Amor Autista
30 Epílogo (O som do silêncio)
Notas iniciais
POV EDWARD (***)
Demorei.
Demorei muito a aceitar e agora, fecho meus olhos e me vejo no escuro com medo novamente. Me agrido e puxo meus cabelos para me acalmar, mas não consigo. Eu sei que deveria estar calmo nesta hora tão importante para nós dois. Principalmente para ela. Minha Bella.
Mas a realidade é que eu estou numa sala clara com paredes brancas sentado e apenas respirando. Mas o meu exilo está muito forte dentro da minha cabeça. Não me deixa relaxar.
Quando a Bella me contou que estava grávida não tive reação. Minha cabeça girava e girava. Não disse absolutamente nada. Não esbocei nenhuma reação. Meu único movimento foi girar o corpo e sair de casa.
Peguei o caminho da rua e segui adiante, eu sou ouvia a palavra “grávida”, e via o seu rosto banhado de lágrimas e um bebê que chorava absurdamente.
Eu ia ter um filho. Eu ia ter um filho. Eu ia… abri alguns botões da minha camisa, eu sentia o ar me faltar. Como eu poderia ser pai? Eu pensava.
Não queria isso. Eu sou o tipo de pessoa que precisarei de ajuda para toda a vida e com uma criança, como eu daria conta? Como eu ajudaria? Por que um pai tem que ser presente. E se eu não fosse. E se eu preferisse ficar longe da criança. E se ela me incomodasse? Eram tantos “se” que não pensei no mais importante. E se eu tentasse ajudar? Se eu tentasse ser presente. Se eu o amar tanto que o seu choro não me incomodaria? Esses eram os “se” que deveria pensar.
Mas estava difícil. Nunca pensei em ter um filho, principalmente por ter uma chance enorme de ser como — ou pior- do que eu. O autismo era como um labirinto, você não sabe o que o causa e nem que conjuntos de genes que causa.
Não estava muito longe de casa, apenas três casas de distância. Sentei ali na calçada e coloquei minha cabeça entre minhas mãos. Pensei em Bella lá, deixada sozinha com minha família. Eu sei que ela precisa de mim, mas não posso dar o que ela quer. Não agora.
Era o som do meu silêncio que gritava em minha cabeça.
Já fiz tantas coisas que me disseram que eu não poderia e não conseguiria jamais fazer. Mas eu sei que posso! Eu sei que sou capaz!
Senti alguém sentar ao meu lado. Era o meu pai. Ele nada disse, apenas ficou sentado como sempre faz quando escolho ficar em silêncio no meu mundo. Tento ver melhor na minha escuridão interna. E meu pai só espera o meu momento para falar.
Meu pai era minha luz nesses momentos, eu apenas tirei minhas mãos da cabeça e o abracei. Meus olhos queimavam pela sensação estranha que isso me trazia.
— Eu te entendo, filho. Você foi pego de surpresa, mas se minhas palavras servirem de algum consolo saiba que a Bella também foi pega de surpresa com a gravidez.
Não disse nada, fiquei absorvendo suas palavras e isso foi me acalmando. Meu pai não tentou me fazer entender e nem nada do tipo. Apenas me pediu para tentar e disse que a família estaria sempre junta de mim. De nós.
E agora estávamos aqui, no hospital com a Bella sendo preparada para dar a luz ao nosso bebê.
Eu preciso me manter forte, mas não sei o quanto estou sendo. Muito, pouco ou mediano diante de tamanha mudança. Agora era real.
Meus pais e minha pinguinha estão comigo nesta sala de espera. Uma enfermeira nos avisaria quando pudéssemos entrar no quarto e ficar com ela. Bella optou pelo parto normal.
Já se passaram 5 anos desde que terminei a faculdade e antes mesmo de me graduar eu já havia recebido uma oferta de emprego de um dos financiadores. Aceitei desde que eu não precisasse ficar viajando ou trabalhar fora de Seattle. Não gosto de ficar indo e vindo. Meu empregador aceitou meus termos na hora, dizia ele que eu minha mente era muito valiosa e que não poderia deixar escapar. Hoje faço parte de uma empresa multinacional de tecnologia em computação. Já apresentei vários projetos de inovação em tecnologia. Isso não acontece da noite para o dia, leva meses até que um projeto esteja pronto para um protótipo apresentável. Eu estava indo bem.
Minha cabeça estava doendo. Doendo muito. Ouço barulhos que me incomodam e quando abro meus olhos vejo saltos altos. Vários andando de um lado para o outro pelo corredor.
Não dava mais. Eu queria ser normal, mas não sei o que é ser normal. Nunca fui e nunca serei. Apenas tento me adaptar ao meu próprio mundo com o novo mundo a minha frente. Esse é o meu jeito.
Levantei e sai andando a passos largos. Alguém me chamou, mas não me virei. Em segundos, minha irmã estava do meu lado e me guiou para fora do hospital. Ali eu estava me sufocando.
Demorei a aceitar, mas aceitei de todo o meu coração esse pequeno ser que está prestes a nascer e eu deveria estar com ela, mas não consigo acalmar esses ruídos que insiste em perturbar minha cabeça e me deixando agitado.
A Pinguinha- não importante quantos anos ela tenha, sempre será minha Pinguinha — me levou até um banco no gramado do hospital. Ali sentamos e agradeci por me tirar daquela confusão que estava. Respirei fundo tentando acalmar o meu coração e minha pulsação que estava alterado.
— Obrigado. Obrigado pinguinha.
— Não agradeça, apenas respire. É uma mudança muito grande que está chegando. Vê-la com a barriga grande foi uma coisa, mas agora... vai ter um bebê e será totalmente diferente.
— Eu sei disso, venho dizendo isso a mim mesmo a meses na tentativa de me preparar para esse momento. Mas eu não sei. Juro que não sei e eu odeio ficar assim, perdido. – estava perdendo o controle e a prova disso era que eu estava socando minha perna.
— Edward, não faça assim. – disse com a voz calma – Você sabe que dará conta do recado. Você sabe que é capaz disso. Se não fosse, você não teria seguido em frente e amado cada dia que passava aquele bebê que está chegando. Você não teria cantado para o bebê ainda na barriga da Bella. Não teria feito carinho nela... você sabe que no fundo será um bom pai.
Eu sabia disso, sabia que já o amava, mas eu não consegui pensar direito agora. Era o meu bebê chegando. E ele precisa de amor. Do meu amor.
Fechei meus olhos mais uma vez neste dia. Tentei visualizar todos os meus momentos com a barriga da Bella. Consegui ver o momento em que aceitei meu filho, ainda tão pequenino em seu ventre. Estávamos no parque, toda a família e uma garotinha corria de um lado a outro com seus cabelos castanhos balançando, atrás de bolhas de sabão, sua risada contagiava a todos que passavam perto, a menininha deveria ter uns dois ou três anos.
Aquela cena mexeu comigo de uma forma que fez minhas mãos suarem e meu peito bater forte. Quando olhei para a Bella que estava um pouco a minha frente ao lado da minha mãe, vi seu sorriso lindo na direção da menininha e sua mão estava em seu ventre acariciando como se estivesse sentindo a criança ali. E foi ali que eu aceitei o nosso filho.
Fui andando até ela e antes que desse conta a abracei por trás colocando minha mão sobre a dela, beijando o topo de sua cabeça. Eu não esperava a reação que ela teve, Isabella virou o rosto e vi lágrimas em seus olhos então beijei sua boca e ficamos ali abraçados e abraçando o nosso bebê.
E enquanto ela está la dentro eu estou aqui, do lado de fora, perdido e com medo.
— Venha. Me dê sua mão e vamos. Ela precisa de você, mas você também precisa dela.
Não sei o que me fez mudar, mas aceitei sua mão e fui com ela. Ao chegar na porta do quarto em que ela estava instalada, meus pais já estavam lá dentro e ela pronta para dar há luz ao nosso bebê. Via em seu semblante sua dor e seu medo. O incômodo voltou com mais força, eu queria sair dali, mas os olhos dela me seguraram no lugar. Quando uma contração passou, Bella relaxou na cama e chamou por mim e estendeu seu braço para pegar em minhas mãos.
— Eu sei que está sendo difícil para você, então eu só quero que você não presencie o que está acontecendo por que – ela sorriu- vai ficar pior.
Outra contração veio e o médico que estava entre as pernas dela pediu que fizesse força mais uma vez. Ainda segurando minha mão, apertou forte e foi como se eu estivesse em câmera lenta.
O médico dizia que ela estava indo bem e que o bebê havia coroado. Eu sabia o que aquilo significava. Depois de estar bem com a gravidez, busquei ler o máximo que conseguia sobre gravidez e bebês. Meu filho estava vindo e quando olhei para a mulher que ainda põe meu mundo de pernas para ar, ela me pediu desculpas e gritou alto enquanto empurrava mais uma vez.
(***)
Tudo sumiu da minha volta, todos os barulhos e ruídos pequenos. Não ouvia nem a voz do médico. O único som que eu conseguia ouvir era de um choro baixo, mas forte. E como um soco, tudo voltou com um impacto impressionante. Respirei fundo e vi um pequeno humano sendo posto no colo da Bella. Era o nosso bebê.
Eu queria parar o tempo neste momento. Era muito surreal tudo isso. Bella finalmente depois de apertar minha mão a largou para segurar o serumaninho que chorava alto.
Imaginei tantas coisas que poderiam acontecer quando esse momento chegasse, mas não estava preparado para o que estou sentindo. Esse choro não me incomoda. Era meu filho, um menino!
Eu não tinha olhos para mais nada, segui meu filho para todos os lugares em que o levavam, não conseguia sair de perto dele. Uma enfermeira o pegou de Bella e o levou para fazer alguns exames de rotina e quando terminou, ele estava todo limpinho e enrolado em uma manta toda branca. A enfermeira o pegou e colocou em meus braços. Tive medo de segurá-lo, mas ao sentir em meus braços foi como ter uma outra visão do meu mundo.
— A gente vai aprender juntos, tudo bem? – disse baixinho, eu ainda tinha minhas incertezas, mas acreditava naquelas palavras. – só peço para ter paciência comigo, assim como sua mamãe tem comigo, porque eu vou tentar e nunca desistir.
Meu pequeno me olhou como se mostrasse que entendeu o que eu disse e que concordava comigo. Me assustei quando ele franziu o rosto. Vi um pingo molhado em sua pequena testa. Era a gota de uma lágrima minha. Limpei rapidamente, mas não tão rápido para que a minha família não visse.
Olhei para todos, não estavam diferentes de mim. Minha mãe veio até mim e pegou meu pacotinho dos meus braços e levou até a Bella, meu pai ficou comigo fora do quarto, não dissemos nada, fui até ele e o abracei. Meus olhos embaçavam cada vez mais. Eu não queria chorar, mas era uma emoção estranha e forte demais para segurar. Um estranho bom.
Meu pai me abraçou de volta e ficamos assim por um tempinho.
— Quero ser para ele o que o senhor foi para mim.
— Você será melhor do que eu, meu filho.
— Muito obrigado por tudo, pai!
17 ANOS DEPOIS....
Muitas coisas aconteceram desde o dia que Anthony nasceu. A primeira foi observar nosso pequeno se ele apresentava algum sinal do autismo o que não aconteceu. Anthony não havia herdado minha a síndrome. Isso foi alívio para toda a família, principalmente para mim.
Depois aconteceu algo que perturbou muito minha mulher. Não somos casados no papel, nem ela e nem eu, queremos isso. Só precisamos um do outro, juntos sempre. Ela recebeu uma carta, pela dra. Carter, dois anos depois do nascimento do nosso filho. Era da sua mãe informando que estava devolvendo tudo o que ela havia dado, pois não fazia sentido seguir com algo que não a fazia mais feliz. Seu pai havia morrido meses antes, logo depois de descobrirem que ele estava muito mal de saúde e precisando de outro transplante de fígado. Na carta Renée informava que ele se recusou a fazer qualquer tipo de tratamento que prolongasse sua vida, até o dia quem finalmente a morte o levou. Na carta também dizia que isso a fez pensar muito em tudo o que fizera da vida, ela tinha tudo e não soube aproveitar o que de mais valioso a vida tinha lhe dado, uma filha. Ela pedia perdão por todos os anos ausentes.
Bella ficou muito mexida com a carta. Chorou por uns dois dias, inicialmente pensamos que era de tristeza, mas era de raiva, pura e simples raiva de porque tudo aquilo agora. Um dia a peguei do lado de fora da casa gritando xingamentos direcionados ao céu. Ela não brigava com Deus e sim para o universo. Se perguntava porque daquilo agora. Não nos metemos, deixamos ela gritar enquanto tina voz e quando sessou eu fui até ela. A abracei e dei amor e nunca mais chorou ou se lamentou sobre os seus pais e até onde se sabe, a mãe havia cometido suicídio não muito tempo depois.
— Mãe! Pai! Vamos logo, não quero me atrasar para a minha formatura! Vovó, Vovô e a tia Rose já estão prontos!
Meu filho estava pronto para dar outro passo. Um muito importante. Anthony estaria indo para a faculdade dentro de algumas semanas.
— Eu já estou pronto. – disse atrás dele dando-lhe um susto.
— Pai! – sorriu – vou sentir falta disso.
— Você vai se acostumar. – sorrimos e o abracei, sempre gostei de abraça-lo. Nos separamos quando uma linda mulher veio descendo as escadas em seu vestido azul turquesa onde era justo no busto e solto na saia. Simplesmente maravilhosa.
— Edward, pare de babar.
— Eu posso, pinguinha.
— Acho que mesmo depois que eu estiver velhinha, você ainda vai me chamar assim.
— Vou. – fui curto em minha resposta, pois era verdade, a chamaria assim para o resto da minha vida.
Fomos para o ginásio da escola onde aconteceria a formatura em dois carros. Bella ia dirigindo o nosso, enquanto meus pais nos seguiam. Chegamos e procuramos pelos nossos acentos. Até agora estava tudo tranquilo.
Alguns professores fizeram seus discursos e parabenizaram todos os alunos. Houve muita comoção com as palavras ditas até que o orador – o aluno que falaria por todos – foi chamado. Era Anthony. Uma grande surpresa, pois quando o perguntei quem seria, me disse que seria uma outra pessoa.
Senti Bella apertar minha mão e olhar para mim. E ele começou.
— Boa tarde a todos, não preciso me apresentar, pois todos me conhecem, mas não conhece meus pais. Eu quero agradecer a eles por eu estar aqui hoje, mas principalmente ao meu pai, — ele apontou para mim e vi várias cabeças se virando para me olhar. – Por causa do amor que minha mãe sente por meu pai, ela junto com os meus avós, abriram uma clínica especializada no tratamento autista que vem sendo centro de referência no país todo. O meu pai é autista e vocês sabem o que eles precisam enfrentar todos os dias? Suas lutas, seus medos, seus momentos nebulosos e conturbados, suas crises... a gente não sabe, mas ele não deixou nada o abalar. Minha tia fala que meu pai é uma das pessoas mais forte e decididas que ela já conheceu na vida, uma vez ela me disse que no dia do meu nascimento, ele nasceu de novo. Não entendi o que isso significava, mas hoje eu te entendo mais do que nunca, pai. Sei as mudanças na sua vida tem que ser bem devagar e sei que eu fui uma mudança muito grande. Aprendemos juntos. E eu te amo, cara! – meu maxilar estava cerrado, meu filho estava querendo me ver chorar? Pois estava quase conseguindo.
Não consegui retribuir sua declaração, apenas acenei várias vezes.
— Esse homem me ensinou tudo o que seu e sua pessoa é um exemplo a qual eu quero seguir. Então formandos... não desistamos dos nossos sonhos, dos nossos caminhos, não importa quantas pedras apareçam neles. Sejamos forte e confiantes que chegaremos lá.
Todos se levantaram e aplaudiram meu filho de pé com gritos e assovios. Eu me levantei e fui em sua direção passando no meio de todos. Quando ele me viu, desceu do púlpito e correu em minha direção.
Meu filho era minha vida e agora estava indo conquistar o seu mundo.
— Eu te amo, garoto. – disse ao nos abraçar mais uma vez neste dia.
FIM
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