Amor
5 Diálogos e negociações
O refeitório de Shirome era imenso, com grandes colunas sustentando o teto alto. Suas mesas de pedra circulares tinham espaço suficiente para um grupo de estudantes comerem juntos e colocar suas conversas em dia.
Contudo, Mami estava tendo dificuldade para encontrar um lugar para ela. Mesmo que houvesse um bom número de mesas, o local estava lotado. Além disso, ela queria sentar com as suas colegas de classe.
Ela avistou um grupo com uma cadeira vazia e se aproximou. Antes que ela pudesse chegar, uma das garotas a viu e imediatamente colocou sua mala na cadeira, antes de voltar a conversar e rir com as outras.
Pária.
Ela era isso desde o primeiro dia em Shirome? Ela não tinha notado essa ostracização velada? Mami não ousou pedir licença e continuou a sua procura.
Entre as mesas cheias de estudantes, havia uma exceção que já era recorrente para Mami.
Oriko estava sentada de costas para ela, solitária em seus estudos.
Mami pensou em sentar ali com ela e deu um passo, mas apenas um, pois o peso das dúvidas cresceu demais. Se Oriko quisesse falar com ela, já teria feito. Como estaria a vida dela com Yuma naquele estado?
Mami fechou os olhos e pressionou os lábios. Não era somente Yuma que confiava em mim. Me desculpe, Mikuni-san.
“Totoh!”
Aquele estranho chamado fez Mami se virar para uma das colunas. Atrás dela uma mão gesticulava para que ela viesse.
Mami obedeceu, com uma boa idéia de quem seria. “Yuuki-san?”
“SHHH!” Sasa olhou envolta. “Vem! Tenho um lugar para nós duas.”
As duas caminharam até os limites do refeitório, até outra coluna. Quando elas chegaram no outro lado da coluna, Sasa se deu por satisfeita. “Aqui está bom.”
“Hã? Mami viu que não havia nada ali. “Nós vamos sentar no chão? Nós podíamos esperar que um grupo deixasse a mesa.”
“Se suas colegas vissem você com uma aluna do ensino fundamental, você estaria com um baita problema.” Sasa deu uma espiada para assegurar que ninguém estava por perto. “E eu diria que você já tem algum.”
Mami apertou com força a mão que segurava a alça de sua mala.
“Além disso, eu trouxe uma toalha para ficar mais confortável.” Sasa tirou a peça de tecido de sua mala e estendeu no chão.
As duas sentaram. Mami pegou seu pote de comida e uma garrafa de chá gelado.
Já Sasa pegou um saco de papel. “Naquela hora você estava pensando em se sentar com a Oriko Mikuni?”
Mami sorriu nervosamente. “Oh... Você notou.”
Sasa ergueu uma de suas sobrancelhas. “Você a conhece?”
A expressão de Mami congelou, ela tinha sido descuidada. “Eu apenas ouvi alguns rumores, assim como você.”
“Hmmmm...” O olhar inquisitivo de Sasa foi desaparecendo. “Se ouviu, sabe que deve pensar umas dez vezes antes de chegar perto dela.”
“Você sabe o que aconteceu?” perguntou a loira, procurando fingir que não sabia, “é verdade que o pai dela se envolveu em um escândalo e se matou?”
“Esse é só o fim da história,” afirmou Sasa com um sorriso.
“Fim?”
“Ela era a estudante perfeita. Filha de político, bela, inteligente, muito ativa e forte...” Sasa continuou, olhando para o teto, “a rainha desse castelo.”
Mami perguntou, com poucas dúvidas quanto a resposta, “Ela tinha amigos?”
“Hahaha! Obviamente que não.” Sasa abriu seu saco de papel e tirou uma lata de refrigerante e um cheeseburguer. “Só bajuladores e gente que queria se aproveitar da imagem dela.”
Ainda que esperasse aquilo, Mami não conseguiu deixar de ficar triste e suspirar.
“Não tenha pena dela.” Sasa abriu a lata, fazendo um longo barulho. “Ela é uma víbora da pior espécie e ela sabe reconhecer outras. Contudo, uma retaliação era inevitável.”
“Retaliação?”
Sasa deu um gole, suspirou e deu sorrisinho de lado. “O resto você sabe.”
Mami ficou perplexa. “O escândalo...”
“Eu não sei qual garota, mas ela chamou seu papai para destronar nossa rainha...” Sasa deu uma boa mordida em seu lanche.
“Isso é... terrível.”
Usando a língua, ela tirou um pedaço do queijo derretido que grudou no canto da sua boca. “Hmmm... Ela teve o que merecia.”
“Ninguém merece isso,” disse Mami, mais séria.
“Ser da ralé é ruim, mas estar no topo é muito pior.” Ela olhou para a loira. “Se elas nos tratam como ratos, então que sejamos ratos, sejamos invisíveis. É assim que você consegue sair de Shirome sem ter sua vida destruída.” Sasa então apontou para o pote. “É melhor você comer ou não vai dar tempo.”
As duas pararam de conversar para comer, mas quando Sasa havia terminado Mami nem tinha chegado a consumir metade de seu pote de comida.
A garota de olhos azuis se recostava na coluna e passava a mão sobre sua barriga. “Ah... Nada mal.”
Mami não conseguia mais focar em sua comida, decidindo se render a outras distrações. “Você sempre usa luvas? Nem para comer você tirou.”
“Eu tenho um caso severo de mãos geladas. O médico disse que deve ser os hormônios, é o jeito dele dizer ‘Eu não sei, lide com isso’.”
“Uhum...” Mami tampou o pote e o guardou em sua mala, assim como a garrafa.
Sasa notou. “Está de dieta?” Ela então se sentou mais perto, ficando de frente para a outra. “Certo, vamos aos negócios.”
“Negócios?” Mami ficou surpresa.
Sasa abriu um largo sorriso. “Por que acha que eu decidi sentar contigo no ônibus? Eu podia tê-la ignorado.”
“Porque sim...” Mami deu de ombros.
“Não pode confiar tão cegamente!” Sasa afirmou com firmeza, “ainda mais em Shirome.”
“Ótimo!” Mami ficou mais ereta e cruzou os braços. “Então, Yuuki-san, por que decidiu sentar comigo no ônibus?”
“Na verdade é bem simples.” Sasa se inclinou na direção dela, ficando ainda mais próxima. “Por que eu tenho grande interesse em ti.”
“Grande... interesse em mim?” Mami repetiu para ter certeza se tinha ouvido bem. Ela virou a face, que começou a corar. “De que forma?”
Sasa se afastou, estranhando.
Deixando Mami mais confusa. “O quê?”
A outra semicerrou o olhar.
“O que foi? Fala!”
Sasa então fez uma careta. “Você é lésbica?”
Os olhos de Mami quase saltaram para fora e ela começou a gesticular freneticamente. “NÃO! NÃO! Eu não sou!” Depois, ela se acalmou, abaixando o olhar e voz. “Eu pensei que... você... pudesse...”
Enquanto ouvia a frase, Sasa foi abrindo um sorriso. “Kuku... kukuahaha...” Ela foi ficando vermelha e caiu para trás. “HAHAHAHAHA!”
Mami não conseguiu mais segurar o sorriso que se formava em sua face, mas ela tentou abafar o riso com a mão. “Huhuhu... huhu... huhuhuhuhuuu!”
Sasa não tinha mais fôlego para gargalhar, apenas sua boca escancarada. Estirada no chão, ela sofria espasmos enquanto lágrimas caíam de sua face.
Lágrimas que também surgiam em Mami, que foi obrigada esconder sua face por inteiro.
“Ah! Ah... hahaha...” Sasa se levantou. “Hahaha! Ok! Haha! Ok! Ok! Isso foi estranho... haha...”
“Sim, muito...” Mami conseguiu parar de rir, mas sua face ainda estava muito corada.
Sasa passou a mão em seu cabelo e recuperou o fôlego antes de continuar, “O que eu queria dizer é que você é uma aluna transferida que entrou no ensino médio.”
“Ah sim...” Mami balançou a cabeça, decepcionada consigo mesma com o engano que cometera.
“Como te disse, no próximo ano também estarei no ensino médio. Como você ainda não foi contaminada pelo ambiente tóxico dessa escola, eu vi a oportunidade em nós fazermos um acordo de amizade.”
Mami franziu a testa. “Acordo... de amizade?”
“Sim! Seria bom para mim que eu tivesse uma senpai que eu possa confiar, que eu possa recorrer se alguém estiver mirando em mim. Uma rede de segurança.” Sasa levou a mão ao peito. “E você está recebendo valiosas dicas para não ser devorada em nosso pequeno inferno. Uma troca justa.”
“Bom...” Mami assentiu lentamente, “mas eu não acredito que trocas justas são o que definem amizades.”
“Se tem algo que essa escola me ensinou que eu possa agradecer, é política.” Sasa deu de ombros. “São só palavras. Se preferir, podemos chamar isso de aliança.”
“Eu não prefiro,” Mami respondeu prontamente.
Fazendo com que Sasa esmorecesse. “Então... não temos um acordo.”
“Eu não disse isso.” Mami sorriu.
A face de Sasa se iluminou.
“Se você acredita que pode contar comigo, isso mais do que basta.” A loira juntou as mãos. “E eu acho que posso tirar proveito de suas dicas.”
“Senpai!” Sasa cerrou seus punhos e deixou perto do rosto em sinal de comemoração. “Você é a melhor!”
“Calma! Ainda vou querer ter mais detalhes desse acordo.” Mami tentou espiar a movimentação do refeitório. “Mas terá que ser mais tarde, o intervalo está acabando.”
“Sim, claro!”
Mami pegou sua mala e se levantou.
“Hoje você riu.”
Ela parou, vendo a outra garota ficar de pé também, com as mãos atrás das costas.
“Eu não me lembro da última vez que eu ri com outra pessoa. Só tenho certeza que nunca tinha acontecido nessa escola,” disse Sasa, “eu... sinto que a minha esperança se reacendeu.”
Mami abaixou a cabeça, com uma expressão mais séria. “Eu me sinto triste pelos anos que você sofreu, mas ainda há tempo de mudar isso.”
“Sim!” Sasa estendeu a mão. “Vamos sobreviver Shirome juntas, Mami-senpai.”
Mami ergueu as sobrancelhas e sorriu, depois ela fez o mesmo. “Sim, Sasa-san.”
Por bem mais que meros instantes, as duas seguraram as mãos.
No entanto, o tempo continuava a passar. “Eu preciso me apressar, ainda tenho que subir alguns andares,” disse Mami.
“Claro!” Sasa seguiu brevemente Mami que partia. “Se cuide!”
A loira caminhava pela selva de pedra, de mesas e colunas, até a saída.
Sasa observava aquilo com um leve sorriso e cochichando para si mesma, “Tudo está indo muito, muito bem...”
Oriko se levantou de sua mesa, com sua mala e uma pilha de livros embaixo do braço, se dirigindo a mesma saída que Mami utilizou.
Sasa observava aquilo também e seu sorriso já não estava mais ali. “Mas eu preciso ser muito, muito cautelosa.”
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Passando pelos portões da escola, Nagisa estava com pressa. Não tinha sido uma boa idéia ir ao banheiro quando começou o intervalo do almoço, pois tinha perdido completamente Aki de vista.
Suas esperanças se residiam em um lugar.
Sob o mesmo pé de cerejeira, o garoto estava abrindo a sua mala e retirando o seu caderno de dentro.
Nagisa parou e suspirou em alívio, depois se aproximou sem a pressa de antes.
Dessa vez Aki notou a presença da garota. Ele ficou de cabeça baixa, com o seu caderno fechado no colo.
“Oi!” ela cumprimentou.
“Eu pensei que...” Aki disse em tom melancólico, “você não ia mais falar comigo.”
Nagisa ficou mais séria com a afirmação. “Por que você fez aquela cena na sala? Por que não os ignorou?”
“Eles não iriam parar,” respondeu o garoto, “eu não queria que eles mexessem contigo, então atrai toda a atenção para mim.”
Vendo garoto ainda cabisbaixo, Nagisa balançou a cabeça e procurou se sentar na raiz da árvore. “Obrigada, mas eu mesma posso lidar com algumas brincadeiras. Eu me sinto pior vendo você humilhado daquela maneira.”
Aki permaneceu em silêncio, pressionando os lábios.
“E parece que a sala acha que somos um casal.” Nagisa sorriu.
“É...” O garoto pegou o caderno com o intento de devolver para a sua mala.
“O que anda escrevendo nesse caderno?” Nagisa foi rápida em questionar. “Eu te vi escrevendo nele outro dia...”
Aki parou antes de abrir a mala. “Eu não estou escrevendo nada.”
“Desenhando?”
Ele passou a mão sobre capa do caderno. “São mais uns rabiscos do que qualquer coisa...”
A resposta derrotista só deu mais vontade para Nagisa perguntar, “Posso ver?”
Ele se virou para ela. “É melhor não, vai te assustar.”
“Me assustar?” Nagisa desviou o olhar. “É algo... indecente?”
“Indecente?! Não!” Aki acabou sorrindo. “É apenas assustador.”
“Ah! Então está tudo bem!” Nagisa cruzou os braços sorrindo e levantando o queixo. “Nada me assusta mais.”
“Sério?” Aki ficou impressionado. “O que aconteceu?”
O sorriso de Nagisa se foi, mas ela respondeu, fingindo incredulidade, “Ora! Porque não sou mais criança, o que seria?”
“Ah...” Aki ofereceu o caderno. “Sinta-se livre, eu marquei a página do meu último projeto.”
“Projeto?” Ela pegou o caderno e o abriu, mais curiosa do que nunca.
Estava desenhado a caneta verde e azul. No caso, um besouro verde colossal devastando prédios azuis de uma cidade.
“Se lembra daquele besouro? Eu me inspirei nele.” Aki apontou para o rabisco. “Está vendo essas nuvens verdes? Elas são a principal arma de defesa dele quando ele se sente ameaçado. Não é tóxico, mas o cheiro é tão insuportável que a cidade é obrigada a ser evacuada.”
“Legal...” Nagisa virou algumas páginas e continuou encontrando o mesmo tipo de desenho. Criaturas, geralmente inspirada em algum animal e gigantes, algumas do tamanho de uma árvore enquanto outras podiam andar sobre montanhas como se fossem meras pedras no caminho. “Hidaka-kun... Por que você desenha monstros?”
A mínima empolgação que Aki tinha esmoreceu e ele pegou o caderno de volta. “Eu sabia que você ia ficar assustada.”
“Eu não estou. Apenas perguntei por que você desenha monstros.”
Aki ficou olhando para o seu desenho mais recente. “Bem... Meu pai trabalhava no cinema, principalmente em filmes de monstros.”
Nagisa ergueu as sobrancelhas e assentiu. “Hmmmm!”
“Ele era da equipe dos efeitos especiais. Faziam de tudo, desde construir as maquetes a usar cordas e roldanas para fazer as criaturas voarem...” Aki voltou a sorrir. “Ele também trabalhou no ocidente, em alguns filmes de terror. Alguns são bem conhecidos.”
“Ele está trabalhando em algum filme agora?”
“Ele se aposentou.” Aki fechou o caderno. “Com advento da computação gráfica, ele não conseguiu mais trabalho. Agora ele tem uma oficina em casa. Ele faz reparo e restauração de coisas pequenas e antigas, como relógios e brinquedos.”
“Você tem orgulho dele,” comentou Nagisa, “e quer seguir mesmo caminho.”
“É...” Aki finalmente colocou o caderno dentro da mala. “Talvez... Não tenho certeza...”
“Vou torcer por ti!” Nagisa aproveitou para pegar o seu pote de comida. “E não deveria chamar seus trabalhos de rabiscos, os desenhos são bons.”
“Obrigado.” Quando Aki voltou a ver ela, a garota já estava abrindo o pote. Dessa vez eram bolas de arroz, mas o que o envolvia elas não eram algas. “Isso em seu Onigiri é...”
“Queijo!” Nagisa deu uma boa cheirada, fechando os olhos em prazer, depois voltou a olhar para o garoto. “E você? Não vai comer?”
Quando seus olhos se encontraram, Aki virou a face. “Eu já comi.”
“Como?! Mas eu encontrei você no começo do intervalo, não haveria tempo para comer direito.” Nagisa franziu as sobrancelhas. “Hmmm... Você por acaso não está mentindo, né?”
Aki voltou para sua mala, abriu, e mostrou o pote de comida.
Contudo, Nagisa manteve sua expressão inquiridora.
“Eu pego o metrô,” disse ele, “então eu comi na estação.”
“Mas aí você fica muito tempo sem comer. Por que está fazendo isso?” Nagisa semicerrou o olhar. “Kuroki-kun tem haver com isso?”
Aki balançou a cabeça, negando, “Não, não é ele.”
“Então quem?” Nagisa insistiu.
“Ninguém!” Ele se levantou. “É só... um costume meu. Eu quero ter mais tempo com o meu caderno.”
Nagisa ficou surpresa. “Hidaka-kun, você está indo embora?”
O garoto olhou para os seus próprios pés e pernas, com uma expressão confusa, e então ele pegou mala. “S-Sim Takuma pode aparecer e eu acho melhor nós não darmos nenhuma a idéia para ele. Tchau!”
Vendo ele correr e abrir distância rapidamente, Nagisa não teve coragem de gritar para se despedir, muito menos de oferecer uma de suas bolas de arroz envolvidas com queijo.
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Bolo de limão com essência de baunilha, torta de morango com cobertura de chantilly, biscoito de chocolate com nozes, maçãs caramelizadas com raspas de canela... O vestiário após a aula de educação física era sempre a pior parte do dia para Nagisa. Sua boca não salivava mais como nas primeiras vezes, não que ela não sentisse fome, mas toda aquela mistura de cheiros doces era enjoativa.
De fronte ao seu armário de metal aberto, ela removeu seu shortinho azul, mas antes que fizesse o mesmo com a sua camisa branca ela olhou de relance paras as outras garotas.
Algumas já tinham seios aparentes, Ayako era uma delas. A garota havia passado por uma transformação repentina, nem se parecia com a amiga de suas lembranças. Contudo, não parecia que ela usava sutiã ainda.
Nagisa tirou a sua camisa e olhou para o seu sutiã laranja com bolinhas roxas. Ter aquela peça em seu inexistente busto aparentava ser tão inconveniente quanto ridícula. Será que ela iria realmente se acostumar logo? Mami podia ter se acostumado porque era necessário.
“Oi, Momoe-san?”
“Hã?” Eram três colegas. Uma delas estava só de shorts e também tinha um busto pequeno.
Era essa que tinha chamado. “Legal esse seu sutiã.”
Era coincidência ou aquela garota conseguia ler mentes? Nagisa pôs as mãos sobre o seu sutiã, o escondendo parcialmente. “Obrigada?”
“Desculpa! Eu sei que é estranho.” A garota sorriu. “É que eu estava pensando se vou começar a usar sutiã ou não e queria ver como o seu ficava em mim. Nós temos um peito similar.”
As outras duas também sorriram e assentiram.
Nagisa respondeu, “Mas eu suei neles...”
Elas deram risadinhas, então a garota disse, “Eu não vou chegar a fechá-lo.”
“Ah, então tá...” Nagisa colocou as mãos nas costas para procurar o fecho, porém o seu logo cabelo estava no caminho. “Hmmm...” Ela se curvou para que o cabelo caísse e conseguiu encontrar o fecho, mas lhe faltava coordenação para puxar as tiras corretamente.
“Está difícil...” comentou a garota que aguardava.
“Eu consigo de primeira em casa.” Finalmente executando o movimento certo, Nagisa conseguiu abrir o fecho. Ela se ergueu, com seu cabelo todo desarrumado sobre o rosto, e entregou o sutiã. “Aqui.”
“Obrigada!” A garota o pegou e o pressionou contra o seu peito. “O que você acha?”
Nagisa jogou o seu cabelo para trás, um pouco surpresa com a pergunta. “Eu... acho que ficou bom.”
“Será?” A garota ergueu uma de suas sobrancelhas e deu um sorrisinho de lado. “Talvez eu precise de mais opiniões.” Então ela arremessou o sutiã sobre os armários de metal, com ele caindo no outro lado. “GAROTAS, OLHA O SUTIÃ DA NOVA ESTUDANTE!”
Nagisa só teve tempo de ficar abismada.
Logo vozes se manifestaram.
“O que é isso? Olha essas cores!” “Isso me parece mais com um biquíni.” “Acho que minha vó usava um desses.”
Com as risadas que se sucederam, Nagisa indagou, “Por que você fez isso?”
A garota cruzou os braços. “Porque você é burra o suficiente para emprestar um sutiã. Se eu tivesse pedido sua calcinha com bastante educação, aposto que entregava também.”
As outras duas colegas não conseguiram mais conter o riso.
Enquanto isso, o sutiã já não era mais o assunto do vestiário e sim a sua dona.
“Ela usa duas chucas, uma de cada lado, né?” “Sim! Parece um par de orelhas.” “Pra mim são asas. Ela deve pensar que se deixar crescer mais, ela consegue voar.”
Sem mais demora, Nagisa correu para contornar o armário e chegar ao outro lado.
“Olha! É ela!” Uma das garotas do grupo estava segurando o sutiã.
Então a garota que havia começado tudo isso exclamou, “Joga de volta! Joga de volta!”
E foi prontamente obedecido, com uma nova sessão de risadas.
“Ai não...” Nagisa voltou e encontrou aquela garota com a sua peça íntima. “Por favor!”
A garota continuou a sorrir e o lançou novamente para o outro lado.
Nagisa tentou chegar no outro lado mais rápido.
“Lá vem ela!”
No entanto, ela só teve tempo de ver seu sutiã voando novamente. Ela fez menção que iria tentar de novo, mas sabia que era inútil. Frustrada, ela deu um soco contra a lateral dos armários.
O som do impacto fez silenciar o vestiário.
Nagisa olhou para o que tinha feito. A placa de metal tinha ficado levemente deformada.
O silêncio aos poucos foi se desfazendo.
“O que foi isso?” “Não sei... Acho que ela chutou o armário.” “SHHH! SHHH! Ela vai chorar. Ela vai chorar.”
Nagisa respirou fundo e foi para onde estava o seu uniforme, de cara fechada.
A garota arremessou o sutiã para outro lado, mas viu que Nagisa a ignorou e que havia começado a se vestir. “O que foi? Vai desistir?”
Nagisa colocou suas roupas com pressa, nem chegou a pôr a meia-calça.
Não obtendo resposta, a garota anunciou. “Garotas! Ela ficou mudinha.”
“AAAWWWWWWWWWWwwwwwww!” O vestiário fingiu uma comoção.
Depois de pôr a saia e o sapato, Nagisa pegou a sua mala e saiu em passos apressados.
Elas riram e comemoraram, passando o sutiã uma para a outra.
Não era o caso de Ayako, que também estava de saída.
“Kitomono-san!” chamou a garota, “você viu isso?”
Ayako parou para dizer, sorrindo, “Claro!”
A garota recebeu o sutiã laranja com bolinhas de uma das colegas. “Como ela é bobinha...”
“É né...” Ayako abriu a sua mala.
O que fez com que a outra garota arregalasse os olhos. “Esse... é o meu sutiã!”
“Agora você tem mais um motivo para usar o dela.” Ayako acenou e saiu.
Furiosa, a garota avançou, “Sua ladra! Aprendiz do Sanjuro!”
Mas as outras garotas a conteve, “Não! Você está pelada!”
Ayako correu pelos corredores até alcançar Nagisa, que estava cabisbaixa. “Ei! Espera! Espera!”
A garota de cabelos brancos parou, surpresa.
“Olha o que eu trouxe!” Ayako abriu a mala. “Esse é o sutiã daquela garota. Agora você pode trocar com ela.”
Nagisa levou um tempo para processar o súbito evento, mas então ela balançou a cabeça. “Eu não acho que ela vai aceitar.”
“Talvez não...” Ayako fechou mala e deu uma piscadela. “Mas eu acho que posso dar um jeito nisso.”
Nagisa sorriu. “De qualquer forma, obrigada Ayako-chan.”
Ayako abriu mais os olhos. “Nossa! Já me chamando pelo primeiro nome.”
Com isso, Nagisa rapidamente abaixou a cabeça. “Desculpa...” Porém logo recebeu uma beliscada em sua bochecha. “Auuu...”
“Haha! Só estou brincando. Eu até estou lisonjeada que você se lembra dele.” Ayako pôs as mãos na cintura. “Claro que eu irei chamá-la de Nagisa-chan de agora em diante.”
“Sim!” Nagisa ficou feliz em saber que, apesar do corpo desenvolvido e de estar com Sanjuro, Ayako ainda guardava alguns de seus trejeitos, inclusive no visual. Em seus cabelos acastanhados ela estava usando um arco com uma estampa representando uma trilha de formigas.
Ayako perguntou, “Você sabe por que elas fizeram isso contigo, não sabe?”
Nagisa respondeu, com um pouco de rancor na voz, “É que aquele sutiã é ridículo...”
“Não é nada disso!” Ayako balançou a cabeça, “é por causa do Hidaka-kun.”
“Hã?!”
“O pessoal viu vocês conversando no intervalo,” ela continuou, “você sabe que ele é alvo de brincadeiras.”
Nagisa assentiu, “Eu sei que ele sofre disso faz um tempo.”
“Por um booooom tempo e você agora é a ‘namorada’ dele.” Ayako ajeitou a gola desarrumada da outra garota. “Mas não é o fim do mundo ainda, você é nova por aqui. Tudo vai ficar bem, basta você parar de falar com ele.”
Nagisa chegou a abrir a boca para dizer um ‘mas’, porém se lembrou que não estava diante de sua velha amiga.
“Olha, eu preciso ver o meu Sanjuro.” Ayako se afastou, andando de costas. “Se quiser falar com alguém no intervalo, fala comigo. Ok?”
“Certo...” Com a garota indo embora, Nagisa ponderou, “Parar de falar com ele...”
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Era noite e um carro adentrava na garagem da casa depois de muitas tentativas. Mesmo que dessa vez tivesse alcançado o objetivo, o veículo ficara mal posicionado.
De dentro dele saiu uma mulher em traje executivo. Ela cambaleou até a porta da casa, amaldiçoando seu salto alto em grunhidos inaudíveis.
A porta então se abriu.
Por sorte, pois a mulher tropeçou, caindo nos braços da pessoa que a aguardava. “Oh... olá, meu querido.” Ela se abraçou a pessoa, tentando ficar em pé. “Hmmm... Você deixou o seu cabelo crescer sem me avisar? E onde comprou esse pijama roxo?”
“Eu não sou seu marido,” respondeu Homura.
“Mãe! Deixa eu te ajudar.” Madoka se pôs embaixo do braço de Junko para apoiá-la.
“Huuhh... Eu acho que exagerei na bebida dessa vez, kukukuuuu...” Junko deixou seus calçados caírem enquanto olhava para o seu marido.
“Nós sabemos.” Tomohisa começou a dar as instruções para as garotas, “vamos levá-la até o quarto sem fazer barulho. Tatsuya está dormindo.”
Junko teve um espasmo e suas bochechas incharam, seguido de um sopro.
O fedor fez Madoka fechar os olhos e fazer uma careta, enquanto Homura virou o rosto.
Tomohisa abanou com a mão. “Certo, mudança de planos. Vamos levá-la ao banheiro primeiro.”
Apesar de não haver a necessidade de usar a escada, carregar Junko pela casa escura sem derrubar nada exigia cuidado.
Tomohisa abriu a porta do banheiro e depois ofereceu os braços. “Tragam ela para mim.”
Mas garotas não precisaram fazer nada, pois Junko se desvencilhou delas e caiu sobre o seu marido.
“Ah!” Tomohisa se desequilibrou, batendo contra a vista da porta.
“Kuku...” Junko se agarrou ainda mais nele. “Um banho com o meu amor, que forma de terminar o dia.”
Tomohisa olhou para as garotas, ajeitando os óculos. “Vocês podem ir para cama, o resto deixa comigo.”
“Então tenham uma boa noite!” Madoka disse sorrindo.
Homura se curvou levemente. “Com licença...”
Elas subiram as escadas e entraram no quarto, buscando fazer o mínimo de barulho.
Depois que a porta foi fechada, Madoka se sentiu mais livre para cair na cama.
No entanto, Homura não estava tão disposta a isso. “Eu estou preocupada com o estado da sua mãe.”
Madoka já se cobria com cobertor. “Ela não está tão bêbada quanto parece.”
“Não?”
“Confie em mim,” ela deu uma piscadela.
Homura cruzou os braços. “Mas... ela faz isso com muita freqüência.”
“Sim. Ela faz isso com os amigos do trabalho, é parte do ofício. Mesmo que ela não queira.”
“Você não tem consideração pela saúde dela?” Homura abaixou o olhar. “Não acha que no futuro isso não lhe trará sofrimento?”
“O futuro? Claro. Meu pai pensa até mais sobre isso.” Madoka olhou para cima, para sua estante com bichos de pelúcia. “Mas nós dois sabemos que, depois de um longo dia de trabalho, ela não precisa mais de críticas e sim de boas lembranças. No futuro, ela vai olhar para trás e saber que viveu a vida que desejou. É nisso que eu acredito.”
Homura continuou parada onde estava, apenas com a sua respiração.
Madoka voltou a olhar para ela, puxou uma parte do cobertor e pôs a mão no travesseiro ao lado. “Vem, temos aula amanhã.”
Homura deu um longo suspiro e descruzou os braços, mas antes de andar ela reconheceu uma sombra familiar na janela.
Algo que Madoka logo notou. “Incubator? Por favor, entre.”
Após a janela ser aberta, a criatura branca pousou sobre a cama. [Olá Madoka. Homura.]
A garota de cabelos negros nada disse diante do olhar dele.
“Oi.” Madoka foi educada. “Veio aqui por causa delas?”
[Precisamente.] A tampa nas costas de Kyuubey se abriu e suas longas orelhas se esticaram como braços para alcançar o orifício. Ele foi retirando várias sementes da aflição por vez, jogando-as sobre a cama. Quando terminou, havia quase uma centena.
Madoka sorria. “Oh, só isso?”
[Como era de se esperar, a população de bruxas está se reduzindo. No entanto, eu não posso estimar o quanto eu trarei na próxima vez.]
“Imagino...”
Homura ficou observando Madoka trazer todas aquelas sementes para si, se abraçando a elas. Seus olhos cor de rosa pareciam brilhar em alegria e satisfação. Essa era a expressão que ela sempre desejava ver nela, contudo...
Kyuubey olhou para ela. [Como você está?]
Os olhos de Homura se encontraram com o da criatura, mas os evitou em seguida. “Por que pergunta?”
[É um costume entre os humanos, não?] Kyuubey se sentou, balançando sua cauda felpuda. [Estou apenas fazendo o meu trabalho para manter a nossa relação em bons termos.]
“E continue assim...” Madoka pegou uma das sementes, admirando as luzes noturnas que refletiam em seus adornos metálicos.
Homura olhou de relance, temendo que o seu reflexo naqueles olhos vermelhos e inumanos denunciasse o tremor em seu corpo.
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