Amor
7 Estrada para o inferno
No dia seguinte, Nagisa estava novamente com o casal no intervalo, relatando o ocorrido.
Ayako estava com os olhos arregalados. “Você disse isso a ele?! Assim tão de repente. O-O que ele respondeu?”
“Ele quase não conseguia falar.” Nagisa estava com o seu queixo repousando sobre a mesa, estufando suas bochechas. “Só entendi que ele ia ‘ver’. Eu tive que sair dali senão o Kuroki-kun podia aparecer. Foi tão embaraçoso...”
“Não seria melhor ir até ele agora e saber a resposta?” Ayako forçou um sorriso. “Hm?”
Nagisa só mexeu a boca. “Eu estou esperando por ele. Ele pode estar pensando ainda.”
Ayako desviou olhar e ergueu as sobrancelhas. “Desculpe, mas estamos falando do Hidaka-kun...”
“AAAHHH!” Nagisa escondeu a face na mesa, enquanto colocou as mãos sobre a cabeça. “Eu estraguei tudo! Ele deve achar que eu sou louca.”
“Calma,” Ayako disse em voz suave, “é um pouco cedo para se desesperar.”
Sanjuro não conseguiu segurar mais. “Hehehehahahaha!”
Ayako ficou surpresa.
“Hahahaha, você é uma completa retardada! HahahAIIIE!”
Ela deu um beliscão na bochecha dele. “Não fala assim com ela!”
Sanjuro ficou passando a mão no rosto. “Mas você não vê? Ela tá tentando ‘resgatar’ o marica.”
A expressão irritada de Ayako passou a ser de epifania, então ela olhou para Nagisa.
A garota levantou a cabeça um pouco e trocou olhares.
“Apesar de eu estar agradecida por isso,” Ayako começou, “você entende que eu não comecei a namorar Sanjuro para fazê-lo sair da gangue, não é?”
“Sim.” Nagisa voltou a esconder o rosto, sua voz ficando abafada. “Eu quero ajudar Hidaka-kun, então eu gosto dele também...”
“Nagisa-chan...” Ayako suspirou antes de continuar, “Kuroki e a gangue podem machucar Hidaka-kun de muitas formas, mas nenhuma como você pode.”
“Eu sei do que você fala,” ela respondeu, “eu irei tomar cuidado.”
“O problema não é esse!” Sanjuro se inclinou sobre a mesa para ficar mais próximo de Nagisa. “Eles só me deixaram eu ir porque me respeitavam, principalmente o Takuma. Se continuar com esse plano estúpido, você vai se ferrar tanto que vai se arrepender de ter trocado uma palavra com aquele marica.”
Ela se levantou, com expressão e voz exultando determinação. “Eu jamais irei me arrepender por estar ajudando alguém.”
Sanjuro recuou de volta ao seu assento.
“Eu jamais irei me arrepender por estar fazendo algo.”
Ayako sorriu. “Agora me sinto mais convencida. Essa coragem diz muito sobre até onde você irá por ele.” Então ela se virou para o seu namorado. “E você não vai contar pra ninguém.”
Ele deu de ombros. “O que eu ganharia com isso?”
“Gostaria de ver a cara que o Kuroki iria fazer...” Ela voltou a olhar para a outra garota. “Olha, espera até o fim das aulas de hoje, não mais que isso, e então pergunta pra ele.”
Nagisa abaixou olhar, ficando envergonhada novamente. “Sim...”
“Que fique isso entre nós.” Ayako ficou de pé.
Sanjuro também, balançando a cabeça e sorrindo. “Isso é estúpido, mas tenho que dizer que tu tem mais atitude que aquele marica. Boa sorte.”
Com eles indo embora, Nagisa estava ciente que não tinha sido uma boa idéia ter contado. Um ato tolo, impulsivo. Eles não podiam ajudar, ninguém iria.
Somente uma pessoa podia fazer a diferença agora. “Hidaka-kun, deixe-me ajudá-lo...”
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“Me espera no portão?”
Era o fim da aula e Aki estava tendo um deja vu. “De novo?”
“Você pode me acompanhar até o banheiro se tiver afim,” disse Takuma.
“Ah...” Aki assentiu. “Eu acho... que vou pro portão mesmo.”
“Beleza.” Takuma espalhou o cabelo dele.
Ainda em sua carteira, Nagisa observou os dois garotos saírem. Através dos vidros, ela os viu se separar e o loiro caminhar pelo corredor, passando ao lado da sala.
Ele nem sequer olhou para mim.
Ela cerrou os punhos e suspirou. “Ok!” Ela então se levantou, pegou a mala e saiu com pressa. Apesar disso, devido aos corredores lotados de estudantes, ela só conseguiu alcançá-lo quando já estava no lado de fora. “Hidaka-kun!”
Aki parou e se virou. “Ah... oie...”
“Oi...” Ela se esforçou para manter um sorriso. “E então... você chegou a pensar?”
“Pensar? Bem... eu...”
Com tal resposta, contudo, era impossível para Nagisa.
Aki coçou a cabeça. “Eu não consegui pensar em nada, nem sabia por onde começar. Isso não é uma piada?”
“Não!” Nagisa enfatizou, “eu estou sendo super hyper mega séria.”
“É que... eu sou alvo de piadas na sala,” ele abaixou a cabeça, “você sabe que seria ruim para a sua reputação...”
Nagisa deu de ombros. “Eles já me consideram como sua namorada. Só estaríamos tornando isso oficial.”
“Mas...”
Ela então se curvou para ele. “Por favor, seja o meu namorado!”
Assustado, Aki olhou para os outros estudantes que passavam por ali, que estavam curiosos com aquela cena. “V-Você não precisa fazer isso!”
Nagisa se levantou e ajeitou o cabelo, com uma expressão ansiosa e preocupada.
Ele balbuciou, “Se... você quer tanto ser... minha namorada... então tá...”
Nagisa abriu um sorriso.
“M-Mas...”
Contudo, não durou muito. “O quê?”
“É que... eu não esperava por isso. Eu não sei como ser um namorado...”
Ela notou que ele havia começado a tremer. Nagisa tentou ser mais descontraída. “É a minha primeira vez também. Vamos descobrir juntos. Hehe...”
Aki assentiu lentamente. “Ah... sim...”
Ela deu uma piscadela e apontou para si. “Mas eu conversei com a Ayako-chan.”
“Ayako...?” Aki ficou confuso, mas então se lembrou. “A namorada do Sanjuro, certo.”
“Sim e ela me disse que um casal deve sempre voltar da escola juntos.”
Aki ergueu as sobrancelhas. “Sério?”
Nagisa acenou com a cabeça vigorosamente. “Uhum! Uhum!”
Ele passou a mão no cabelo, dizendo, “Isso não parece difícil... eu acho...”
“Você acha o quê?” Takuma apareceu de repente, com um sorriso maroto. “O que vocês dois estão conversando? Por acaso estão planejando ficar a sós de novo?”
“Seria bom.” Nagisa retribuiu o sorriso. “Eu sou a namorada dele.”
“Hahahaha! É isso mesmo!” Takuma deu um soco no braço de Aki, quase o derrubando. “Meu garoto...”
Aki passou a mão no seu braço magoado e disse em tom sério, “Ela não está brincando.”
A expressão de Takuma congelou, seu sorriso escancarado era traído pelos seus olhos que piscavam, confusos. “Hein?”
Nagisa pôs as mãos na cintura. “Nós somos um casal agora, é oficial.”
Com ela sendo tão assertiva, Aki corou enquanto dizia, “Takuma, eu... não vou poder ir contigo.”
O outro garoto saiu de seu transe. “Não?!”
“É que eu irei acompanhar a minha namorada na volta para casa. É algo que um homem deve fazer, certo?”
Takuma trocou olhares por um tempo com Nagisa, carregando consigo um ar de insatisfação quando finalmente respondeu, “Sim, é o que um homem faria.”
“É melhor nós irmos,” disse ela, gesticulando para que Aki viesse. “Até amanhã, Kuroki-kun.”
Ele obedeceu, mas não antes de dizer para Takuma, “Tchau... e desculpe.”
“Sem problema... homem.”
Enquanto ouvia essas palavras, Aki alcançou Nagisa, que estava em um ritmo acelerado. Os dois logo chegaram na rua e continuaram pela calçada.
Nessa hora ele não conseguiu resistir e olhou para trás.
“O que foi?” perguntou Nagisa.
Aki respondeu, “Eu pensei que Takuma pudesse estar nos seguindo, talvez ele quisesse dizer mais alguma coisa, mas... parece que não.”
“E você parece feliz com isso.”
“Eu?” Aki moveu os lábios para checar. Ele estava sorrindo? “Não... eu não estou...”
Eles continuaram a seguir rumo a estação de metrô. Logo a maioria dos pedestres não eram apenas jovens uniformizados, mas pessoas de todas as idades e procedências.
Esse trajeto era bem familiar para Aki, exceto que dessa vez ele estava andando lado a lado com alguém, que não era nada mais e nada menos do que sua namorada. Isso não era algo que ele prestava a atenção, mas ele podia dizer que os sons dos passos até estavam sincronizados, assim como os pequenos barulhos das coisas dentro de suas malas faziam.
Sua mão que balançava acabou por roçar na dela. Tão inconveniente. Ele trouxe a mão junto ao corpo e ficou um pouco mais afastado. “É... Você vai comigo no metrô?”
Nagisa respondeu, “Eu volto para casa a pé, mas eu te acompanho até a entrada da estação.”
“Ah sim...”
Se aproximando da estação, a quantidade de pessoas aumentava. A construção oferecia espaço para várias lojas de conveniência e restaurantes, além das inúmeras barracas de vendedores ambulantes. Apesar da boa quantidade de catracas, ainda se formavam filas para entrar.
“Bem... é até aqui...” Aki comentou.
“Uhum...” Do qual Nagisa confirmou.
Com os dois parados frente a frente, Aki se esforçava em ser natural. A garota era a mesma, apesar de ela ser algo a mais agora. “Então... é...”
Nagisa ergueu as sobrancelhas de leve.
Com toda a naturalidade do mundo reunida, Aki falou, “Tchau! Namorada.”
Ela arregalou os olhos, mas tentou corrigir a reação que teve com um sorriso. “Tchau, namorado...”
Aki engoliu seco e se virou, caminhando até uma das filas.
Nenhuma palavra a mais foi trocada, Nagisa não sabia o que fazer além de ficar observando ele.
Felizmente, ele olhou para trás.
Com a oportunidade, Nagisa acenou.
Ele imitou.
Assim estava um pouco melhor. Despedidas podiam ser estranhas às vezes. Nagisa então seguiu seu rumo.
“Tchau, namorado... tchau, namorado... tchau, namorado...” Ela repetiu para si mesma em seu trajeto de volta para casa até não agüentar mais de vergonha, escondendo sua face. “Ah! O que estou fazendo?!”
Alguns transeuntes olharam curiosos para aquela cena.
Vendo que estava chamando muita atenção, Nagisa buscou se acalmar, ela precisava de um tempo para pensar. Perto dali havia um pequeno parque, onde se via muitas mães conversando enquanto suas crianças brincavam naquele fim de tarde.
Ela foi até um banco de madeira vazio, que estava mais afastado daquela cena, já com mais convicção.
Eu sei porque estou fazendo isso.
“Agora, eu tenho um namorado.” Sentada, com a mala ao lado, ela sentia a gema incrustada em seu anel na mão esquerda com o polegar. “Será que eu conto para Mami pelo menos?”
Na calçada estava passando um casal que vestia o uniforme da escola de Mitakihara. Eles estavam de mãos dadas, corpos colados, trocando sorrisos e palavras de forma muito animada.
Nagisa observou eles até que o som de um impacto e o trepidar das tábuas do banco a fizessem pular de susto. “Hã?!”
O culpado por aquilo havia sido uma pequena bola de borracha colorida, que quicava pelo chão de terra até os pés de seu dono. Era um garoto, tão jovem quanto ela, vestindo calça jeans com suspensórios e uma camisa listrada de cor branca e vermelha. Seus olhos eram amarelos e seu cabelo curto era de um azul profundo, com uma mecha do lado direito de sua franja longa o bastante para alcançar sua boca. “Desculpa.”
Nagisa viu que ele a encarava com certa intensidade, o que a deixou mais apreensiva do que o susto que havia tomado. “Não foi nada...”
Ele pegou a bola e se sentou no banco. “Você devia estar bem distraída com aquele casal.”
O que seria aquela súbita aproximação? Será que ele estava flertando? Nagisa cruzou os braços. “V-Você reparou?”
“Eu estava observando você desde que sentou nesse banco,” ele afirmou, “você parecia que estava pensando bastante sobre algo, preocupada.”
Agora ela estava certa de que bola não tinha acertado o banco por coincidência. “Eu não estava pensando em nada.”
Ele soltou a bola, fazendo-a quicar antes de pegar de volta. “Acho difícil, eu pelo menos sempre estou pensando em alguma coisa, não consigo evitar...”
Nagisa olhou de relance e viu que ele sorria para ela. O cheiro dele agora dava para sentir bem, era usualmente doce, de uma fruta, mas ela não conseguia discernir qual, em certos momentos parecia ter tons cítricos. Aquilo estava ficando desagradável, era melhor jogar a bomba. “Eu queria dizer que estava pensando em nada demais, apenas sobre o meu namorado.”
“Oh... Vocês terminaram?”
Ou ele era um sem noção ou insistente. Nagisa não tinha interesse algum em ambos. Forçando um sorriso, ela respondeu, “Na verdade começamos e está indo muito bem.”
O garoto parou de sorrir, mas ele não ficou triste, ele ficou sério, muito sério. Enquanto fazia a bola quicar novamente, ele questionou com muita firmeza, “Então por que está preocupada?”
“Preocupada...” Nagisa repetiu, um tanto surpresa. Então era realmente sobre isso que ele veio falar com ela? O garoto tinha ficado irritado por estar sendo feito de bobo e ela se sentiu mal com isso. Dessa vez, ela buscou ser mais honesta. “Eu apenas estava pensando em como será o futuro com ele.”
A expressão do garoto ficou menos tensa e ele passou a olhar para a movimentação no parque. “Hmm... Eu já passei por isso. Garotos são bem complicados, eu recomendo que não tenha expectativas e fique de olho...”
Nagisa franziu a testa diante das inesperadas sugestões e passou a examinar melhor a pessoa que estava sentada ao seu lado. As pernas estavam fechadas, as mãos descansando sobre as coxas. Era difícil dizer por causa da idade, mas a afirmação aliada a aquela postura eram indícios de que ele na verdade era ‘ela’. “Você tem um namorado?”
O garoto, ou garota, respondeu, “Já tive um...”
Nagisa respirou mais aliviada. Aquela pergunta podia ter terminado em um desastre, mas ela estava certa... e por estar certa ela estava errada. Como fora estúpida.
Agora mais garota do que garoto, ela voltou a olhar para Nagisa. “Você acha que ele pode estar escondendo algo de ti?”
“Ele?” Ela sorriu, se a outra garota soubesse como Aki era, não teria especulado isso. “Não... não...”
“Então é você.”
A afirmação fez Nagisa parar de respirar, ainda que ela soubesse que a conversa estava encaminhando para essa lógica conclusão. “Eu...”
A outra garota deixou a bola cair.
“Sim, eu estou escondendo algumas coisas dele.”
Mas ela pegou antes que tocasse o chão. “Isso não é uma boa forma de começar um relacionamento.”
Nagisa pressionou suas pálpebras e lábios. “Eu sei, mas eu não tenho como contar para ele.”
“Ele não te perdoaria?”
“É mais complicado que isso.” Com as pontas dos dedos, ela manipulou o seu anel. “Eu quero vê-lo feliz e não tem como isso ser possível se ele souber a verdade.”
“Francamente... ninguém entende isso?” A outra garota passou a brincar com a bola, passando de uma mão para a outra. “O peso de uma verdade não está apenas no conteúdo, mas na forma como ela é tratada. O ato de escondê-la vai trazer muitos problemas e ele será vítima disso.”
“Você parece ser bem experiente...” Nagisa comentou.
A garota ficou de pé. “Eu fui a vítima.”
As palavras que Nagisa ouviu eram tão duras quanto ásperas. “Se eu... ver que isso está causando problemas, eu tomarei uma atitude, mas eu realmente quero vê-lo feliz.”
A bola quicou mais uma vez. “Faça o que desejar, porém lembre-se que se você realmente quer o bem de uma pessoa, nós ás vezes temos que fazer coisas que não queremos.”
“Vou me lembrar disso.” Vendo que a outra estava de partida, ela sentiu a necessidade de perguntar, “Você mora aqui perto?”
“Não.” A garota olhou para o céu. “Na verdade eu estou à procura de uma pessoa. É uma cidade grande, mas sinto que estou próxima...”
Nagisa franziu a testa. “Hmm... Eu lhe desejo boa sorte então.”
“Obrigada.” A garota começou andar, passando por trás do banco. “Tchau, bruxa.”
“Tchau...” Nagisa disse sorrindo, mas logo lhe acometeu. “Espere... o que você disse?” Ela se virou.
A garota entrou em uma moita.
“Ei!” Nagisa saiu correndo atrás dela. Ela lutou contra os galhos e vinhas ferozmente para abrir caminho, até se deparar com a rua.
Não havia nenhum sinal da garota.
Nagisa olhou envolta da moita. Era impossível ela ter saído por outra direção sem ser notada. Esforçou-se em ouvir alguma coisa, mas nada. Então se fez uso de seu último recurso.
Havia cheiros doces, muitos deles. Alguns eram de frutas, mas qualquer um deles podia ser da garota assim como de qualquer outra pessoa que tivesse passado ali com o cheiro de uma fruta específica.
Aquela garota, aquela estranha garota, havia desaparecido no ar.
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