Amor
20 Propósito
Mitakihara nunca dorme.
As luzes banhando as cortinas e trazendo um pouco de claridade ao quarto escuro. O som de veículos, ar condicionados, pessoas, humanos.
Mami também não dormia, deitada em sua cama, olhando para o teto. Nagisa havia voltado, disse que tinha sido sorteada para limpar a sala de aula. Mentindo e nem sequer tentou esconder isso.
Será que ela está com medo de mim?
Ela prendeu a respiração.
Quem em sã consciência não teria?
Segundos passaram, então minutos, e ela não sentia vontade de respirar. Ainda assim, ela se sentiu mais aflita.
Com o que eu sou agora...
Um rangido da porta. Ela se virou e viu que estava um pouco aberta. Não poderia ser o vento. Seria Nagisa dando uma olhada? Ela não conseguia enxergar ninguém na fresta.
De repente ela viu um pequeno montinho se formando no lençol e estava vindo até ela.
Mami retornou a respirar, certa de quem seria.
Logo surgiu um par de panos marrons, seguidos por uma cabeça em forma de bombom e olhos com suas múltiplas cores discerníveis mesmo no ambiente pouco iluminado.
“Bebe...” ela perguntou, “por que está nessa forma? Teve um pesadelo?”
A boneca respondeu com sua voz distorcida, “bbbrrriiiiNão, iieuiiapenasiinãoiiestavaiiconseguindoiidormirii. iiDesculpeiiporiiacordariivocêii.”
Mami sorriu, ela não sabia por quê.
Não...
Ela sabia.
Mami se moveu na cama, liberando um espaço em seu travesseiro onde ela colocou Bebe. Acariciando uma das abas da cabeça da boneca, ela falou, “Você se lembra que nós dormíamos assim.”
Bebe sorriu.
“Eu ficava falando contigo durante a madrugada.”
“bbbrrriiiiEuiificavaiiouvindoii.”
“É, você ficava... até uma de nós cair no sono.” Mami olhou para um ponto distante. “Eu falava de tudo. Eu contava uma história, ou era algo sobre as outras garotas mágicas.” Ela balançou a cabeça e revirou os olhos. “Kyouko e Miki-san e suas desavenças.”
A boneca usou suas longas mangas para esconder seus dentes afiados de seu largo sorriso.
“Sobre os meus pais, boas memórias.” De repente, uma pausa, e então a voz dela foi ficando mais melancólica. Ela não podia evitar, pois as palavras pareciam pesar demais. “E... fofocas da escola.” Ela suspirou. “Eu tinha inveja das minhas colegas, não é?”
“Mami.”
Ela voltou sua atenção para a boneca.
Bebe havia se sentado sobre o travesseiro, preocupada. “bbbrrriiiiAconteceuiialgumaiicoisaii?”
Além do fato sobre o garoto. Mami havia entendido bem, entendido que precisava tomar mais cuidado. “Não... Talvez seja por causa de todas essas memórias. Eu lutei contra tantas bruxas...”
“bbbrrriiii?”
Ela esfregou a testa. “Eu estar aqui com você assim. Antes não era, mas agora é um tanto estranho.”
“bbbrrriiSimii.” A boneca abaixou a cabeça, mais triste. “bbbrrriiiiAgoraiivocêiinãoiitemiisóiiasiimemóriasiiboasiideiimim, iimasiiasiiruinsii.”
“Oh não.” Mami a puxou, a abraçando e beijando sua cabeça. “Eu posso ter essas memórias, mas jamais irei julgá-la por elas. Eu me sinto estranha com tudo isso sobre bruxas, mas você é a minha Bebe. Eu te amo e estou grata por estar comigo.”
“bbbrrriiiiEuiiitambémii.”
Mami continuou a acariciá-la, ajeitando a touca e a capa, mas então semicerrou o olhar.
Deixando Bebe novamente preocupada. “bbbrrriiiiOiiquêii?”
“Você não está tentando amolecer o meu coração, não é? Nagisa...”
A boneca balançou a cabeça prontamente. “bbbrrriiiiNãoii!” E cobriu sua boca com as suas mangas. “bbbrrriiiiMasiieuiiaindaiinãoiitermineiiicomiioiigarotoii.”
Mami assentiu e disse, “Eu fui dura contigo, mas saiba que eu fiz isso para você não se arrepender depois.”
“bbbrrriiiiEuiisei, iieuiimereciii.” A pontas da boca de Bebe fizeram uma grande curva para baixo. “bbbrrriiiiEuiipenseiiiemiiteiidizer, iimasiientãoiieuiinãoiifiziiisso. iiEraiimaisiifáciliiassimii.”
A expressão de Mami congelou.
“bbbrrriiiiQuandoiimeiideiiiconta, iieuiiestavaiimentindoii.”
“Claro...” Mami desviou o olhar. “Pelo menos nada de mais sério aconteceu, então... está tudo bem. Só resolva a situação com esse garoto.”
“bbbrrriiiiOkiiii...”
Ela voltou a sorrir. “Vamos tentar dormir!” Ela puxou o lençol para cobrir Bebe e fez cócegas na barriga dela.
“bbbrrriiii!”
Ela deu um risinho, mas seu sorriso foi desaparecendo. “Nagisa.”
“bbbrrriiii?” A boneca fitou a loira com os seus olhos curiosos e multicoloridos.
“Você se acostumou com essa forma?”
Bebe ficou surpresa com a pergunta, mas respondeu sem pensar muito, “bbbrrriiiiQuandoiieuiiestavaiinaiiLeiiidosiiCiclos, iinaiiminhaiibarreira, iieuiificavaiiassimiisempreii.”
“Sério?”
“bbbrrriiiiExcetoiiquandoiiMadokaiiapareciaii. iiElaiisempreiiqueriaiisaberiiseiieuiiaindaiimeiilembravaiiquemiieuiieraii.” Por um instante, os olhos de Bebe haviam perdido as suas cores. “bbbrrriiiiEuiiatéiiqueriaiiesquecerii. iiOiihospital, iioiiariifrioii, iioiicheiroiiii... iimasiientãoiieuiiesqueceriaiiaiiminhaiimãeii. iiEuiinãoiipossoiidesistiriidelaii.”
“É verdade.” Mami olhou para o teto. “Eu perdi meus pais como você, mas não os vi sofrer. Tudo acabou em um instante... talvez se não fosse assim, eu não teria suportado os meus anos de garota mágica.”
“bbbrrriiiiVocêiiteriaii! iiVocêiidefendeuiiMitakiharaiiparaiihonrá-losii!”
“Sim...” ela respirou fundo e murmurou, “eu acho que fiz o bastante.”
Bebe ergueu suas abas. “bbbrrriiii?”
“Nada, eu estou apenas concordando. Obrigada.” Ela sorriu e fechou os olhos. “Bem... Eu ainda preciso do meu sono de beleza~. Boa noite.”
“bbbrrriiiiBoaiinoiteii.” Bebe se recostou nela o melhor que pôde e procurou dormir também.
Ouvindo o ronco da boneca, Mami reabriu os olhos e olhou de relance para janela, para as luzes e sons da cidade, das pessoas, dos humanos.
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Bebe sentiu a claridade atravessar as pálpebras. Quando abriu, viu algumas bolhas dançando acima dela, dividindo a luz da manhã em uma gama de cores.
Ela as abanou para longe com a sua manga e se espreguiçou. Que horas eram? Ela não tinha ouvido o despertador tocar.
No entanto, ao consultar Mami, ela não encontrou a garota na cama, mas um emaranhado de laços. Um par deles ia até a janela, onde estava outra boneca observando a cidade. Candeloro.
Bebe caminhou em direção a ela e desceu da cama ou, melhor dizendo, ela teve uma queda catastrófica, talvez voar teria sido uma melhor idéia.
Candeloro se virou com o barulho.
Enquanto Bebe continuou a se aproximar, mas com cautela. Se tinha algo para agradecer a sua forma de bruxa, é que ela tinha uma face expressiva. A outra era apenas uma flor com uma grande touca.
A boneca de laços flutuou do parapeito da janela até o chão.
Bebe perguntou, apreensiva, “bbbrrriiiiMamiii?”
“Você acordou.”
Com a voz vindo por detrás, Bebe se virou e viu a garota loira sentada na cama.
“Eu já ia fazer isso, só queria ver como estava o tempo. Teremos uma manhã ensolarada!”
Bebe notou que o par de laços estava conectado nas canelas. Em um degradê, o tecido amarelo se convertia em pele.
Mami sorriu. “Venha, me dê um abraço.”
Parecia que ela havia acordado de bom humor, fazendo Bebe se sentir mais aliviada, enquanto começava a caminhar em direção a ela.
“Não, eu estou aqui,” disse Mami.
Bebe ficou confusa por um momento, mas então se virou.
Candeloro estava de laços abertos.
Mais de perto, ficava mais evidente como aquela boneca era menor e mais frágil. Bebe, hesitante e desajeitada, a envolveu com as suas longas mangas.
Então um puxão dos laços e as duas bonecas caíram no colo da Mami.
Foi tão rápido, que Bebe só sentiu o susto depois do ocorrido.
“Eu não sou muito assustadora, não é?”
“bbbrrriiiiNãoiiii...” Bebe não sabia se olhava para Mami ou para outra boneca.
Com os seus laços, Candeloro levantou a camisola da garota, revelando um buraco em uma das coxas. Assim que a boneca entrou nele, o buraco se fechou sem deixar traço algum. Mami então puxou a camisola novamente para baixo.
Bebe assistiu a tudo aquilo estupefata, mesmo que pudesse fazer algo similar.
Mami se levantou carregando ela. “Vamos ver se tem algo bom para comer... Quer queijo?”
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Mami e Nagisa saíram juntas do apartamento, cada uma com o seu uniforme.
Nagisa perguntou, “Não está um pouco cedo para você?”
Mami afagou o seu cacho. “Eu posso esperar o ônibus no ponto.”
Ao chegar na rua, Nagisa falou, “Tenha um bom dia na escola.”
“Para você t-” Mami foi surpreendida por um abraço. “Oh...”
“Eu amo você!”
“Eu sei disso.”
Enquanto Nagisa seguiu para a escola a pé, Mami foi até o ponto de ônibus. Aquele fugaz momento de felicidade era manchado por certa ansiedade.
Já dentro do ônibus, ela procurou um assento vazio, um para duas pessoas. A viagem não tinha contratempos, mesmo assim ela estava ficando mais nervosa a cada parada.
E Sasa não apareceu.
Quantos dias já havia passado sem vê-la? Mesmo se ela tivesse parado de pegar ônibus, Mami estava certa de que Sasa a procuraria no intervalo. Ela poderia estar muito doente, mas os instintos de Mami diziam outra coisa. Não era coincidência que ela havia desaparecido justo depois de visitar seu apartamento.
Ela pressentiu o perigo.
Mami se lembrou do que sentia quando está próxima de uma bruxa. Pessoas normais não são capazes de ver se a bruxa não permite, mas elas também sentem a atmosfera opressora quando prestam a atenção. Sasa havia sentido isso.
Descendo do ônibus, em um ponto distante o bastante da escola, Mami não tinha mais dúvida. Ela deve estar se escondendo, me evitando.
Ela caminhou até avistar os portões de Shirome e a massa de estudantes entrando. Todas aquelas pessoas e ela devia fazer parte disso.
Mami se virou.
Enquanto se afastava da escola, ela procurou andar normalmente, mas quase se esbarrava nas pessoas que estavam indo na direção contrária.
Na verdade, ela que era contrária, diferente. Todos aqueles olhares humanos, incapazes de reconhecer o perigo que ela representava.
E Mami correu.
Mas ela sabia, ela tinha a responsabilidade para com essas pessoas.
Se desculpando ao longo do caminho, Mami entrou em uma ruela.
Ela precisava desaparecer. Era natural que fosse assim, essa era a Lei.
Mami parou, não que ela quisesse, mas em surpresa com a pessoa que estava ali.
“Bom dia, Tomoe-san.” Com uniforme de Shirome, sua mala em mãos, Oriko Mikuni a cumprimentava. “Parece que nós duas resolvemos evitar a escola hoje.”
Arfando, Mami estava sem palavras.
Oriko não esperou por uma resposta, ela caminhou, passando ao lado da outra loira. “Contudo, esse não é um lugar apropriado para damas de Shirome.”
Em uma mistura de vergonha e frustração, Mami a acompanhou.
Elas retornaram para rua principal, com Oriko dizendo, “Estou feliz com essa coincidência, pois eu queria conversar contigo.”
Mami estreitou o olhar.
“Infelizmente, a vida de uma estudante transferida em Shirome pode ser muito difícil. Você deve saber que eu tenho certa fama e eu não gostaria de compartilhar isso contigo.”
Mami finalmente falou, “Você estava me seguindo? Na escola ao menos...”
Oriko a olhou de relance. “Não.”
“Eu não acredito em você.” Mami virou a cara.
Oriko abaixou o olhar e sorriu de leve. “Acreditando ou não, eu preciso dizer que eu me importo contigo.”
Mesmo que pudesse ser outra mentira, Mami não conseguiu evitar um sobressalto ouvindo aquilo.
“Veja!” Oriko parou em frente a uma loja de chás. “Devemos apreciar esse tempo, livre e proibido, em um ambiente relaxante.”
Assim que entraram no estabelecimento, elas sentiram o aroma reconhecível. O lugar era pequeno, com uma aparência rústica, e escuro.
Oriko apontou. “Vamos sentar nessa mesa próxima a vitrine. Eu prefiro a luz.”
Mami sentou com ela, com pouco ânimo.
Isso não desencorajou Oriko de perguntar, “Então... Por que você estava correndo tão nervosa?”
Mami abaixou a cabeça e cruzou os braços.
“É a escola? Alguma cole-”
“Não. Não é nada disso...” Mami olhou de relance para outra garota.
Oriko mantinha um sorriso educado, aguardando.
Ela respirou fundo e exalou, dizendo, “Nós temos que voltar para a Lei dos Ciclos.”
Oriko franziu a testa. “Kaname-san disse isso?”
“Não!”
A resposta da outra garota vinha com raiva, se não desespero, fazendo com que Oriko prestasse mais atenção.
Mami estremeceu e se abraçou. “Esses corpos... são apenas disfarces do que realmente somos. Se nós não temos mais nada de importante a fazer, então a nossa presença aqui apenas estará amaldiçoando as outras pessoas.”
“Hmmm...” Oriko assentiu, pensativa, e então retornou a sorrir. “Eu diria que, como clientes, somos uma benção para o dono desse negócio.”
Um garçom apareceu.
“Bom dia,” disse Oriko, “eu gostaria de Sencha e...”
De cabeça ainda baixa, Mami não disse nada.
“E Keemun para a minha amiga.”
“Algum acompanhamento?” perguntou o homem.
Oriko gesticulou. “Não, nós já tivemos café da manhã.”
O homem se curvou e foi até outra sala.
Novamente a sós, Oriko continuou, “Hostis humani generis... Uma grande ameaça a humanidade são os próprios humanos. Nós nos encaixamos nesse aspecto.”
Mami levantou a cabeça, convencida. “Não... Nós temos uma escolha para evitar isso. Devemos voltar!”
“Você pensa no seu futuro?”
A pergunta de Oriko a pegou de surpresa. “O quê?”
“Como garota mágica, você pensou onde estaria daqui alguns anos? Faculdade, um emprego, talvez uma família...”
Mami respondeu sem hesitar, “É claro, eu-”
“Eu não acredito em você.” A palavras de Oriko foram frias. “Se tem algo que eu detesto, é alguém vendendo uma imagem perfeita.”
Mami evitou o olhar penetrante dela.
Mas Oriko voltou a falar com uma voz mais suave, “Por favor, Tomoe-san, eu não sou estúpida. Eu sei dos riscos, a morte estava em cada canto.”
“Mas eu estava indo bem.” Mami sorriu e assentiu para si mesma. “Eu era garota mágica já alguns anos e poderia ser muito mais.”
“Sim, você é experiente. Em tantas barreiras que você entrou, você chegou a contar quantas garotas mágicas já encontrou? Seus corpos?”
Mami engoliu seco.
“A cada bruxa derrotada, você voltava para o seu apartamento, com medo, perguntando para si mesma se a próxima seria-”
“Pare!” Mami cobriu sua boca após exasperar.
Oriko fechou os olhos e balançou a cabeça. “Tudo isso mudou... Agora você não corre mais perigo constante. O problema é que a sua mentalidade não mudou e isso está cegando você do erro que está cometendo com essa idéia de voltar.”
Mami ficou confusa. “Qual erro?”
“Momoe-san.”
Ela continuou confusa, mas mais apreensiva.
Oriko reabriu os olhos, mais séria. “É lógico que ela estará contigo. Imaginou como será na Lei dos Ciclos? Eu acho que você se lembra como é lá.”
“Sim.” Mami assentiu. “É um lugar de paz, onde não iremos prejudicar ninguém.”
“Eu não estou falando dos outros, estou falando de Momoe-san.”
“Ela estará bem também,” Mami respondeu com impaciência, “nós vamos procurar fazer coisas juntas e sermos felizes.”
Oriko olhou para o movimento da rua através da vitrine. “Veja, eu fiz um voto de que eu protegeria o meu mundo, este mundo, pois eu o valorizo. É onde nós nascemos, o que temos em comum com todas as outras pessoas. É parte de nossa identidade.”
Mami não tinha nada a dizer contra aquilo.
“Acredito veementemente que, assim como Yuma, há valores importantes que Momoe-san só poderá aprender aqui.” Ela retornou sua atenção para a outra garota, mais suplicante. “Por isso eu peço que reconsidere. Essa sua decisão precipitada pode ser prejudicial a longo prazo para pessoas próximas a você.”
Mami pressionou os lábios, em parte devido a idéia de que ela não tinha medido o peso daquela decisão, mas, principalmente, com o nome que ouvira. “Como ela está...?”
“Ela aprendeu que pode controlar e esculpir as rochas de seu corpo. Eu consegui guiar ela para criar buracos em sua cabeça, um par de ouvidos e uma boca.” Oriko suspirou. “Tem dias que ela desfaz tudo e fica realmente como uma rocha sobre a cama.” Ela se endireitou na cadeira e sorriu. “Mas há progressos, eu vejo tufos de cabelo brotando das rachaduras, e Kirika tem sido muito útil para ficar de olho nela durante a minha ausência. O próximo passo é tentar construir um olho, se ela puder se olhar no espelho, isso pode fazer diferença.”
Aquelas palavras esperançosas pareciam trazer mais tristeza ainda para Mami. “Tem algo que eu já devia ter te contado naquela noite, mas...”
“Não se lamente, você pode me contar agora.”
“Certo...” Ela levou as mãos ao peito. “Yuma-san tinha me dito que se sentia culpada por estar feliz com vocês, pois ela acredita que também estaria sendo feliz com o sofrimento da antiga família dela. É possível que ela esteja assim como uma forma de não sentir nada e evitar isso.”
“Hmmm...” Oriko ponderou, “então eu devo introduzir livros adultos para ela.”
Mami ergueu as sobrancelhas.
“Talvez ela se identifique com algum personagem das histórias que eu irei contar.” Ela ficou com o olhar perdido. “Devo aceitar que ela amadureceu rápido demais...”
Até que o garçom apareceu.
Novamente trazendo um sorriso para face dela. “Ah... Foi rápido.”
O homem entregou o chá verde para Oriko e o preto para Mami.
“Obrigada.”
Com a interrupção, além do aumento do movimento no estabelecimento, as duas garotas saborearam os seus chás em silêncio.
Mami sentia o sabor e o calor do líquido descendo por sua garganta, mesmo ciente de que isso era fruto apenas da magia aliada as suas lembranças. Seu corpo não era humano, no máximo um fingimento sofisticado, mas a sua alma ainda era? Os desejos e descontroles são parte de sua humanidade?
Na saída, Oriko fez questão de pagar pelos dois chás, sob os protestos da outra garota. De volta para a rua, ela falou, “pense bem no que vai fazer enquanto você volta para sua casa.”
“Você não vai voltar para a escola?” Mami ficou surpresa.
“Então você vai...” Oriko também, abrindo os braços. “Tomoe-san, eu realmente decidi faltar hoje. O que eu ganharia mentindo para você?”
“Mas...” Mami franziu as sobrancelhas. “Isso não será um problema?”
“Para mim? Não... eu tenho coisas mais importantes...”
Mami sorriu, com uma boa idéia do que seria. “Cuide bem de Yuma-san.”
“Eu irei.”
Mami deixou Oriko, indo rumo à escola. O gosto remanescente do chá em sua língua a ajudava a se lembrar da conversa.
Ela não pensou no futuro? Decisão precipitada? Se fosse sobre bruxas e demônios, ela teria algo para dizer, mas isso era um território completamente desconhecido. Ela não tinha idéia alguma e isso era aterrorizante, como nos primeiros dias como garota mágica.
Ela pegou o seu smartphone em sua mala.
Talvez só uma pessoa teria as respostas.
Ela percorreu sua lista de contatos até um nome.
Madoka Kaname
Ela respirou fundo. Mesmo se não fosse contar tudo, era difícil, mas ela precisava de uma segurança, não somente para ela, mas Nagisa.
Então ela apertou o botão para escrever uma mensagem.
Com Mami fora de vista, Oriko foi até o prédio do outro lado da rua. Ela entrou em uma ruela vizinha e, longe dos olhares, saltou pelas paredes até o topo.
Ao pousar, ela arrumou o seu uniforme e rabo de cavalo e disse para a pessoa que a aguardava, “Está feito.”
Com o xale laranja e os cabelos brancos esvoaçando com o vento, Nagisa tinha uma expressão melancólica. “Eu vi... É difícil de acreditar que Mami fugiu da escola. Será que ela estava fazendo isso todos os dias?”
“Que eu saiba, não,” respondeu Oriko.
Nagisa se virou para ela. “E como foi a conversa?”
“Ela estava muito estressada, mas eu consegui colocar pouco de razão na cabeça dela. Ela vai melhorar.” Oriko assentiu. “Eu só nunca imaginei que isso tivesse afetado tanto ela.”
“O que seria?” Nagisa tinha um olhar de suspeita.
Oriko sorriu. “Ora? Shirome é claro.”
Ela não estava muito convencida. “Isso é o que Mami sempre fala para mim.”
Oriko levou a mão ao peito. “Então eu peço o seu perdão. Ela apenas me disse o que sentia, não me explicou os motivos... mas Shirome é bem diferente do que ela está acostumada. Como uma estudante transferida, ela pode estar tendo uma relação difícil com certos indivíduos. Eu não sei se você entende isso.”
Nagisa abaixou a cabeça. “Eu entendo...”
“Ótimo.” Ela cutucou o queixo. “Mas se tem uma coisa que eu não entendo é por que você se dar ao trabalho de vir ontem na minha casa e pedir minha ajuda. Kaname-san teria feito melhor, não acha?”
Nagisa segurou um de seus pom-poms e suspirou. “Mami não iria querer contar os seus problemas para suas amigas, ela se sentiria muito mal. Ela não compartilha nem comigo.”
“Ah...” Oriko olhou para um ponto distante e começou a gesticular, enquanto revelava a sua lógica, “mas se eu espalhasse alguns rumores sobre ela, bastaria me chamar de mentirosa, como boa inimiga que eu sou.”
Nagisa apertou o pom-pom.
“E você teve uma idéia similar.” Oriko abriu um sorriso ainda maior. “Você tem talento para a política.”
“Eu não tenho orgulho disso e não vejo você como uma inimiga. Eu sei que vocês duas não são próximas, mas tem muitas coisas em comum e eu sei que Mami te respeita. Por isso eu confiei na sua ajuda.”
“Boa garota...” Oriko ficou mais séria. “Isso significa que eu posso ficar tranqüila, pois você vai cumprir a sua parte do nosso acordo. Eu estou interessada sobre o que Kaname-san tem conversado com vocês. Tudo está indo bem?”
Nagisa se abraçou e acenou com cabeça rapidamente. “S-Sim. Mami até me contou que Madoka trouxe mais garotas da Lei das Ciclos para ajudar com o resto do mundo.”
“Oh... Ela fez isso?” Oriko ficou puxando alguns fios de cabelo de seu longo rabo de cavalo.
“É...” Nagisa deu de ombros. “Se não fosse isso, resgatar as garotas mágicas de outros países iria levar décadas.”
“De fato.” Oriko fez uma cara de sono. “Tem algo relevante para me contar ou é só isso?”
Nagisa deu de ombros de novo, agora com um sorriso sem graça.
“Como eu tinha pensado. Se houvesse algo, você não ousaria ter esse acordo comigo.”
“Ehhhh...” Nagisa pegou sua mala da escola. “Eu preciso ir. Obrigada por tudo.”
Oriko balançou a cabeça. “Não precisa disso. Eu tinha algumas dívidas com Tomoe-san, isso foi um prazer.” Então ela acenou com a mão. “Agora vá, você não deve perder mais aulas.”
Nagisa fez um tímido aceno e então começou a saltar de uma construção para a outra.
Enquanto isso, Oriko caminhou até a beirada da laje. Ela olhou para a rua, para as pessoas no vem e vai de suas rotinas, depois para o centro da cidade e seus arranha céus refletindo a luz do dia.
“Então...” Ela cruzou os braços e sorriu. “Minhas visões estão corretas, Kaname-san está mais ambiciosa.” Ela estendeu sua mão esquerda e invocou uma esfera flutuante, com uma esfera menor a orbitando. “A questão é se Akemi-san sabe disso.”
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