Amor Após a Morte

5 04. Ritual - Jane


04. Ritual — Jane

Os olhos de Maríe demonstravam pavor... Mas, pavor por quê?

Afinal estávamos juntas, ou não?

Algo estava errado, muito errado, mas eu não conseguia me importar, pois eu estava vendo Maríe, eu pensei que nunca mais a veria. Minha vontade era de me levantar e de abraçar minha gêmea.

Mas, por mais que eu tentasse eu não conseguia, algo me mantinha deitada.

Agora o olhar de Maríe era de espanto e o meu de admiração, como se eu estivesse na frente de um anjo.

Então não estávamos mortas, estávamos vivas, mas como isso poderia acontecer?

Ela estava esperando por algo, talvez estivesse esperando que eu falasse, então eu comecei.

- Maríe... Você... Está... Viva. – minha voz estava trêmula como se eu estivesse chorando, embora nenhuma lágrima escorresse pelo meu rosto.

- Não... Jane... Eu... – como a minha voz, a dela tremeu.

- Chega gracinhas! O teatrinho foi ótimo mais isso está melancólico demais! Vocês terão simplesmente a eternidade para explicar uma à outra suas vidinhas medíocres. – disse uma voz sombria, parecida com a voz que eu escutei quando eu estava morrendo...

A voz pertencia e uma demônia ou um demônio, – eu não conseguia saber — que estava vindo em direção a Maríe

Depois eu estava sendo levada para longe da li.

Vultos negros estavam me levando e o vulto vermelho levava Maríe para uma grande porta.

Eu tentava escapar, mas não podia me levantar. Pude sentir a angustia me dominando.

— Para onde estão me levando?! Me solta! – eu gritava, mas os vultos não ligavam, continuavam andando até que minutos depois eles pararam.

Eles pararam em uma sala escura com velas e incensos.

Minutos depois o demônio ou a demônia que estivera falando com Maríe apareceu.

— O que vocês vão fazer comigo? Me deixa em paz! – eu falava pra o demônio que agora ria.

— Em paz? Queridinha, você nunca vai ficar em paz ou descansar em paz, nunca.

— Por que estão fazendo isso comigo? – choraminguei.

— Porque você foi escolhida. – o demônio respondeu como se fosse algo obvio.

— Escolhida para que? – questionava.

— Chega de perguntas... Agora é hora do ritual.

Ritual? Mas, que diabos era o ritual?

Eu respirava com dificuldade.

O demônio estava pegando uma adaga, uma adaga muito afiada.

Ele ou ela, o que fosse, parou na minha frente, colocou a adaga no meu peito, — mais especificamente no meu chacra do coração, ponto do amor, compaixão e do meu eu superior – e me cortou.

Ele recitava palavras de ódio e rancor, e foi então que eu percebi o que o demônio tentava fazer.

Ele tentava tirar minha alma.

Tentava, mas não ia conseguir. Eu sempre fui a perfeitinha, a que obedecia tudo, tirava boas notas, então eu também seria perfeitinha em não o deixar fazer nada comigo.

E eu ia conseguir, era dona de mim mesma e sabia o que eu deveria fazer.

Enquanto aquela coisa recitava palavras de ódio, em minha mente eu recitava palavras de amor e carinho. Me lembrava de todos os momentos bons que eu passei com Maríe e com os poucos anos de felicidade que havia passado com os meus pais, que infelizmente morreram, só que eles descansaram em paz.

Só que tinha um problema: eu não poderia mostrar que ainda tinha uma alma amorosa, eu teria de fingir.

E teria que destratar Maríe, pelo menos na frente daquelas coisas horrendas, o que seria doloroso.

O demônio de afastou de mim para observar seu trabalho.

Pareceu gostar do que viu, ou melhor, gostou do meu fingimento.

Sorri por dentro, ele caiu direitinho.

Aquele demônio vagabundo foi até uma bancada e pegou uma taça, que tinha um líquido vermelho.

— Beba isso. – ele me ordenou.

Disso eu não poderia fugir, teria que beber até a última gota. Eu torcia para que não fosse nada que tirasse minha alma.

E de fato não era nada que ia tirar minha alma, era só para mudar — mais ainda – minha aparência.

— Pode se levantar agora. – disse-me o demônio e eu obedeci.

— Posso me ver? – eu fingi que me importava com a minha aparência.

— Claro que sim. Den traga o espelho.

Um vulto negro entregou um grande espelho, que ela virou para mim.

Minha pele, antes corada, agora era branca, branca feito neve. Meus cabelos loiro escuro, estavam em um tom mais claro. Meus olhos cor – de – mel, agora eram castanhos, mas minhas feições não mudaram.

Eu estava novamente igual à Maríe.

Acho que na hora em que eu a vi não tinha percebido quantas coisas mudaram nela.

— Então, gostou?

Eu apenas assenti.

— Agora por que não descansa? – olhei para aquela coisa que me havia mudado.

Eu não disse nada e acompanhei Den para o meu quarto.

Me surpreendi quando entrei.

Pensei que o quarto seria cheio de teias de aranha, mas não era totalmente limpo e belo.

As paredes eram brancas, apenas uma era lilás – minha cor predileta – e a cama era imensa, parecia bem confortável.

Ah, quase me esqueci da janela de mármore preto, que também era enorme.

Deslumbrada com o quarto não percebi que eu estava sozinha, Den havia saído.

Fui até a janela e vi que estava chovendo.

Com um suspiro fui até o guarda-roupa de mogno e o abri.

Tinha muitas roupas e peguei uma ao acaso. Decidindo ir tomar um banho e, depois ir para algum lugar para refletir, como eu sempre fazia quando estava nervosa, abismada ou precisava tomar uma decisão.

A água estava quente em minha pele, embora não fosse fazer muita diferença, pois ela sempre ia ser fria.

Demorei uns quarenta minutos no banho, tentando acalmar-me.

Assim que saí e me enxuguei, pus a roupa que eu havia escolhido.

Era uma minissaia preta rodada com uma blusa regata, também preta.

Pus umas sapatilhas e sai pela porta, com muito cuidado para não chamar a atenção de nenhum daqueles vultos pretos.

Eu queria ir ao quarto de Maríe, mas não sabia onde ficava, além que se eu fosse lá, eu ia assustá-la com o turbilhão de confusão que tinha dentro de mim.

Então eu decidi ir ao cemitério. Era a coisa mais perto do palácio e eu podia ir lá sem chamar atenção de ninguém.

Meus passos eram lentos e não faziam nenhum barulho.

Eu me encostava na parede sempre que um vulto ameaçava se aproximar.

A porta estava fechada, mas não trancada.

Girei a maçaneta e ela fez um barulho, um vulto estava se aproximando, mas ainda não tinha conseguido me ver, então eu fui rápida: abri a porta e sai correndo pela chuva, não me importando com o ranger da porta quando a abri.

Chegando ao cemitério eu me sentei em um túmulo, completamente sem fôlego.

Que ironia, eu nunca iria para um cemitério, nunca iria descansar em paz ou me decompor.

Eu iria ficar nesse corpo sem vida por toda a eternidade.

Comecei a chorar, mesmo sem lágrimas, foi ai que eu senti uma mão sobre meu braço frio...

Notas finais
Por favor, deixem reviews...
E recomendem nossa história tbm! ;D