Amor

13 Parede de vidro


Correndo pelas ruelas escuras, Aki e Nagisa tentavam escapar de seus perseguidores. Era difícil ver o que havia adiante, ainda mais por causa das constantes curvas. Fatidicamente, a ruela terminou em uma parede.

Nagisa se desesperou, “O que vamos fazer?”

“Me deixa eu pensar...” Aki olhou em volta.

Mas não havia mais tempo. Logo eles ouviram as risadas e, das sombras de escuro profundo do beco, os garotos da gangue começaram a surgir.

Aki se pôs à frente de sua namorada. “Parem! Deixem-nos em paz.”

“Você está pronto para a paz?” Hiro apareceu.

E então Takuma. “Marica, apenas um homem de verdade pode ter esse luxo.”

Outro garoto disse, “Por ter escapado da gente na última vez, agora não queremos só você. Hehehehe...”

“Vocês não vão tocar nela!” Aki avançou furiosamente.

Deixando Nagisa para trás. “HIDAKA-KUN!”

O que se sucedeu foi um caos borrado. Aki lançou socos e pontapés, em quem e onde quer que fosse. Em igual medida ele recebia de seus oponentes, contudo, ele não caía.

Hiro ficou impressionado. “O que é isso? Um homem? Não... um monstro...” Ele foi o primeiro a fugir, desaparecendo na escuridão, logo acompanhado pelo resto da gangue.

Só havia restado Takuma, quem Aki encarou com uma pose firme e punhos cerrados.

O garoto de cabelos azuis espetados apontou, esbravejando, “Isso não acabou marica! Eu estarei esperando por ti na escola.”

“Eu também.” Aki assentiu.

Surpreso, só restou para Takuma desaparecer também.

Apesar de vitorioso, Aki viu o mundo girar. Ele estava caindo, em câmera lenta, sendo recebido pelos braços de Nagisa.

“Hidaka-kun!”

Era estranho. Seu corpo estava cheio de machucados, seu uniforme ensangüentado, mas não sentia nada. Morrer era assim?

“Hidaka-kun, olha para mim!”

Aki viu lágrimas descerem pela face de Nagisa, mas também viu luzes coloridas banharem a pele macia dela. Sem medo, sem fraqueza, ele tocou. Era a sensação perfeita que ele esperava, quente e aveludada. Se era para morrer, que fosse assim. “Fiz isso por ti.”

Movida pelas palavras dele, Nagisa segurou a mão que tocava seu rosto e fechou os olhos.

Com a face dela chegando perto, o coração de Aki bateu mais forte e ele fechou os olhos também. Uma sensação de bem estar se espalhou pelo corpo, sua cabeça formigando. Seus lábios tocariam as estrelas.

“Bravo! Bravo!”

Ele reabriu os olhos e Nagisa não estava mais ali, apenas o som do bater de palmas.

Na beira da escuridão estava a garota que ele tinha conhecido naquela sala vazia, Mi-tan, mas sua aparência havia mudado para uma forma horrível. Ela não tinha olhos ou nariz, apenas os respectivos orifícios em seu crânio. Os lábios negros de sua boca se moveram ao falar, “Eu sei muito sobre mentir para si mesmo, mas você é uma figura. Hihihihi...”

Aki queria escapar daquela terrível visão, mas seu corpo não respondia.

“Não tenha vergonha, é parte de nossa natureza,” ela continuou, arregalando os seus orifícios oculares, “a questão é: pode você suportar sob o olho da verdade?”

Na escuridão, acima da garota, um massivo olho se abriu. Sua íris era azul e a esclera roxa, com cílios verde limão.

Aki queria gritar, mas sua voz não saía.

“Ignore, ignore, vamos nos divertir!” A garota estendeu a sua mão e outra, gigante e branca, veio da escuridão e pegou o garoto.

Incapaz de qualquer coisa, Aki se viu sendo carregado pela mão, subindo dezenas de metros. Ele olhou para o solo, temendo o pior.

E isso se concretizou.

Caindo, o solo se aproximando rápido. Aki quis proteger sua face com seus braços, mas não podia, e não faria a diferença. Contudo, ao bater no chão, ele voltou a subir rapidamente, em direção a palma da gigantesca mão.

“HihihihihihahAHAHAHAHAHA!”

Ele foi jogado novamente contra o chão, onde quicava e voltava para mão. Isso continuou, enquanto a risada da garota foi se tornando em um som familiar.

Era o alarme do seu smartphone, a tela iluminando a cama dentro do closet. Era hora de acordar. Ele o parou, ainda se sentindo zonzo. Aquele sonho, ou pesadelo, tinha sido muito real.

Mas a realidade era outra, mais dolorosa. Seu corpo estava pesado, especialmente nas pernas, relembrando para ele os eventos do dia anterior. Quando abriu a porta do closet, sentiu uma pontada de dor em seu pulso.

Na claridade do quarto, ele examinou melhor. Seu pulso estava roxo e inchado, era dificultoso movê-lo. Havia marcas distintas de dedos, aqueles pequenos e delicados dedos...

“Filho? Já acordou?”

“Sim mãe!” O tempo era curto. Banheiro, colocar o uniforme, tomar café da manhã... e ir para escola. Antes de sair do quarto, porém, Aki ouviu o seu smartphone vibrar.

Era Nagisa.

Bom dia!

Eu tive uma idéia

Você poderia passar o seu endereço?

Aki atendeu ao pedido, mas se perguntando a si mesmo o significado daquilo.

/人 ‿‿ 人\

“Tchau!”

Saindo do apartamento, Aki se dirigiu as escadas, pois não fazia muito sentido usar o elevador no andar que ele morava. No entanto, ao começar a descer os primeiros degraus, reconheceu que não teria sido uma má idéia dessa vez, com o estado que suas pernas estavam.

O café da manhã foi mais silencioso que o usual e ele tinha culpa nisso. Contar para o pai o que havia ocorrido, que os problemas na escola persistiam e ganhavam novas dimensões, e tudo por ser fraco...

Aki suspirou.

Sim, ele era fraco demais para contar.

Ele abriu o portão para a rua. Havia outras preocupações agora, como a idéia de Nagisa. Ele checou mais uma vez o smartphone, mas não tinha novas mensagens. O que ela estaria tramando?

“Bom dia!”

“Hã?!” Aki arregalou os olhos ao ver sua namorada na calçada. “O que está fazendo aqui?!”

Nagisa deu de ombros. “Você me deu o seu endereço.”

“Eu pergunto por que você veio? Minha casa fica na direção contrária a da escola em relação onde você mora.” Ele notou que ela estava com o uniforme amassado e o cabelo desarrumado. “Você veio correndo?”

“Ah...” Nagisa deu uma ajeitada no cabelo. “Eu vim de ônibus, eu precisava confirmar a rota, e tive que correr para pegá-lo.”

“Confirmar a rota?”

Ela continuou, “Os garotos podem estar te esperando na estação como ontem. Então pensei em nós irmos para escola juntos usando ônibus.”

“Claro...” Aki abaixou a cabeça. Era bem possível que ela estivesse certa.

“Vem. Temos que nos apressar até o ponto. Se pegarmos o próximo ônibus, não devemos nos atrasar.”

Aki já tinha ido para escola de ônibus, mas ele preferia o metrô por ter mais garantias de chegar no horário, mesmo que houvesse paradas de ônibus perto de sua casa e na frente da escola.

Era também um pouco mais lotado, tanto que eles tiveram que se esforçar para encontrar um lugar em pé onde podiam ficar juntos.

Juntos até demais, a cada curva ou parada mais súbita seus corpos se tocavam. Aki sentia com freqüência uma agradável fragrância vindo dela, que aquecia dentro de seu peito. Contudo, ele não sentia alegria, mas culpa devido às circunstâncias. Ele não olhava para as janelas, temendo cruzar seus olhos com algum integrante da gangue na rua.

Eles desceram do ônibus, para o caminho que levava até a escola, cercado por cerejeiras sem flores. Ver apenas pessoas com uniforme era um símbolo de alívio para Nagisa, de agora em diante estariam seguros, até o final da última aula.

Dentre os estudantes uniformizados, havia duas garotas que ela conhecia muito bem. Madoka falava alegremente enquanto Homura assentia.

Eles chegaram na sala de aula e sentaram juntos, sob o olhar e sorrisos maliciosos de alguns alunos. Nagisa iria checar a hora, mas o professor entrou na sala antes.

Com ele entrou Takuma, o garoto olhou com surpresa para Aki e passou perto antes de ir para a sua carteira. “Então você veio. Eu me pergunto como...”

O garoto loiro permaneceu em silêncio e cabisbaixo.

Antes de se sentar, Takuma olhou intensamente para Nagisa.

A garota não escondeu seu semblante zangado.

O sinal tocou.

Com tudo que estava acontecendo era difícil prestar atenção na aula. Nagisa olhou para o teto, não tinha tempo a perder.

Será que Madoka está muito ocupada?

Nagisa se concentrou, tentando imaginá-la sentada em sua carteira. A mensagem precisava chegar até ela e somente para ela. Sabendo como Homura era, ela iria se envolver demais. [Madoka, pode me ouvir?]

[Oi? Oh... Nagisa-chan~]

Ouvir a voz gentil dela já aliviava um pouco o fardo. [Bom dia. Eu sei que essa não seria a melhor hora...]

[Imagina!]

Ela sorriu levemente. [Pode me dizer se Homura-chan está ouvindo também?] Por um tempo, ela só pôde ouvir a voz do professor.

[Não, ela não ouviu.]

Nagisa franziu a testa. [Você... não perguntou para ela, não é?]

[Não, não, eu espiei, ela não parece estar diferente. Você pode contar o seu segredo.]

Segredo. Nagisa tinha se dado conta que era exatamente isso que estava fazendo, com todos, inclusive para as pessoas mais próximas dela. [É um problema. Eu encontrei uma garota da Lei dos Ciclos e ela me disse que veio para esse mundo por acidente.]

[Certo, quem é?]

Pela voz que ouvia, Nagisa não sentiu que Madoka estava muito surpresa ou preocupada. [O nome dela é Michiru.]

[O outro nome?]

[Eu não sei.] Ela coçou testa, amaldiçoando por não ter perguntado.

[Tem muitas garotas que eu conheço que se chamam Michiru...]

[Bem, ela deve ter a minha idade. Cabelo azul curto, olhos amarelos...]

[Vou precisar de mais...]

Nagisa ficou imaginando o quanto ‘muitas garotas’ seria para Madoka. [Ela gosta de brincar com uma bola de borracha... e de comer giz de cera.]

[Ah... essa Michiru...]

A voz de Madoka era mais séria, Nagisa ficou nervosa.

[E ela quer me ver?]

[Sim, sim, mas não sei como vai ser.] Ela novamente amaldiçoou por não ter perguntado. [Eu posso levar você até o último lugar que a vi. Podemos fazer isso hoje à noite.]

[Está acertado então, venha até a minha casa. Espero que ela esteja bem...]

Espero que quem cruzou com ela esteja bem. Nagisa pressionou lábios. [Tem mais uma coisa que quero falar contigo.]

[Não é sobre a Michiru-chan?]

[Não, é sobre um garoto na minha sala.] Um novo momento onde somente a voz do professor era ouvida. Foi então que Nagisa sentiu que havia levantando esse assunto de forma muito casual.

[Wehihi! Nagisa-chan está apaixonada...]

Ela pulou em sua carteira. [Não! Não é isso!]

O professor olhou para ela.

Nagisa sorriu e fingiu estar folheando o caderno. [É que... ele é alvo de brincadeiras maliciosas na escola. Eu tenho ajudado, mas agora tem garotos perseguindo ele. Eu não quero usar magia, eu nem acho que isso adiantaria...]

[Bullying?]

[É...] Nagisa assentiu, mas logo se deu conta de que fazer isso fora estúpido.

[Ótimo! Então há algo que irá ajudá-lo.]

[Jura?]

[Eu preciso confirmar, mas se tudo estiver ok, eu lhe darei retorno em poucos dias.]

[Certo...] Nagisa não sabia se seria uma orientação ou até mesmo uma solução, mas era melhor que nada, valeria a espera.

“Ei! Nagisa-chan!”

Ela olhou de relance para Ayako, que sussurrava.

“Quero conversar contigo e com o Hidaka-kun no almoço. É importante.”

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“O quê?!”

Com os dois casais sentados à mesa no refeitório, Nagisa não estava acreditando no que ouvira.

Mas Ayako não deixou dúvidas. “Sim, ontem começou a espalhar um boato de que Hidaka-kun estaria sendo ‘jurado de morte’ pela gangue e Kuroki.”

Aki estava com os olhos bem arregalados e gaguejando, “J-Jurado... de morte...”

Sanjuro, com um sorriso maroto, olhava para Nagisa. “E eu sei que esses boatos são exagerados, pois eu sei que vocês toparam com a gangue ontem.”

Ayako estava tão curiosa quanto preocupada. “O que aconteceu?”

“Eles queriam que Hidaka-kun voltasse para a gangue,” disse Nagisa, “nós corremos e conseguimos nos esconder deles.”

Sanjuro ergueu uma sobrancelha. “Foi assim que conseguiram escapar? Que sortudos...”

Ela continuou, “Hoje viemos para escola de ônibus para evitar.”

“Eu não acredito!” Ayako se revoltou. “Nós temos que avisar a polícia!”

“E o que eles vão fazer?” perguntou Sanjuro, “escoltar o marica? Só porque tem uns garotos querendo tornar ele um homem?”

Ayako semicerrou o olhar para o seu namorado. “Você só não quer fazer isso porque eles são seus velhos amiguinhos...”

“Errado.” Sanjuro estava tranqüilo, cruzando os braços. “A polícia não pode fazer muita coisa, pois a maioria é de menor. Eu conheço bem a gangue e posso afirmar que este casal tem uma chance.”

Aki se inclinou sobre a mesa. “Qual?”

“Takuma quer provar que pode ser mais, mas no momento ele ainda é um peão na gangue,” disse o outro garoto, “eles não irão ajudá-lo só porque ele quer.”

“Mas eles estavam me esperando na estação...”

“Porque Takuma disse! Era óbvio!” Sanjuro apontou para Nagisa. “Vocês dois devem continuar o que tão fazendo. Se conseguirem evitar o Takuma, não terão problemas.”

Nagisa ponderou, “Era algo que eu estava pensando... Como podemos evitar Kuroki-kun se estudamos na mesma sala.”

“É!” Aki estava mais desesperado. “Quando sairmos da escola, ele vai nos seguir!”

Ayako assentiu lentamente, começando a sorrir. “Certo, desafio aceito.”

/人 ‿‿ 人\

A última aula. Os últimos minutos.

Nagisa e Aki já colocavam o que podiam em suas malas disfarçadamente, enquanto se entreolhavam. Algumas vezes, eles espiavam Takuma, que também estava ansioso.

O sinal tocou.

O casal deixou suas carteiras e se apressou para sair da sala. Eles sentavam mais perto da porta do que Takuma, isso lhes davam uma vantagem.

Mas eles precisariam de mais.

Vendo eles correrem, Takuma também se apressou para sair.

A porta, no entanto, fora obstruída por Ayako Kinomoto. “Eu quero falar contigo.”

“Sai da minha frente,” Takuma disse em um tom ameaçador.

Outros alunos também ficaram impacientes. “Ei! Deixa a gente ir embora.”

“Kinomoto-san, o que está fazendo?” perguntou o professor.

Ayako cruzou os braços. “Eu vou parar, só preciso que o Kuroki me prometa que não vai mai-”

Takuma a agarrou e tentou tirá-la do caminho à força.

“Você... hgnnn... não vaihhhgn!” Ela lutou, mas a diferença de força era demais. Logo ela caiu de bunda no corredor.

“Kuroki-san!” O professor chamou a atenção.

“Ela se jogou, tá de birra,” disse ele.

“É, professor!” Outros alunos já estavam saindo, evitando tropeçar nela.

Takuma os seguiu, mas não antes de trocar olhares com Sanjuro. Ele apontou o dedo. “Essa é última vez que você me decepciona.”

“Kuroki-san! Chega de ameaças!” O professor não tinha certeza se o garoto ouvira, pois ele correu pelo corredor, outra atitude deplorável. Contudo, havia outro estudante para lidar na saída da sala. “Kinomoto-san, espero que isso não se repita ou se considere escalada para a próxima limpeza dos banheiros.”

Ayako continuava sentada no chão, vendo o professor saindo, quando Sanjuro chegou mais perto.

“Satisfez o seu masoquismo?” disse ele.

Ela deu de ombros e sorriu. “O que importa é que deu certo.”

Aki e Nagisa saíram da construção e atravessaram os portões da escola, driblando os estudantes no caminho.

“Hidaka-kun, nós não podemos deixar que Kuroki-kun veja a gente pegando o ônibus. Temos que ir em uma parada longe da escola.” Por não ter recebido nenhuma resposta, Nagisa olhou para trás. “Hidaka-kun?”

Aki estava ficando para trás, pois mancava, sua mão na coxa. “Ah... D-Desculpe...”

Nagisa voltou. “Tudo bem.” Ela o ajudou a correr, puxando pelo braço. “Só mais um pouco, a rua é logo... ali...”

Os dois pararam e ficaram boquiabertos.

Entre eles e a rua, em meio aos estudantes que iam embora, estava Michiru. Ela olhava para eles, sorrindo, enquanto mexia em sua bola sobre a palma da mão com o polegar.

“Por que essa garota estranha está aqui?” Aki olhou para trás.

Nagisa não podia responder, mas sentiu certo conforto em ouvir aquilo dele.

Atrás deles, ainda distante, Takuma apareceu correndo. Ao avistá-los, o garoto sorriu com malícia e começou a andar.

Aki se desesperou. “Takuma nos alcançou! Estamos perdidos!”

Na situação ruim em que eles estavam, Nagisa buscou resolver o problema que podia. [Madoka! Ela está aqui! Michiru está na saída da escola!]

[Isso me parece urgente. Estou indo!]

A resposta rápida era tudo o que ela precisava, o tempo era precioso. “Hidaka-kun, vamos até ela.”

Aki arregalou os olhos. “O quê?! Por quê?!”

Nagisa tentou colocar um pouco mais tranqüilidade em sua voz. “Talvez ela esqueceu de dizer algo para nós, pode ser importante... né?”

Eles se aproximaram da garota com a bola.

“Onde está ela?” perguntou Michiru.

“Ah...” Nagisa pôs a mão na testa. “É verdade...”

Michiru fez sua bola quicar no chão.

Aki ficou confuso. “O quê?”

“Enquanto eu conversava com ela ontem, ela mencionou que estava procurando alguém. Eu sei quem é, ela é amiga da Mami, e estuda nessa escola,” Nagisa explicou, enquanto olhava para trás. [E ela está vindo. Só espere mais um pouco.]

“Isso mesmo,” respondeu Michiru. [Sem problema.]

Takuma havia parado, observando eles a distância.

Nagisa sorriu de leve. Ele devia estar confuso ou sendo cauteloso com a desconhecida garota. De qualquer forma, o tempo era precioso e ela havia ganhado um pouco mais.

Michiru olhou bem para Aki. “Você parece assustado...”

“Eu?” O garoto abaixou a cabeça, com um sorriso nervoso. “Não...”

“O medo faz as pessoas dizerem mais mentiras do que verdades,” disse ela enquanto deixou sua bola quicar, “agora me diga, Akkun, do que você tem medo?”

Aki pressionou os lábios e falou em voz baixa, “De você...”

Michiru ergueu as sobrancelhas, “Tolice. Eu sou muito prestativa. Para os que não pedem, mas precisam.”

Nagisa não gostava nem um pouco da conversa e do desconforto de Aki. Madoka, por favor...

Michiru tinha uma impaciência similar. “Como uma deusa pode demorar tanto?” Ela guardou sua bola no bolso do jeans.

Aki se espantou. “O que disse?”

Se ela pudesse fazer um contrato novamente, Nagisa desejaria que aquela garota fosse mais... sutil. Ela não tinha idéia de como inventar uma explicação, e talvez até o silêncio fosse melhor. Aki já achava ela estranha, a partir disso não faltava muito para considerar que ela era louca.

A garota tirou de seu bolso uma caixa de giz de cera e a chacoalhou perto de seu ouvido.

Para a completa confusão de Aki.

Ela abriu a caixa e bateu contra a palma da outra mão, até sair um giz de cera amarelo, do qual ela levou até o nariz e cheirou.

Nagisa olhou intensamente para ela e fez um ‘não’ com a cabeça.

Decepcionada, Michiru revirou os olhos e guardou a caixa no bolso. Enquanto pegava a bola de volta, apontou o giz para Aki. “Você já pensou em usar um desses em seus rabiscos?”

Ele nem piscava o olho. “Não...”

Havia outra pessoa que estava estupefata.

Merda! O que essa garota tá fazendo? Ela é amiga da Momoe? Será que eles estão esperando uma carona? Takuma pegou o seu smartphone. Será que eu aviso o Hiro? Se alguém ver a gangue andando perto da escola e dedurar, pode sobrar pra mim. Então uma garota de cabelo rosa passou correndo ao lado dele.

“Oi! Desculpe a demora,” Madoka veio acenando.

“Oie! Está tudo bem.” Para Nagisa, com certeza melhor que antes. “Hidaka-kun, essa é a amiga da Mami, Madoka Kaname.”

“Ah...” Era uma garota mais velha. Aki já suspeitava disso, mas mesmo assim ele ficou encabulado. “Oi... Eu sou Aki Hidaka, prazer em conhecê-la, Kaname-senpai.”

“Não precisa ser tão formal.” Ela sorriu. “Pode me chamar de Madoka.”

“E... onde está Homura-chan?” Nagisa perguntou, olhando para a escola e, conseqüentemente, para Takuma também.

“Eu deixei ela para trás, com as papeladas do clube.”

Nagisa ficou perplexa. “Vocês estão em um clube?”

“Acabamos de entrar! É o de culinária.” Madoka fez uma careta e sussurrou. “Ela é ruim na cozinha.”

Nagisa desviou olhar e sorriu. “Sim...”

Michiru estava incrédula, examinando-a. “Você? Madoka? Onde está o seu cabelo? E o seu vestido?”

Madoka deu uma piscadela. “Eu posso mudar de visual, não posso?”

Michiru jogou a bola para cima e a pegou de volta. “Hah! Se as garotas da Lei dos Ciclos te vissem assim...”

Nagisa não sabia onde por a cara.

“Eh?” Aki perguntou, “lei dos ciclos? O que é isso?”

Nagisa olhou para Madoka, quase desesperada.

Mas a outra garota mantinha um sorriso sereno. “É um clube de garotas.”

A bola quicou.

A face de Nagisa iluminou-se. “Isso! Isso... É o nosso clube secreto de garotas. Você teve o privilégio de saber, Hidaka-kun. Hehe...”

A bola quicou.

“Hmmm...” Aki ficou pensativo. “Mas se você e Mi-tan fazem parte do mesmo clube, então você a conhece.”

“Bem...” Nagisa deu de ombros. “é um clube grande, tem muitos membros...”

Dessa vez a bola não quicou, Michiru deliberadamente arremessou a bola contra o chão. Ela voltou com tanta força que fez um som alto de impacto quando a mão tensa dela a agarrou com firmeza. “Você quis dizer um grande clube secreto de garotas.”

“Isso mesmo.” Nagisa ficou embaraçada.

“HihihihihihahAHAHAHAHAHA!”

Aquela risada sinistra. Aki sentiu calafrios. “É um nome m-meio estranho para um clube...”

Takuma continuava no mesmo lugar, sem idéia de como agir. Agora tem essa garota mais velha, outra amiga... Momoe não é uma nova estudante na escola? Se tivessem uma carona, já teria vindo. O que está acontecendo? Uma reunião? Ele sentiu uma presença.

Ao lado dele havia outra pessoa observando o grupo, uma garota, com longas tranças negras e um olhar de violeta frio. Apesar dela não estar olhando para ele, Takuma se sentiu sendo observado.

Risadas de crianças.

Aquele súbito som, tão perto de seu ouvido, chamou a atenção dele. No entanto, ele não encontrou nada. Achando aquilo muito estranho, ele voltou a checar a garota.

Ela agora olhava para ele, em uma expressão séria, nem piscava.

Takuma tomou um susto, lhe deixando desconcertado. Merda! A sensação de mal estar persistiu, além da vergonha, fazendo-o decidir em ir embora. Beleza, se Momoe tem amigos, eu também tenho.

Nagisa e Aki o viram passar perto deles e continuar, até desaparecer em uma esquina.

Enquanto isso, Madoka notava a presença da observadora. “Ah, Homura, aí está você...”

Ela se aproximou do grupo.

Homura sempre mantinha um olhar de poucas emoções, mas para Nagisa havia uma ligeira diferença hoje. Ultimamente era um olhar cansado, mas agora pareciam mais inquisitivos, como já foram em um passado que ela não gostava de lembrar.

Aki sussurrou, “Acho que o Takuma desistiu.”

“Sim, vamos na direção contrária só por precaução,” após responder, Nagisa anunciou, “nós vamos indo.”

“Tchau Nagisa-chan! Hidaka-kun!” Madoka acenou para eles. “Mande lembranças para Mami-san por mim. Temos que combinar uma visita.”

“Farei isso! Tchau!”

“Tchau Momoe-san...” Homura ficou olhando para o garoto.

Comparado com Madoka, Aki não se sentia confortável com aquela garota, mas não era tão estranha.

“Tchauzinho~” Com o casal já longe, Michiru colocou o giz de cera por inteiro em sua boca. Enquanto mastigava, ela ficou observando Homura e disse de boca cheia, “Hmmm... Você me parece familiar...”

Homura olhou de relance para Madoka.

“Michiru-chan, ela é da Lei dos Ciclos.”

“Eu percebi...” Homura cutucou o seu queixo. “Oh... Eu acho que esqueci alguns papéis do clube na escola.”

“Sério?” Madoka ficou surpresa.

Michiru fez sua bola quicar.

Homura abriu a sua mala e começou a vasculhar. “Talvez eu esteja enganada, deixa eu checar...”

A bola quicou novamente, Michiru estava curiosa.

Madoka perguntou para ela, “Michiru-chan, quer voltar agora?”

Michiru não respondeu. Ela mal conseguia disfarçar que estava tremendo e abaixou a cabeça.

E o sorriso de Madoka havia desaparecido.

“Não, eles estão aqui, desculpa por ter te causado preocupação.” Homura fechou a sua mala.

“Não, tudo bem...” Madoka então falou para Michiru, “Pode ir, você sabe onde me encontrar.”

A garota de cabelos azulados assentiu e as deixou, ainda cabisbaixa.

Madoka se virou e começou a andar. “Vamos para casa...”

Homura a seguiu, achando aquilo estranho. “Ela queria voltar para Lei dos Ciclos, não é?”

“Sim...”

“Então por que a deixou ir?”

Madoka não respondeu.

Caminhando lado a lado, Homura notou a tensão no semblante dela. “Aconteceu alguma coisa?”

“Sim...”

Mesmo sendo em voz baixa, Homura pode sentir a raiva, a frustração... Ela estava familiarizada com isso, mas vindo de Madoka... “Você não devia guardar isso para si, senão eu não posso te ajudar.”

“Sim... você pode me ajudar.”

Era rancoroso, era irônico. Homura cerrou os punhos.

Madoka franziu ainda mais as suas sobrancelhas. “Quando você pôs a mão dentro da sua mala...”

Naquele momento, era como se as entranhas de Homura estivessem sendo esmagadas.

“... você conjurou uma ampulheta e parou o tempo, para que você pudesse ameaçar Michiru-chan na minha frente.”

Homura procurou sorrir. “Como pode ter essa idéia? Por que eu faria isso?”

Madoka mudou de direção de repente, se afastando.

“Madoka?” Homura a chamou, mas não obteve reação. “Madoka!”

Ela continuou a se distanciar.

A garota de cabelos negros suspirou e a seguiu, mas não teve coragem de alcançá-la.

Elas chegaram até o canal de Mitakihara, onde Madoka parou às suas margens.

Homura manteve uma distância. “Madoka, olhe para mim.”

Ela não se virou.

“Não faça isso comigo, por favor...”

O único som e movimento eram os das águas do canal.

Homura esfregou a face, rangendo os dentes. Ela olhou envolta, confirmando que não havia ninguém por perto, depois para Madoka.

Ela continuava de costas, como uma estátua.

Então Homura exasperou, “Ela é uma bruxa perigosa! Eu nunca consegui acabar com ela!” Ela respirou fundo e continuou, “se ela começar a espalhar seus lacaios pela cidade...”

“Ela não vai fazer isso,” disse Madoka.

“Como você pode ter tanta certeza?” Homura abriu os braços.

“Você não confia em mim?”

“Eu prometi que iria confiar...” Homura abaixou a cabeça. “Eu... amo você, mas eu não compreendo...”

“Então pergunte para mim.” Madoka assentiu. “Quais são as suas dúvidas?”

Homura virou o rosto e suspirou, juntando coragem para proferir um nome, “Oriko Mikuni.”

Madoka se manteve em silêncio.

“Ela e as outras duas. Suas gemas já se tornaram sementes e elas não contribuem com a sua missão nesse mundo. Por que mantê-las aqui?” Homura continuou, “creio que isso também vale para Tomoe-san agora.”

Madoka balançou a cabeça, “Elas não pediram para voltar, então não vejo por quê...”

“Como?!” Homura arregalou os olhos. “Você ainda se lembra do que aconteceu na casa da Mikuni-san?”

“Sim e nós evitamos,” respondeu Madoka, “e a causa foi por justamente ainda haver gemas da alma. Esse incidente não vai se repetir.”

Homura não disse mais nada.

Mas Madoka não terminaria ali. “Mas não é isso que mais te preocupa, não é? Não ao ponto de fazer o que fez.”

Não tinha como negar. Homura falou, “Essa missão. Você enviou garotas para todos os cantos do mundo com intuito de resgatar todas garotas mágicas e bruxas que restam.”

Madoka levemente abaixou a cabeça. “Isso.”

“No entanto, Incubator não parou completamente com os contratos, ele faz com o seu conhecimento e permissão.” Homura desviou o olhar e mordeu os lábios, respirando fundo antes de afirmar, “Eu não consigo ver um fim nisso.”

“Homura...” Madoka fez uma pausa antes de continuar, “seu desejo salvou a minha vida.”

A outra garota estremeceu.

“E o meu desejo trouxe esperança para nós todos... Eu não posso ignorar esses milagres e negar essa oportunidade para outras garotas.”

Homura complementou, “E mais maldições para você.”

Madoka ergueu a cabeça.

“Madoka, não importa o que disser, eu prometi que eu iria confiar em ti. Eu sempre irei te seguir, mas eu preciso saber.” Homura semicerrou o olhar. “Bruxas ou pessoas?”

A garota de cabelo rosa se virou.

Deixando Homura perplexa.

Incredulidade, fúria, dor... Uma mistura que marcava a face de Madoka naquele momento. “BRUXAS SÃO PESSOAS!”

Homura a viu correr em sua direção. Não sabia o que fazer, deu um passo para trás.

Madoka a abraçou com força. “Eu não quero uma seguidora... Eu quero Homura sendo Homura!”

A garota com tranças estava de braços abertos, incapaz de dizer uma palavra.

Madoka recostava sua cabeça no ombro dela, a voz era chorosa, “No entanto, nossas palavras não se encontram. Um ‘bom dia’, ‘olá’, ‘Que bom te ver’... os mais simples. Nós... ainda nós...”

Homura colocou seu braço atrás da garota. Era conveniente, compartilhar o abraço, mas sua mão não chegou a tocá-la.

“Mesmo estando assim, tão próxima de ti, é como se houvesse algo entre nós. Invisível, um cruel constructo que os nossos destinos nos reservaram.” Madoka esfregou sua face no corpo dela. “Mas eu espero conseguir te tocar com a minha alma, da qual essas palavras carregam.”

A mão dela tremia, uma grande guerra era travada dentro Homura, feita de emoções, onde não havia vencedores.

“Eu te amo.”

E a mão se fechou. Homura usou ambas para afastar a outra garota.

Madoka ficou boquiaberta.

“Estou satisfeita com a sua resposta.” Homura sorriu, mas sua voz era fria. Depois de um momento de silêncio, ela se virou. “É melhor irmos ou o seu pai pode começar a se preocupar.”

Madoka franziu a testa. “H-Homura!”

Ela virou o rosto, sorrindo. “Eu sei, você me ama, estou realmente feliz em ter ouvido sua voz dizer isso.” Seus lábios estremeceram. “Eu não tenho mais dúvidas.”

Com isso, Madoka viu Homura se distanciar e, se ela não a seguisse, a pessoa que ela amava ficaria sozinha.

Notas finais
Próximo capítulo: Colapso