Amor Após a Morte
18 11. Somente eu mesma - Maríe
Parte 3
- Noite linda, não? – ele me perguntou.
Assenti.
- Você fica linda sob a luz da lua. Seu tom de pele é compatível.
Fiquei quieta, ainda olhando o céu e sentindo o vento gelado arrepiar minha pele.
Ele percebeu e se aproximou tentando me abraçar. Eu estendi o braço, limitando o espaço entre nós, depois de muito tempo, falei.
- Obrigada.
- Pelo quê? – ele pareceu confuso.
- Pelo elogio, claro. – disse como se fosse óbvio. A verdade é que esperara demais para responder e ele esquecera o que falara.
- Ah, — ele pareceu enfim compreender. – pensei que não iria responder.
- Confesso que estou admirada com o céu. – disse por fim. – Você se importa...?
Ele pareceu compreender mais rápido do que eu esperava. Apenas assentiu com a cabeça e agora estávamos caminhando em direção á meu quarto.
Apenas escalamos a parede e chegando lá eu disse:
- Me espere aqui na janela mesmo. Não se mova a não ser que veja alguém de olho em você.
Ele assentiu. Peguei uma calça jeans e uma blusa de lã com listras pretas e brancas.
Uma tiara preta com lacinho, agora enfeitava meus cabelos ruivos e lisos.
Lavei o rosto tirando a forte maquiagem, deixando apenas um batom claro e um lápis no rosto.
Depois peguei um tênis branco cano baixo e logo pulamos a janela novamente.
- Obrigada por esperar. – eu agradeci sua paciência.
- Magina. – ele respondeu calmamente. – Continua linda. – ele observou.
- E aquecida. – sorri pelo canto da boca.
- Sou muito mais você assim... Mais... Você sabe? Muito arrumada parece que vai para uma festa, e ver... Você assim... Me lembra mais uma adolescente comum.
- Como se eu fosse uma. – Ironizei. – Ainda assim também me prefiro assim. É o meu eu. Sendo somente eu mesma. – disse.
- E não precisa de mais do que isso para ser perfeita aos meus olhos.
- Obrigada novamente.
Ele sorriu, me deixando mais uma vez, sem ar.
Agora ele segurava minha mão. E eu não tentara impedir. Isso não faria tão mal depois.
Sentamos por entre as flores, encostando em uma parede delas. O cheiro de rosas me tomava.
- Então... Como... É o céu? – perguntei encabulada.
- Divino. Sabe como é... Todas essas coisas de obediência... É bem pacífico. É como aqui. Mas... Ao invés dessas cores escuras, é bem mais claro. – ele então hesitou, antes de continuar, pigarreando. — Eu venho aqui o tempo todo... Eu posso te levar até lá... Se quiser.
- Tipo... Conhecer sua casa... Sua... Hã... Família?
- Se quiser entender desse modo. – ele novamente deu de ombros.
- Quem sabe um dia. – sorri.
Era ele quem agora encarava os céus.
- Muito tarde? – falei, imaginando seus pensamentos.
- Não... Não... Não é isso... É só que... – ele parou. Eu esperei ele continuar, mas nada.
- É só que...?
- É difícil, viver em universos tão... Diferentes. Você aqui e eu lá. Inimigos... Eu... Não conseguiria me afastar muito tempo de você.
Eu fiquei completamente sem ar com essa.
- O que foi? – ele perguntou preocupado.
- Só... Encabulada, de novo. – confessei, mentindo um pouco. – Estou confusa... Me explique uma coisa. – ele assentiu com a cabeça enquanto eu falava. – Se você vive no céu e essas coisas, o que te trouxe aqui... Quer dizer... Você já sabia que eu... Hã...? – não consegui continuar.
Ele pareceu confuso por alguns segundos, depois esclareceu tudo.
- Ahn? Ah, que você estava aqui? Não, não. Foi... Pura coincidência. Na verdade eu estava aqui... Ham... Visitando minha... Avó. Ela não foi muito boa pessoa quando em vida... E... Apesar de tudo... Sinto falta dela. E então quando estava indo visitá-la, apareceu alguém do lugar... E pensei que poderiam quere me punir, então fugi. E depois vi você no chão... Hesitei um pouco antes de me aproximar...
- E agora está aqui de mãos dadas com a pessoinha do ‘lugar’. – sorri ironicamente.
Ele assentiu com um longo sorriso.
Sem ar... Tentei retomar o assunto...
- Então... Sua vó... É? O que ela fazia de tão mal em vida? – Pigarreei.
- Ela... Era... Ladra. Roubava para nos dar o que comer... Minha mãe morreu muito cedo e nos deixou com ela... Meu pai nos abandonou e ela foi tudo que nos restou. Porém não trabalhava...
- Muito velha? – perguntei curiosa.
- Não, pura preguiça. – Ele riu, porém tinham mágoas em seus olhos.
- Ahn... – eu ri discretamente também. – Bem... Eu acho que eu vou indo para o quarto. Está me dando um soninho... E... Não quero correr muitos riscos.
- Ora, ora, mas você não me disse que não tinha medo de enfrentar o... Demônio?
- Não tenho, mas cansa essa repetição monótona. – sorri, deliberadamente.
Ele retribuiu.
Retirei minha mão da sua.
- Espero que não interprete mal o fato de eu ter segurado sua mão. – eu disse, constrangida. – Somos somente amigos, sabe disso, não sabe? – eu não sabia disso, então também tentava me convencer.
- Ahn... Sei. – Ele pareceu sem graça.
- Bom – disse por fim. – Tchau. – despedi-me depois.
- Tchau.
Nos despedimos finalmente com um beijo na bochecha e eu escalei a parede.
Depois, ainda na janela, dei meu último tchau e a fechei.
Coloquei meu pijama e retirei toda a maquiagem por fim.
Me deitei exausta e adormeci. Eu conversara com um anjo, e agora, para mais sonhos, eu havia segurado sua mão.
Aos poucos, eu conquistaria muito mais. Sendo somente eu mesma...
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