Amor Autista
29 Capítulo 29 Segunda Fase - Levantando voo
Notas iniciais
A noite antes da despedida chegou e com ela uma saudade e aperto inexplicáveis vieram juntos. Meu namorado estava voltando para a faculdade concluir seu último semestre enquanto eu ficarei aqui na casa dos Cullen, contando os dias para o seu retorno.
Edward era meu orgulho e motivação para sempre ser melhor. Era admirável sua força de vontade, mesmo tendo seus altos e baixos, suas crises brandas que acontecia esporadicamente. Ele era a minha força. E meu salvador, pois se não fosse a sua ideia e a ajuda do Carlisle eu ainda estaria vivendo na incerteza de um futuro dirigido por mim mesma. Eu devo muito a essa família que me acolheu com tanto amor e carinho.
Esme é uma verdadeira mãe e Carlisle... dispensa comentários. Eu os amos, muito! Devo tudo o que sou a eles, desde o dia enfadonho em que invadi sem saber, o quarto do garoto que mudaria minha vida para sempre.
Estávamos nos fundos da casa, somente ele e eu, deitados nas folhas secas, olhando para o céu. Era possível ver as estrelas e algumas constelações. O céu estava bonito, o clima agradável, mas nada se comparava ao carinho que Edward estava fazendo em meus cabelos. Amava sempre que ele fazia isso, um cafuné gostoso e eu me aconchegava ainda mais nele.
— Sei que é preciso, mas já estou sentindo sua falta. – e o abracei mais forte.
— Não seja boba. Logo, logo, estarei de volta e formado. Você vai na minha formatura, não vai? Você precisa ir. – sorri porque sei que ele está falando sério.
— Não perderei isso por nada. – afirmei.
Edward faz parte de uma porcentagem pequena dos autista que conseguem entrar para uma faculdade. Isso se deve ao seu grau da síndrome e seu QI alto. Infelizmente existem caso de autismo severo, onde o tratamento é constante e as crise também. A medicina está tentando desvendar os genes com o espectro autista numa tentativa de mapear melhor e assim poder entender mais da síndrome. Acredita-se que em poucos anos isso possa ser feito. Essa é a maior esperança para as famílias de autistas severos ou não.
É por isso que estou empenhada com a ajuda da Esme e do Carlisle em abrir uma clínica especializada em tratamento no espectro autista, não importa qual o grau, qual dificuldade tenha o portador, é isso que quero e desejo profundamente e não será uma clínica de alto custo, queremos que seja acessível a qualquer classe. Rica, pobre, média, todos que nos procurar terão o atendimento especificado.
E pretendo voltar a estudar, quero me aprofundar mais nisso, a cada ano uma nova notícia sai sobre as pesquisas, a última foi sobre a criação de pequenos cérebros, em um laboratório brasileiro em São Paulo, onde pesquisam sobre as síndromes, doenças e as reações a drogas combatentes. Os estudos com os “minicérebros” dá a chance de uma análise mais detalhada e quem sabe detectar a mutação que causa o autismo. Temos esperança que isso aconteça logo e quando isso acontecer as indústrias farmacêuticas produziram medicamentos mais eficazes para combater as crises.
A herança que meus tios me deixaram, junto com o que guardei quando ainda estava no internato e fiz algumas aplicações sem o conhecimento dos meus pais, já que estava emancipada, dava uma grana muito boa. Boa até demais! A parte que usei para me libertar de vez dos Swan foi alta, mas o que sobrou não faria cosquinhas no meu bolso. E ainda tinha as aplicações feitas em vida que renderiam um bom dinheiro. Eles me deixaram uma quantia absurdamente alta. Meus tios sem saberem me salvaram.
Mas Edward ainda não sabia. O centro que estamos montando receberá o nome dele. Eu espero e acredito que um dia a medicina irá encontrar uma forma de pelo menos aliviar as dores e descontroles dos autistas severos. Principalmente um alívio para as famílias. Esse é o meu desejo.
— Um beijo pelos seus pensamentos?
— Não é nada. Estou apenas pensando que amanhã a uma hora dessas você estará na faculdade com aquele monte de garotas bonitas e saradas jogando charme para cima de você.
Edward franziu o cenho, fechou os olhos por um instante e quando os abriu, me surpreender rolando para cima de mim, me fazendo rir. Ele também estava rindo.
— Você é ciumenta ou está apenas me provocando? – eu era ciumenta, mas jamais direi essa verdade a ele.
— Só provocando. Agora me pague o beijo que prometeu. – falei indo buscar o meu prêmio.
Ficamos assim por um tempo, nos beijando, nos acariciando, nos entregando na medida do possível enquanto a noite nos abraçava. Desde que tivemos a nossa primeira vez, vinha sendo difícil de conter o desejo sempre que nos via sozinhos. Sei que sou a mais velha da relação, mas era impossível resistir a ele, eu sempre queria mais e mais. Queria tudo dele. Mas apesar da pouca diferença de idade entre nós, Edward parecia ser o mais velho e responsável.
— Eu te quero mais que tudo, principalmente hoje, mas não podemos esquecer de onde estamos e de quem está em casa. Não quero dar “show” de sexo para ninguém, minha incrível performance deve ficar selado entre nós dois e em quatro paredes. – acho que criei um monstrinho convencido. Gargalhei, mas meu sorriso foi sumindo aos poucos quando me lembrei que ficaríamos meses longe um do outro. Edward é meu tudo, minha vida.
Levei meus braços ao redor de seu pescoço e o abracei. Precisava sentir seu coração bater junto ao meu, sentir seu cheiro, sua pele quente, seus cabelos macios, seus lábios. Eu precisava senti-lo e dessa vez não tinha nenhum ato libidinoso. Era carinho.
— Enquanto você estiver lá eu vou ficar aqui tocando minha vida e contando os dias para a sua volta nos feriados e para o seu retorno definitivo, eu prometo isso a você. E prometo também sempre te atualizar sobre a reforma da casa dos meus tios. – não consigo chama-la de minha.
Quando decidi usar a casa como o centro de tratamento diferenciado para as pessoas e famílias com autismo, contei a Edward que estava reformando para coloca-la a venda. Nunca fiz nenhum tipo de surpresa e não sei se ele irá gostar, mas decidi arriscar.
Resolvemos entrar e antes de dar boa noite a todos, pegamos algumas coisas na cozinha para comermos lá em cima. Carlisle estava com a Esme no escritório e quando nos viram, seu rosto ficou sério. Acho que atrapalhamos algo. Percebi que a Esme tentava disfarçadamente esconder o que estava em cima da mesa. Era um projeto grande. E meus olhos se arregalaram quando vi um pedaço do nome Swan na folha. Era o nosso projeto.
Trocaram algumas poucas palavras e eu estava louca para sair dali com ele. Minhas mãos chegaram a soar frio.
Finalmente nos demos boa noite e saímos indo para o andar de cima. No corredor encontramos com a Rose. Estava com os olhos vermelhos e ao nos ver, tentou disfarçar.
— Você chorou. – não foi uma pergunta, foi uma afirmação. Edward conhecia muito bem a irmã caçula.
— Acho que você andou bebendo. Sabia que isso é feio? – tentou desviar o foco, mas não funcionou, pois Edward nunca na vida colocou uma gota de álcool na boca. E ela sabia disso também.
Edward se adiantou e pegou a irmã no colo abraçando forte. Sabíamos que havia chorado. E eu sabia o motivo e ao ouvi-la fungar com o rosto escondido no pescoço dele, meus olhos nublaram de lágrimas, mas não me permitiria chorar. Não agora. Rose era uma menina muito forte, mas chega um momento em que tudo cai por terra e agora ela estava deixando as emoções saírem e a saudade já tomava conta também. Suas lágrimas eram da separação do irmão, a quem ela sempre o teve debaixo de suas pequenas asinhas, que aconteceria assim que o dia seguinte amanhecesse.
Deixei os dois no corredor e segui para o meu quarto, estava difícil segurar as malditas lágrimas da saudade. Entrei e enxuguei as que escaparam e respirei fundo para controlar minhas emoções.
Deitei na minha cama e pensei em como seria esses meses sem ele aqui. Sem nossas trocas rápidas de olhares, sem seus toques, sem sentir seu cheiro na pele, no café da manhã, almoço e jantar... os jogos que a Rose andava inventando nos últimos dias para passar mais tempo com ele... sentir o seu abraço... nossas conversas... adormeci revivendo tudo que vivemos juntos aqui, nesta casa nessas poucas semanas.
O céu ainda estava escuro quando um braço deslizou por minha cintura. Um carinho gostoso começou em minha barriga e fui despertando cada vez mais. As cortinas da janela estavam abertas e pude ver com mais clareza o céu com algumas estrelas. Me virei devagar para aquele que mexia até com meus ossos. Edward estava bem acordado olhando para cada canto do meu rosto.
— Olhe para mim, só por um instante. – pedi e ele atendeu. – Eu te amo tanto! – sussurrei tocando sua face. Senti uma emoção tão forte me arrebatar que um nó se formou em minha garganta. Seus olhos desceram para minha boca e me beijou. Me entreguei de imediato ao beijo. Nunca resisti e jamais resistirei.
Uma explosão de paixão e entrega tomou conta de cada célula do meu corpo, meu coração palpitava tão freneticamente que pensei sentir dor, um aperto esmagador que me fez aproximar-me mais do seu corpo. Beijar sua boca me tirava o chão e sentir seu toque me fazia flutuar. Não existe explicação para o amor quando se sente, vive. Só consigo definir como “plenitude”... “sublime”. Um êxtase total.
Nos amamos mais uma vez enquanto o mundo lá fora amanhecia. Estávamos entregues em cada toque, em cada beijo, em cada movimento. Era um misto de sentimentos inexplicáveis. Mas dessa vez foi mais intenso, pois a saudade já tomava conta.
— Eu te amo e amo a sua boca. – disse ele na mais naturalidade do mundo me fazendo sorrir e sendo a mulher mais feliz dele.
Todos nós nos reunimos na mesa diante de um lindo e suculento café da manhã servido pela Esme. Rose e Edward não pararam um minuto de se cutucarem fazendo brincadeiras. Era bom vê-los sorrindo assim, principalmente a Rose. Ela passou por muitos dias sombrios e triste com a morte do Erick. Até mais que eu, acredito que deve ter sido devido ao sonho que tive com ele logo após o desastre. Ainda sinto sua falta, mas hoje consigo lidar melhor com a perda dele.
Após o café, fomos para o aeroporto. Edward não queria que ninguém o acompanhasse na viajem, dessa vez até o aeroporto era o suficiente, quando a Esme o questionou ele disse que já estava na hora de crescer. Foi muito fofo e os olhos dela transbordava emoção e preocupação.
Era estranho voltar ali depois do que aconteceu. Todos aqueles sentimentos de luto estavam em todos os lugares que eu olhava. Engoli em seco respirando fundo. Ainda era difícil de acreditar, mas sua falta era real.
Cheguei perto da Rose e senti ao vê-la que não estava tão diferente de mim. A coitadinha até tremia. Acho que reviveu tudo aquilo novamente assim como eu.
Segurei sua mão na minha, ela olhou para mim com um sorriso triste e foi só então que percebi que o meu também era. Estávamos igualmente emocionadas.
— Nunca mais viremos aqui sem pensar no Erick, ele marcou nossas vidas de todos os jeitos para sempre. – comentou a Esme. – Nunca vamos esquece-lo.
O voo do Edward foi chamado e nos preparamos para a despedida. Esme e Carlisle foram rápidos. Na minha vez, dei um abraço demorado e um selinho em seus lábios sussurrando que estaria aqui o esperando. Respirei mais profundamente seu pescoço e o soltei com lágrimas teimosas em meus olhos os deixando ardidos. Edward apenas sorriu e abraçou a irmã. Ambos não falaram nada, apenas ficaram assim, juntos, até que o voo fora anunciado mais uma vez. Agora não tinha mais como protelar.
Edward e Rose se soltaram devagar, ele nos olhos e se virou seguindo para o seu portão de embarque. Mas faltava algo que estava preso em minha garanta.
— Edward! – o chamei e ele se virou para mim – Eu amo você. – ele mais uma vez sorriu e disse sem som “te amo”.
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