito me faz cócegas — Venho estado apaixonado por você há muito tempo. Fui idiota de só perceber agora.

Meus joelhos bambeiam.

—Achei que... Quando?

Noah suspira.

—A noite no jardim — ele ergue-se, sem deixar que eu me afaste — Quando me deu a flor de lótus. Foi a primeira vez que senti meu coração tão acelerado por alguém.

—Há tanto tempo assim?

—É.

—E por que não disse isso quando eu te beijei?

Dou uma olhada no rosto dele. Noah arruma-se, a testa pressionando a minha sem deixar de ter os braços ao meu redor.

—Nunca me apaixonei antes. Não identifiquei. Só achei que te considerava uma amiga muito importante.

Quero acertar um tapa nele e beijá-lo ao mesmo tempo.

—E o que te fez identificar isso?

—Tetsuro. Ele me forçou a imaginar você com Samir em várias situações diferentes.

Junto as sobrancelhas.

—Por isso tem tanto medo dele?

—Claro que eu tenho. Diabos, eu sou cego. E inseguro.

—Não precisa disso comigo.

—Eu sei. Você é uma das melhores coisas que me aconteceu.

Meu coração falha uma batida e acelera como se estivesse em uma corrida de 200 metros. Ou pode ser uma parada cardíaca. Não tenho tempo para avaliar.

—Digo, esse tipo de sentimento é muito ruim. Ciúmes, não é? Eu tenho medo de te perder e ele pode estar te secando que não vou saber. Pode tentar te beijar que não vou ter como impedir. Pode...

Seguro o rosto de Noah, pressionando o polegar contra os seus lábios para silenciá-lo. Como resposta, ele o beija e sinto minhas bochechas corando lentamente.

—Eu sei me cuidar. Lembra da boate?

—Com o seu ex?

—Exatamente.

—Charlie disse que era perigoso te tirar a paciência.

Solto uma risada e Noah sorri. Logo ele fica mais sério.

—Eu não sei como agir, Elise — fala baixo — Nunca quis tanto tocar e ser tocado por outra pessoa. Nunca quis tanto ver.

Passo a mão pelo seu rosto, afagando-o. Como pode ser possível que alguns segundos atrás eu queria estrangulá-lo e agora quero confortá-lo? Amor deveria ser tão subjetivo assim?

—Eu também não sei — confesso — Te esperei tanto que não sei o que deveria fazer agora.

—Sou muito diferente do que esperava?

—Sim.

—Isso é ruim?

Avalio seriamente tudo o que veio acontecendo. Todas as suas ações, todas as alegrias e mágoas em silencio.

—É real. Esse é o importante.

Noah aperta-me um pouco mais nos seus braços.

—Não sabe o quanto venho querendo isso.

Quase rio.

—Nem você.

—Desculpe por ter sido um babaca até agora. Eu prometo que vou melhorar.

—Te ajudo.

—Por favor.

Ele sorri e se inclina, esperando que eu vá na direção dele. Abraço seu pescoço, esticando-me até conseguir alcançar os lábios que tanto desejei por anos. A boca que não saiu da minha mente e dos meus sonhos desde o primeiro toque, a memória a fogo de como o seu beijo foi diferente e o único que me fez sentir tantas coisas ao mesmo tempo. Sei que vai dar trabalho. Sei que vai ser complicado. E mesmo assim, o beijo dele continua sendo a única coisa a ocupar minha mente pelos próximos minutos.