Amor Após a Morte

16 11. Somente eu mesma - Maríe


Notas iniciais
Esperamos que gostem.

Parte 1

Depois de minha conversa e de Jane, pulei a janela e fui para o cemitério.

Achei que seria uma boa ideia refletir um pouco – apesar de não ter muito para pensar.

Comecei a andar entre os túmulos sem realmente prestar muita atenção. Eu estava somente pensando em eu e Jane namorando anjos. – o que era provável para ela, mas impossível para mim.

Nate podia me achar bonita, mas comparadas á garotas do seu céu divino, eu não era nada. Aposto que ele já tinha suas quedas por lá.

De repente um nome me chamou a atenção.

Era... O túmulo... Da minha... MÃE.

As lembranças surgiram, agoniantes, em meu interior.

Sua morte... Fora... Péssimo para mim. Para nós duas. Éramos pequenas ainda quando... Ela se fora... E deixara meu pai conosco.

E depois ele ficou louco – confesso que nós podíamos ter uma boa parte nisso, afinal não éramos perfeitas, eu não era. – e tentou se suicidar.

Foi simplesmente levado ao hospício, quando o viram naquele estado. E nós, bem, a policia nunca descobriu nossa solidão.

Nos viramos desde muito pequena.

Agora algo frio corria por meu rosto. Não podia ser eu... Eu... Não chorava afinal. Chorava?

Demorei um pouco para perceber, que não eram lágrimas, e sim gotas, de chuva. Do chuvisco na verdade, que agora umedecia o ar.

Eu então fui para o jardim. Não me importava em ficar na chuva. Um resfriado não me incomodaria no momento.

***

Sentei no balanço. O inferno até me era agradável.

O vento batia em meus cabelos ruivos e os deixavam desordenados, completamente embaraçados.

Um vulto surgiu por detrás das folhas, afastando as mesmas que teimavam em cair em seu rosto de rancor.

- Sozinha, querida Maríe. – Ela teimava mesmo em me seguir?

- Já até me acostumei com sua presença. – murmurei baixo, bufando irritada.

- Como é? – ela parecia ter me ouvido.

- Nada... Só... Estava pensando alto... Estou sozinha sim, com quem mais estaria? – Cuspi as palavras com raiva.

- Não sei, salvando sua irmãzinha. – ela pareceu parar e analisar minha expressão. Logo parou com o assunto. Ela via que algo me afligia.

- O que você tem querida?

- Vai me dizer que realmente se importa, vulto rancoroso?

- Mais um novo apelido? Ótimo, logo teremos um catálogo... – ela revirou os olhos com meu silencio. – Infelizmente tenho que aprender a compartilhar seus inúteis sentimentos, que na verdade são ilusões, para poder exterminá-los.

- Certo. – respondi seca. – Extermine as lembranças que tenho de minha mãe. O amor que ainda sinto por ela, a saudade que eu percebi que ainda tenho, após, tantos anos de sua partida. Extermine a vontade que eu tenho de estar com ela, a forma como nos sentíamos juntas, os momentos que passamos juntas. Extermine o rancor das brigas, a raiva de um passado distante, em que não nos entendíamos. Extermine o fato, de agora ela não estar aqui, para nos desculparmos por tudo, agradecer pelos melhores momentos e chorar pelos bons e maus pelos quais passamos. Extermine minha vontade, de agora mesmo sair correndo, desse mundo agoniante, e de derramar lágrimas das quais não sou capaz. Extermine a vontade que tenho de te matar... – parei, percebendo o erro -... De te exterminar dolorosamente, por ter me prendido aqui. Será que consegue? – meus olhos tinham dor profunda neles.

Ela ficou quieta. Se levantou de meu lado, e saiu andando, pisando firmemente no chão. Ela não teria resposta para aquilo. Eu sabia.

Fiquei lá, parada, pensando no que eu realmente sentia agora.

O amor era tão... Complicado. Ele tinha suas diversas formas.

O amor de irmão, sempre aliadas, juntas, fieis.

O amor de família, sempre carinhosos, profundo e verdadeiro.

E o amor... O amor de querer uma pessoa para si. Como sua alma gêmea.

O amor que para mim era proibido.

Sacudi a cabeça me livrando dos pensamentos.

Alguém surgia ao longe e me assustei.

— Maríe... Não grite! – que susto ela me dera! – Tenho boas notícias... Encontrei o Nate e...

Eu me espantei. Arregalei os olhos.

— Você o que? – Eu gritava agora.

— Encontrei o Nate e... Vocês vão se encontrar hoje à noite no cemitério... Podemos até ir juntas...

— Eu vou me encontrar com ele? – Estava pasma, com raiva, ódio, felicidade e agradecimento, em um só momento.

— Vai – ela repetiu, calmamente, como se explicasse á uma criança teimosa a verdade, e o certo – Você vai se encontrar com ele.

No momento a felicidade venceu. Ainda assim tinha uma raiva dela. Como eu poderia esquecer o anjo se eu o encontrasse direto?

— Obrigada, Obrigada, Obrigada... – Eu agora pulava, sem fôlego. O QUE DIABOS MEU CORPO ESTAVA FAZENDO? ME OBEDEÇA. AGORA!

— Tá... De nada! – ela disse.

— Tenho que me aprontar... Eu passo no seu quarto as 7h00min, ok? – falei, ainda tentando controlar meu corpo maravilhado.

Ela assentiu com a cabeça, depois eu estava correndo. Durante a corrida, ligeiramente percebi a diferença nos cabelos de Jane.

Eu não me virei para comentar. Meu corpo não obedecia.

***

Eu acabara de sair do banho e já estava arrumada, com meus cabelos soltos e uma roupa escura. Completamente escura. A maquiagem, um pouco menos pesada.

No horário marcado, estava no quarto de Jane.

— Tá tentando se misturar com a noite? – Ela me perguntou irônica. Revirei os olhos.

— Vamos logo... Tô ansiosa. – eu disse. MEU DEUS! PARE BOCA SANTA! PARE!

Ela riu.

— Já estou quase pronta... Só falta... O perfume! – ela se lembrou repentinamente.

— Vê se anda logo. – eu a estava apressando? PARA QUÊ?

Enquanto ela espirrava o perfume em seu pescoço, que impregnava no ar, dei uma leve tossida.

— Agora sim podemos ir. – Eu agora, acho que sorria maliciosamente. POR QUE DIABOS NÃO ME CONTINHA?

— Gostei de sua roupa... Finalmente escolheu alguma coisa que prestasse. – Eu disse zombando. Ela pareceu não perceber isso, exatamente.

— Cala a boca! – Ela resmungou. Fingi não escutar.

Ela então pulou a janela, e eu logo em seguida.

Logo estávamos no chão, caminhando juntas, com um sorriso no rosto. – eu tentava esconder o meu. Não conseguia. Meu corpo não estava conectado com a mente.

Notas finais
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