Amor Após a Morte

21 12. Punição - Maríe


Parte 3

Foram torturantes os minutos que eu levei para chegar até meu quarto. O esforço fazia as convulsões voltarem e a dor me controlar.

Mas finalmente eu estava ali, no quarto. E tentei tomar um banho.

Peguei a primeira roupa que vi, só queria me deitar.

Fiquei tonta ao ver, que quando a água morna no chuveiro me atingia, o sangue escorria sem piedade, jorrando como se fosse água, de meu corpo.

Por fim fechei o chuveiro – agora cheio de sangue também – e me troquei.

Fora da água o fluxo de sangue cessara e eu estava limpa novamente.

Deitei na cama e só tentei dormir, por algumas horas, se é que isso faria a dor passar quando eu acordasse.

Fechei os olhos, e o que me ajudou a cair em sono profundo foram novamente os olhos verdes água, tomando completamente meu subconsciente.

***

Era noite quando eu finalmente abri os olhos.

Havia uma sombra do meu lado, pensei ser Jane, e quase pronunciei seu nome, até eu perceber a besteira que ia fazer, e me calei.

Era demoniza ali. Eu a fitei com raiva.

- Como. Sabia. Que. Eu. Estava. Aqui? – as palavras saíram devagar e dolorosamente de minha boca.

- Fui te visitar no quartinho e não tinha ninguém lá. Depois foi fácil te achar pelo rastro de sangue. – ela sorria mais contentada do que nunca. – Gostou da brincadeirinha? – ela estava de braços cruzados me fitando curiosa. Rindo da minha dor. Desgraçada.

Fiquei quieta e ela apenas sorriu, sabendo da minha dificuldade para falar.

- Imagino que esteja com fome não? E também imagino que se sinta completamente fraca. Perdeu muito sangue, bonitinha.

Não tinha percebido que meu estômago roncava, até ela observar.

- Daqui a pouco trago seu café. – ela se virou para a porta, e antes se fechá-la, disse, ainda de costas para mim. – Espero que tenha aprendido a lição.

Grunhi com raiva, mas acho que ela não ouviu.

***

A dor continuou por dias e dias, e eu fiquei sem ver Jane por um longo tempo. Uma ou duas semanas talvez. De vez em quando ela visitava meu quarto, e ficou completamente aterrorizada quando eu a contei sobre tudo.

Ela agora evitava fugir muito do quarto, com medo que acontecesse o mesmo que aconteceu comigo a ela, talvez.

Parecia que ela sentia minha dor e ficava agoniada toda vez que me via deitada sem forças.

O que mais senti falta nessas semanas, foi do fato de não conseguir me levantar para ver Nate.

Três encontros e aposto que ele pensava que eu fugira dele. Se pudesse pelo menos me explicar...

Suspirei fundo.

Agora eu já conseguia me levantar. Eu já estava bem o suficiente para fugir novamente. Se bem que não tinha muita vontade.

Me levantei, tomei um banho, decidida do que iria fazer a seguir.

Fechei o chuveiro – já cheirosa – e senti o vapor sair pelo boxe.

Peguei uma calça jeans, uma bata azul clara e um tênis cano baixo azul claro também, com mais uma vez minhas tiarinhas de lacinho, branca, dessa vez.

Não pulei a janela, sai pela porta, descendo as escadas.

Percebi que já haviam limpado todos os vestígios de sangue que eu deixara no caminho. – também, se em duas semanas não limpassem eu chamaria o serviço de imprestável.

Eu podia sentir o meu perfume de cereja exalando, contaminando todo o ar.

Fui jantar – antes de sair, á procura de Nate – e encontrei demoniza na mesa.

- Decidiu sair do quarto querida? – sempre irônica. Parecia que ela estava de bom humor.

- É, a dor do seu massacre passou. – eu sorri ironicamente, participando do joguinho dela. Ambas adorávamos ironia.

- Lembre-se de tomar cuidado de como fala comigo. Mas, tenho boas notícias. Comprei um celular para você e sua irmãzinha. Quer dizer, vocês podem escolher entre os tantos que tem por aqui, que eu compro. Assim manteremos contato o tempo todo, não é?

Ela me mostrou alguns que achava que eu gostaria e eu escolhi um preto com as bordas pratas. Touch Scream.

Jantei com ela e não demos uma palavra até eu me levantar.

- Vai aonde lindinha? – Odiava seu tom de voz curioso e meigo. Pura falsidade.

- Vou dar uma volta. Cansei de ficar no quarto. – sorri pelo canto da boca.

- Está bem. Não volte tarde. Quero te ver chegando, antes de eu dormir. E eu tenho horas para isso.

Eu ergui uma sobrancelha. Agora eu tinha horário pra voltar?! Fiquei quieta esperando ela me dizer qual era. Mas o silêncio tomou conta do lugar.

- Então... Pode me dizer o horário que tenho que retornar?

- Antes das onze. – ela disse seca.

Assenti com a cabeça e saí. Eu duvidava que Nate ainda esperasse por mim, depois de tanto tempo que eu não apareci...

- Oi. – uma voz angelical me tirou dos meus pensamentos. – quando me virei tinha um sorriso torto no rosto do meu anjo.

- Nate!!! – saí correndo para abraçá-lo. – Au. – gemi.

- Cuidado. – ele pareceu realmente preocupado e ciente da situação.

- Por que ainda me espera se eu te dei o bolo por não sei quantos dias?

- Sua irmã comentou com o Bain, que comentou comigo, não se preocupe. Está melhor?

Brigada Jane! Agradeci por dentro.

- Muito melhor agora, que você sabe que não fiz nada por maldade...

Sorri sem graça.

- Você está muito bonita pra quem acaba de se recuperar. – ele disse passando as mãos no cabelo negro macio.

- Obrigada. – Eu aposto que estava ficando vermelha. Se eu pudesse.

- Então... Por que se importou tanto pensando que eu não sabia sobre tudo e achando que você tinha me dado o bolo e essas coisas?

Agora ele me pegou. DROGA.

- Bem... Você é meio que meu melhor amigo agora... – sorri novamente constrangida. – e seria chato você pensar mal de mim, sendo que eu já estava péssima com tudo isso.

- Ahn... Sei – ele revirou os olhos. Obvio que não acreditou. – Você mente muito mal, Maríe.

- É... Eu sei. – sorri, esperando que ele não compreendesse o verdadeiro significado do que eu dissera.

Ele me puxou, pensei que ia me beijar, mas ele apenas me abraçou, depois colocou minha mão em seu coração.

Eu o ouvi bater. Anjos tinham coração, realmente.

- Está vendo como está acelerado? – ele me perguntou, com segundas intenções.

- Arrã. Imagino que seja coisa de coração de anjo. – eu sabia que estava inventando demais, mas foi a primeira coisa que veio em minha cabeça.

- Não, fico assim quando estou com você, na verdade.

Eu fiquei quieta. Queria dizer o mesmo mais eu estava me fazendo de difícil. E não seria fácil.

- Então, o que tem a dizer, minha... Melhor amiga? – um sorriso se espalhou por sua face, e me fez tremer.

Apenas sorri em sua resposta e me afastei de seus braços.

- Se importa se eu agir como seu melhor amigo? – ele piscou para mim.

- Talvez. – eu não havia entendido o sentido literal.

Ele se aproximou. Acho que tentou me beijar. E quando meu cérebro reagiu, eu me afastei rapidamente.

- Tá doido? – eu perguntei espantada. – Eu levei no sentido de melhor amigo, mesmo sendo uma farsa. Eu esperava conselhos, um abraço... Sei lá. – eu comecei a tagarelar.

Ele colocou o indicador na minha boca. Depois que percebeu que eu parei ele tirou.

- Tá, desculpa. – disse por fim. E fiz um sinal de um zíper fechando a boca.

- Percebi que quando fica nervosa você fala muito. Sabe o sentido de ‘melhor amigo’. Eu só queria... Ah esquece.

Eu senti um remorso em mim. Mas não podia... Fazer o que ambos queríamos. A víbora estava muito por perto. Ela poderia me ver.

Ele saiu andando. Eu corri para alcançá-lo. Parei na frente dele, obrigando-o a parar também.

De cabeça baixa disse, sussurrando.

- Eu... Desculpa. Eu também queria.

Saí correndo depois, e só consegui sentir um sorriso se abrindo em seu rosto angelical.

O meu também sorriu. Mas eu morria de medo... De passar de novo pela punição.

- Argh! – gemi para mim mesma. Balancei a cabeça, e afastei os pensamentos.