Amor
15 Dies irae
Estava se tornando uma rotina, com Nagisa esperando pelo seu namorado no portão do condomínio, mas dessa vez ela não conseguia esconder a preocupação.
O portão abriu e Aki apareceu cabisbaixo, com um semblante tenso. Quando a viu, ele desviou olhar.
Nagisa pressionou os lábios, não haveria sorrisos.
Não houve incidentes para pegar o ônibus. Eles chegariam à escola sem atrasos.
Mas Nagisa não podia considerar aquela viagem normal e essa certeza crescia a cada segundo de silêncio. “Hidaka-kun, desde o ocorrido de ontem, você quase não fala comigo...”
O garoto loiro não olhou para ela. “Desculpe.”
Uma resposta curta, mas já era um começo. “Olhe, eu sei que você ficou aflito, mas eu não me machuquei. Só precisamos... só precisamos prestar mais atenção nas escadarias e então-”
“Momoe-san,” Aki interrompeu, “vamos ao esconderijo hoje.”
Boquiaberta, Nagisa assentiu. “Certo...”
Ele continuou, “eu não quero mais que Kitomono-san se envolva com isso.”
“Concordo,” disse ela, “ela quer ajudar, mas ela está indo longe demais com esses planos, querendo irritar Kuroki-kun. Ainda bem que ele não nos seguiu ontem.”
Aki virou a face. “Ele nem precisa...”
“O que disse?”
“Nada.”
Nagisa ficou sem o que dizer, ele tinha se fechado novamente.
Eles chegaram à escola. O caminho até a sala de aula levou mais tempo, especialmente nas escadarias. O perigo se escondia entre os alunos.
Nagisa mal teve tempo de sentar antes de Ayako vir e perguntar, “Como você está? Alguma parte inchada? Alguma marca?”
“Nada. Eu tive sorte...”
Ayako ponderou, “Hmmm... Isso não é bom, essa era a nossa chance de fazer Kuroki ser expulso. Não tem uma escadaria onde você mora? Você poderia inventar uns machucados...”
Nagisa arregalou os olhos, franzindo a testa. “Eu não vou fazer isso.”
Ayako pôs ambas as mãos sobre a carteira com certa agressividade. Ela se aproximou da face da outra garota e sussurrou com indignação, “Você foi empurrada escada abaixo! Você podia ter morrido!”
Nagisa olhou para Aki.
O garoto não parecia que tinha ouvido aquilo. Ele estava sendo em sua carteira, com o seu olhar carmesim distante, porém intenso. Seus pés estavam inquietos e seus punhos cerrados.
“Nagisa-chan? Você me ouviu?”
Ela voltou sua atenção para Ayako. “Mas não foi o Kuroki-kun que me empurrou. Não sabemos quem foi.”
A outra garota exasperou, “Mas é claro que Kuroki tá por trás disso!”
Nagisa abaixou o olhar.
“O que você está esperando?” disse Ayako com mais calma, mas dura o bastante, “uma tragédia?”
“Kinomoto~” Uma garota de um grupo próximo a chamou com malícia, “virou babá desse casal agora?”
Ayako olhou para ela, pronta para uma briga. “Vai cuidar da tua vida.”
“Assim como você?” O grupo de garotas deu risadinhas.
Ela respirou fundo e semicerrou o olhar.
“Ayako!”
No entanto, ela se virou para quem chamava.
Sanjuro estava sentado de braços cruzados com expressão séria. Com o olhar, ele apontou para carteira vizinha vazia.
“Hmmm...” Nagisa aproveitou que a tensão havia diminuído para dizer, “Nós não vamos almoçar com vocês hoje.”
Ayako ficou surpresa.
Nagisa esboçou um sorriso. “Nós vamos ficar bem.”
Takuma entrou na sala, dessa vez antes do professor. Ele estava tranqüilo, com certo ar de satisfação.
Vendo aquilo e Nagisa, Ayako não tinha outra resposta. “Tch...” Ela retornou ao seu lugar.
Com a reação de sua amiga, Nagisa cobriu a face. Mesmo que tivesse concordado com Aki, aquilo não teria como ter sido fácil.
As aulas pareciam ser mais longas naquele dia, mas o toque do sinal anunciava que inexorável horário do almoço havia chegado.
Aki saiu de sua carteira e Nagisa o seguiu. Seria uma saída normal, exceto que eles não trocaram palavras com Ayako e Sanjuro, nem com Takuma.
No corredor, como já havia sido acertado, eles foram para um rumo contrário à massa de estudantes.
Nagisa checava o pote de comida em sua mala. “Hoje eu trouxe um queijo que você não comeu. É um Toscanello, o favorito da Mami.”
“Parece delicioso.”
Com a resposta sem entusiasmo dele, Nagisa desistiu de dar mais detalhes. Afinal de contas, um paladar vale mais que mil palavras.
Eles estavam passando na frente dos banheiros quando Aki parou. “Você sabe como chegar até lá, certo?”
“Na porta de serviço perto da biblioteca.”
“Uhum, vá na frente.” Ele entrou banheiro.
“Hmmm... ok... se cuide.” Nagisa continuava preocupada com a atitude distante dele, mas partiu pois aquela seria uma boa oportunidade para ela checar se o esconderijo estava comprometido sem alarmar ainda mais o seu namorado.
Aki espiou para confirmar se ela tinha ido embora e então saiu do banheiro com outra direção em mente.
O labirinto de salas de vidro podia ser uma experiência confusa, até nauseante, mas havia uma utilidade e era o de encontrar alguém. Aki andou apressadamente pelos corredores, procurando através dos painéis.
E ali estava Takuma, andando com outros dois garotos.
Aki evitou o campo de visão deles andando próximo a outro grupo de estudantes, até que conseguiu ficar atrás do trio. Mais próximo, ele pôde reconhecer o garoto que havia empurrado a sua namorada. Os dois garotos desconhecidos deviam ser os que Takuma havia mencionado anteriormente e provavelmente estaria recrutando para a gangue, os novos ‘Sanjuro & Ogai’.
A paz era um luxo que só homens de verdade podem ter e era hora de se tornar um.
O coração de Aki disparou. Ele levou a mão ao bolso e quase foi um choque sentir o cabo emborrachado lá dentro. Se por um capricho do destino estivesse vazio, ele podia desistir, mas agora não havia desculpas. Sua mala sendo carregada pela sua outra mão parecia fazer muito mais barulho, ele a puxou e colocou debaixo do braço.
Takuma estava distraído, conversando animadamente com os outros dois.
Em contraste com Aki, que engolia seco. A mão no cabo suava. Ele se concentrou em seu alvo e apertou o passo.
Mais e mais perto.
Aki olhava para as outras pessoas no corredor, esperando que alguém notasse o seu intento e o impedisse. Contudo, a única pessoa que lutava contra era ele mesmo. O objeto em seu bolso estava muito pesado, seu braço estava preso. Seu corpo inteiro agora suava frio e a garganta subitamente ficara seca, alertando da coisa terrível que iria cometer. Porém não havia escolha, não havia escolha, ele não podia se acovardar com as conseqüências.
Takuma parou e se virou. “Ei, se não é o Aki...”
O coração de Aki pulou.
Um dos garotos perguntou, “Essa aí é o tal marica?”
O outro respondeu, “É ele.”
Takuma se aproximou, sorrindo. “Então você veio fazer a coisa certa, não é mesmo? Ouvi falar que a sua namorada andou tropeçando por aí...”
A mão de Aki ficou mais tensa envolta do cabo. Ele tentava não expressar a sua raiva, não podia falhar.
Mas Takuma, com um bote certeiro, segurou o braço dele. “O que tem nesse bolso?”
Aki deu um passo trás e tentou se libertar, mas o aperto era muito forte. “N-Nada!”
“Mostra aí!”
Com a sua mão sendo puxada para fora do bolso, Aki tentou soltar o cabo, mas era tarde.
O objeto caiu. Takuma o pegou antes que tocasse o chão e examinou a sua ponta metálica e afiada.
Os outros dois garotos ficaram surpresos.
Aki abaixou a cabeça. “É apenas uma chave de fenda...”
Takuma olhou para ele com rancor. “É... apenas uma chave de fenda.”
Aki não teve tempo de resistir, ele foi empurrado e pressionado contra um painel de vidro, deixando a sua mala cair.
O som do impacto alertou os estudantes que estavam dentro da sala para o que estava acontecendo.
“Então o marica deixou as unhas crescerem e pensou que podia lutar, hein?” disse Takuma enquanto pressionava a ponta da chave de fenda na pele logo abaixo do olho de Aki.
Horrorizado, o garoto loiro recuava a cabeça até onde o vidro permitisse.
Os outros garotos voltaram a sorrir. “Ele é fraco mesmo.”
“Claro, ele não teria culhões pra fazer isso,” respondeu Takuma, “mas a namoradinha ordenou.”
Aki arregalou os olhos. “Não... Ela não tem nada haver com isso!”
“Não tente acobertar ela.” Takuma parou de esfregar a chave de fenda na face de Aki e usou ambas as mãos para puxá-lo. “Momoe acabou com a nossa boa amizade, sabia? Ela merece uma lição.”
Aki olhou nos olhos deles, rangendo os dentes. “Vá se ferrar!”
“Não, eu vou ferrar a sua namorada.” Takuma arregalou os olhos, com um sorriso escancarado. “Vou arregaçar o cuzinho dela e você vai assistir.”
Ouvindo isso, o corpo de Aki endureceu e ele tentou empurrar, mas foi ele que foi empurrado novamente contra o vidro. “Agh!”
“Hã? Tentou fazer alguma coisa, homenzinho?” Takuma o chacoalhou. “Vamos! Tenta de novo!”
Estudantes no corredor pararam para ver aquela cena.
Enquanto os outros dois garotos riam.
Aki ficou de cabeça baixa. Ele era fraco, fraco, fraco, fraco, fraco, fraco, fraco...
“Vai chorar?” Takuma pôs sua cara mais perto. “Acha injusto que eu te chame de marica? Injusto é você ter nascido, que desperdício, uma vergonha pros seus pais...”
Aki não esboçou reação alguma.
“EI!” Takuma o chacoalhou com mais força e exasperou, cuspindo na cara dele, “Tô cansado de brincar, eu quero ver você lutar de verdade! Vamos marica! Mostra as tuas unhas!”
A cabeça de Aki estilingou contra o painel de vidro, fazendo-o rachar.
A cabeça e o corpo do garoto ficaram moles, tanto que Takuma quase perdeu o equilíbrio com novo peso que precisava suportar.
A outra dupla de garotos parou de rir.
Estupefato, Takuma olhou para rachadura e para Aki. Ele o chacoalhou de leve. “Ei.”
Sem resposta.
Takuma notou através do vidro os estudantes dentro da sala. Eles estavam assustados, alguns levavam a mão à boca.
Lentamente, um filete de saliva desceu da boca de Aki para a mão de Takuma. Em um ato reflexo, Takuma o empurrou.
O painel de vidro não agüentou e se estilhaçou. O corpo de Aki caiu dentro da sala sob os gritos das garotas e ali ele permaneceu, imóvel.
O garoto de cabelos espetados azuis respirava pela boca e seus olhos negros não piscavam.
Os seus colegas chegaram mais perto para ver o estrago. “Cara, o que tu fez?”
Takuma se virou e brandiu a chave de fenda na frente deles. “O que eu FIZ?!”
Os garotos perceberam então que ele não estava tão confiante quanto havia parecido. “Se um professor vê isso...”
Takuma jogou a chave de fenda no peito de um dos garotos, que segurou o objeto. Ele saiu enquanto passava a sua mão com saliva no uniforme. “Chega de escola por hoje. Tô de saída...”
Atraídos pelo som do vidro se quebrando, mais curiosos apareciam, formando uma roda onde Aki estava caído.
“Ele tá vivo?” “Não sei...” “Gente, o que aconteceu?” “Ele está sangrando.” “Alguém chama o enfermeiro!” “Cuidado com o vidro!”
Foi quando Nagisa viu a aglomeração. Ela tinha esperado demais e sabia que havia algo errado. Ela correu e forçou um espaço entre os estudantes. Quando reconheceu o seu namorado no chão, ela entrou na sala pelo painel quebrado e agachou ao lado dele, ignorando os cacos de vidro. “Hidaka-kun!”
O garoto tinha vários cortes na face, mas eram pequenos. O maior problema é que ele não abria os olhos.
Mesmo com Nagisa o tocando. “Hidaka-kun! Acorda! Hi-HIDAKA-KUN!”
Os outros estudantes observavam consternados com o desespero da garota.
“HIDAAKKAAAAAA!”
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Enfermaria da escola.
Em um cubículo fechado com cortinas verdes, Nagisa estava sentada em uma cadeira ao lado da cama com Aki inconsciente.
A família havia sido contatada e o garoto tinha recebido os devidos cuidados. Havia curativos cobrindo os cortes e um maior atrás da cabeça.
Só restava esperar. Nagisa não sabia quanto tempo havia passado e nem se importava. Ela colocou a sua mão sobre a dele.
O som de apitos ritmados.
Era o monitor mostrando a taxa de batidas do coração, com suas linhas subindo e descendo, assim como o compressor do respirador.
Sua mãe permanecia imóvel, com um grosso tubo em sua traquéia. Pálida, com seus lábios roxos, sem vida, entreabertos.
Nagisa acariciou a mão fria dela, parecia só haver ossos embaixo da pele, mas ela estava feliz por ter esse privilégio. Ela não era uma mera visitante no hospital.
Quanto tempo havia passado? Meses? Anos? Ela não sabia, os dias pareciam iguais ali dentro, mas ela não se importava. Os médicos acreditavam que a presença dela trazia alívio e esperança. Ela acreditava.
Os dedos da mão começaram se mover.
Tomada por surpresa e júbilo, Nagisa olhou nos olhos.
Eles se abriam lentamente. Aki fez uma expressão de dor e confusão.
“Oi...” Nagisa disse com uma voz macia.
Ele não respondeu, ao invés disso tentou trazer a sua mão até cabeça.
“Não.” Ela interveio. “Você consegue se lembrar? Kuroki-kun atacou você e você bateu a cabeça quando foi jogado contra um painel de vidro. Por isso que você está com alguns cortes.”
“Hã?” Aki olhou para ela. “Não foi Takuma que me atacou.”
Nagisa então imaginou que podia ser o garoto que a empurrou no dia anterior, mas as testemunhas estariam enganadas? “Então quem foi?”
“Não...” Aki balançou a cabeça para negar, mas a dor que sentiu revelou que não tinha sido uma boa idéia. “Fui eu... Eu ataquei Takuma, mas eu perdi, eu... falhei...”
Ela franziu a testa. “Por que fez isso?”
“Por quê?!” Ele falou com fúria nos olhos. “Eu vi você caída duas vezes no chão! Foi um milagre não ter se machucado, mas quantas vezes mais isso vai acontecer? Eu tinha que fazer alguma coisa, esse é o meu papel.”
“Seu papel?” Ela ficou confusa. “Que papel?”
“De homem,” ele respondeu sem hesitar, “você é a minha namorada e eu como homem devo protegê-la.”
Nagisa abaixou a cabeça e pressionou os lábios, procurando por palavras. “Eu acho... que não sou tão frágil. Eu posso me defender.”
“Mas todos esperam isso de mim.”
Ela estranhou, levando a mão ao peito. “E quanto mim?”
Ele disse, certo de suas palavras. “Todos, inclusive você.”
Nagisa se levantou de súbito da cadeira, irritada.
Aki estremeceu em sua cama.
Ela ergueu a voz. “Eu não quero um homem, eu quero Aki!”
Ele arregalou os olhos.
Ela se inclinou para ele e repetiu, “Eu quero Aki!”
A expressão de surpresa dele voltou a ser amarga. “Você diz isso agora, mas vai se cansar de mim.”
“O quê...?”
Ele se virou na cama, dando as costas para ela. “Eu falhei como homem.”
“Não, Hidaka-kun...” Nagisa tentou puxá-lo de volta.
Mas Aki revidou com o braço. “Vamos terminar...”
Ela ficou boquiaberta. “Não...”
A voz dele foi ficando mais chorosa. “É única maneira que eu posso protegê-la.”
“Não. Eu não quero.”
“Acabou... acabou...”
“Não! NÃO!”
A cortina se abriu, aparecendo o enfermeiro.
Nagisa olhou para ele e para o garoto que estava na cama. Sabia que não podia mais ficar ali. Ela pegou a sua mala e curvou-se para o enfermeiro. “Perdão.”
Saindo da enfermaria, ela ficou ali mesmo, ao lado da porta. Ela cobriu a face. Espiou entre os dedos para ver se não tinha ninguém a observando.
“Ah... ah...” A dor queria sair, mas ela não permitia, respirando quando podia. Quantas aulas faltavam? Ela não queria participar de nenhuma. Não conseguia pensar, só havia fome. Ela não tinha almoçado ainda...
Então apareceu uma jovem mulher vindo em sua direção. As botas faziam muito barulho no piso duro e ela carregava consigo um capacete de moto. Seu cabelo curto era loiro e seus olhos eram vermelhos.
Nagisa buscou se recompor, não tinha muitas dúvidas de quem seria. “Oi... Você é a mãe do Hidaka-kun?”
“Mãe? Estou tão velha assim...” A mulher sorriu. “Eu sou a irmã dele.”
Um cheiro forte de pasta de amendoim, tão forte que Nagisa podia sentir o sabor doce em sua língua e algo dentro de sua barriga remexeu. “Ah...”
“Você deve ser a namorada dele. Posso ver que ele tem muita sorte.”
Ela virou a face, engolindo o excesso de saliva.
A mulher notou que a garota estava angustiada. “Você sabe como está o estado dele? A escola só nos disse que ele havia brigado com alguns garotos e batido a cabeça.”
“Ele está bem e lúcido,” disse Nagisa, “o enfermeiro me disse que vai formar um galo e seria bom fazer exames adicionais em um hospital, mas a princípio não é grave.”
“Que bom...” A mulher não estava convencida diante daquela cara triste. “Aconteceu mais alguma coisa?”
Nagisa olhou de relance para ela e então balançou a cabeça. “Não...”
“Uhum...” A mulher assentiu de leve, semicerrando o olhar. “Vocês dois tiveram uma briga, não foi?”
“C-Como você sabe?”
“Um bom palpite, afinal eu já tive as minhas.” Ela se aproximou. “Não deve se preocupar, isso é bom.”
Nagisa franziu a testa. “Como isso pode ser bom?”
“Um casal não pode afirmar que tem um relacionamento se não há brigas,” a mulher explicou, “nós toleramos os defeitos do outro até certo ponto, depois tem que colocar as cartas sobre a mesa, por mais feio que possa ser.”
“Então... precisamos brigar.”
“Não é que precisa, acontece, e é importante que aconteça pois é assim que um casal é testado em sua... qual é a palavra mesmo? Hmmm...” Ela esfregou a testa. “Tenacidade? É, essa serve.”
“Então nós falhamos,” Nagisa disse, melancólica, “Hidaka-kun terminou comigo.”
“Então o meu irmão está sendo um idiota, que novidade...” A mulher revirou os olhos. “Olha, ele deve estar de cabeça quente por causa dos garotos mexendo com ele. Isso acontece com freqüência.”
Nagisa juntou as mãos em um forte aperto. “Eu sei...”
“Não ao ponto de ele parar na enfermaria, mas...” A mulher ficou mais séria. “Nossa família pensou em enviar ele para outra escola, mas seria caro ou muito longe, como Kazamino. Ele nos tinha dito que tinha feito as pazes com os outros garotos, mas pelo jeito não.”
Por isso que você não pediu ajuda para a sua família? Nagisa tentava compreender as motivações de Aki. Por que não queria sair dessa escola? Ou...
“Uma namorada é a melhor coisa que aconteceu para ele ultimamente.” A mulher se curvou. “Por isso peço que tenha um pouco de paciência. Acredito que amanhã ele venha lhe pedir desculpas.”
Nagisa ficou surpresa, tanto com aquela atitude como pela responsabilidade que estava recebendo.
A mulher pegou o seu smartphone. “Pode me passar o seu número?”
“C-Claro, mas por quê?”
“Se o meu irmão falar algo sobre você lá em casa, eu te conto.” Ela deu uma piscadela. “Serei sua espiã.”
Nagisa puxou uma mecha de cabelo e desviou olhar. “Eu não acho isso certo.”
“Errado foi o meu irmão querer desistir tão fácil de alguém que ele gosta.”
As duas compartilharam os números.
Ao salvar, a mulher deu uns pulinhos. “Hihi. Me sinto de volta ao ensino médio.”
“Aqui não é o ensino médio.” Nagisa sorriu, encabulada.
“Verdade, mas crianças estão cada vez mais precoces...” A mulher balançou a cabeça. “Estou falando como uma velha agora.” Então ela se dirigiu até a porta da enfermaria. “Bem, espere notícias de mim.”
“Tchau.” Depois de se despedir, Nagisa começou sua ida para o refeitório, mas bem devagar, carregando uma pesada dúvida.
Eu realmente sou a melhor coisa que aconteceu para ele?
/人◕ ‿‿ ◕人\
Era noite no apartamento dos Tomoe.
Mami e Nagisa jantavam juntas e em silêncio.
Nagisa não tinha vontade de falar, considerando os acontecimentos dos últimos dias, mas era um silêncio estranho.
Mami tinha colocado pouca comida em seu prato e não demonstrava nenhum prazer pelo que estava comendo, mantendo uma expressão neutra.
E a comida estava boa, ainda que não fosse fresca. “Hmmm... Mami, como está indo em Shirome?”
“Oi?” A loira piscou olhos antes de entender. “Ah... Tem sido bem desafiador. É uma escola que exige bastante de seus estudantes.”
“Talvez porque é ensino médio.” Nagisa procurou sorrir. “Sabe se Sasa-chan também está tendo dificuldade?”
“Sasa...” Mami parou.
O que acarretou em uma maior preocupação para Nagisa.
Ela balançou a cabeça e começou a abrir um largo sorriso. “Você tem razão. Ela nunca falou muito sobre aulas, testes e notas comigo. Eu como senpai devo ajudá-la se for preciso.” Então ela se levantou. “Você vai querer pegar mais alguma coisa? Eu já vou levando as travessas para a cozinha.”
“Não, eu estou satisfeita,” disse a outra, mais aliviada.
Enquanto lavavam e secavam as louças, foi a vez de Mami de perguntar, “E como você está indo? Você parece preocupada hoje.”
“Preocupada?” Apesar da surpresa, Nagisa já tinha uma resposta na ponta da língua. “Bem, tem sido bem desafiador...”
Mami pôs as mãos na cintura, com uma expressão séria. “Por que não pediu a minha ajuda? Eu não quero ver você com notas baixas.”
“Ah... haha... É que algumas coisas não parecem tão difíceis e eu tento resolver sozinha, sabe, ser independente e tal.” Ela deu de ombros. “Ou peço ajuda para os meus colegas, tentar fazer amizades.”
“Amigos, ok.” A loira assentiu e voltou a secar o que restava. “Mas está avisada, não quero ver notas ruins.”
Era mais uma mentira descarada, tantas que Nagisa sentia um gosto amargo na boca. Contudo, ela tinha continuar com isso, pelo menos até Madoka chamá-la. Ela era a esperança.
“Terminamos.” Mami saiu, acariciando o topo da cabeça de sua protegida. “Eu vou tomar banho primeiro, pode ser?”
“Uhum!” Nagisa foi para o seu quarto e desabou na cama, esparramando seus longos cabelos brancos.
Já com as roupas e a toalha em mãos, Mami se trancou no banheiro.
Nagisa deu um longo suspiro. Se sentia cansada, mas não era físico, algo improvável para uma garota mágica. Ela estava ciente que seria difícil, mas não deixava de ser menos frustrante.
... mas você vai se cansar de mim...
Não. Ela não podia abandoná-lo no estado que ele estava. Ela pegou o smartphone, decidida em falar com ele, lembrá-lo das boas coisas que fizeram juntos. Elas não poderiam ser apagadas pelo medo e pela raiva.
Uma chamada, naquele exato momento.
Assustada, Nagisa colocou o dispositivo no modo silencioso e olhou para a porta do banheiro. Vendo que não se abriria, ela voltou sua atenção para o telefone. “Esse é o número da irmã dele...” Ela atendeu. “Alô?”
A voz feminina era reconhecível. “Oi, Aki te contatou?”
Nagisa sentiu um mau pressentimento. “Não... O que houve?”
“Ele fugiu de casa.”
Ela ficou boquiaberta.
Mas voz no telefone não parecia tão preocupada. “Minha mãe achou que ele estava no quarto, só fomos descobrir quando eu voltei da faculdade. Nós não encontramos o telefone dele, deve estar no bolso do uniforme, mas ele não tende. Talvez se ele vê que é você, isso mude.”
“C-Claro!” Nagisa se ergueu da cama. “Eu... iria fazer isso.”
“Bom! Eu vou procurar pelas ruas aqui perto de casa e na estação. Se eu encontrar ele, eu te aviso. Até!”
“Tchau! E-Eu vou convencê-lo a voltar, eu prometo!” Quando a ligação se encerrou, ela socou o colchão e cobriu a face. “Hidaka-kun, o que você está fazendo...” Depois procurou pelo número dele para discar.
O smartphone vibrou com uma mensagem.
Era Aki.
Você está em casa?
Eu estou aqui fora
Consegue me ver?
Perplexa, Nagisa pulou da cama e foi até a sala de estar, onde as grandes janelas forneciam uma visão melhor.
E lá estava, no outro lado da rua, um garoto loiro com o uniforme da escola de Mitakihara sob a luz de um poste.
Uma nova mensagem.
Eu quero te ver
Nagisa pressionou os lábios e olhou para o corredor.
O som do chuveiro estava vindo do banheiro.
Com pressa, ela foi até a porta, colocou o calçado e saiu.
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