Amor

19 Amor tem gosto de queijo


Naquele dia Aki tinha vindo para a escola sem os curativos. As feridas haviam cicatrizado, porém ainda eram visíveis, não que isso tivesse diminuído a satisfação dele.

Naquele dia Nagisa perdeu a conta das vezes que sorriu para compartilhar o bom ânimo do garoto. O que ela sabia é que eles estavam longe de ser genuínos.

Desde aquela noite, Mami não havia mais tocado no assunto, não explicitamente. Nagisa sentia, nos olhares silenciosos e severos, nas atitudes frias e distantes, que Mami estava aguardando uma resposta, a única que ela aceitaria.

O sinal tocou, era hora de ir embora, era hora de sorrir novamente.

Nagisa olhou de relance para Aki, era óbvio que ele iria sair da carteira dele e ir até ela, mas ele se levantou lentamente, com um olhar perdido, pensando em algo.

“Nagisa-chan, vai ficar sentada aí?”

Ela se virou para Ayako, com Sanjuro atrás. Sim, ela não podia parar o tempo. “Eu já ia guardar as coisas na mala.”

“Uhum...” Ayako ergueu uma sobrancelha. “Eu e o Sanjuro vamos ao centro da cidade, querem ir com a gente?”

Ela já esperava por isso, um convite, e Nagisa já tinha a resposta.

“Não.” “Não.”

Contudo, para sua surpresa, Aki respondeu o mesmo.

“Ehhh... Vocês estão sincronizados, hein?” Ayako deu um sorrisinho, erguendo ambas as mãos. “O que posso dizer para essa dupla rejeição?”

“Pare de incomodá-los,” disse Sanjuro.

“Eu?! Incomodando?” Ela levou a mão ao peito, surpresa. “Eu não estou fazendo isso, né?”

Nagisa sorriu de leve e balançou a cabeça. “Não Ayako-chan, obrigada pelo convite.”

“Então até amanhã!”

Vendo eles saírem, Nagisa se levantou e trocou olhares com Aki.

O garoto sorriu, um tanto nervoso. “Vamos.”

Eles saíram da escola, caminhando lado a lado como de costume.

“Amanhã tem reunião do clube,” ele comentou.

Nagisa assentiu. Ele realmente parece estar feliz, será que essa é a melhor hora?

Talvez o maior problema fosse como. Nagisa mal tinha experiência com relacionamentos e agora teria que terminar um. Seria apenas falar? Se afastar? Ser fria? Ignorá-lo?

“... o que acha dessa idéia do Nakazawa-senpai? Nagisa?”

Ela teve um sobressalto, pois estava completamente perdida quanto ao que ele estava falando. “A idéia dele? É legal.”

“Sério?” Aki ergueu as sobrancelhas. “Eu vou contar a ele que você gostou.”

Nagisa mostrou um sorriso, um dos falsos. Ela não sabia se devia se sentir aliviada.

Na rua para a estação, se assegurando que Aki não estava falando, ela voltou a explorar as possibilidades e uma se sobressaiu. Ela podia mandar uma mensagem por telefone, talvez até poderia dizer que sua ‘tia’ não aprovava o relacionamento e isso não estava longe de ser verdade. Será que assim doeria menos?

Ela sentiu sua mão ser tocada por outra.

Nagisa olhou de relance para Aki e novamente ele parecia nervoso, com a cabeça um pouco baixa.

A mão dele insistia.

Nagisa aceitou e elas se uniram, mas não sem uma grande tristeza crescer dentro dela. Mesmo que terminasse, ela sempre o encontraria na sala de aula. Seria impossível fugir da dor.

“Nagisa...”

“S-Sim?” Ouvir ele falar seu nome só fazia tudo ficar mais difícil.

“Eu não quero ir até a estação,” disse Aki, sem coragem de olhar para ela, corando.

Nagisa arregalou os olhos, a forma como ele expressou dizia tudo.

“Por isso que recusamos o convite da Kitomono-san, certo? Eu me lembro, você queria isso.” Ele sorriu. “Mas eu acho que você quer que eu tome a iniciativa...”

Ela podia dizer não. Ela tinha que dizer não! Já seria uma meia forma de dizer que o relacionamento havia acabado e eles teriam que seguir rumos separados. Nagisa, contudo, não se sentiu no direito de punir a coragem dele. “Aonde... você quer ir...”

“Eu não sei!” Aki balançou a cabeça, mordendo os lábios. “Vamos continuar e... a gente acha um lugar.”

Eles continuaram até a estação, mas então atravessaram a rua. Era uma caminhada silenciosa, um silêncio que escondia muitos conflitos.

Logo Nagisa reconheceu um lugar. Como na outra vez, o parque tinha muitas crianças e suas mães.

“Ei, vamos sentar ali,” disse Aki.

Nagisa estava certa de que aquele era também o mesmo banco. O nome Michiru veio em sua mente, mas logo tratou de esquecer. Madoka não podia estar enganada e se Michiru havia retornado para Lei dos Ciclos, ela não poderia estar influenciando ele.

Eles sentaram um tanto próximo um do outro, mais do que naquela vez no shopping.

Não que isso trouxesse conforto para Nagisa, muito pelo contrário.

Colocando seus cotovelos sobre as pernas e juntando as mãos, Aki se curvou.

Ela notou que ele estava novamente nervoso, mas era mais do que isso. Não era acanhamento, mas algo maior.

“Nagisa, eu... eu preciso dizer isso.” E ele estava prestes a revelar o que era. “Eu sou um bom namorado?”

“Por que está perguntando isso?” Ela franziu as sobrancelhas. Por que está perguntando isso justo agora?

“Você sabe por que eu aceitei ser seu namorado?”

“Porque eu insisti...” Ela murmurou, sentindo-se culpada.

Ele ouviu. “É, mas é mais porque tinha muita gente da sala fazendo isso. Você se lembra do coração desenhado com os nossos nomes, né? De um tempo para cá o assunto sempre era quem estava namorando quem.” Ele sorriu, balançando a cabeça. “Então quando você pediu, eu pensei ‘por que não?’, mesmo que eu não via muito sentido nisso.”

Nagisa se virou para ele, com uma sensação de onde ele queria chegar.

“Sim, esse negócio de ‘namorado’ e ‘namorada’ para mim é um rótulo apenas. Eu aceitei para ser como os outros, fazer por fazer.” Ele balançou novamente a cabeça e apertou mais as suas mãos. “Bem... Apesar que não tivemos muito tempo, nada anda acontecendo entre a gente.”

Uma fagulha de esperança se acendeu em Nagisa. Era verdade, como havia dito para Mami, nada havia acontecido. Eles eram amigos de escola, apenas isso, e poderia continuar assim.

“Eu amo você.”

A fagulha se apagou como o assoprar de uma vela. Nagisa ficou boquiaberta. “O... O... Hã?!”

“Ah... Eu não sei como dizer isso. Eu digo... Essas palavras valem tão pouco...” Aki esfregou a face. “Nagisa, é tudo minha culpa por não reconhecer. Você fez tanto por mim, se dedicou tanto... e eu só pensava em defender meu orgulho. Uma completa idiotice, pois eu não via valor em mim. Eu ainda não vejo muito, mas...”

Nagisa ficou paralisada ao ver ele erguer o torso e olhar para ela, com uma expressão determinada.

“Eu não me dei conta que você não tinha me deixado ainda porque estava fazendo isso por amor. Essa é a única explicação.” Aki ofegou, seus olhos se abrindo mais. “Eu... Por favor... Eu quero amar você. Eu vou me esforçar para isso. Eu não quero que isso seja apenas uma coisa de escola!”

Amor e pena, duas palavras de quatro letras com significados que se confundem. No entanto, Nagisa sabia muito bem agora. Ela o amava, o mesmo sentimento por sua mãe, de onde ela tirou forças para perseverar. Essa era a única explicação.

A imagem de Aki começou a borrar.

Como poderia por um fim nisso? Nagisa imaginou o que seria amor para ele se ela terminasse agora. Uma hipocrisia? Em o que mais ele poderia acreditar? Ela poderia preservar a vida dele fazendo isso, mas destruiria a alma. Era impossível. Impossível!

Por favor, não quero que esse sonho termine ainda.

Aki disse, “Você está chorando.”

Surpresa, Nagisa piscou, fazendo suas lágrimas caírem.

Ele abaixou o olhar. “Eu disse errado?”

Ela limpou o rosto. “Não... Eu estou feliz.”

“O problema é que eu não sei como eu posso amar você.” Ele sorriu com embaraço. “Você precisa de ajuda com alguma coisa?”

Ela deu de ombros. “Hmmm... Tarefas da escola?”

“Acho que isso é um começo...” Aki virou a cara, pressionando os lábios, novamente pensativo.

Isso só fez o coração de Nagisa acelerar mais.

“Talvez tenha algo você queira, mas não vai me dizer, que era para eu fazer...” Ele pressionou as pálpebras. “Eu estou certo que vou falhar, então...” Ele abriu a boca e levou um tempo até deixar escapar um sussurro, “Eu quero te beijar.”

Ela agarrou o tecido da sua saia. “Ah...”

Ele balançou a cabeça e sorriu, “Isso não foi muito romântico, hehe...”

“Foi.”

Aki olhou para ela.

Nagisa estava corada, mas sorrindo. “Pelo menos o sussurro.”

“Ah... haha.”

Eles compartilharam seus olhares e sorrisos.

Para Aki, Nagisa estava diferente de momentos atrás. Ela parecia distante e agora ela tinha uma alegria modesta, acolhedora. Isso só a deixava mais bonita e ele tinha o privilégio de testemunhar de tão de perto. Contudo, ele não conseguia chegar mais perto. Parecia que seus sonhos e imaginações não esperavam por aquilo, lhe deixando sozinho e desamparado.

Nagisa não pôde deixar de notar que ele tinha ficado mais vermelho, quase que nem os olhos dele.

Ele abaixou a cabeça. “Eu achei que dizendo tornaria isso mais fácil.”

Ao prestar atenção na algazarra das crianças, Nagisa se levantou do banco. “Vamos procurar um lugar melhor.”

Eles pegaram as suas malas e andaram pelo parque. Longe da área dos brinquedos o lugar era mais deserto e eles acharam um canto cercado por vegetação, com uma velha árvore e seu tronco largo.

Atrás da árvore, eles deixaram suas malas no chão e ficaram frente a frente, segurando as mãos.

Contudo, Aki continuava hesitante.

“Eu não mordo,” disse ela.

Ele assentiu e se aproximou. Então ele a viu fazer o mesmo. A face dela foi tomando o seu campo de visão até que ele não podia mais ver claramente, foi quando seu nariz tocou a bochecha e seus lábios os dela, mais especificamente o canto. Ele pôde sentir um calor em seu rosto e então se afastou.

Nagisa ficou confusa.

Aki sorriu. “É... Esse foi o meu primeiro beijo.”

“É claro...” Ela abaixou o olhar. “Esse foi o meu primeiro também.”

Ele ficou preocupado. “Foi muito ruim?”

“Não.” Ela ergueu as sobrancelhas e sorriu. “Eu só pensei que você queria me beijar como nos filmes.”

“Eu tinha até pensando nisso...”

Ela perguntou, em uma voz suave, “Quer tentar?”

“Uhum.” Aki foi surpreendido com ela deixando suas mãos para poder abraçá-lo. Ele fez o mesmo e seus rostos estavam muito mais próximos. Só nesse momento que ele se deu conta das batidas rápidas de seu coração.

Bastou um pequeno movimento para que seus lábios se encontrassem. Aki se lembrava dos filmes e estava certo de que precisaria fazer movimentos com a boca. Ele estava atrasado, pois os lábios dela já tinham tomado a iniciativa, abrindo levemente. Ele decidiu copiar, fazendo com o que seus lábios se encaixassem, seguido por um suave aperto por parte dela. Foi quando ele notou que talvez seus lábios estivessem muito secos, pois a umidade trazida pela saliva tinha feito muita diferença na hora de deslizar.

Abri, fechar, abrir, fechar, em movimentos lentos. Ele estava pegando jeito disso! E no que parecia ser um bom ritmo. O problema era respirar. Ele ouvia e sentia a respiração dela em seu rosto, mas Aki não estava certo se podia fazer isso livremente. Também não sabia o que fazer com as mãos, que estavam sobre o cabelo dela nas costas, talvez a incomodando. Eram tantos detalhes e sensações impensadas que ele não conseguia prestar atenção no que enxergava, não que tivesse algo interessante além de breves visões de um dos olhos entreaberto dela.

Um dos lábios acabou escapando do outro por acidente e eles recuaram suas cabeças.

Nagisa tinha um evidente sorriso e um olhar sereno.

Para o alívio de Aki. O beijo tinha sido realmente bom e nem precisava perguntar. Na verdade, ele não sentia vontade de falar.

Os dois trocavam sorrisos, grandes e pequenos. Era forma que seus lábios tinham para convidar um ao outro.

E foi aceito. Suas faces se encontraram novamente.

Nagisa havia pendido mais a cabeça para o lado e pressionou mais contra Aki.

Ele sentiu o resultado de imediato, se antes fora um beijo, isso era muito mais. Era arrebatador. Não era somente seus lábios que haviam encaixados, mas suas bocas. Seus rostos estavam ainda mais próximos, talvez o máximo que podiam. Os lábios deslizavam em longos movimentos e havia um bafo quente entre eles. Era como se suas bocas tivessem derretido e se misturado. Aki mal conseguia pensar, mas ele não estava preocupado e nem tinha medo, pois ele sentia que aquilo era certo. Ele não prestou mais atenção na sua respiração, pois não tinha mais controle.

Se tinha algo que ele conseguia pensar claramente, era em Nagisa. Ele desejava que ela estivesse sentindo a mesma felicidade. Que esse momento fosse inesquecível.

Então ele sentiu algo firme e molhado invadir sua boca e cutucar sua língua. Era a língua dela! Aki agora estava certo que ela estava curtindo muito, mas não esperava que ela fosse tão audaz. Ele moveu sua língua para interceptar a dela e se deu início a uma amigável disputa no espaço entre os dentes deles.

Com a troca de salivas, Aki sentia um sabor doce, mas ele não lembrava que ela tinha comido algo assim recentemente. Seria natural? Garotas são incríveis!

Nagisa também estava sentindo um sabor especial, mas longe de ser doce. Era pungente e salgado, combinado com um forte odor, dominava os seus sentidos.

O beijo estava ficando mais molhado. Veio na mente de Aki de que eles poderiam acabar babando e ele recuou sua língua.

Mas Nagisa não fez o mesmo.

Achando engraçado, ele a deixou explorar dentro de sua boca. Aki ficou impressionado que a língua de uma pessoa podia ser tão comprida.

Ela entrou mais e mais

A massa doce e quente foi estufando sua boca, deixando pouco espaço para sua língua e ameaçando alcançar sua garganta. Assustado, Aki se afastou e deparou com uma face branca, com uma bocarra e sua gigante língua roxa.

A face arregalou os seus olhos, mostrando uma miríade de cores.

Sem fôlego para gritar, Aki caiu de bunda no chão, se dando conta de que a dona daquela face era Nagisa.

Com a língua para fora, ela estava em choque. Ela levou suas mãos trêmulas até seu rosto e o tateou. Confirmando os seus temores, em uma expressão de choro, ela se virou e caiu de joelhos. “NÃAAAWWWRR!

Aki viu o mundo sua volta escurecer rapidamente, logo ele se encontrou em uma espécie de caverna, repleta de doces e frascos de remédios. A árvore havia se tornado um pirulito gigante.

“Como fui idiota...” Nagisa se lamentava, fora só um momento que ela deixou escapar seu semblante humano, mas era o bastante, “eu sabia que não teria volta.”

A voz dela tinha voltado ao normal, mas Aki não tinha como se esquecer daquela face. Nunca se esqueceu.

“Não tinha como isso se tornar um sonho,” lágrimas começaram a brotar, “apenas um pesadelo.”

“Espere! E-Espere!”

Ela se virou lentamente, olhando para ele de relance.

Aki já estava de pé, arfando e gesticulando. “Espere...” Ele correu até a sua mala e pegou o seu caderno.

A curiosidade sobrepujou a tristeza de Nagisa.

Ele folheou avidamente e então estendeu o braço, mostrando para ela um desenho.

Nagisa ficou boquiaberta. Pintado com caneta colorida estava uma boneca com cabeça em forma de embalagem de bombom, vestindo uma toca preta com bolinhas vermelhas e um casaco marrom com mangas muito compridas. A face alegre da boneca ela conhecia muito bem, assim como o nome escrito na página.

“Ano passado eu tive sonhos com isso, foi um dos motivos que me levou a começar desenhar nesse caderno. Essa criatura falava de uma forma estranha, mas eu conseguia compreender, ela me deu seu nome... Contudo, eu não sabia por que eu estava tendo esses sonhos, isso não vinha de nenhum filme que eu tinha assistido, mas agora... agora...” Ele balançou seu caderno e levantou a voz, “Você é Bebe!”

Então o caderno caiu de sua mão.

Estremecendo e desviando o olhar, ele levou as mãos à cabeça e concluiu, “Eu estou ficando louco, não estou?”

“Não!” Nagisa afirmou, “você não está!”

Aki voltou a olhar para ela.

Nagisa abaixou a cabeça e a voz, “Tudo isso é real...”

“Então... o que eu sonhei e vi...”

“Aki! Você não pode contar para ninguém!” Ela juntou as mãos. “Por favor, não faça isso!”

Ele fez uma careta. “Eu não vou fazer, senão os homens de preto me seqüestram.”

E ela também. “Hã?!”

Ele continuou, “eu já vi isso várias vezes. Quando alguém tem contato com um alienígena, os governos fazem essa pessoa desaparecer, talvez até mesmo sua família. Eles não querem que nós saibamos a verdade.”

“Eu não sou alienígena!” ela enfatizou, “eu sou humana! Eu juro!”

Ele olhou envolta. “M-Mas eu não fui abduzido para o seu planeta?”

“Esse lugar...” Nagisa respondeu, hesitante, “isso aqui é um lugar mágico...”

“Mágico?” Aki ergueu as sobrancelhas. “Então você é uma bruxa.”

Ela arregalou os olhos.

“Uma feiticeira.”

Ela suspirou, mais aliviada. “Você está certo.”

“Entendo...” Ele virou face e levou a mão à boca, ponderando, “a lei dos ciclos, é um nome muito estranho para um clube de garotas, mas para uma sociedade de magos...”

Nagisa ficou preocupada que ele estava desvendando mais do que devia. Ela se aproximou, mandando, “Você entende com o que está lidando! Você não vai compartilhar com ninguém!”

“Eu já disse que não vou fazer isso!”

Mas a expressão severa dela logo cedeu para o pesar. “E nós devemos nos separar.”

Aki piscou os olhos algumas vezes antes de proferir, “Separar?”

“Sim! Eu já devia ter feito isso. Eu nunca deveria ter começado um relacionamento contigo para começar...” Ela cerrou os punhos. “Eu cometi um erro terrível e coloquei sua vida em risco. Mágica é algo que você não tem total controle, por mais que você acredite o contrário. Você viu, agora você sabe.”

Com uma expressão séria, Aki falou, “Eu quero ver de novo.”

“O quê?!” Ela deu um passo atrás.

“Por favor, eu quero ter certeza.”

Nagisa ficou sem palavras, então se recompôs e assentiu, antes de esconder sua face com as mãos.

Aki aguardou ansiosamente.

Ela lentamente revelou sua face transformada, sem estar olhando para ele. Ela não tinha expressão alguma, mas suas mãos tremeram e se fecharam.

Ele olhou mais de perto. Algumas feições ainda eram reconhecíveis, mesmo com os olhos estranhos, mas os olhos dela sempre foram. A única coisa realmente inumana era seus largos lábios roxos. Ele estendeu a mão para tocar a pele e era incrível, pois não era maquiagem, nem mesmo os círculos amarelos nas bochechas.

“Suwa mãwr está tremendowr,” disse Nagisa, sem esconder sua voz e os dentes afiados, “vowrcê está suwandowr mais. Eur possowr sentirr powrque vocer cheirawr cormo comida parawr mim.”

Aki a abraçou.

“O QUEWWR?! ENLOQUECEWWR?”

“Não...” Aki engoliu seco antes de continuar, “eu estou com medo, sempre fui um grande covarde... mas eu não me esqueci do que fez por mim, do seu amor.”

O cheiro do Roquefort fazia ela salivar. “Vorcê nawr entende! Euwr posswwr machuwrcar vwrcê!”

“Após o beijo, quando você gritou em desespero, era porque você estava certa de que iríamos nos separar, não era?” Aki Aki a abraçou mais forte. “Como posso deixá-la, sabendo que você estará sofrendo? Como poderia viver com isso? Nada doeria mais.”

“Vocewr pode mowrrewr...”

“Sabendo disso então lutarei para ficar contigo. Essa será a minha prova de amor.”

Nagisa não disse nada, pois precisava segurar um choro.

Enquanto o coração de Aki se acalmava. Os longos, ondulados cabelos brancos, as chucas e o uniforme escolar feminino, a meia calça de bolinhas... tudo isso o lembrou de quem estava em seus braços. Ele se afastou para poder olhar nos olhos coloridos de sua namorada e comentar, “Aliás, você seria uma boa dubladora de monstros.”

Surpresa e ultrajada, Nagisa virou a face. Foi então que sentiu sua bochecha ser cutucada pelos lábios dele. Ela voltou a olhar para ele ainda mais chocada.

Ele desviou o olhar, com um sorriso embaraçado. “E-Eu acho que falhei em meus instintos de sobrevivência...”

Aquilo fora estúpido e... engraçado. Nagisa sentiu que ia sorrir, um que seria genuíno, mas ela buscou esconder. Tarde demais, sua enorme boca deixava isso muito evidente. Não havia mais nada a fazer além de socar o peito dele. “Idiowrta...”

Ele fechou os olhos, aceitando.

Nagisa falou em tom mais baixo, controlando sua voz, “isso não é certo...”

“Se isso significa estar com você, então eu não sei o que é certo e errado.” Aki reabriu os olhos e testemunhou algo ainda mais inusitado. Pequenas criaturas os rodeavam, com um par de pernas e cauda de rato, mas o resto do corpo deles era completamente bizarro. Eles usavam chapéus de enfermeiros, com um desenho lilás de um coração estilizado e invertido. “O que... são essas coisas?”

“Minhas emoções,” Nagisa respondeu, convicta.

/人 ‿‿ 人\

As luzes laranja do entardecer penetravam as janelas da sala de estar enquanto Mami estava sentada à sua mesa de vidro triangular. Ela observava seu reflexo sem vida. “Ela está demorando...”

“E nós sabemos por quê.”

Mami olhou para Homura, que estava sentada em outro lado da mesa.

“É um absurdo que ela esteja com esse garoto,” afirmou a garota com tranças.

“Mesmo se ela o amá-lo?” Madoka estava ocupando o último lado.

Homura olhou intensamente para ela. “Ela só irá complicar a vida dele.” Depois retornou para Mami. “E você deixou isso acontecer. Ela era sua responsabilidade.”

“Isso é verdade.” Madoka assentiu, séria. “Mami-san descobriu isso muito tarde...”

A loira abaixou a cabeça. “O que vamos fazer agora?”

“Eu esperava que você tivesse uma resposta, todas nós esperávamos,” disse Homura.

Ela estremeceu.

Homura concluiu, “Mas vejo que não podemos contar contigo, nós teremos que conviver com esse erro.”

Madoka complementou, “O erro de Nagisa-chan pode ser perdoado, pois ele advém de boas intenções e um nobre sentimento.” Então ela abriu um sorriso. “Ao contrário de outros, cheios de egoísmo e luxúria.”

Mami arregalou os olhos.

Madoka e Homura a encaravam com malícia.

Rapidamente, ela estendeu as suas mãos. As outras duas garotas se desmontaram em um emaranhado de laços, que foram sendo absorvidas pela sua pele.

Quando terminou, ela estava novamente sozinha em seu apartamento. “Obrigada... minhas amigas.”

Notas finais
Próximo capítulo: Propósito