Amor
14 Colapso
A água que caía do chuveiro parou, o banheiro estava tomado pelo vapor.
Mami saiu do box, usando uma toalha para secar o seu corpo e então o cabelo. Ela apertava suas mechas loiras gentilmente, um esforço consciente para que as preocupações não lhe distraíssem dessa delicada tarefa.
Não vi Sasa-san de novo.
Ela passou a toalha no espelho embaçado.
Será que ela não está indo para a escola? Depois da visita...
Ela apertou uma mecha mais do que devia.
Eu não devia pensar assim. Ela pode estar doente, é isso.
O cabelo de Mami estava úmido e pesado, mas não pingava mais.
O que eu preciso saber é se Mikuni-san está me seguindo. Eu poderia perguntar, mas se há um motivo escuso da parte dela, ela negaria, mentindo...
Seus pensamentos foram sobrepujados por uma sensação. Uma gotícula escorria pela pele de seu seio e da aréola. Mami removeu com a mão e examinou no espelho se não havia outra parte ainda molhada.
A pele estava seca, ou melhor dizendo, fresca. Mami se lembrou dos tempos na escola de Mitakihara, quando as outras garotas elogiavam a pele dela. Não que houvesse algo especial, a pele era normal, talvez normal demais. Sem espinhas, pêlos encravados, erupções, descamações... Ela não via um novo sinal na pele desde que fez o contrato. Essa era uma benesse por ser uma garota mágica.
Mas agora...
Mami examinou a sua mão. As veias contrastando a pele clara, que se esticava e formava vincos, se adaptando a aparente carne e ossos embaixo. Ela voltou se olhar no espelho, seu peito expandindo com a respiração. Ergueu um braço, levantando um pouco o seio e deixando as costelas expostas. Ela tateou e pressionou, sentindo as diferenças de densidade.
Seus clones feitos de laços eram convincentes, principalmente na aparência e textura. Se sofressem pressão, porém, alguém atento notaria que eram ocos e sem vida.
Mami sentiu as batidas do seu coração.
Ser um simulacro perfeito era o mesmo que ser o original?
... se esquecermos do que nos fazia humanos...
Ela balançou a cabeça, tentando tirar essa idéia de sua mente. Não se devia pensar assim, não devia duvidar. Era o seu reflexo que estava no espelho, seu rosto, seu corpo...
Sua mão acabou tocando nos seios novamente. Ela sorriu. Nagisa os achava grandes, mas sem a ilusão e imaginação que as vestimentas podiam proporcionar, eles apenas tinham um tamanho... saudável. Sua cintura fina compensava seus quadris não tão largos, do qual as saias também ajudavam na ilusão. As pernas eram sua parte favorita, com graciosas proporções.
Sua figura chamava a atenção, não podia negar, pois muitas evidências pesavam a favor. Eram traduzidas em olhares de garotos, cartas afetuosas e até confissões. Sempre negou os avanços, usando como desculpa o fato de estar ocupada tentando viver sem os pais. Havia certa verdade nisso, mas o principal motivo era simbolizado pelo anel em sua mão esquerda.
Ela estava ocupada em ser sozinha.
Com a outra mão, Mami alisou o seu ventre. O tempo passou e houve muitos acontecimentos, alguns além de sua compreensão, mas ela tinha que continuar segura. Esse era o seu reflexo, dotado de feminilidade.
Seus dedos alcançaram a pele sensível da aréola. Em uma brincadeira inocente, ela circulou envolta do mamilo.
Arrepios.
Os mamilos enrijeceram. Um formigamento avançou rapidamente para sua genitália, onde se deu início a uma sensação de pressão e calor, além de um vazio dentro de sua virilha.
Mami sobressaltou-se. Era natural, mas incrível diante das circunstâncias. “Ora... que absurdo...”
“O que é absurdo, Mami-senpai?”
Uma garota baixinha e pelada agarrou-se ao seu braço. “S-Sasa?!”
Ela esfregou a sua bochecha no ombro de Mami. “Por que está assustada? Até parece que viu um fantasma...”
Pele com pele, a loira sentiu o calor crescer. Contudo, ela tinha certeza que havia uma única explicação sobre a outra. “Você não é Sasa-san.”
Ela deu um sorrisinho, erguendo as sobrancelhas. “Vamos pretender que eu sou. Não que você possa notar uma diferença...”
A mão da garota afagou a parte inferior do seio de Mami e deu leves toques na ponta do mamilo com o polegar. “O-O que está fazendo?”
“O que você está desejando.” Ela beijou o ombro. “Não se preocupe, não vou contar para ninguém.”
A outra mão de Sasa deslizou pelas costas em direção a bunda, fazendo o corpo delgado de Mami arcar. “Isso é... errado...”
“Não tente me enganar!” Então Sasa sussurrou, “Eu sei o que você pensou a respeito de Homura e Madoka.”
Mami franziu a testa.
“Homura confessou seu amor por Madoka e você sabe que é recíproco. Um amor além da amizade...” Sasa continuava com as carícias. “Agora vivem sob o mesmo teto. Imagine o que elas fazem quando estão sozinhas, certo?”
Mami pousou sua mão sobre a de Sasa que estava em seu seio. “Deve ter sido uma idéia boba de momento.”
“Mas não foi a única! Não tente ignorar suas memórias.” A mão de Sasa desceu pela cintura até os quadris. “Kyouko e Sayaka também. Em noites escuras e frias, se elas não encontram um lugar para ficar, elas devem estar dormindo juntas... e você gastou muito dinheiro para isso.”
Era como se estivesse confessando seus pecados para si mesma. Um sentimento de culpa floresceu em Mami. Como eu sou egoísta.
“Longe disso!”
Mami ficou surpresa com a resposta.
“Você não pode esconder nada de mim.” Sasa removeu uma mecha de cabelo úmida do rosto da loira. “Você é uma boa garota, Mami-senpai. Não há nada de errado em querer afeto. É claro que nunca cogitou em ter esse tipo de relacionamento com Kyouko, ela é nossa família, assim como Bebe. Isso seria doentio.” Ela abriu um sorriso maior e cheirou a pele da outra garota. “Mas eu? Eu sou perfeita...”
Mami sentiu a mão que estava em seu quadril ir até o seu umbigo e então descer. “E-Espere...”
“Relaxa. Sua vida ultimamente tem sido tão estressante quanto entediante. Você merece um pouco de prazer.”
Ela não tinha como relaxar. Mami cobriu sua boca enquanto seu corpo tensionava. As mãos de outra pessoa alcançaram partes onde ninguém além dela mesma haviam tocado, era diferente e intenso.
Sasa riu. “Fufufu... Assim está bem melhor.”
Mami não conseguia segurar os movimentos de seus quadris e as pernas tremiam. Era uma sensação torturante de tão boa e a busca pelo alívio fazia ela desejar mais.
“Não tão rápido.” Sasa parou o que estava fazendo e se pôs entre Mami e a pia, com a sua frente se refletindo no espelho. “Eu sei que a minha senpai é muito generosa e se sentiria mal se não retribuísse.”
A garota baixinha tinha um rosto jovial e inocente, com belos olhos azuis, mas o corpo era bem desenvolvido. Mami nunca imaginou que estaria com outra garota pelada em um momento tão íntimo.
Não aguardando mais, Sasa pegou a mão de Mami e guiou.
A loira acabou abraçando ela, os corpos se roçando, as mãos sobre a barriga. A pele lisa, um pouco fria, se esticando.
Sasa fechou os olhos e suspirou, expondo o seu pescoço.
Mami explorava curvas que não eram suas. Suas mãos foram subindo até os seios, observando tudo pelo espelho. Sua expressão refletida nele não mentia, ela estava deslumbrada com essa nova experiência.
Então notou.
Os seios de Sasa eram menores, mas os mamilos e as aréolas eram idênticos aos dela, tanto em cor, tamanho e forma.
“Oh... Você me pegou.” Sasa abriu os olhos. “Eu tive que preencher algumas lacunas.”
“O-O quê...” Mami ficou estarrecida.
“Mas você pode resolver isso, agora que perdeu um pouco do medo. Convide Sasa mais vezes, se aproxime mais, torne isso mais íntimo e então-”
O corpo de Mami e Sasa se arrebentaram em dezenas de laços que se espalharam pelo banheiro.
Ao se dar conta, Mami viu que estava caída em uma cratera com paredes lisas. Havia um buraco com bordas de metal no centro daquilo. Era um lugar bizarro, mas ela reconheceu o teto do banheiro que estava além da cratera. Logo notou que acima dela havia uma torneira gigante.
Tudo ficou claro.
Mami tentou olhar para as suas mãos, mas os seus braços eram apenas laços amarelos. Ela flutuou, saindo da pia.
No espelho estava o reflexo de uma pequena boneca, com uma flor como uma cabeça. Mami deslizou um de seus laços sobre o vidro, sobre a imagem, esse era o seu rosto, seu corpo...
E então a flor murchou.
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Em uma nova manhã, Nagisa saiu do apartamento com o uniforme da escola e mala, indo até o elevador. Ela o colocou para subir.
Chegando ao último andar, ela confirmou se não havia testemunhas antes de subir a escada para topo do prédio.
Seria um dia com muitas nuvens, talvez até fosse melhor assim. Envolvida por uma luz laranja, ela adquiriu seu uniforme de garota mágica e saltou.
Não um mero salto, mas longo e alto. Se alguém olhasse para o alto, talvez visse um estranho pássaro passando em velocidade.
Ela pousou em outra construção e saltou novamente, com um destino bem definido. O endereço de Aki não havia mudado em relação ao outro mundo onde eles se encontraram. Todavia, ter mandado uma mensagem perguntando deixava tudo mais convincente.
Felizmente, o condomínio dele ficava em ruas desertas naquele horário. Nagisa pousou contra uma parede e deu um salto mortal triplo de costas, enquanto suas roupas evaporavam.
A idéia tinha funcionado. Seu uniforme escolar não ficara amassado e a touca de seu uniforme mágico havia protegido o cabelo.
Ela se aproximou da entrada do condomínio e ouviu o portão sendo destrancado. Nagisa rapidamente se recostou no muro, pernas juntas, mala na frente delas, com ambas as mãos segurando a alça.
Um garoto loiro apareceu, vendo sua namorada esperando de forma recatada por ele.
Nagisa sorriu.
Aki também, mas não por muito tempo.
Já no ônibus, eles tiveram mais sorte dessa vez para encontrar um espaço.
Nagisa, contudo, via que seu namorado estava triste, se não cansado. “O que foi?”
Aki perguntou, “Acha que vamos conseguir escapar do Takuma hoje?”
“Sabemos que ele desistiu ontem,” respondeu ela, “e se ele tentar nos seguir de novo, não se esqueça que temos ajuda.”
“Certo... e amanhã? Na próxima semana? Mês?” Aki balançou a cabeça. “Mesmo que por um milagre nós consigamos. Não quer dizer que eu não possa cruzar com os garotos na rua. Eles sabem onde eu moro...”
“Eles querem tanto você assim?”
Aki virou a cara.
“Você está escondendo algo?” Nagisa insistiu. “O que está te preocupando?”
“Momoe-san...” Aki suspirou antes de continuar, “você ia para a escola a pé e agora, por causa de mim, você está gastando dinheiro para fazer três jornadas de ônibus.”
“Ah...” Ela desviou olhar. “Eu estou tirando da minha mesada. Eu estava usando isso para comprar queijo ou alguma coisa boba na padaria.”
Ele voltou a olhar para ela. “Até quando vai fazer isso? Para sempre?”
“Se for preciso.” Mas não era possível, Aki tinha razão. Nagisa não tinha uma mesada, mas algumas economias do dinheiro que Mami dava para comprar um lanche extra. O plano era fazer isso por alguns dias, até Madoka vir com a resposta. Devido à necessidade de confirmação, ela não podia dizer isso a ele. Não podia dar falsas esperanças.
Eles chegaram à escola e na sala de aula. Assim que Nagisa sentou, Ayako veio ao seu lado sussurrando, “Nós temos um plano hoje.”
“Plano?” Nagisa olhou de relance para Sanjuro.
“Educação física é uma das últimas aulas,” Ayako explicou, “no vestiário, Sanjuro vai pegar o smartphone do Kuroki e mudar o toque de chamada, para algo bem ridículo, e a trava de tela. Assim, na saída da escola, vamos chamar o número dele e fazer ele passar muito vergonha.” Ela abafou o riso. “Ele deve desligá-lo, mas até lá vocês já vão estar longe.”
Nagisa franziu a testa. “E o Sanjuro-kun aceitou fazer isso?”
Ayako pôs as mãos na cintura. “Ele é meu cachorrinho e isso é como se fosse sua segunda natureza. Coisa fácil.”
“Agora somos nós que estamos aprontando...” Ela abaixou a cabeça.
A outra garota deu de ombros, erguendo uma sobrancelha. “Kuroki merece, né?”
O professor entrou na sala.
“No intervalo eu mostro o toque que vamos colocar. Hihi.” Ayako voltou para a sua carteira.
Takuma entrou na sala com um sorriso malicioso, enquanto olhava para o casal.
Nagisa notou Aki tentando ignorá-lo. Seu namorado tinha razão, a situação era insustentável.
As aulas se seguiram até o horário do almoço.
Takuma foi um dos primeiros a sair, novamente olhando para o casal.
Isso deixou Nagisa preocupada.
Não somente ela. Ayako disse enquanto chegava perto, “Ei, eu e o Sanjuro vamos na frente. Podem esperar um pouco?”
Aki saiu de sua carteira, olhando para ela. “Vocês vão ficar de olho no Takuma, certo? Acha que ele está tramando alguma coisa?”
Ayako ficou um tanto surpresa que ele havia entendido. “Pode ser um pouco de paranóia minha, mas não custa nada ter um pouco de cautela.”
“Vamos.” Sanjuro foi até a saída da sala.
Ayako o seguiu. “Se nós encontrarmos um movimento suspeito, eu volto correndo para avisar. Vejo vocês em breve.”
Nagisa sorriu e acenou.
A sala havia esvaziado, salvo por alguns estudantes que conversavam. Comer era proibido ali.
Aki olhava através dos painéis de vidro o corredor já quieto. “Será que está tudo bem?”
Nagisa saiu de sua carteira. “Vamos indo devagar.”
Eles caminharam em direção ao refeitório, onde Ayako e Sanjuro deviam estar aguardando. Eles se aproximaram de uma escadaria onde havia um movimento maior de estudantes.
Felizmente, nenhum deles era Takuma. Nagisa estava convencida, “Parece que nos preocupamos demais por nada. Ele não vai tentar nada dentro da escola.”
Contudo, antes de descerem os degraus, Aki parou.
“Hidaka-kun?”
O garoto falou, “E se ele estiver me esperando no refeitório?”
“Mesmo se ele estiver...” Nagisa deu de ombros. “O que ele pode fazer?”
“Hã?” Ele ficou curioso.
“Ele vai chamar você de marica? É isso? Ou falar mal do nosso relacionamento. Eu não me importo e você também. Ele não vai tentar algo pior, ele não tem o apoio da escola inteira.” Ela sorriu. “E não se esqueça. Eu estarei conti-”
Aki viu sua namorada ser lançada violentamente para frente. A mala voou enquanto o corpo dela rolou pela escadaria como se fosse uma boneca sem vida.
Os outros estudantes pararam, assistindo aquela cena assustados.
Com o corpo retorcido dela de bruços, a saia levantada, Aki não conseguia acreditar, aquela não podia ser Nagisa, não podia ser real.
“Volta pra gangue.”
Um sussurro. Aki se virou e viu um garoto se afastando. Mesmo vendo ele apenas de costas, Aki tinha certeza que era uma pessoa completamente desconhecida. Então ele voltou a olhar para Nagisa.
Ela tinha começado a se mexer.
“Momoe-san!” Ele desceu a escadaria o mais rápido que pôde para ajudá-la. “Momoe-san! Não se mexa!”
Mas ela continuou a se mexer. Ela arrumou a saia e jogou o cabelo para trás, mostrando que não havia nenhum machucado.
Para a surpresa de Aki.
Confusa e ainda caída no chão, Nagisa olhou para o topo da escadaria. “Acho que alguém me empurrou. Você está bem?”
“Se eu estou bem?” Aki deu um passo para trás, incrédulo. “Eu estou bem. Eu estou bem. Eu estou bem.”
Nagisa olhou para ele, mais confusa ainda.
Ele rangia os dentes, lágrimas vertendo de seus olhos. “Eu estou bem! Eu estou bem! EU ESTOU BEM!”
O berro foi seguido por cochichos dos outros estudantes, “Nossa, o garoto pirou.”
Ouvindo aquilo, Aki esfregou os olhos e saiu correndo, descendo outro lance da escadaria.
“Hida...” Nagisa estendeu a mão, mas de seu namorado ela só obteve os sons dos degraus. “... ka-kun...”
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