Amor
21 Epílogo
Kazamino.
Ofuscada pelo crescimento de Mitakihara, essa cidade vizinha é uma imagem de estagnação. Seus poucos recursos são apenas destinados para manter suas velhas ruas, mas mesmo assim não é o suficiente.
A noite chega, com os seus pontos escuros, antros para os anátemas da humanidade.
“Droga! É inútil.”
Contudo, uma garota reclamava da ausência deles. Ela caminhava de palma aberta, carregando uma gema azul com um tênue brilho.
“Sua coisa inútil!” Ela quase arremessou o objeto, mas se conteve, falando consigo mesma. “Sasa... Sasa... se eu não acho bruxas com isso, sem é que eu não irei achar...”
Sasa Yuuki parou. Ela nem sabia mais onde estava, não que isso a preocupasse. A cidade era pequena e qualquer meliante psicopata pervertido que ela pudesse encontrar ela poderia dar conta facilmente, seria até divertido em outras ocasiões, mas ela precisava economizar magia.
“Nas semanas que fiquei em Mitakihara eu não encontrei nada também e lá é enorme!” Ela esfregou o seu cabelo com violência. “Ahhhh... O que está acontecendo? Até aquelas garotas chatas que viviam querendo lutar comigo sumiram. Devem ter ido procurar bruxas em outro lugar, mas aonde?”
Frustrada, ela se encostou em uma parede próxima.
“Eu não queria ver as minhas bruxas de estimação se matando de novo...” Ela fez um beicinho. “Onde é que Mami consegue semente das aflições? Eu podia arrombar o apartamento enquanto ela não está, mas eu não vi um lugar óbvio onde ela guarda eles. Ela nem deve deixá-los lá.”
Pensativa, ela pressionou a ponta do seu nariz com o dedo indicador.
“Hmmm... Será que ela está com saudade de mim? Eu poderia voltar e pedir por alguns. Eu teria que revelar que sou uma garota mágica...” Ela deu um sorrisinho. “Mas aposto que se eu chorar bastante ela cede. Se não ela, aquela menininha... e eu podia até pedir um pedaço de bolo tamb-”
Ela balançou a cabeça e fechou os olhos com força. “Não!” E começou a cutucar repetidas vezes a sua testa. “Mentaliza, Sasa, mentaliza! Você não pode se deixar seduzir! Ela é só mais uma pessoa talentosa que vai usar isso para pisar em você.” Ela então encarou a sua gema. “Eu não vou ser cadela de ninguém, sou eu que mando agora!”
Uma nuvem escura manchava os tons azulados da pedra preciosa.
“O quê...?” Sasa rangeu os dentes. “Mas que porcaria! Eu nem usei magia, como é que você fica poluída?!” Mais uma vez ela sentiu vontade de jogar aquilo fora. “E justo agora que as coisas estão ruins, aquela merda cabeluda do Kyuubey desaparece. Ah se eu encontro ele... vou torcer aquelas orelhas estúpidas até ele me dizer onde está a bruxa mais próxima.”
Um sonho vão, mas a deixou um pouco mais calma. A garota então andou de um lado para o outro. “Eu devia ter ficado com o meu plano inicial e focado na Oriko. Pelo menos eu já sabia que ela tinha outra garota mágica morando com ela. Mas agora se eu voltar para aquela escola de gente mimada, a Mami vai me ver e ficar fazendo perguntas.” Ela fechou a mão com a gema, quase a esmagando. “Eu ferrei com tudo!”
Uma forte luz emitiu entre seus dedos.
“Hã?!” Sasa viu sua gema brilhar. “Uma bruxa? Não... deve ser uma garota mágica... dane-se! Se ela tiver semente da aflição, vou fazê-la entregar pra mim.”
Ela percorreu as ruas desertas com pressa, mas de forma sorrateira, se escondendo atrás dos postes, enquanto checava a gema para saber a direção.
“Nossa, como ela brilha. Deve estar muito perto, como é que não sentiu antes?”
Ela chegou até um muro alto de pedras e vinhas, do qual cercava um lugar que ela tinha um bom palpite do que seria.
“O cemitério?” Sasa semicerrou o olhar. “Não teria uma garota mágica aqui. Então será que...”
Ela não perdeu mais tempo e saltou sobre o muro, caindo em meio ao breu e arbustos, arranhando suas pernas. “Ai! Merda...”
Ela teve sorte por não cair em uma lápide das tantas que havia ali. O lugar não tinha iluminação alguma, mas o brilho da gema estava sendo o suficiente para encontrar um caminho. Contudo, ela não se sentia confortável com aquele silêncio, quase sobrenatural, ainda mais quando tinha certeza que não estava sozinha.
Uma lufada de vento.
Um frio percorreu seu corpo e ela ouviu o som de folhas secas, essa era a única pista que ela tinha para seguir. Ei fantasmas, espero que não sejam vocês que estejam fazendo a minha gema brilhar, ou vão se ver comigo!
Ela chegou ao que devia ser o prédio administrativo do lugar. Estava fechado, com uma lâmpada fluorescente iluminando um relógio de parede acima da porta. Seus ponteiros estavam parados.
Que lugar mal cuidado. Sasa suspirou. Como toda essa cidade mequetrefe. O vento ficou mais forte, jogando o seu cabelo em sua face.
A lâmpada piscou e se apagou, enquanto outra luz surgiu em pleno ar, um grande holograma. Era o símbolo roxo de uma ampulheta, com crisântemos em sua base e uma salamandra preta serpenteando em volta dela.
Sasa estava maravilhada. “Ha... haha... hahaHAHAHAHAAAA!” Ela começou dar pulinhos de excitação. “Sim! Sim! SIMMMM! É o meu dia de sorte, ou noite de sorte, tanto faz...”
Ela olhou envolta, apenas para certificar, mas não havia mais ninguém. A fonte da magia era aquela bruxa e somente ela.
“Mais perfeito impossível.” Sasa correu para atravessar o holograma. “Essa bruxa já é min-”
Ela foi recebida por uma rajada de areia, cobrindo os seus olhos e preenchendo sua boca. Caindo no chão, sufocando, ela ergueu sua gema, invocando uma forte onda de choque.
“Cof! Cof! Blegh...” Cuspindo a areia e esfregando os olhos, ela viu a tempestade indo embora. “Maldição...”
A barreira da bruxa era um vasto deserto, com um céu violeta rachado.
Sasa foi vencendo cada duna, tentando em vão encontrar uma direção com a sua gema. Não havia sinal da bruxa, nem mesmo de um lacaio.
“Que lugar mais sem graça, essa deve ser fraca. Ai!” Ela havia dado uma topada em um tijolo negro com runas de cor violeta. Foi quando ela se deu conta que estava em meio a ruínas escondidas sob a areia.
“Hmmm... e se ela é fraca, ela é covarde.” Ela sorriu e sua gema brilhou mais. “Vamos ver se eu consigo irritá-la.”
A luz da gema a envolveu e ela começou a flutuar. Suas roupas foram sendo substituídas por uma espalhafatosa roupa de tom caramelo, com grandes pom-poms brancos em suas pontas. O mesmo se podia dizer para o chapéu, similar a de um bobo da corte, grande demais não só para sua cabeça como para o seu corpo. No topo do chapéu havia um grande laço marrom escuro, acompanhado por uma gema esférica de cor azul.
“Tadah!” Ela fez uma pose e depois se espreguiçou. “Hmmmm... Eu já estava com saudades das minhas roupas épicas. TeeeheeeeEEEEHHHEH?!”
O deserto sacudiu violentamente, derrubando Sasa ao chão. O céu escureceu e ela ouvia ruídos barulhentos vindos de todas as direções. Foi então que ela viu um armário de proporções titânicas se erguer atrás de uma duna. Ela também sentiu que estava subindo e as areias sob os seus pés estavam sendo sugadas por vãos dispostos paralelamente ao longo de toda aquela imensidão.
Eram largas tábuas de madeira bem polidas, que se tornaram o novo chão quando a última duna desapareceu. Sasa estava agora em um quarto escuro de um gigante, ou ela havia encolhido, não sabia ao certo. A arquitetura era antiga, do começo do século vinte se não antes, mas não havia sinal de abandono. Tudo bem requintado e conservado, algo que somente alguém muito rico poderia pagar.
O ruído também havia ido embora, agora tocava uma melodia que vinha de uma caixa de música em um criado mudo.
Sasa sorriu. “Acho que tenho que dar os créditos para essa bruxa agora, mas isso aqui é bem incomum. Não é tão bizarro quanto às outras barreiras... talvez ela seja mais única do que pensei. Nesse caso...”
Ela ergueu a mão e uma vara metálica com ponta curvada se materializou, da qual ela rodopiou com maestria. “Eu vou adorar ter ela em minha coleção!”
Ela correu pelo quarto, até uma sapatilha de bailarina que estava caída no chão. Ela se escondeu atrás, visando o seu objetivo.
Uma casa de boneca de vários andares. Tinha uma bela fachada e era bem iluminada. Guardando a porta da frente estavam dois soldados de chumbo com cabeças volumosas, com tranças. Eles portavam lanças negras e um par de óculos em suas faces roxas.
“Eu aposto que a bruxa está no último andar,” disse Sasa enquanto apontava sua vara para os guardas, “mas primeiro... Por gentileza, poderiam fazer uma patrulha em outro lugar, sim?”
Quase imediatamente, os soldados se viraram e marcharam para longe da entrada.
“Fácil fácil~!” Sasa deixou o esconderijo rumo a casa. “Mas é melhor eu poupar o resto da minha magia para controlar a bruxa.”
A porta não estava trancada. Era difícil de acreditar que aquilo era uma casa de bonecas, pois o chão e a mobília eram de madeira legítima, nada parecia falso. Seria difícil até mesmo acreditar que estava em uma barreira se não fosse as estranhas marcações nos papéis de parede que ela já estava acostumada a ver. Ela logo encontrou uma escadaria no fim de um corredor.
Foi quando ouviu passos e então surgiram pés de cera branca descendo os degraus.
Sasa correu para uma das salas laterais e se escondeu embaixo de uma poltrona. Ela aguardou, segurando firmemente sua vara.
Na entrada da sala apareceram duas bonecas andando pelo corredor, elas tinham estaturas e cabelos diferentes. Suas roupas também eram diferentes, mas quase sempre da cor preta ou cinza. Elas estavam arrastando outra boneca pelos pés, que não parecia protestar.
Até que os olhos da boneca se encontram com os de Sasa.
MERDA!
Os olhos mudaram de cor, do azul e branco para o verde e vermelho, e a boneca mostrou seus dentes afiados. Ela se debateu, arranhando o chão.
Os sons dos passos e do arrastar foram ficando distantes até que não pudessem mais serem ouvidos. Sasa deixou a poltrona e espiou com cuidado o corredor, enquanto seu coração se acalmava. Certo, vamos terminar logo com isso.
Quando ela chegou ao segundo andar, ela se encontrou em outro corredor, muito mais comprido. Havia portas em ambos os lados ao longo do caminho e uma grande porta de ébano no final.
A bruxa deve estar lá.
Ela tentou fazer pouco barulho enquanto caminhava, olhando para cada porta, algumas vezes para trás, até alcançar a grande porta.
Será que a minha magia atravessa? Sasa apontou sua vara. Se desse certo, ela capturaria a bruxa sem se expor.
Uma porta se abriu atrás dela.
Ela se virou e se deparou com outra boneca, loira, de cabelo curto. Os olhos e os dentes afiados já exaltavam raiva.
Rapidamente ela apontou sua vara. “Volte para a sua sala.”
Porém outras portas se abriram e uma dezena de bonecas apareceram, todas com o mesmo semblante intimidador. Logo elas invocaram grandes e afiados alfinetes negros em suas mãos.
Sasa arregalou os olhos e correu para abrir a grande porta. Ela conseguiu entrar e fechar, maior sorte ainda é que havia uma chave na fechadura, que ela usou enquanto suspirava aliviada.
A madeira estourou e uma ponta negra quase acertou seu olho. Sasa deu um pulo para trás enquanto mais alfinetes perfuravam a porta. Ela precisava agir rápido.
A sala era grande e tinha um largo painel de vidro que oferecia uma visão panorâmica. Ela não tinha notado isso do lado de fora, mas não podia se esperar menos de um lugar sobrenatural.
Contudo, a sala tinha todos os elementos comuns que se encontrariam em um quarto. A exceção é que a cama era de hospital, com vários sacos de soro e tubos.
E lá estava.
A uma figura negra sentada, envolto por tiras de couro costurada e um vestido de funeral. Em sua mão havia uma ampulheta, fazendo um sutil som de alfinetes quicando. Sua boca era coberta pelo couro enquanto o resto com uma máscara branca com nariz comprido. Não havia olhos, apenas um vazio escuro e usava um chapéu pontudo com um disco de vinil como base, com tranças brancas coladas nele.
“Você é a bruxa mais normal que eu já vi.” Sasa sorriu e apontou sua vara. “Agora, você vai-”
A vara voou para longe.
A garota estava mais confusa do que assustada ao ver a bruxa na frente dela em um instante, então ela ouviu a porta cair.
As bonecas entraram com os seus alfinetes e sorrisos maldosos.
“Ah... aaaah...” Com o pavor crescendo, Sasa viu a sua vara no chão. Ela correu e se jogou para pegá-lo. No entanto, um pé negro pisou em cima. Não pode ser! Essa bruxa...
A garota se levantou e recuou. De alguma forma a bruxa havia teletransportado, mas não era isso o que deixou Sasa mais perturbada.
Essa bruxa é inteligente!
“Gaaaah!” Uma dor excruciante atravessou o seu abdômen e ela viu uma ponta carmesim furar seu vestido e então retornar, fazendo o sangue jorrar. “Aaaaah!” Ela se virou a viu as bonecas examinando a ponta do alfinete que estava gotejando, batendo os seus dentes.
Aproveitando aquela distração, Sasa foi até o painel de vidro e jogou seu corpo com toda força contra ele, mas o painel apenas rachou. “Sem... chance... cof!” Sua tosse respingou o vidro com sangue. Além da dor, ela sentia calafrios, seu corpo tremia. Ela tentou segurar o ferimento, mas em vão, sua roupa estava ensopada, assim como as suas costas.
Ela olhou para trás e viu as bonecas se aproximarem. Ela cambaleou pelo quarto, pegando uma cadeira e arremessando contra elas. Em resposta, um alfinete empalou sua coxa, quebrando o osso. “AAAAIIIIIEEEE! AAAAHHHHGGG!” Ela rastejou até a parede, sem mais para onde ir, com uma certeza.
Eu vou morrer!
Com as lágrimas se misturando ao sangue em seu rosto, ela testemunhou as bonecas se preparando para as estocadas. Sasa estendeu a mão. “Não...”
Ela não fora ouvida e os primeiros golpes atingiram o seu torso.
“NÃÃÃÃOOOOUUGGHhh...” Sasa engasgou em seu próprio sangue, enquanto a bonecas ficavam mais excitadas e agressivas, transformando seu corpo em uma massa vermelha. Enquanto isso, ela se lembrava de sua vida.
Têm pessoas que são melhores que as outras. Têm as que são mais bonitas, mais ricas, mais talentosas. Ela não, nasceu em uma família mediana, ela era mediana, se não um pouco abaixo disso, em um mundo em que só se aceita o melhor. Isso precisava ser punido, esse era o seu desejo.
Como garota mágica, ela tinha conseguido alguma fama com as outras que disputavam território, trazendo desgraça para quem merecia. Todos que estavam acima dela deviam se submeter.
Agora, ela morreria com nada. Esquecida como uma pessoa mediana, se não um pouco abaixo disso.
Sasa se sentia zonza, incapaz de focar em alguma coisa, enquanto perdia o senso de seu corpo, mas pôde discernir uma mão indo até o seu chapéu e retornando com uma esfera escurecida.
Eu existi em vão.
Então uma cortina preta caiu.
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Sasa puxou ar em um susto, enquanto os seus olhos se acostumavam com a luz... mas não era luz. Era um mundo branco, sem uma linha de horizonte, onde haviam cadeiras de todo tipo flutuando.
Veio-lhe em sua mente que aquilo era uma barreira de bruxa e foi então que ela se lembrou de todo resto. Ela se deu conta que estava deitada e olhou para o seu corpo. Não havia nenhum sinal de sangue em seu uniforme mágico, nem danos. Ela apalpou sem conseguir acreditar no que estava acontecendo.
Foi quando seus olhos se encontraram com os violeta de uma garota com uma expressão fria. As roupas dela não eram extravagantes, mas a gema roxa em forma de losango sobre a mão esquerda não deixava dúvidas que era uma garota mágica. Seu cabelo era preto, com longas tranças...
Sasa se levantou rapidamente. “Quem é você?”
“Homura Akemi.”
Era uma resposta óbvia, mas que não acalmou Sasa, talvez ela estivesse vendo mais coisas do que deveria. Não podia ser diferente, com todo aquele sangue e dor que ela se lembrava. Sasa não sabia se aquela garota estaria ali para ajudá-la, mas estava se sentindo muito mal. “Eu não... morri?”
“Não,” disse Homura, “você foi salva por nossa deusa.”
“Deusa?”
“Madoka, deusa da garotas mágicas.” Homura fez um gesto para uma direção.
Então Sasa viu uma garota sentada em um trono. A primeira coisa que notou foi o cabelo rosa, com mechas tão compridas que não pareciam ter fim. Suas vestes majestosas eram de uma pureza branca incrível, como o lugar onde estavam, mas as partes interiores eram justamente o oposto, de uma escuridão abismal. Seu semblante era imponente, com um olhar de brilho dourado.
Homura continuou, “ela foi muito generosa, pois espera algo de você.”
“É...?” Sasa ficou boquiaberta.
“Sasa Yuuki,” falou Madoka, “eu sei de suas intenções para Mami Tomoe.”
“Você... sabe...” Sasa arregalou os olhos e então passou a rir. “Hahahaha! Claro que você sabe, você é uma deusa! Hahaha...” Então ela gesticulou freneticamente. “M-Mas eu havia desistido dessa idéia. Eu não vou mais incomodar ela.”
“Não,” disse Madoka, “eu quero que você continue visitando ela. Mami-san é uma amiga próxima minha.”
“Amiga próxima...” Sasa engoliu seco e depois sorriu, abrindo os braços. “Claaaaro... claro... eu também serei amiga dela. Eu irei até caçar bruxas com ela e com aquela outra garotinha.”
“Você não vai mais fazer isso,” afirmou Homura.
Madoka complementou, “as bruxas que estavam em sua posse também foram reivindicadas.”
“O quê?” Sasa ficou confusa. “Mas como irei purificar a minha gema?”
“Você não precisa,” Homura respondeu, “Incubator lhe enganou.”
“Inkyyuuubeeytor...” Sasa piscou os olhos. “Kyuubey?”
Homura desviou o olhar e falou em um tom mais baixo. “A benção de nossa deusa irá protegê-la, não precisa se preocupar com a sua gema.”
Sasa rangeu os dentes e cerrou os punhos. “Ahhh... Eu irei estraçalhar aquela cauda felpuda!”
“Eu não quero vingança,” disse Madoka.
Fazendo Sasa se conter. “Ah...”
“Se comporte.” O olhar de Homura ficou mais intenso. “O que nossa deusa tem de generosidade, não tem como paciência.”
“S-Sim!” Madoka acompanhou a afirmação da outra garota, erguendo seus punhos fechados. “Eu sou muito, muito, muito zangada! E... É isso!”
Sasa se ajoelhou e se curvou, implorando, “Oh grande deusa! Por favor, não me castigue!”
Madoka gesticulou e sorriu, embaraçada, “N-Não... Eu não vou castigar você...”
Homura olhou de relance para ela.
Com sua mão trêmula, Madoka cobriu sua boca e voltou a ficar mais séria. “Se você se comportar bem...”
Sasa mostrou sua face cheia de lágrimas.
Naquela hora, Madoka quase deixou o trono, mas ela respirou fundo e permaneceu sentada, até ergueu o queixo.
Entre um soluço e outro, Sasa perguntou, “Então eu irei voltar para o mundo dos vivos?”
“Você está viva,” respondeu Madoka.
Sasa esfregou sua face com ambas as mãos. “Obrigada... Obrigada por essa segunda chance. Eu não irei desapontá-la.”
Madoka assentiu. “Eu vou estar perto.”
“Você vai?” Sasa ergueu as sobrancelhas.
“Lembre-se, você não estará fazendo isso por Mami-san ou por mim, mas por ti.”
A última coisa que Sasa viu foi um sorriso sereno da deusa antes de mergulhar em um oceano de luzes e cores.
Homura viu aquela aura misturar suas cores até que voltasse a ser branco, sem que deixasse traços da outra garota. “Você a enviou de volta para Kazamino?”
Madoka se levantou do trono, jogando algumas mechas de cabelo para trás. “De volta ao cemitério.”
Homura se virou. “Então temos que ir.”
“Nós temos tempo.”
Ela retornou olhar para Madoka, que havia se aproximado e agora estava genuinamente séria. Então Homura abaixou o olhar, sabendo sobre o que seria.
“Por que toda essa crueldade com Sasa-chan? Foi assim também com aquele garoto que você enviou para o hospital.”
Mesmo sabendo, era doloroso ouvir aquela voz austera. “O garoto? Eu não tinha como saber que ele iria bater cabeça.”
“E quanto a ela?” Madoka cruzou os braços.
Homura notou que as infinitamente longas mechas de cabelo haviam ondulado com força.
“Homura, e quanto a Sasa-chan?”
“Ela é uma garota mágica,” respondeu ela, indiferente, “e ela veio para Lei dos Ciclos, viva e saudável, como você queria.”
“Esse não era o nosso plano!” Madoka descruzou os braços, frustrada. “Por que agiu sozinha? Qual o problema? É por causa da Oriko-san, foi por ser ela que nos avisou que havia reconhecido Sasa-chan em Shirome?”
Homura permaneceu em silêncio, mas sacudiu a cabeça de leve, negando.
Madoka pressionou, “Então é porque você não queria que eu fosse contigo para Kazamino? Porque-”
“Não, é porque o plano era absurdo!” Homura pressionou os lábios e sussurrou, “você me pedir que eu roubasse as seme-”
“Resgatasse as sementes da aflição,” Madoka enfatizou.
Homura olhou intensamente para ela. “O que acha que ela iria pensar quando descobrisse que estava sem sementes? Seria como um animal encurralado, ela é perigosa!”
“Nós estaríamos monitorando os passos dela.” Madoka estava segura de si. “Se ela tentasse algo desesperador, eu estaria lá para lidar com isso. Muito melhor do que quase matá-la.”
Homura sorriu com ironia. “Vejo que fui incompetente...”
“Você seria se a tivesse matado,” Madoka respondeu prontamente.
Fazendo o sorriso da outra garota sumir. “Por que se importa tanto com ela? Ao ponto de me fazer participar dessa encenação mirabolante e enviá-la de volta, sem ela saber o que ela é agora.” Homura rangeu os dentes. “Não me diga que há alguma bondade nela!”
“É por isso que estou fazendo isso.” Madoka abaixou o olhar. “Se Sasa-chan suspeitar que ela é como as bruxas que escravizou, ela não vai aceitar. Ela se amaldiçoará para sempre ou destruirá sua própria semente.”
“Você fala como se tivesse certeza...”
Madoka apenas assentiu ao comentário. “Se é verdade o que Oriko-san falou. Que Sasa-chan formou uma amizade com Tomoe-san, com interesses, sim, mas uma amizade... Então há esperança de trazer um sentido para vida dela além de ódio e inveja.”
“De novo com essa esperança.” Sentindo a acidez em suas próprias palavras, Homura ficou de costas para ela. “Ela não merece isso. Aliás, há muitas garotas que não merecem isso...”
“O que você quer que eu faça?” Os olhos de Madoka fulguraram. “Quer que eu sente naquele trono e comece a julgar cada garota?”
Ela sentia cansaço, mas não era algo físico, apenas o peso de uma derrota já consumada. “Faça o que quiser, considere isso como uma sugestão.”
“Então irei rejeitar essa sugestão, sempre.”
Outra resposta rápida. Homura não tinha certeza se Madoka não era capaz de enxergar ela por todos os ângulos, mas dessa vez não escondeu as contrações de sua face. Seus punhos cerraram e ela socou suas próprias pernas.
Madoka estremeceu com a reação.
“Sua graça será sempre louvável, Madoka.”
Era nostálgico ouvir aquele tom de voz da Homura, sem os véus da omissão e dissimulação. Contudo, Madoka sabia que ouviria algo que a outra garota não conseguia mais conter.
“Mas você não compreende que a piedade de um estranho não tem sentido.”
Ela ficou boquiaberta. “Homura...”
Ouvindo seu nome, a garota com tranças abaixou a cabeça. “Eu... Eu estou preocupada que isso seja usado contra você por outras garotas que vivem aqui. Eu quero proteger você, é apenas isso.”
O tom de voz já tinha ido embora. Madoka chegou mais perto e iria pousar sua mão no ombro dela. “Homura.”
Mas Homura virou a cabeça, olhando de relance para ela. “É Apenas. Isso.”
Madoka recolheu sua mão, em uma expressão de pesar.
Homura ignorou, dizendo friamente, “Nós desperdiçamos tempo demais, temos que contar para Tomoe-san sobre essa garota. Você já deve ter um plano para evitar que ela se assuste com isso.”
Madoka se recompôs. “Deixe isso comigo dessa vez.” Então suas vestes e cabelo tremularam com o poder.
Homura viu uma multidão de cores a cobrir.
Enquanto Madoka a viu desaparecer. Ela havia permanecido na Lei dos Ciclos, ela poderia passar uma eternidade ali e para Homura seria como se ela tivesse vindo logo atrás.
Sozinha, a deusa daquele lugar se lembrou de um passado mais distante do que parecia, de uma garota desesperada por aceitação e força.
Ela só tinha encontrado força.
“Homura-chan...” Madoka voltou a sentir nostalgia em seu sussurro, quase sorriu, mas lágrimas vieram primeiro. Ela não podia mais mencioná-la assim, um legado de um passado que não devia retornar.
Ela fechou os olhos e sentiu o sol da tarde bater o seu rosto. Ela os reabriu e viu o reflexo dele no canal de Mitakihara que estava passando sob a ponte onde ela estava.
Foi então que ela se deu conta que seus pômulos estavam molhados. Eram lágrimas? Ela tinha a sensação de que tinha esquecido algo, mas tudo estava ali, os laços amarrados em seu cabelo, a mala da escola, o uniforme...
Ela pegou um lenço em seu bolso e secou sua face. Podia ser que aquela estava com sono. Papai sempre falava sobre a importância de dormir bem. Ela sorriu, afinal de contas mamãe quase sempre chegava tarde da noite.
No entanto, havia algo estranho no ar, um silêncio. Parecia que ela realmente tinha esquecido algo. Talvez fosse o caminho para casa? Ela não se lembrava da necessidade de passar por uma ponte.
Olhando para trás, Madoka viu outra garota da escola atravessando a ponte. Era a nova estudante, ela era muito frágil e os óculos e as longas tranças só contribuíam para a imagem de um animal amedrontado.
“EEEIIII! HOMURA-CHAAAANN!” Madoka acenou. Sayaka sempre foi uma amiga com mais atitude que ela e era bom ter alguém assim. Contudo, a personalidade da Sayaka seria demais para a recém chegada. Esse deveria ser o seu papel, para ajudá-la a se adaptar depois do longo tempo no hospital. Era hora de deixar de ser uma mera sombra e fazer a diferença.
Homura não reagiu, continuou em sua vagarosa caminhada, cabeça baixa, segurando sua mala na sua frente.
“EEEEIIIIII!” Madoka acenou novamente. Seu sorriso se foi quando notou o semblante desapontado de Homura, ela parecia estar falando consigo mesma. Ela esperou a garota chegar bem próxima para perguntar, “Homura-chan?”
Homura parou, deixando cair sua mala, parecia um zumbi.
Madoka começou a ficar assustada. “A-Aconteceu alguma coisa?”
Homura se virou, observando o canal. Ela tirou os sapatos, removeu os óculos e pôs sobre eles e então soltou suas tranças.
Com o cabelo longo e esvoaçando, ela parecia outra pessoa. Madoka estava estupefata, não compreendia o que estava acontecendo, na verdade, não queria compreender.
Homura começou a subir o parapeito.
“O que está fazendo?! Não!” Madoka entrou em pânico. “Homura-chan!”
Ela ficou em pé sobre o parapeito e olhou para baixo.
“Não importa o que aconteceu, eu quero ser sua amiga! Não faça isso!” Madoka implorou, “Por que você não me escuta? Homura-chan!”
“Por que você não salva ela?”
Ela deixou cair sua mala. Era a voz de Homura, mas... Tudo estava claro agora. O pavor de Madoka foi diminuindo e ela falou de forma impassiva, se não com um pouco de raiva, “É você.”
“Eu fiz uma pergunta!” Homura rangeu os dentes. “Como você quer salvar outras garotas se não consegue fazer isso? Que hipócrita que você é!”
“Ela será salva.” Madoka notou veias negras se formando nas mãos da outra garota. “Mas não forçando minha vontade nela. Eu estarei ao lado dela, mas ela precisa trilhar seu próprio destino.”
“E vejo que está se saindo muito bem.” Enquanto a ironia era proferida, as veias subiram pelo pescoço e cobriram sua face. “Como você não conhece Homura-chan... Eu poderia dar a felicidade para ela.”
“Você quer dar satisfação,” Madoka juntou as mãos sobre o peito, “eu quero um motivo para isso.”
“Eu entendo agora...” Homura ergueu as mãos ao céu.
No mesmo instante Madoka sentiu uma terrível dor em seu peito. “EeeeeehhhggGGYYYAAAAAAHHHH!” Era tanto que ela perdeu a noção de equilíbrio e tombou.
Quando a dor se foi, ela se viu presa pelo pescoço em um tronco e, metros acima dela, havia uma pesada lâmina dependurada.
“É apenas outra esperança.” Homura pulou da ponte.
A lâmina caiu e quando ela atravessou o seu pescoço, Madoka viu o mundo girar até ela mergulhar em um mar de piche. Ela lutava com todas as forças para manter a consciência ou estaria tudo acabado.
Ela primeiro ouviu um zumbido e então um mantra. Ela voltou a sentir dor, mas era bem vinda, pois ela podia sentir em todo o seu corpo. O piche escorreu de sua face, de suas mãos e vestes divinas. Ela estava de joelhos em uma poça negra, de volta ao mundo de brancura e cadeiras.
Em suas túnicas brancas e miasma, demônios meditavam envolta dela.
“Obrigada.”
Bastou ela dizer isso e os demônios esmaeceram, se confundido com o cenário.
Madoka se levantou, enquanto o piche corria para a parte interior de suas vestes, até não haver mais a poça.
É mais do que esperança, é ela.
E Madoka deu um passo à frente, em direção as cores, a um mundo, a uma pessoa.
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