Amor Cego
17 Brigas
Notas iniciais
Sento-me longe de Ryder. Não tenho problema no fato dele me deixar plantada na rua sem aviso algum, porém tenho sérias dúvidas sobre meu controle se manter intacto se ele ao menos sonhar em encostar um dedo em Noah.
Apesar da ideia me dar nos nervos, fico quieta, esperando. É incorreto da minha parte tomar qualquer ação agressiva sem um motivo mais concreto. De nada adianta uma raiva por algo falado por outras pessoas. Enquanto houverem bocas vão haver palavras irritantes saindo delas.
Pensando nisso, seguro o braço do violão apoiando-o nos meus pés e encarando a parede do outro lado. Que diabos passava pela cabeça dele ao convidar Noah? E ele já descobriu ser Noah quem me encantou no festival no primeiro ano? Ryder não é idiota. Já deve saber que sim.
Pretendo continuar a tocar apenas por hoje, amanhã saio com Yuri. É inaceitável continuar a tocar na banda com Ryder me irritando só por respirar. O ridicularizo, considero a criatura mais idiota da face da Terra, chego a questionar se os neurônios funcionam bem em sua mente. E o pior é como ele é controlado pelas próprias emoções e subitamente sei que sou igual. Me irrita muito mais.
Não controlo as minhas e deve ter sido por isso que as contive por tanto tempo. Tenho ainda certo controle sobre as infames quando outras pessoas são colocadas em questão, mas não Noah. No geral, ao se descontrolar perto dele não sou muito diferente de Ryder. Imagino a expressão dele ao escutar informações minhas vindas da boca do meu ex-namorado. Não consigo, não o conheço o suficiente.
E se Yuri não contou algum pedaço e Ryder deixou escapar que sonhava acordada com Noah? Penso sobre muitas coisas e chego apenas a me irritar ainda mais. Do outro lado, encontro o loiro me espionando. É a gota d’agua. Guardo o violão de volta na capa e me direciono até Yuri.
—Vou procurar o Noah.
Ela não parece surpresa.
—Te espero no bar depois da apresentação.
Assinto, saindo da sala de espera. Fecho a porta atrás de mim passando a alça lateralmente pela cabeça deixando o instrumento inclinado nas minhas costas. Saio direto na multidão e começo a procurar. Ando de um lado ao outro, minha mente turbulenta só pensando em possibilidades ruins sobre a interpretação de Noah sobre mim.
E por que me importo? Não ligo de forma alguma Ryder falar as coisas mais horríveis da minha pessoa, mas me magoa imaginar Noah afastando-se de mim por causa de outros. Sei que essa paixonite vem ardendo no meu peito desde o ensino médio, porém... Não é exagerado? Doer tanto? Deveria ser dessa forma?
A cada segundo fico mais confusa. E se for melhor assim? E se for melhor ele se afastar? Massageio as têmporas. Nem me movimento tanto na multidão de corpos e volto ao corredor passando por alguns seguranças até entrar novamente na sala de espera. Yuri se aproxima, um sorriso triste.
—Sabia que voltaria.
—Como?
—Você sempre se acalma rápido. É o que mais admiro em você.
Sem resposta, assinto. Seja lá a imagem de Noah sobre mim, terei de aceitar. Não adianta forçar uma nova, é estupidez. A única coisa que posso fazer é impedir caso Ryder queira partir a algum tipo de agressão física. Fico de costas para o vocalista, irritando-me com seu olhar pedinte.
Que diabos ele quer? Atenção? É patético. Passo a entender muito bem o que passava na minha mente quando terminei com ele abruptamente. Entendo minhas palavras agressivas no término. Entendo minha irritação de antes, competindo com a de agora. Respiro fundo, pressionando o centro da testa novamente.
Preciso me acalmar. Se me acalmar vou poder raciocinar direito o que aconteceu, suas implicações e como deveria proceder. Após anos de autocontrole emocional não vai ser agora que esses costumes vão desaparecer.
Chega o momento da nossa apresentação. Não procuro por Noah, imaginando-o em algum ponto da multidão. Fecho os olhos, concentrando-me no instrumento e na melodia. Continuo tocando, acompanhando o ritmo dos outros. Em certo ponto, ignoro a voz de Ryder e passo a mentalizar Noah cantando, sua voz do ensino médio.
Erro uma nota. Faço uma careta e abro os olhos, percebendo o espanto de Tyson ao notar meu erro. Balanço a cabeça, deixando isso para lá. Concentro-me mais nos acordes e volto os olhos para as pessoas na minha frente sem entender como entro em pânico com mais de quatro pessoas em um local mas sou tranquilamente embalada pela multidão. No bar, encontro ele.
Meus dedos se movem por reflexo, os olhos presos em Noah. Está sorrindo. Alguém lhe fez algum comentário, alguém ao seu lado, entretanto me concentro apenas em como ele fica bonito sorrindo. Pisco, saindo do entorpecer que ele causa.
Volto a me concentrar na música, tocando mecanicamente muito longe do meu melhor já que a raiva não deixa a concentração se estabelecer totalmente nas cordas. A apresentação termina. Deixo meu violão com Yuri na sala de espera e saio ás pressas para o bar. Acabo encontrando-os em um local diferente, mais afastado. A área VIP. Mesas redondas com iluminação azul ao seu redor e sofá branco acolchoado em forma de meia lua, bebidas em copos estranhos de gelos luminosos.
Chegando perto noto os 3 ingressos terem sido utilizados muito bem. Tetsuro não me agrada vestindo bermuda, tênis e camiseta florida. Andrea ao lado dele mais parece uma modelo muito bem arrumada em vestido tubinho e maquiagem carregada. Noah está de calças jeans e camisa listrada de manga longa, o cabelo ainda em coque. Aproximo-me devagar, forçando meus olhos a se desviarem do garoto.
—Elise. Nunca imaginei que participaria de uma banda — Andrea comenta ao me notar.
—Não participo. É só um favor.
—Foi horrível — Tetsuro pontua — Vai ensinar Noah tocando daquele jeito?
—Toque melhor e posso tentar levar a sério o que disse.
Andrea solta uma risada. Noah compartilha seu sorriso e penso que nada do que Ryder falou deve ter direcionado a alguma mudança em seu comportamento relacionado a mim. Tomo a liberdade, estremecendo, de sentar-me ao lado dele, mesmo que distante.
—Ah, Elise! — Andrea chama — Pra mim você tocou bem!
—Tocou melhor na casa da Charlie.
Sorrio na direção de Noah agradecendo a baixa luminosidade impossibilitando os outros de verem meu rosto vermelho.
—Você escutou naquele dia?
—O prédio inteiro escutou — ele comenta rindo e para um pouco, pressionando os lábios — Aconteceu alguma coisa?
—O quê? Ah, só... Uns problemas na banda.
Meu coração falha uma batida. Vejo Andrea e Tetsuro nos observando com curiosidade e encolho-me, desviando minha atenção para a multidão tentando ignorar Noah tão bonito de óculos escuros.
A cada segundo de silêncio sinto-me ainda mais envergonhada. Por que ele vem sendo tão doce? Está me causando reações ainda piores e sua irmã e amigo desconfiados, carregando certa malícia no olhar estão me perturbando. Logo, todo meu pensamento se volta apenas para a proximidade física com o garoto ao meu lado.
—Noah, você deveria ver como a Elise tá bonita — Andrea provoca. — Ela se arrumou bem hoje.
Vejo-a cutucar Tetsuro.
—Isso aí. Bo-ni-ta.
Noah junta as sobrancelhas acomodando um dos braços no encosto do sofá.
—O que vocês dois estão insinuando? Duas pragas.
—É só um comentário! E é sério, ela tá...
—Saberia se conseguisse ver — a voz nas minhas costas me causa arrepios.
Viro-me, pensando seriamente em empurrar Ryder no meio da rua. Ele está com o cabelo solto liso caindo no peito exposto pela gola V funda de sua camisa, as calças rasgadas e botas lhe dão um ar mais novo do que é. Empurra-me com os joelhos me fazendo aproximar de Noah e dando a ele espaço para se sentar.
—Ah, o ex-namorado — Andrea inclina a cabeça para o lado — Obrigada pelos ingressos. O show foi... Peculiar.
—Termo educado pra horrível — Tetsuro pontua.
Andrea lhe dá um beliscão.
—Não foi ruim, só foi fraco — Noah brinca, o sorriso ainda no rosto.
—Fraco, você diz — Ryder se aproxima, quase passando por cima de mim — O que sabe de música?
—Um pouquinho, não é, Noah — Tetsuro bate em seu ombro — Cursa Música faz uns três anos.
Ryder ergue as sobrancelhas.
—Três anos. Sabe tocar quantos instrumentos?
—Zero — Noah diz orgulhoso — Só... Cantar.
O loiro ao meu lado direciona um olhar significativo pra mim. Sabe se tratar dele quem admirei por anos. Isso o irrita. Sempre o irritou.
—E o que achou de mim como cantor? — demora me encarando, relembrando muito bem da questão que fez a mim no dia do nosso término.
—Sua voz é boa, mas tem problemas em notas baixas.
—Viu, Elise. Até ele acha minha voz boa.
Andrea se move, desconfortável.
—Vocês dois brigaram?
—Não. — minto.
—Algo assim.
Antes que eu reclame com ele, Ryder passa o braço pela minha cintura.
—Acreditam que ela nunca briga comigo? Dois anos e ela sempre fazia essa cara de tédio quando eu reclamava sobre alguma coisa. Paciência é uma das virtudes dela, não acham?
—Ela é paciente? — Tetsuro ironiza — Se pudesse me dava um tiro sempre que me vê.
—Metade da faculdade quer fazer isso, amor —Andrea afaga seu queixo e Tetsuro faz uma careta.
Afasto Ryder o mais discretamente que consigo. Pela sua expressão ele está longe de terminar o que começou. Irritada, começo a direcioná-lo de volta para a multidão pretendendo ir com ele a algum lugar mais afastado e poder conversar antes de tentar quebrar uma garrafa na sua cabeça. Consigo fazê-lo pôr o pé longe da mesa, porém ele força a parada quase rindo.
—O que tá fazendo, Elise?
—Vamos conversar em algum outro lugar.
—Por que? Tem medo de alguma coisa que eu possa falar?
Paro de empurrá-lo, olhando bem nos olhos. Transmito o máximo possível a mensagem: Sua cena é ridícula, já chega. E ele entende. Entende devido os anos de convivência.
—Aí está. Sempre faz essa expressão de tédio. É o tempo inteiro assim, como se estivesse morta — sua voz fica séria — Parece estúpida num rosto tão arrumado.
—Ei! — Andrea levanta-se do seu lugar — Qual o seu problema?
—Ela nunca soa entediada ao lado do Noah — Tetsuro toma um gole da bebida no copo — Acho que o problema não está nela, amigão.
—Ryder. Chega. Anda.
Uso mais força e dessa vez ele sai cambaleando. Empurro-o na direção das portas traseiras da boate usando a lateral da multidão para conseguirmos passar quietamente. Na metade do caminho Ryder paralisa e segura meu braço.
—Terminou comigo por causa de um cara cego?
Solto-me do aperto.
—Para de colocar a culpa em outras pessoas. Terminei com você porque era irritante e continua sendo.
—Irritante. Então por que disse que a minha voz nunca chegaria aos pés da dele? Sério, você é surda? Não tem nada de diferente! E ainda mais, um cego?
Ergo o queixo, enfrentando-o. Deixo claro como considero toda sua reação patética com apenas o olhar.
—Me perguntou o que eu achava de você como cantor. Só falei a verdade.
—Mas ele...
—É cego? Estranho, achei que a cegueira envolvesse algo nos olhos e não nas cordas vocais.
Ryder bufa.
—Ele nunca vai enxergar você.
—E isso te envolve?
Vejo sua expressão mudar de irritada para a ponto de estourar. Veia saltando na testa e no pescoço conforme inclina-se na minha direção, intimidador.
—Gosta dele?
Trinco os dentes. Penso em responder, quase abro a boca. É claro que gosto de Noah. É tão perceptível a qualquer um que me sinto uma criancinha idiota com seu primeiro amor. Ele me faz sentir o que escondi por anos, emoções tão enfurnadas no meu ser que posso até me considerar novata nisso. Não o faço.
Não é de Noah que gosto. É da imagem dele. Perceber isso machuca e alivia.
—Não é da sua conta — sibilo.
Ryder me encara de volta. Mesmo tendo todas as respostas e sabendo o que ele quer ouvir, não sou obrigada em momento algum a lhe dar justificativa sobre qualquer coisa na minha vida. Ele sabe disso.
Acalmando-se, Ryder arruma a postura, erguendo-se acima de mim.
—Me arrependo de já ter te amado.
Dou de ombros.
—Eu nunca falei que te amava.
Ele assente, ainda afetado. Faz uma careta.
—O cego sabe sobre sua obsessão?
Fico quieta. Ryder não seria idiota o suficiente pra falar sobre...
—Imagino como deve ser saber que a grande Elise Brown pensou em você nesses últimos anos. Ele ficaria tocado.
—Ryder...
Agarro seu braço quando tenta passar por mim de volta á mesa dos três. Nela noto Andrea erguendo-se e puxando Tetsuro consigo. Noah faz uma expressão preocupada, mas não sabe para onde seguir. Meu peito aperta de pensar nele descobrindo tudo.
—Ryder!
O loiro se desvencilha do meu aperto inevitavelmente me fazendo perder o equilíbrio e bater a lateral do corpo no chão da boate. Algumas pessoas abrem caminho, evitando pisarem em mim.
—Droga. Elise, desculpe.
No chão encaro os sapatos de um conjunto de garotas me questionando como fui parar aqui. Como deixei tanto minha racionalidade evaporar. Em qualquer outra situação deixaria Ryder falar o que quisesse e desmentiria (ou mentiria) depois. Detesto ser levada pelos meus sentimentos. E de toda forma, ergo-me do chão com rapidez aproveitando o impulso para acertar um soco no queixo de Ryder.
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