Amor

18 Indecisão


Quando Aki abriu o portão, ele não encontrou Nagisa esperando por ele na calçada.

Ele assentiu para si mesmo e foi em direção a estação.

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“EU NÃO ACREDITOOOOOOÔÔÔÔ! UUUUHHHHUUUUUUU!”

Em sua carteira, Nagisa tampava os ouvidos enquanto Ayako comemorava.

“Hahaha! Kuroki foi espancado por uma garota!”

Nagisa olhava para ela com desaprovação. “Você devia parar com isso. Ele está no hospital.”

“Mas isso que é o melhor!” Ayako socava o ar, fingindo estar lutando com alguém. “Você sabe quem é essa garota? Ah... Como eu desejaria estar no lugar dela...”

“Eu jamais desejaria isso a alguém,” disse Nagisa para si mesma.

“Oi?”

“Nada, nada...” Ela então notou, pelos painéis de vidro, Aki no corredor.

Ayako também havia visto. “Pois é... Pode não ter sido você que pôs um fim em Kuroki, mas tudo começou com você pedindo Hidaka-kun em namoro.”

Nagisa apenas olhou para outra garota e deu um sorriso curto.

“Agora poderei ensinar a vocês dois algumas coisas a mais sobre encontro.” Ayako sorriu maliciosamente.

Aki veio acenando. “Bom dia Nagisa, Kitomono-san.”

“Um dia perfeito, não?” respondeu Ayako.

Ele ficou mais sério. “Vocês sabem de alguma coisa sobre Takuma? Se ele acordou?”

A garota em pé deu de ombros. “Acordado ou não, é bom que ele fique bastante tempo no hospital, quem sabe assim ele perde o ano escolar e a gente se livra desse traste pra sempre.”

“Ayako-chan!” Nagisa a repreendeu, “Que forma horrível de se pensar.”

“Horrível é o que ele estava fazendo com vocês,” respondeu Ayako, sendo mais rude, “você devia parar de ter pena dos outros algumas vezes, sabia?”

Nagisa estremeceu e ela virou a face.

“Estou certa ou não?” Ayako olhou para Aki.

O garoto abaixou o olhar.

Vendo também que o professor entrava na sala, ela concluiu, “Parece que há mais uma coisa em comum entre vocês dois...”

Depois que Ayako foi para a carteira dela, Aki sentou, trocando olhares com a sua namorada. “Podemos ir hoje ao nosso esconderijo?”

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A construção do prédio da escola de ensino médio estava em um ritmo acelerado. Já havia ganhado mais alguns andares.

Nagisa observava aquilo sentada contra parede, ao lado de Aki.

“Sobre o Takuma,” ele disse enquanto pegava o pote de comida, “acho justo o que aconteceu com ele, mas mesmo assim não me sinto bem...”

“Eu penso mesmo...” Ela já tinha o pote dela em mãos, mas ainda estava fechado. “Eu queria que terminasse de uma forma pacífica, mas eu não tenho como controlar isso.”

Aki assentiu. “Aquela garota é amiga da Madoka-senpai, não é? Ela amiga da sua tia também?”

Nagisa puxou uma mecha de cabelo. “Hmmm... Sim, mas essa garota não é de falar muito. Eu sei que ela forte mesmo.”

“Ela é incrível.” Aki foi o primeiro a abrir pote, então notou que a sua namorada demorou para fazer o mesmo, quando o fez, foi lentamente. No entanto, o mais incomum foi o que veio a seguir. “Você não trouxe queijo?”

“Eu esqueci...”

Ele franziu a testa e voltou a olhar para o canteiro de obras, sorrindo. “Que dia estranho.”

“V-Você acha?” Ela olhou de relance para ele.

“Sim, nessa hora estaríamos pensando em como iríamos evitar o Takuma hoje.” O garoto tocou em seus curativos. “Agora... Eu não consigo pensar em como vai ser daqui para frente.”

Nagisa desviou o olhar e ergueu as sobrancelhas. “Aulas, tarefas, testes.”

Aki abriu um sorriso maior. “Tomara que essas sejam as nossas maiores preocupações.”

Os dois começaram a comer.

Não demorou para Aki falar novamente, “Nagisa.”

“Hmm?”

“Minha família perguntou se eu queria mudar de escola.”

Nagisa parou de mastigar por um momento, depois continuou, assentindo.

“Eu disse que não.”

Ela engoliu e olhou para ele. “Não faria muito sentindo, agora que o problema com Kuroki e a gangue está resolvido.”

“Não, isso foi antes do que aconteceu com ele ontem.”

Nagisa ficou surpresa com a resposta cheia de satisfação dele. Contudo, ela não sentia que ele estava sorrindo para aquela resposta e sim para ela. Nagisa compartilhou o sorriso e voltou sua atenção para o seu pote de comida, sob o som das máquinas pesadas trabalhando.

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O sinal tocou, anunciando o fim da última aula do dia.

Enquanto colocava as suas coisas em sua mala, Nagisa observou Ayako saindo da sala com Sanjuro abraçando ela e os dois trocando risinhos.

“Parece que Sanjuro nem se importou com o seu velho amigo...”

Ouvindo o comentário, Nagisa se virou para Aki, que já estava de pé ao lado dela. “Eu não sei o quão amigos eles eram, mas esse laço enfraqueceu.”

“É,” disse ele, olhando para o casal que desaparecia em uma esquina, “agora ele tem outra pessoa.”

Os dois foram em direção a saída da sala, mas ouviram um chamado vindo de trás.

“Ei menino do vidro!”

Aki se virou.

Era um grupo de garotos, todos sorrindo maliciosamente, o que falava fazia um gesto obsceno. “E então? Tua namorada poliu você?”

Com um semblante sério, Aki trocou olhares com a sua namorada e eles voltaram andar, ouvindo as risadas. Já no corredor, ele falou, “Que piada ruim.”

“Esse é o legado de Takuma Kuroki,” disse ela, “mas acho que ninguém vai fazer algo pior, sabendo que eles podem ter o mesmo fim que ele.”

O casal deixou o prédio.

Foi quando Aki se lembrou. “E também tem o clube anti-bullying.”

“Uhum.”

“Temos poucos membros, mas Noguchi-senpai diz que existem mais vítimas que ela vai tentar trazer.” Ele sorriu. “É legal que o clube já vai planejar algumas confraternizações. É como ela disse, devemos nos unir, se tornarmos amigos para podermos lutar.”

Nagisa assentiu. “Eu desejo boa sorte para ti, que tudo dê certo lá.”

“Oi?” Aki ficou confuso. “Você não vai participar?”

Ela olhou para ele, fazendo uma careta. “Quando mexeram comigo, eu nunca fui o verdadeiro alvo, né?”

“Hmmm...” O garoto passou a mão em seu cabelo e começou a coçar. “Você tem razão, você só foi chamada pela Noguchi-senpai porque você é a minha namorada.”

Eles alcançaram a rua e se dirigiram para a estação.

“Eu devia ter pensado nisso, participar desse clube é uma escolha,” Aki comentou, “e você meio que faz parte de outro clube.”

“Hã?” Ela fez outra careta.

Ele ergueu as sobrancelhas. “A lei dos ciclos.”

“Ah...” Nagisa abaixou a cabeça e sorriu para esconder o nervosismo. “Sim... a Lei dos Ciclos...”

Próximo das filas das catracas, eles pararam.

Aki ficou de frente para ela. “E estamos de volta a esse ponto.”

Nagisa concordou, complementando, “Não precisamos mais fugir...”

Ele assentiu e ficou de cabeça baixa.

Nesse momento ela notou que ele estava nervoso, o pescoço dele estava tenso.

“Nagisa...”

“Sim...?” O coração dela acelerou um pouco ao ver que ele estava enrubescendo.

Então ele ergueu a cabeça, sorrindo, apontando para os seus curativos. “Ehhhmmm... Eu tava pensando em... quando eu iria remover esses curativos.”

“Ah... haha...” Nagisa compartilhou a atitude dele. “Precisa ter paciência.”

“É que coça muito, eu tenho dormido mal...”

Então um silêncio se formou entre os dois.

Do qual Aki procurou quebrar o mais rápido possível. “Eu te vejo amanhã?”

“Sim.” Ela deu de ombros. “Definitivamente?”

“Haha, então...” Ele começou andar para trás e acenar. “Tchau, namorada.”

“Tchau...” Nagisa permaneceu onde estava, observando ele entrar na fila, passar pela catraca e desaparecer na multidão.

Então, também, o sorriso dela desapareceu.

Em passos rápidos, ela retornou a escola com um objetivo muito claro. No caminho cercado por pés de cerejeiras, ela usou-se de sua telepatia. [Madoka, você está aí?]

A resposta logo veio. [Estou atravessando o portão com a Homura.]

Nagisa parou de súbito, pressionando os lábios e cerrando os punhos. Mesmo consciente que isso estava longe do ideal, era inevitável, ela precisava fazer aquilo. [Eu vou até você.]

Logo elas cruzaram caminho.

A primeira face que ela prestou atenção foi na de Homura. A garota mantinha uma face aparentemente neutra, mas os movimentos de seus olhos indicavam certo choque.

“Nagisa-chan! Mas que surpresa,” disse Madoka.

“Oi...” Nagisa olhou para ela. “Já peço desculpas por algo tão súbito, mas eu queria ter uma conversa séria contigo.”

“Claro...” Madoka olhou para Homura.

A garota com tranças trocou olhares com ela, depois com Nagisa por um longo período.

A garota de cabelos brancos abaixou o olhar.

Ela então assentiu e saiu. “Eu irei em frente.”

“Depois eu te alcanço!” Madoka retornou sua atenção para Nagisa. “Vamos para outro lugar?”

As duas atravessaram o córrego e adentraram em uma trilha entre as cerejeiras.

“Não é isso que quero conversar, mas...” disse Nagisa, “sobre Michiru...”

“Ela voltou para Lei dos Ciclos,” Madoka sorriu, “não sei por que, mas ela parecia muito feliz.”

“É?” Nagisa olhou para o céu nublado e suspirou. “Bem, era isso que ela queria, né?”

Elas chegaram a uma clareira onde havia alguns bancos carcomidos pelo tempo. Um lugar romântico, mas longe de ser popular. Elas escolheram um sob a sombra das árvores para sentar.

Mesmo tendo um tempo para se preparar, Nagisa não tinha idéia de como começar. “Então...”

No entanto, Madoka fez um gesto para ela parar, estava muito séria.

Nagisa ficou confusa.

A garota de cabelos rosa olhou para as árvores atrás do banco e falou em voz alta, “Homura, desça daí.”

Surpresa, Nagisa não conseguia enxergar nada naquelas copas frondosas, mas, de fato, ela estava sentindo um sutil cheiro de abóbora.

“Por favor, eu até sei o galho onde você está.”

De repente, um barulho de folhagem veio de uma das árvores, que balançou enquanto Homura pousara no chão com graça, agindo como se fosse a coisa mais natural do mundo.

Mas para Nagisa, era o terror, um muito familiar vindo daquela garota, mas longe de se acostumar.

Madoka disse para Nagisa, com pesar, “Desculpe, acho que não temos como evitá-la.”

Homura perguntou, “É sobre o namorado?”

Nagisa olhou para ela com os olhos arregalados e então para Madoka. “Você contou a ela...”

Ela balançou a cabeça. “Não.”

“Você estava escondendo isso?” Homura se aproximou.

“Hã?!” Nagisa voltou olhar para ela.

“Eu me lembro desse garoto.”

“Ah...” Nagisa abaixou a cabeça e estremeceu, enquanto tocava em seu anel. “E... E você não deve estar muito feliz com isso...”

Homura pendeu a cabeça de lado. “Eu não me importo.”

Dessa vez, além de arregalar os olhos, Nagisa ficou boquiaberta. “Você... não se importa?”

“Não.” Homura olhou para a outra garota. “Creio que Madoka aprova tal leniência.”

“Sim, eu aprovo,” Madoka respondeu, de pronto e firme.

Nagisa teve uma estranha sensação que ela só conseguiu traduzir como uma densa atmosfera entre as duas garotas.

Homura perguntou para Nagisa, “E você se importa?”

Ela franziu a testa, “O que quer dizer com isso?”

“Você já pensou o que vai acontecer se ele descobrir algo sobre magia e nós?”

Nagisa virou a face. “Eu sei que isso não seria bom.”

“Eu não estou tão segura quanto a sua resposta.” A voz de Homura foi se tornando um sussurro. “Deixa eu esclarecer, ele vai estar em outro mundo, longe das pessoas próximas a ele. Ninguém vai acreditar nele, será estigmatizado, considerado um louco. Por isso que eu realmente não me importo.” Então ela sorriu com ironia. “E não terá volta, exceto se as memórias dele forem ‘apagadas’, mas saiba que elas são... voláteis.” Ela voltou a ficar séria. “Contudo, existe outra forma de salvá-lo dessa situação e seria ajudando ele a trazer mais pessoas para o mundo que ele está.” Ela ergueu as suas sobrancelhas e sua voz. “Nesse caso, eu ME importo.”

Sentido o peso das afirmações, Nagisa fechou os olhos e fingiu que tudo havia desaparecido, como se pudesse escapar da realidade. Na verdade poderia, mas não com a sua sanidade.

“Não sofra,” Madoka falou, em um tom gentil, “o que Homura disse pode ser verdade, mas não aconteceu. Nagisa-chan, para mim você é muito madura para a sua idade. Eu confio em seu julgamento e eu darei todo o meu suporte para o que você decidir, pois eu sei que será pelo bem dele tanto quanto o seu.”

Nagisa reabriu os olhos, dando de cara com o sorriso de Madoka.

“Fora disso, eu não posso te ajudar muito. Eu nunca tive um namorado. Wehihi.” Ela deu uma piscadela. “Talvez você deva compartilhar com Mami-san, ela pode ter uma resposta melhor.”

Se levantando do banco, Nagisa respirou fundo e tentou sorrir. “Eu... vou fazer isso. Obrigada.”

“Eu que estou grata, por você procurar a minha ajuda.”

Homura olhou de relance para Madoka, semicerrando o olhar.

As três garotas deixaram a clareira. Na rua, elas se despediram e se separaram.

Nagisa começou o trajeto a pé até em casa como fazia antigamente, sozinha.

Mami...

Não, não realmente sozinha. Ela estava acompanhada das lembranças daquela fatídica noite.

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Assim que abriu a porta do apartamento, Nagisa encontrou Mami de braços cruzados.

“Eu liguei várias vezes para você.”

Ela colocou a mão sobre o bolso onde estava o seu smartphone. “Eu acho que eu tinha colocado ele no modo silencioso...”

Mami não disse nada, continuava com a mesma postura e seriedade.

Nagisa estava bem ciente do que ela realmente queria saber. “Eu recebi a mensagem de uma pessoa da minha sala de aula e... era urgente, ent-”

Mami pegou no braço dela e a puxou para dentro do apartamento.

O aperto era forte e dolorido. Ela não teve tempo de tirar os sapatos, pois assim que Mami fechou a porta, Nagisa foi puxada até a sala de estar.

A loira a soltou e retornou para a sua postura de antes. “Agora me conte a verdade.”

Nagisa se recompôs. “Mas essa é a verdade! Eu recebi uma mensagem urgente de alguém da minha sala de aula querendo me ver.”

“Não.” Mami balançou a cabeça. “Se fosse só isso, mesmo que fosse urgente, você teria me avisado enquanto eu estava no banho.”

Nagisa ficou nervosa com as mãos.

“Nagisa!”

Com a forma dura que seu nome fora chamado, ela falou, “É um garoto.”

“Um garoto.” Quando Mami se deu conta, ela perdeu sua postura, descruzando os braços. “Um garoto... Há quanto tempo?”

“Desde as primeiras semanas de aula.” Nagisa gesticulou, pedindo calma. “Mas... Mas não fizemos nada, realmente nada que você possa estar pensando.”

“Esse não é o problema!” Mami rangeu os dentes, mostrando a sua mão esquerda com o anel.

Nagisa recuou. “M-Mas por que isso seria um problema? Nós estamos indo para escola. Você mesma trouxe sua amiga para cá.”

Mami virou a cara e pôs a mão na testa. “Eu me arrependo disso...”

“O quê?”

“Nagisa, nós estamos aqui por Madoka-san.” Mami voltou olhar para ela. “E precisamos conviver com as pessoas nesse mundo por hora. Por isso que matriculei você na escola, para evitar perguntas vindas da vizinhança. Porém não devemos ter relacionamentos tão próximos, muito menos namoro!”

“Mas eu queria protegê-lo.”

“Protegê-lo?”

“Sim,” Nagisa disse com convicção, “outros alunos estavam humilhando ele com freqüência e essa foi forma que encontrei para dar suporte a ele, evitando usar magia.” Ela juntou as mãos. “Você não faria mesmo? Eu sei que você ajudaria alguém na primeira oportunidade.”

Mami olhou para o alto, pensativa. Ela suspirou e perguntou, “E quem vai protegê-lo de você?”

Nagisa ficou sem palavras.

“Ajudar o próximo? Certo,” a loira continuou, “mas através de um relacionamento duradouro? Basta uma vez! Um momento em que você perca o controle e a vida deste garoto estará correndo grande perigo.”

“Isso não vai acontecer!” Nagisa buscou exprimir confiança no que dizia com um sorriso. “Eu já estou acostumada com a maldição que eu carrego, eu sei me segurar.”

Mami cerrou os punhos. Ela abaixou e balançou a cabeça, enquanto pressionava os lábios.

“Mami...” Nagisa implorou. “Olha para mim.”

Ela não atendeu ao pedido, ao invés disso ela abriu a mão, de onde saiu um laço.

A outra garota não teve tempo para reagir, o laço voou rapidamente e envolveu o seu pescoço. “Ahhhgk!” Então ela foi puxada para o chão. Sentindo o abraço do tecido em sua pele, ela arregalou os olhos. “O que está fazendo?”

Mami não falou, mas seu corpo começou a tremer ao ponto de ter espasmos erráticos.

Nagisa ficou ainda mais espantada.

Os braços, as pernas, a cabeça... elas foram se desmontando em uma espiral de laços, até que o torso estourou.

“Ah!” Nagisa presenciou os laços, de tamanhos e cores diferentes, indo para tudo quanto é lado. Elas cobriam os móveis, o chão, as paredes e o teto. Porém todas tinham um cerne em comum, uma minúscula boneca que estava flutuando.

Candeloro.

“Mami... pare!” Novamente Nagisa não conseguiu nenhuma resposta. Poderia Mami ter se rendido a aflição?

Como isso pôde acontecer?

Nagisa buscou em suas lembranças por uma resposta. De fato, ela havia sentido que Mami estava tendo alguns problemas que não queria compartilhar, para não ferir sua imagem. Mas poderia ela ter subestimado a gravidade desses problemas? Poderia ela não ter feito o bastante, ter sido negligente com Mami?

A boneca balançava os leques de laços conectados ao seu corpo.

Aquilo era o símbolo resultante de seu maior erro. Nagisa só pôde pensar que ao concentrar seus esforços em Aki, e em Michiru também, ela se distanciou da pessoa que ela declarou estimar muito. Mami se sentiu traída. Agora, ela precisava evitar uma tragédia.

Em um rápido movimento, Nagisa segurou o laço em seu pescoço, mas antes que pudesse puxá-lo, laços agarraram os seus braços e os esticaram. “Ah!” Outros laços serpentearam e amarraram as suas pernas.

Candeloro voava em círculos sobre a garota, como uma aranha observando sua presa se debatendo em sua teia.

Ainda que a sua força estivesse aumentada através da magia, Nagisa não conseguia vencer o puxar dos laços. Tentando encontrar outro jeito, ela notou que alguns laços estavam dançando logo acima dela. Se ela erguesse a cabeça e cortasse os laços com os seus dentes, talvez a perda momentânea de conexão com a bruxa faria enfraquecer o aperto deles, tornando a fuga possível. Ela precisava avisar Madoka!

No entanto, ela certamente teria apenas uma chance, pois a bruxa afastaria os laços quando a intenção estivesse revelada. Nagisa se preparou, respirando fundo, e deu um bote.

Ela abocanhou vários laços.

Foi melhor do que ela esperava e ao mesmo tempo era ruim, pois seria muito difícil cortar tantos ao mesmo tempo. Ela rangeu os dentes e moveu a cabeça para forçar.

“Nagisa...”

Era voz de Mami. Nagisa se virou e para a sua completa surpresa havia uma cabeça flutuante dela, parcialmente construída com laços e oco, sem olhos, mas tinha os cachos.

“Você não acha que está muito próxima do teto?” disse a cabeça.

E estava certa. Nagisa notou que estava muito alta e imediatamente olhou para baixo.

No chão estava uma boneca com capa e de sua boca saía o corpo de uma serpente de pano preta com bolinhas vermelhas.

Seu corpo.

“Eu te assustei não foi?” A cabeça de Mami retornou a falar. “Você teve medo. Como qualquer outro sentimento, ele gera uma resposta emocional, de onde vem a transformação...” Por um momento, os laços ondularam-se, quase desfazendo a cabeça. “Não é somente Akemi-san que tem estudado a nossa natureza.”

Charlotte estava em choque.

“O medo também prejudicou o seu julgamento.” Candeloro pousou sobre a cabeça falante. “Por que você lutou contra o laço em seu pescoço? Eu não estava te estrangulando, você podia falar e respirar. Você achou que eu iria ter coragem de fazer isso?”

A serpente abaixou seu olhar multicolorido em um semblante de aflição.

“Você não avaliou a situação, olhe para a janela.”

A janela! Pior, as janelas panorâmicas. Ela tinha esquecido que alguém dos prédios vizinhos podia vê-las ali. Porém, Charlotte descobriu que as janelas haviam sido cobertas com cortinas feitas de laços entrelaçados.

“O que você considerou como razão eram as suas emoções prevalecendo. Agora pense em quantos sentimentos você terá se continuar com esse garoto. Ainda acha que está no controle?”

Charlotte fechou os olhos e foi sugada pela sua forma de boneca. Ela ficou de pé e olhou para o alto.

Candeloro rearranjou os laços da face da cabeça de Mami para transmitir uma expressão severa.

Cabisbaixa, Charlotte voou até o seu quarto.

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Nagisa parou, ainda faltavam uns poucos quarteirões até em casa. Pôs a mão no bolso, de onde retirou a bola de borracha e a ficou contemplando.

... se você realmente quer o bem de uma pessoa, nós ás vezes temos que fazer coisas que não queremos...

Carregado de dor, um sussurro escapou da boca dela, “Eu tenho que pôr um fim nisso...”

Notas finais
...