Amor

8 Controle


Quando o filé de peixe caiu no tacho, logo ele começou a fritar e um delicioso cheiro tomou conta da cozinha.

Mami preparava a janta, usando uma espátula para mover o peixe com maestria. Um observador diria que ela estaria concentrada no que estava fazendo, mas a verdade é que sua mente estava em outro lugar.

As panelinhas já estão formadas na minha sala.

Ela colocou um pouco mais de óleo no tacho.

Eu não consegui me aproximar de ninguém em Shirome. Na verdade, uma pessoa se aproximou de mim.

As chamas cresceram enquanto ela regulava o queimador.

Mas Sasa-san é do ensino fundamental. Se ela quer uma senpai em quem confiar, eu não posso depender dela. Eu preciso estabelecer uma posição social na escola.

A aparência do peixe já estava ficando boa, era hora de dar um toque especial. Quando foi ver o topo do balcão, contudo, percebeu a ausência do que precisava. “Ora! Eu esqueci de pegar o molho.” Enquanto continuava a mexer a fritura, ela abriu um dos armarinhos para procurar.

Talvez um clube da escola? Sim, um clube. Eu irei interagir com garotas de todas as idades. Shirome deve ter uma para chá. Eu devo ter habilidades suficientes para me aceitarem, elas não deverão se importar que eu sou uma transferida.

Mais sorridente com a conclusão que teve, Mami encontrou o frasco com o molho, mas um forte cheiro de queimado invadiu suas narinas. Amaldiçoando o seu lapso, ela checou o que havia acontecido com o peixe.

A mão que segurava a espátula estava em chamas.

“Ah?!” Mami soltou a espátula e afastou a mão do queimador. O movimento fez com que as labaredas ganhassem força, ameaçando a alcançar o braço. Ela correu até a pia e abriu a torneira, fazendo muita fumaça enquanto o fogo se apagava.

Era o fim do susto, mas não da inquietação. Em nenhum momento ela sentira dor. Os dedos da mão agora eram pedaços suspensos de pano carbonizados e era possível distinguir a extensão da ‘queimadura’, onde haviam laços entrelaçados que perderam sua capacidade de mimetizar a pele. Enquanto tentava mover a mão, pequenos laços começaram a brotar e envolvê-la.

“Mami?”

Era Nagisa. Ela rapidamente colocou uma luva e voltou para o fogão, apagando o queimador.

“Aconteceu alguma coisa?” A garota apareceu na cozinha, logo fazendo uma careta. “Que cheiro de queimado...”

“Sim, eu acabei queimando o peixe.” Com a espátula, Mami levantou o filé que estava no tacho, revelando a parte escurecida. “Uma pena...”

“Não parece muito queimado.” Nagisa cheirou. “e esse cheiro... não é de comida queimada.”

“Oh... bem...” Mami deu um sorriso sem graça. “Por acidente, eu acabei queimando uma de minhas luvas também e tive que trocar”

“Nossa!”

“Pois é...” Mami colocou o tacho sobre o balcão. “Hoje não é o meu dia na cozinha.”

Nagisa assentiu. “Hmm... Mami, posso lhe perguntar uma coisa?”

A loira estava checando os armarinhos por novos ingredientes. “O que seria? Queijo?”

“Não, hehe...” Nagisa puxou uma mecha de cabelo para mais perto de seu rosto. “Por acaso Madoka contatou você recentemente?”

“Madoka-san? Recentemente?” Mami olhou para ela. “Não, por quê?”

“Nada.” Nagisa deu de ombros, desviando o olhar. “Apenas que ela não tem nos visitado com tanta freqüência.”

“É verdade,” Mami concordou e ponderou, “como garotas mágicas nós nos encontrávamos muito mais e fazíamos muitas coisas juntas.”

Nagisa sentiu a nostalgia naquelas palavras. “Mas tínhamos que lidar com muitas coisas ruins também.”

“Sim.” Seu sorriso foi tão sucinto quanto a sua sentença. Com isso, Mami voltou sua atenção para os ingredientes. “Era só isso que queria me dizer?”

“Ehhhmmm...” Nagisa pressionou os lábios. “Sim? Era só isso...”

“Pois eu tenho boas notícias, temos o suficiente para uma sopa rápida.”

A face de Nagisa iluminou-se. “Com queijo?”

Mami voltou a olhar para ela, com as sobrancelhas erguidas. “Só um pouco.”

“Um pouco mais do que um pouco?” Nagisa escancarou um sorriso, mostrando os dentes.

A loira semicerrou o olhar e disse friamente, “vá e prepare a mesa.”

A garota bateu continência e saiu da cozinha.

Mami suspirou, mas então voltou sua atenção para a sua luva. Ela lentamente a removeu.

Sua mão estava em perfeito estado, nem sequer havia indícios de carbonização sobre a pele. Ela podia dobrar os dedos como se nada tivesse acontecido.

No entanto, Mami sabia que jamais poderia usar o adjetivo ‘normal’.

/人 ‿‿ 人\

A aula estava chegando ao fim e o intervalo para o almoço se aproximava. Nagisa tentava acompanhar o professor e fazer as últimas anotações no caderno, mas algumas vezes ela olhava de relance para o outro lado da sala, onde estava o seu namorado.

A notícia não tinha se espalhado ou pelo menos aparentava isso... A única coisa estranha era que Takuma não tinha falado com Aki durante toda a manhã.

O sinal tocou.

Nagisa guardou as suas coisas e deixou a sua carteira. Ao procurar por Aki, porém, ela viu que ele já estava saindo da sala. Seus olhos se encontraram, mas ele não parou.

Os corredores estavam congestionados com estudantes ansiosos em deixar o prédio ou ir ao refeitório, mas Nagisa notou que o garoto estava indo na contramão daquele rio de pessoas. Ela o teria perdido se não fosse às vezes onde ele parava e olhava para trás.

Quando quantidade de estudantes diminuiu, ela finalmente conseguiu alcançá-lo. “Oi! Para onde está indo?”

“Eu te mostro.”

Eles passaram ao lado da biblioteca e desceram um lance de escadas até uma porta dupla, usada pelo pessoal de serviços gerais, mas que não estava destrancada.

A porta dava para o lado de fora, mas não havia ninguém ali. Era uma área não freqüentada pelos alunos, pudera, o mato era denso e não havia muito espaço. Ali também ficava os galpões com as salas de força, com suas portas de metal com avisos e o zumbido ameaçador da alta tensão, assim como as caçambas de lixo.

Nagisa viu uma criatura branca peluda no topo de uma delas.

Kyuubey?

Na verdade era um gato, que fugiu com a presença deles.

“Esse lugar não mudou nada,” comentou Aki.

“Você vinha aqui muitas vezes?” indagou Nagisa.

Ele sentou no chão, encostado contra parede. “Ano passado, quando Takuma ainda não era o meu amigo, as coisas eram piores. Algumas vezes era tanto que eu vinha para cá. Desculpe se aqui não está bom para você.”

“Está tudo bem.” Nagisa fez o mesmo. “Agora é o nosso esconderijo secreto.”

“Não é tão secreto assim.” Aki abriu a sua mala. “Apenas afastado de todo mundo...”

Nagisa ficou surpresa. Ele estava retirando um pote de comida.

O garoto olhou para ela. “É... Eu pensei que um namorado deve comer com a sua namorada, então eu trouxe. Não é nada.”

“Eu não acho.” Nagisa sorriu. Aquilo significava, e muito, pois ela estava ciente de que ele havia se arriscado ou encontrado uma forma de evitar pagar tributo apenas para compartilhar aquele momento. “Só tem um problema.”

“Hã?” Aki viu ela tirar o pote dela, muito maior que o dos outros dias.

“Eu tive a mesma idéia, então eu trouxe o suficiente para nós dois.”

Quando o pote foi aberto, ele estava repleto de comida, mas metade dele continha cubos amarelos, cortados com simetria. Aki falou, “Deixa eu adivinhar... tofu com queijo?”

“Não, é apenas queijo...” Nagisa ficou encabulada. “Eu não tinha tempo para preparar mais comida, então precisei improvisar. Heheheee...”

“Teremos um farto almoço hoje.” Aki abriu o seu pote.

“Oh! Por favor, aceite.” Usando palitos, Nagisa pegou alguns cubos e ofereceu. “Eles são para você também.”

“Claro, claro, eu vou ajudá-la com isso.” Aki deixou que ela colocasse alguns cubos em seu pote, enquanto isso aproveitou para experimentar um deles. “Eu... Eu pensei que todos os queijos fossem salgados, mas esse é suave, parece até que é doce.”

“É um Gruyère. Esse está pouco maturado, senão você estaria sentindo um sabor mais pronunciado e terroso,” disse Nagisa, “ele é suíço, mas é produzido no mundo todo e é muito apreciado na Grécia.”

Aki ficou impressionado. “Você sabe tudo sobre queijos?”

“Eu estudei muito...” Nagisa fechou os olhos, com um sorriso sereno, enquanto se lembrava de alguém muito especial.

Isso terminou com um som de impacto violento e distante.

Ela notou que, além dos arbustos e árvores, um bate estaca tinha começado a trabalhar. Não havia somente o bate estaca, como também guindastes, além do som de tratores e outros veículos pesados. “Hidaka-kun, você sabe o que estão construindo ali?”

“Você não sabe?” Aki franziu a testa. “É a escola de ensino médio de Mitakihara.”

Nagisa desviou o olhar. “Escola de ensino médio...”

“Ano passado Mitakihara sofreu um grande desastre, virou notícia no mundo todo. Eu não sei se você estava aqui nessa época...”

“Sim, eu estava.”

“O governo trouxe muito dinheiro como auxílio na reconstrução. A escola de Mitakihara foi uma das instituições que o recebeu, mas ela não tinha sido muito danificada,” Aki consumiu outro cubo antes de continuar, “eles decidiram construir esse novo prédio com o dinheiro que sobrou. As aulas já começam no próximo ano.”

Nagisa ponderou, “Então se isso tivesse acontecido um ano antes... Mami poderia ainda estudar aqui...”

“Mami?”

Ela sorriu. “É alguém que eu conheço.”

Eles continuaram com o almoço, observando o trabalho naquele campo de obra.

Aki comentou, “Daqui alguns anos nós seremos adultos...”

Além de surpreendente, aquilo tinha soado um tanto melancólico para Nagisa. “Eu acho que isso é muito tempo.”

“Pode ser, mas estamos crescendo, irá acontecer.” Ele olhou para ela. “Aliás, você não me contou sobre o que pretende ser no futuro.”

“É porque eu não pensei muito nisso. Eu não tenho idéia de como ele será.” Nagisa ficou examinando um dos cubos de queijo. “Mas se for para trabalhar em alguma coisa, eu gostaria de seguir o sonho da minha mãe e montar uma confeitaria.”

Aki sorriu. “Legal, então você quer trabalhar com a sua mãe.”

“Não...” Nagisa entristeceu, mesmo comendo o queijo.

Ele ficou confuso em um primeiro momento, mas depois seus olhos se arregalaram. “Como eu sou burro, desculpe.”

Ela balançou a cabeça. “Não se culpe, você não sabia.”

“Você perdeu a sua mãe...” Aki comentou, abaixando a cabeça, “deve ser muito difícil, para você e seu pai.”

“Meu pai está morto também.”

“Ah!” Ele bateu a própria cabeça. “Eu sou burro mesmo!”

Nagisa gesticulou. “Eu já disse para não se culpar!” Então ela disse, “sabe a Mami? Ela é a minha tia e tem a minha guarda.”

“Mas ela não está fazendo o ensino médio? Ela não é jovem?”

“Ela é, mas ela é uma pessoa muito madura e de grande coração.” Nagisa fez um grande aceno com a cabeça. “Eu estou bem e feliz por ela estar cuidando de mim.”

“Bom...” Aki ainda estava em luto. Mesmo se ela está bem agora, perder o pai e a mãe deve ser uma experiência terrível que ela nunca vai esquecer.

Nagisa ofereceu o pote dela. “Por favor! Me ajude a esvaziar isso.”

“Hã?! Claro...”

O resto do intervalo foi sobre as aulas, notas e tarefas para casa. Eram coisas que se discutiriam com qualquer colega, mas para Nagisa era especial ver Aki falando sobre qualquer coisa que não fosse Takuma e as brincadeiras que ele sofria. Ele era bom em inglês!

“Temos que voltar,” disse o garoto quando se levantou.

“Já?” Nagisa nem tinha visto o tempo passar.

Quando os dois se aproximaram da sala de aula, viram que ela já estava cheia.

“Será que alguém notou nossa ausência?” ela perguntou.

“É bem possível,” ele respondeu.

“Tomara que nós possamos usar aquele esconderijo por mais um tempo.”

“Podemos ir amanhã.”

Eles estavam na entrada quando Nagisa teve seu braço puxado por alguém atrás dela.

Era Takuma. “Se não é os nossos pombinhos. Onde vocês-”

Nagisa mostrou os seus dentes em uma expressão ameaçadora.

“Wowowow!” Takuma deu um sorrisinho de lado. “O que vai fazer? Me morder?”

Aki pediu, “Por favor Takuma, solta ela.”

A garota puxou o braço.

Tão forte que Takuma não conseguiu segurar, ficando um tanto impressionado. “Claro... Nós somos ainda amigos, né?”

“Nós somos...” Aki olhou uma última vez para ele de relance antes de voltar sua atenção para Nagisa e segui-la para dentro da sala.

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Também era o fim do intervalo do almoço em Shirome, mas Mami não tinha retornado para sala, ao invés disso ela estava em frente a um grande mural. Ela falava consigo mesma, “Então esses são os horários e dias do clube do chá. Se eu quiser fazer parte, terei que ficar mais tempo na escola... hmmm... preciso rever os horários de ônibus...”

“Ei!”

Mami notou que havia uma garota ranzinza ao lado dela, de braços cruzados. Ela tinha cabelos longos e azuis, assim como os olhos, e era alta, isso ficava ainda mais evidente por estar acompanhada de duas colegas mais baixas.

“Você conhece Oriko Mikuni?”

Ela estava tendo uma idéia melhor do quanto Oriko era famosa, ou infame, naquela escola. “Sim? Assim como todo mundo...”

“Não tente bancar a espertinha comigo.” A garota semicerrou o olhar. “Ela está seguindo você.”

Mami ficou estupefata. Por que Oriko estaria fazendo isso? Se fosse para dizer algo, bastaria usar telepatia.

A garota vociferou, “Me diz o relacionamento que você tem com ela!”

As outras colegas tentaram acalmá-la. “Komaki-chan! Não!”

Mami gaguejou, “Eu... Eu não tenho. Tem certeza disso? C-Como você sabe... você está seguindo ela?”

Em um ataque de fúria, Komaki empurrou a loira contra o mural.

“Kyyaaah!” Ela se viu entre os braços da garota, que se apoiavam contra o mural, bloqueando qualquer fuga.

“Você ousa me irritar?” disse Komaki, com o seu olhar arregalado e ameaçador.

“Parem de incomodar ela!”

Mami reconheceu aquela voz de imediato.

Sasa estava no corredor, de pernas abertas em uma pose firme, com uma mão na cintura e a outra apontando para elas. “Agora!”

Komaki olhou de relance para ela. “A conversa não chegou ao jardim de infância.”

“Pelo menos lá eu aprendi que vacas não falam,” respondeu Sasa.

A garota de longos cabelos azuis virou. “O que disse?!”

“Quer que eu te ensine?” Sasa usou as suas mãos para imitar chifres. “Muuu? Mu! Muuuuuu!”

“Você tá morta garota!” Komaki avançou contra ela.

Sasa saiu correndo pelo corredor e dobrou a esquina. “Hahaha! Você tá aprendendo rápido, vaca.”

“Komaki-chan! Espere por nós!”

Mami viu as duas garotas segui-las e desaparecerem na esquina, deixando ela completamente sozinha, porém isso não trouxe alívio algum. “Ah não... Sasa-san...” Ela correu atrás delas pelos corredores, mas já era tarde, pois tinha perdido elas de vista.

“Tuturuh!”

Mami parou e procurou por aquele chamado. Na entrada aberta de uma das salas, atrás da porta, uma mão gesticulava. “Sasa-san?”

A garota de curtos cabelos castanhos mostrou a cabeça. “Elas estão voltando?”

“Bem...” Mami notou algumas garotas na sala olhando para elas, além de um crescente burburinho. “Não”

Sasa saiu com pressa do seu esconderijo e seguiu pelo corredor. “Corre! Corre! Corre! E esconde a face.”

Mami não viu muitas opções além de obedecer. Ela a seguiu até a escadaria mais próxima, onde ficaram.

“Elas não vão nos ver aqui,” Sasa afirmou, “pelo menos não até a aula começar.”

Com a situação mais calma, Mami sentiu que tinha tempo para questionar, “Por que você está nesse andar? Aqui é somente para alunas do ensino médio.”

“Sim! Sim!” Sasa abriu um sorriso. “Mas eu queria descobrir em qual sala você estudava e fazer uma surpresa. Sorte sua que eu tive essa idéia.”

Mami abaixou o olhar. “Você não precisava ter se arriscado por mim.”

“Eu nem me arrisquei! Aquela cadela mais ladra do que morde.”

“Você a conhece?” Ela franziu a testa.

Sasa ficou cutucando o próprio queixo. “Hmmmm... Sei que ela é de uma família rica, mas pouco conhecida. Então ela compensa a falta de influência intimidando quem ela acha que é fraca.” Então ela desatou a rir. “Fufuahahaha... mas você viu como é fácil provocar ela. Que vadia burra! Hahahahah-”

Mami vinha com um olhar desaprovador para ela.

“Ok. Eu parei... Eu sei que você não gosta que eu fale mal dos outros. Mal hábito que aprendi nessa escola, desculpe.” Sasa abriu os braços. “Mas qual é! Ela podia ter quebrado a sua cara. Você ao menos sabe o motivo dela ter te abordado assim?”

Mami desviou o olhar. “Ela se confundiu. Achou que eu era outra pessoa...”

Sasa voltou a sorrir, semicerrando os olhos. “Por acaso essa pessoa seria Oriko Mikuni?”

A loira prendeu a respiração.

“Hahaha!” Sasa balançou a cabeça e gesticulou. “Eu estou brincando!”

Mami tentou sorrir. “Ah... haha...”

“Se fosse para apostar, eu diria que era ela, pois tem muita gente obcecada em tornar a vida dela miserável por aqui.”

Mami assentiu. “Você deve estar certa...”

O sinal tocou.

“E é isso!” Sasa fez uma pose. “A operação ‘resgate da Mami-senpai’ foi um completo sucesso!”

“Obrigada Sasa-san.”

“Isso não foi nada.” A garota já descia a escadaria. “Só tenta não se meter em problemas até o fim das aulas.”

“Eu prometo que farei isso.”

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As aulas tinham acabado e a promessa tinha sido cumprida, no entanto, os temores de Mami não haviam terminado. Enquanto caminhava pelo corredor até a saída, em meio a horda de garotas, ela olhava para trás, procurando por um longo rabo de cavalo de cor palha ou por um par de olhos verde oliva.

Até que houve um choque.

Era Sasa, com uma expressão de dor, passando a mão em seu seio.

“Oh, desculpe,” disse Mami.

“Vou sobreviver.” A garota baixinha indagou, “Por que estava olhando para trás?”

Mami olhou para as estudantes que estavam passando ao lado delas. “Eu estou preocupada se aquela garota estaria me seguindo... hummm... Komaki-san, certo?”

“Você não precisa.”

Ainda que não fosse a sua real preocupação, aquela resposta rápida e sucinta da outra garota sobre aquilo a surpreendeu. “Eu não preciso?”

“Ela tem memória ruim, mente fraca.” Sorrindo, Sasa deu uma piscadela. “A essa hora ela já deve ter encontrado outra garota para incomodar.”

“Entendo...”

Sasa pegou o braço dela. “Corre ou vamos perder o ônibus!”

Como o usual, elas pegaram o ônibus em um ponto distante da escola e sentaram juntas, face a face.

Sasa falou, “Agora é voltar para casa, descansar e se divertir, pois amanhã tem mais.”

“Você já pensou em entrar em um clube?” perguntou Mami.

“Clube?” Sasa fez uma careta. “Só se eu quisesse ter um monte de inimigos. Ainda não aprendeu que estamos em Shirome? Os clubes se odeiam.”

Mami suspirou em frustração.

“Você quer entrar em um?” Sasa continuou, “Por quê? Está com tempo de sobra?”

“Porque...” A loira deu de ombros.

“Você não faz nada durante a noite? Nem sai de casa?”

Aquilo tinha sido bem mais específico, fazendo Mami sorrir, surpresa. “Não.”

Sasa também sorriu, se inclinando em direção a outra, com um olhar intenso. “Então não se importaria de sua querida Kouhai fazer uma visita.”

“Claro que não!” O sorriso de Mami ficou mais convidativo. “Eu adoraria! Eu posso preparar um chá e bolo para nós.”

Sasa continuava sorridente, mas desviou olhar. “Hmmm... Eu não sou chegada em chá...”

Mami pegou as mãos dela. “Eu posso fazer suco também, ou café.”

“Haha! Você nem deixou eu terminar,” disse a outra garota, “eu iria dizer que eu poderia abrir uma exceção, pois eu estaria com a melhor senpai.”

Mami estava mais excitada. “Podemos fazer isso hoje!”

“Sim... nós poderíamos...” Um tanto surpresa, Sasa apertou o botão para o ônibus parar e se levantou. “Mas vamos decidir o dia amanhã. Ok?”

“Tudo bem.”

“Tchau!”

Mami a viu descer do ônibus e ele voltar a se mover, mantendo um sorriso.

Até ele começar a desaparecer.

Confusa, uma questão cresceu dentro dela. “Por que... eu a convidei?” Ela olhou para as próprias mãos. “No que eu estava pensando?”

É isso.

Suas mãos estremeceram.

“Eu não estava pensando.”

Seu reflexo na janela revelava seu temor.

“Era como se eu não fosse eu.”

Notas finais
Próximo capítulo: Reflexos distorcidos