Amor Após a Morte

6 05. Perseguição - Maríe


05. Perseguição — Maríe

Eu esperara demais. Demorei muito tempo para perceber o que eu realmente queria.

Ás pressas peguei o primeiro tênis cano alto que vi jogado pelo chão e o calcei rapidamente, sem me importar em amarrá-lo.

Fechei o roupão que havia colocado por cima da camisola e sem muito pensar, abri a janela de ébano que se destacava no quarto todo escuro, por causa de suas longas vidraças.

Olhei para baixo em busca de algum vulto, alguma sombra que pudesse me repreender pelo ato que em segundos cometeria.

Nada. Não havia ninguém que pudesse me julgar depois.

Enquanto isso ele caminhava ao longe, em direção ao cemitério.

Sentei na janela e depois coloquei minhas pernas viradas para fora.

Morrer eu não iria.

Poderia quebrar os ossos que ainda me pertenciam. Era o mínimo que se podia esperar de uma garota de 16 anos pulando uma janela do terceiro andar.

Ainda assim, o fiz.

Senti o vento batendo em meu cabelo, as gotas da chuva atingindo meu corpo e o deixando encharcado, e podia sentir, com os olhos fechados, o nó do roupão se desfazendo, e, o mesmo voando para cima.

Esperava que, depois de alguns segundos, eu só sentisse a dor em minha carcaça sem vida. Esperava não conseguir me movimentar sofrendo com as consequências do ato.

Mas, para minha surpresa, pousei delicadamente no chão, sem fazer nenhum barulho por entre as folhas.

Agora eu tremia de frio, apenas com a camisola escura de seda encharcada envolvendo meu corpo.

Ainda assim corri. O mais silenciosamente que pude, para acompanhar o garoto que eu vira alguns minutos atrás.

Ele então parou por uns três segundos, atento ao seu redor.

Não queria que ele me visse, então junto com ele, parei. Os únicos sons que se podiam ouvir eram os de minha respiração e o da chuva.

Ele continuou sua caminhada, desviando-se de seu destino anterior.

Teria ele me escutado?

Então, como resposta ás minhas perguntas – não diretamente, mas indiretamente – ele saiu correndo e se infiltrou na mata densa e escura.

Por alguns minutos tentei alcançá-lo na minha corrida lenta. Esforço em vão.

- PARE! – gritei. Agora eu estava arfando. Minha voz saiu trêmula, e – provavelmente por causa do cansaço – desafinada. Pude sentir o nó em minha garganta.

Eu não esperava que ele realmente obedecesse á minha ordem. Mais parecendo uma súplica.

Abaixei a cabeça em sinal de derrota e então me joguei no chão de joelhos.

As minhas mãos repousavam no mesmo. Então ergui a cabeça uma única vez, antes de desabar completamente sobre a grama molhada.

Foi então que percebi que não estava tão derrotada.

O garoto estava imóvel agora. Seu rosto olhava suplicante no meu.

Ele me interrogava silenciosamente. Ambos não entendíamos nada.

Li em sua expressão.

Me levantei cuidadosamente, calculando os passos para eu não cair.

A expressão do garoto me confundia. Ele me olhava confuso, assustado.

Ele era lindo. Seus olhos verde água me hipnotizaram e me fizeram mergulhar em um mar de ótimos sentimentos.

Caminhei lentamente até ele.

Parecia que eu possuía um magnetismo, que funcionava a cada passo meu, quando ele, juntamente com minha aproximação, se afastava.

Então parei. Ele ainda me fitava indignado.

- Quem... É... Você? – perguntei engasgada.

Minha resposta foi o silêncio.

- Aahn... Sou Maríe... – minha voz era trêmula.

Dei um passo á frente e ele se afastou.

Então parei. Dessa vez desisti por completo. Me joguei no chão molhado, a chuva aumentou e me comprovou o sinal de derrota.

Então ouvi passos na minha direção. Me mostrar derrotada realmente ajudava?

Ele se inclinou em minha direção. Percebi que seus cabelos escuros eram macios. Roçavam minha pele, assim que ele se ajoelhou ao meu lado.

Seus olhos tinham um destaque lindo sob os cabelos escuros e a pele clara.

- O que é... Você? – Sua voz me tomou por dentro, me fazendo sentir uma tontura como nunca havia sentido antes.

- Sou... Uma. Morta-viva. Uma zumbi, se... Preferir. – Falei em um tom sarcástico, agora eu quase ria sob a chuva torrencial.

- Mas... Você cheira á hortelã – então o garoto incrível que estava a minha frente riu para si mesmo.

- Uma zumbi higiênica. Não pode? – agora eu ria junto com sua voz adocicada.

- Eu... Tenho que ir. – Agora ele corria em direção ao cemitério.

- ESPERA! – gritei em meio ao desespero. – Nem sequer sei seu nome! – Agora corria atrás dele.

Entrei no meio dos túmulos e jurei ter visto alguém sentado em um deles.

Pensei que seria o garoto perfeito, mas não, os cabelos eram longos e claros, eram conhecidos.

Depois de muito tempo percebi quem era.

Coloquei minha mão- agora fria por causa da chuva – em sua pele mais fria ainda.

Ela agora se virava para mim.

Notas finais
Nós merecemos reviews?