Amor
12 Caminho amaldiçoado
Já era uma rotina estabelecida para Nagisa. Atravessar os portões da escola com o seu namorado na volta para casa.
“Takuma ainda não mudou de lugar para sentar perto de nós,” disse Aki.
Agora eles também estavam juntos na sala de aula. Nagisa se sentia feliz, apesar das preocupações dele. Seria só uma questão de tempo para que o relacionamento deles se solidificasse na rotina dos outros alunos e ser considerado normal. Eles se tornariam normais. “Eu não acho que ele vai fazer isso. Ele nem tem mais falado contigo.”
Aki abaixou o olhar. “Sim, mas é isso que eu acho estranho...”
“Você precisa relaxar,” afirmou Nagisa, “talvez devêssemos fazer alguma coisa juntos.”
Ele levou um tempo para assentir. “Certo... então... você vai ver com a Kitomono-san?”
“Não.” Nagisa desviou o olhar, sorrindo. “Seria somente eu e você.”
Aki passou a mão no pescoço. “U-Um encontro, só nós dois.”
Ela notou que ele tinha ficado vermelho, o que fez com que os pômulos dela ficassem quentes também. “Sim...”
“Cinema de novo?”
“Qualquer lugar,” respondeu ela, “desde que seja longe da escola...”
Aki olhou para ela com curiosidade.
Nagisa continuou, “Hidaka-kun, eu não sei se é somente por causa do Kuroki-kun, mas... a escola deixa você muito nervoso. Quando você esquece um pouco disso, você mostra o seu melhor lado.”
Aki repetiu, piscando os olhos, “Meu melhor lado...”
“Eu gosto de você,” afirmou Nagisa, “mas eu sei que você é muito mais.”
Aki aceitou isso com um leve sorriso.
Caminhando lado a lado, os dois estavam se aproximando da estação. Nagisa avistava pessoas entrando e saindo, adultos com uniforme ou roupa executiva, mulheres que pausavam sua correria para ver as novidades nas vitrines da loja, garotos que comiam em frente a uma barraca, pessoas idosas que ocupavam seu tempo apenas observando a movimentação...
“Momoe-san...”
Nagisa notou que Aki havia parado. “O que foi?”
“Eu sei que estou pedindo assim de repente,” o garoto coçou a cabeça, “mas eu e-estava pensando se... se eu podia ir contigo até sua casa.”
Ela ficou boquiaberta. “Hoje?”
“É... Eu sei que é estranho...” Aki começou a esfregar a face. “Mas... isso não é para ser um encontro, ok?”
Ele estava muito nervoso, mais do que o usual, mas Nagisa podia compreender o esforço que ele estava fazendo para pedir aquilo. “Não, está bem. Só não posso convidá-lo a entrar. Eu teria que avisar a minha... tia.”
Ele continuava inquieto. “Eu apenas quero conhecer onde você mora.”
“Então está ótimo.” Nagisa sorriu mais para ver se o acalmava. “Pode até não ser um encontro, mas estou feliz por ficar mais um tempo contigo.”
“Então vamos!” Aki atravessou a rua.
Nagisa franziu a testa diante da iniciativa dele, imaginando se isso era resultado de seu sorriso. Ela logo o seguiu.
Ele estava com pressa, apontando. “É para lá que você mora, não é?”
“Sim, sim.” Nagisa então comentou, “se continuarmos nesse ritmo, vamos chegar bem mais cedo.”
Aki entrou em uma ruela.
“Para onde está indo?” A pergunta de Nagisa não teve resposta, nem sequer parou o garoto. Ela se viu obrigada a persegui-lo. “Pare! Esse não é o caminho!”
Aki obedeceu, mas relutante. “Essa não é a direção?”
“Sim, mas eu uso a rua principal.”
Ele sorriu. “Mas essa também deve dar lá, podemos tentar.”
Para Nagisa aquilo era certamente um sorriso falso e a respiração dele estava curta. “O que está acontecendo?”
Ele disse nada, seus olhos se arregalaram em pavor.
Nagisa sentiu que ele estava olhando para algo atrás dela. Ela se virou e se deparou com um grupo de garotos que haviam entrado na ruela, os mesmos que estavam comendo na frente da barraca na estação. Pela expressão que eles estavam fazendo, ela já tinha uma boa idéia do que seria.
“Oi... pessoal,” disse Aki.
Os garotos tinham idades variadas, alguns usavam uniformes escolares enquanto outros não, esse era o caso do garoto mais velho, que aparentava ser o líder. Suas roupas e cabelo não chamavam muita atenção comparado aos brincos e os vários anéis prateados em seus dedos. Ele portava uma grossa barba vermelha e seus olhar azul era frio como a cor, encarando o casal enquanto chegava mais perto.
Nagisa recuou, ficando ao lado de Aki, mantendo uma expressão desafiadora.
Entre os garotos, Takuma apareceu. “Por que não foi até a estação?”
O garoto loiro arregalou os olhos. “Você... nos seguiu.”
Takuma o ignorou, sua atenção já estava com o garoto mais velho. “Viu Hiro? Ele queria nos evitar.”
Hiro assentiu e então coçou a barba sob o queixo, olhando para Aki. “Eu ouvi umas histórias de Takuma, de que você arranjou uma namorada e tava usando isso para enrolar ele. Eu não acreditei que tu seria tão idiota. Você sabe que se mexe com um, mexe com todos nós, hein?”
“Ele não está enganando ninguém!” exclamou Nagisa.
Aki ficou tão surpreso quanto preocupado com a atitude dela.
“Eu sou a namorada dele e ele quer passar o tempo comigo.”
“Então não tem mais tempo pra nós?” perguntou Hiro para Aki.
O garoto engoliu seco e abriu a boca, mas não conseguiu proferir nenhuma palavra.
“Ele sabe o que quer,” disse Nagisa.
“É, eu to vendo...” então Hiro começou a rir.
Alguns garotos o acompanharam, mas a maioria ficou quieto, sem entender o que estava acontecendo.
O líder olhou para Takuma. “Puta que pariu, mas que marica de merda que você arranjou pra gente.”
“Não tenho culpa nisso,” afirmou Takuma, “eu te falei que isso aí é um plano da namorada do Sanjuro. Ela convenceu essa garota pra pedir pro marica em namoro, só pra me sacanear.”
Aki olhou com surpresa para Nagisa.
A garota reagiu. “Não é verdade!”
Outro garoto no grupo disse, com um sorriso malicioso, “Ei marica, por que não compartilha a sua namorada com a gente?”
Nagisa ficou horrorizada ao ver mais garotos concordando com a proposta.
Mas não era o caso de Hiro. “Cala boca vocês!” Ele chegou mais perto de Aki, evidenciando ainda mais a diferença de estatura entre eles. “E então, não vai falar nada? Eles tão desrespeitando você e a sua namorada.”
Com a sombra pairando sobre ele, Aki abaixou a cabeça.
Nagisa falou, “Não dá para ver que ele está com me-”
“Cansei de ouvir você.” O líder a interrompeu e voltou a insistir com o garoto. “Usa a sua boca.”
Aki olhou de relance para ele. “Me desculpe...”
“Eu não quero a sua desculpa, eu quero saber o que vai ser de você.”
Takuma ficou confuso com aquela conversação e perguntou, “Que merda tu tá falando?”
Hiro virou a cabeça, olhando intensamente para ele.
Nagisa viu Takuma abaixar a cabeça e ficar em silêncio, era algo surpreendente.
O líder voltou a falar com Aki, “Qual vai ser o seu futuro? Acha que é um homem agora que tem uma namorada? Ela até parece que roubou a sua voz...” Ele estralou os dedos. “Sabe o que mais me enoja? Uma mente fraca.”
“Por favor.” Aki se curvou. “Não machuque a gente.”
“Eu não vou machucar ninguém.” Hiro puxou ele pelo uniforme. “Você vem conosco, você não tá pronto.”
Nagisa protestou, “Deixa ele em paz!”
“Ele tem muito que aprender, garota,” respondeu Hiro, “você vai agradecer depois.”
“Não!” Nagisa empurrou o garoto mais velho, o jogando para trás. Ela viu a surpresa estampada na face dele. Essa distração se provou fatal quando ela percebeu um movimento no canto de seu olho.
Um garoto do grupo veio correndo e deu um murro na cara dela.
Aki, de olhos e boca bem abertos, viu sua namorada cair de bruços no chão. “Mo... MOMOE-SAN!”
“Nossa!” Hiro exclamou com sarcasmo para o garoto que havia atacado ela, “você bateu em uma menininha, estou tão orgulhoso de ti...”
O garoto, em uma expressão de dor, estava abraçando a sua mão. “Ela... ai... atacou você.”
“Isso não foi nada, eu só fiquei surpreso. Ela tem mais coragem que muitos de vocês.” Hiro então ficou curioso com a reação dele. “O que é isso?”
“Aww... Acho que quebrei um dedo. A cabeça dela parece pedra.”
“Idiota. Aprende a socar.”
Aki se agachou para ajudar ela. “Momoe-san! Momoe-san!”
Enquanto se levantava, Nagisa não mostrou a face e sussurrou, “Vamos fugir...”
Aki não teve tempo de perguntar pelo o que ela disse, pois ela segurou o seu pulso e o puxou enquanto ela saía correndo. “Ah!”
“Ei!” Takuma viu aquilo e saiu atrás deles, seguido pelo resto da gangue.
A ruela terminava em uma bifurcação, se tornando a entrada de um labirinto desconhecido de muros, encanamentos e latas de lixo. Aki se esforçava para não tropeçar, tamanha a velocidade que Nagisa estava impondo, com os cabelos brancos dela esvoaçando em sua face. O pulso doía com o aperto dela e sua mão estava ficando dormente.
Atrás deles estava a gangue. Hiro e os garotos mais velhos lideravam, os únicos que conseguiam manter aquela velocidade.
Aki quase estava voando, seus pés doíam cada vez que tocavam o chão. Foi então que viu que logo a frente havia uma larga valeta. “Ah... Mo-Mo-MO!”
“Nós vamos pular,” disse ela.
“Espera! Não vai dar... Não vai daaAAHHH!” Dessa vez Aki realmente voou, mas suas pernas não conseguiram lidar com o pouso e seus joelhos bateram no chão.
“Hidaka-kun!” Nagisa o ajudou a ficar de pé. “Você ainda consegue correr?”
“Ah... Ah... Ah...” Aki sentia que seu coração iria sair pela boca. “A-Acho que sim...”
“Vamos!” Ela o puxou novamente.
Logo, Hiro e alguns garotos haviam chegado na valeta e pulado sobre ela. Esse não foi o caso de Takuma que se viu obrigado a parar.
Isso sucedeu em um efeito dominó, fazendo o restante da gangue parar também. “Droga! Eles são rápidos!”
“Não são eles.” Takuma semicerrou o olhar. “É ela.”
A cada passada, Nagisa ficava mais confiante que estava abrindo uma distância maior e estava mais perto de chegar na rua principal, onde certamente haveriam policiais.
“MomoeAhhh!”
O problema é que ela estava literalmente arrastando o corpo Aki no chão. Ela parou para levantá-lo. “Temos que continuar! Só mais um pouco!”
“Cof! Ahhg... Ahhhg...” Aki estava todo suado e vermelho, veias saltando para fora, quase vomitando. “Ahh... Eu... não... ahhhh... conseguir...”
Eles tinham conseguido fazer seus perseguidores perderem eles de vista, mas não havia tempo para descansar. A situação era ruim, mas para Nagisa a idéia de carregá-lo em seus ombros e continuar correndo ainda estava fora de cogitação, esse feito seria suspeito demais.
“Ahhh... Eles me querem... ah... então...”
Abandoná-lo também não era uma opção. Foi então que Nagisa avistou uma porta de uma construção abrindo levemente. Essa era a chance de ouro. “Vem!” Ela arrastou Aki para dentro e o deixou sentado contra parede ao lado da porta. Ela viu que havia uma chave e a trancou, depois ela se virou, esperando explicar para os moradores do local sobre o que estava ocorrendo.
O lugar escuro estava quieto e vazio. Achando aquilo um tanto estranho, ela se sentou ao lado de seu namorado e aguardou.
Passos apressados pela ruela.
Aki sentiu Nagisa apertar a sua mão suada. Ele tampou a boca para tentar controlar a sua respiração forte, havia um gosto metálico em sua língua.
Os passos diminuíram de velocidade e pode-se ouvir um garoto. “Perdemos eles?”
Outra voz, que era de Hiro, respondeu, “Eles podem ter se escondido.”
Passos se aproximaram da porta. Aki prendeu a respiração, contrariando os protestos de seu corpo envolto no calor da transpiração. Nagisa apertava ainda mais a sua mão.
A maçaneta virou e porta foi forçada para abrir, mas a tranca não cedeu.
Novos passos, um grupo maior. Hiro anunciava, “Eles sumiram.”
Uma nova voz, agora é o Takuma. “Beleza, amanhã eles têm que ir pra escola mesmo. Eu vou trazer ele de volta.”
“E você deve fazer,” disse Hiro, “se deixar esse fracote sair do grupo, como pode achar que eu irei deixar você como líder provisório?”
As vozes ficaram distantes até que não pudessem mais ser ouvidas. Aki escancarou a boca para trazer todo ar que podia para os pulmões.
“Acho que conseguimos,” Nagisa comentou.
Aki ainda estava recuperando o fôlego, mas sentiu a necessidade de dizer, “Desculpe... ah...”
“Por quê?”
“Ah... por não ter... sido... ah... completamente honesto contigo...”
Nagisa abaixou o olhar, com uma boa idéia do que se tratava. “Do que está falando?”
Aki respirou fundo. “Eu conheço eles. São amigos de Takuma e fiz parte do grupo. Eles são legais às vezes, mas tem muitas coisas que eles fazem... que eu não gosto...”
“Hmmm...” Nagisa deu a sua opinião, “Como você disse, eles são amigos de Takuma, não seus. Você não precisa fazer parte deles.”
“Não será fácil. Eu entrei em mais uma roubada...”
Ela assentiu, mas sentindo que a afirmação era para ele mesmo.
Os olhos se acostumaram com a escuridão. Eles estavam em um hall com assoalho de madeira, havia uma escadaria que levava ao segundo andar logo à frente. O fim do corredor ao lado da escadaria era parcialmente iluminado pela luz da tarde. Tudo estava em bom estado, mas não havia nenhuma mobília.
“Esse lugar deve estar à venda ou aluguel,” comentou o garoto.
“É.”
Ele se virou para ela. “Foi muita sorte a porta estar destrancada e ter uma chave.”
“É...” Nagisa olhava para a entrada do segundo andar, onde estava mais claro.
“Não está doendo?”
A súbita pergunta dele deixou ela confusa. “Oi?”
“Ele socou a sua cara,” afirmou Aki, “apesar de que eu não consigo ver se deixou uma marca, mas...”
“Ah...” Nagisa sorriu. “Eu acho que foi um reflexo. Eu virei o rosto bem na hora, então ele não me acertou em cheio. Eu desequilibrei e caí.”
Ele esfregou os joelhos doloridos. “Você foi incrível, consegue correr e pular tanto assim...”
Ela sorriu mais. “Foi a adrenalina.”
“Você nem parece que cansou, nem mesmo um pouco.”
“Deve ser porque eu faço o trajeto da casa para escola a pé.” Ela deu de ombros. “Você é muito sedentário, Hidaka-kun.”
“Sedentário?” Aki fez uma careta, admitindo, “É, eu sou...”
Então Nagisa falou, “Sobre o que Takuma falou, sobre eu pedir a você em namoro...”
Aki balançou a cabeça. “Eu não acreditei. Kitomono-san jamais faria uma coisa dessas.”
Nagisa assentiu de leve, pressionando os lábios. “Sim...”
“E... E você propôs um encontro, somente eu e você. Nenhuma garota que zoou comigo iria tão longe...”
“Isso mesmo...”
Eles continuaram sentados contra a parede, aguardando, os garotos podiam estar procurando ainda.
O cheiro de madeira, o ambiente escuro, o corpo cansado... Aki começava a sentir sono. Com o silêncio, ele era capaz de ouvir o som tranqüilo da respiração da sua namorada. Quando trocava olhares rápidos com ela, a garota mostrava curtos sorrisos encorajadores, mas em outros momentos ela parecia distraída, sua mente ocupada.
Aki estava certo que ela estava preocupada com o que havia acontecido. É tudo culpa minha.
Sons. Passos rápidos de algo pequeno se esgueirando no segundo andar.
“Você ouviu isso?” perguntou ele.
“Deve ser um rato,” respondeu ela.
Aki notou que Nagisa estava sorrindo. “E você não está assustada? Garotas não gostam de ratos.”
Ela desviou o olhar. “Bem... Ele não está sobre mim, está?”
“Certo...” Apesar da resposta, Aki sentiu ela apertar a sua mão. De fato, ele tinha até esquecido que ela ainda a segurava. Os dedos pequenos e delicados... como os seus.
Seu olhar foi atraído para padrão hipnotizante da meia calça que ela estava usando. Hoje era preta com bolinhas brancas. Nesse momento, ela dobrou a perna, fazendo o tecido esticar e parcialmente revelar através dele a pele clara e lisa da coxa.
“Hidaka-kun?”
Aki quase saltou ao olhar para ela.
Nagisa estava com uma expressão neutra, exceto por um leve erguer de sobrancelhas.
Ele não falou nada, temendo que a sua mera voz revelasse o seu nervosismo.
“Eu vou checar uma janela no segundo andar,” Nagisa disse, “quero saber em que parte da cidade nós estamos.”
Aki assentiu rapidamente. “Uhum!”
Ela se levantou e foi até a escada. “Cuide das nossas malas e avise caso eles voltem.”
Enquanto Aki via a sua namorada subir, ele bateu contra a própria cabeça, com ambas as mãos, repetidas vezes enquanto sussurrava, “Idiota! Idiota! Idiota!”
A cada degrau Nagisa ficava mais tensa. Não era uma janela que ela procurava, aliás, ela já sabia o que iria encontrar.
No segundo andar, a porta mais próxima da escada estava aberta. No chão, no meio da sala banhada por raios de luz laranjas, estava uma garota sentada com as pernas cruzadas, sorridente, com um pyotr em seus braços e uma pequena bola de borracha na mão esquerda.
Nagisa entrou, logo a reconhecendo. Ela estava usando as mesmas roupas no dia que a encontrou no parque. O cabelo azul também era o mesmo, curto com uma mecha na franja longa o bastante para chegar até boca, na verdade, estava dentro... Estaria ela a mastigando?
Mas o mais importante era a confirmação de um detalhe, que ela só não fez por ter cometido um tolo engano naquela vez.
No dedo do meio da mão esquerda da garota havia um anel metálico com runas.
“Você me encontrou,” disse a garota, “seus lacaios têm bom faro.”
Nagisa se manteve séria, “Como se chama?”
A garota examinou a sua bola. “Isso depende...”
Nagisa suspirou. “Eu sou Nagisa Momoe.”
“Se esse é o nome que você quer...” Ela levantou a mão. “... por que você não viu?”
Forçando a vista, Nagisa conseguiu ler as runas no anel.
Michiru
O pyotr lutava para se libertar, mas o abraço era muito forte para a pequena criatura.
Nagisa notou isso. “Então, Michiru-san, Madoka te enviou?”
“Me enviou?!” Michiru pendeu a cabeça.
Nagisa ficou mais preocupada. “Você não faz parte da Lei dos Ciclos?”
“Claro que eu faço!” respondeu Michiru, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo. “Contudo, eu não tenho idéia de como vim parar aqui. Eu me lembro de estar me escondendo debaixo de uma das mechas de cabelo da nossa deusa. Então eu vi umas cores bonitas e depois eu vi que estava de volta ao nosso velho mundo.”
“Sério?” Nagisa franziu o cenho.
“Espere, então Madoka está enviando garotas para cá e você é uma delas?” Michiru deduziu, “então você sabe onde está a nossa deusa.”
Nagisa franziu ainda mais. “A pessoa que você estava procurando era a Madoka? Por que não me disse?”
“Era justamente o que eu iria fazer, eu achei que tinha acontecido a mesma coisa contigo.” Michiru deu de ombros. “Mas você começou falar sobre o seu namorado e eu achei que você queria viver nesse mundo. Eu não entendo porque alguém gostaria disso, mas eu não sou de incomodar...” Ela então fez uma careta, erguendo uma sobrancelha. “Bem, você e seu namorado estão passando por problemas agora.”
“Foi você que ajudou a gente a se esconder,” disse Nagisa.
Michiru fechou os olhos e sorriu. “Eu sou prestativa.”
Ela se curvou. “Muito obrigada mesmo.”
“Disponha. Acredito que faria o mesmo por uma de nós, Madoka deve ter enviado você por algum motivo e deve ser bom.” A garota reabriu seus olhos, mostrando o amarelo deles. “Quer que eu mate eles?”
Qualquer sensação de conforto que Nagisa estava começando a ter se fora. “Hã?”
“Você entendeu. Eu quero voltar para Lei dos Ciclos e você vai me levar até Madoka para isso. Antes disso, eu posso matar esses garotos e você não precisará sujar as suas mãos.”
“Não.” Nagisa ficou irritada.
Michiru estendeu sua mão com a bola. “Você nunca pensou em matar um deles?”
Ela disse com mais ênfase, “Não.”
“Então você é uma dessas pessoas virtuosas...” Michiru fez a bola quicar no chão antes pegá-la de volta e colocar no bolso de seu jeans, do mesmo ela retirou um giz de cera branco.
Nagisa cerrou os punhos, sentindo o seu anel.
“Então que tal eu...” A garota abocanhou a ponta do giz, fazendo um estralo.
Mesmo já tendo visto tantas coisas estranhas, Nagisa ficou espantada com aquilo.
Dizia enquanto mastigava, fazendo mais estralos, “Eu posso quebrar os ossos deles, sem matar. Assim eles vão aprender um pouco de humildade, uma grande virtude, não acha?” Sentindo que a outra não iria responder, Michiru olhou para o giz. “Quer um também? Esse é de banana, mas eu tenho de morango, maçã verde, abacaxi, mamão...”
A paciência de Nagisa já estava esgotada. “Não é para machucar ninguém!”
“São apenas ofertas.” Depois de engolir, Michiru colocou o resto do giz na boca. “Mas eles têm uma verdade em comum, Nagisa Momoe-san, a verdade de que você não vai conseguir resolver isso sozinha.”
Nagisa não tinha como rebater isso. Suas ações trouxeram conseqüências, podia ela lidar com isso? Ela estava certa que não iria desistir, mas seus novos esforços não resultariam em mais problemas para Aki?
“Momoe-san?” Era a voz dele. “Eu ouvi algo, está conversando com alguém?”
Nagisa arregalou os olhos.
Michiru apenas sorriu para ela enquanto mastigava.
“Sim,” Nagisa respondeu enquanto olhava para escada, “eu encontrei alguém, está tudo bem.”
“Sério? Eu vou trazer as nossas malas.”
Para desespero de Nagisa, logo ela ouviu ele subindo os degraus.
Michiru pegou a sua bola de volta. “Você esqueceu de dizer ‘Não precisa subir! Eu estou tendo uma conversa ordinária com uma pessoa ordinária.’.”
Nagisa rangeu os dentes para ela e então pediu, “Libera ele.”
“O quê?” Michiru acariciou a amedrontada criatura. “Por quê? Ele é tão estranho, mas tão bonitinho...”
Ao avistar os cabelos loiros dele, Nagisa encostou a porta.
Logo Aki perguntou, “Onde vocês estão?”
Mais tensa, Nagisa sussurrou para Michiru, “Deixa ele ir!”
A outra franziu a testa.
“Momoe-san?”
Ouvindo ele, Nagisa avançou em direção a Michiru, sua face vermelha de raiva. Sua boca bem aberta, mostrando os dentes.
A garota abriu os braços, deixando a criatura escapar e desaparecer nas sombras da sala. Ela estava completamente confusa enquanto ficava de pé. “Por que está assim? Você não pode ser tão ingênua...”
Nagisa respirou fundo antes de anunciar, “Aqui!”
Aki abriu a porta, estava segurando ambas as malas com uma mão, “Com licença.”
Nagisa sorriu. “Oi...”
Michiru fez sua bola quicar. “Olá.”
“Oi.” Aki olhou para ela. “Então é uma garota...”
Nagisa ficou um tanto impressionada que ele tinha percebido logo de cara.
Ele continuou, curvando-se, “Desculpe por termos invadido a sua casa.”
“Esse é o meu esconderijo,” respondeu Michiru.
Deixando ele estupefato. “Oh... esconderijo...”
Nagisa já estava nervosa novamente. “Ahnn... Hidaka-kun, vamos embora. Eu já tinha pedido desculpas.”
Michiru quicou a sua bola. “Você não vai apresentar o seu namorado para mim?”
Aki continuou surpreso. “Ela sabe?”
Nagisa abaixou o olhar. “Ela deve ter deduzido...”
A bola quicou mais uma vez.
“Eu sou Aki Hidaka,” disse ele educadamente.
“Você pode me chamar de Michi, ou Mi-tan.”
“Mi-tan?!” Aki ergueu as sobrancelhas. “Isso não é muito infantil?”
Michiru sorriu. “É carinhoso, Akkun.”
Aki corou ao ser chamado assim por aquela meiga voz.
Já Nagisa estava surpresa com súbita intimidade entre eles, ficou ainda mais quando Michiru tocou a mão dele.
Disse a garota, “Veja essas marcações à caneta na sua pele... são rabiscos...”
Aki estava tremendo, mas procurou sorrir. “Eeeeehhh... Sim, eu fiz esses durante a aula. Eu estava entediado, então...”
Tão rápido quanto ela tinha se aproximado, Michiru se afastou. “Não é a verdade.” Mas ela sorriu, enquanto puxava a longa mecha de sua franja. “Mas é porque você não sabe.”
“O-O quê...?”
“Rabiscos nascem quando abdicamos de nossa consciência. É a expressão despida de convenções e pudor. Um grito puro nesse mundo de disfarces.”
Aki assentiu boquiaberto, piscando os olhos, “É uma... forma bem diferente de ver isso...”
Michiru fez com que sua mecha de cabelo ficasse entre nariz e a boca, formando um bigode. “Você tem mais para me mostrar?”
“Na verdade, eu tenho um caderno com eles.” Ele abriu a sua mala. “Só um momento.”
Nagisa fez menção de protestar, mas foi interrompida quando a porta se fechou sozinha.
Aki tomou um leve assusto, devia ser o vento.
Essa não era certeza de Nagisa, que olhou intensamente para a outra garota.
Michiru mantinha um sereno sorriso, mas sua mão apertava a bola ao ponto de deformá-la.
Tudo estava claro, Aki estava nos domínios de uma bruxa e ele só sairia vivo dali se ela permitisse.
“Aqui.” O garoto entregou o caderno.
“Vamos ver... vamos ver...” Michiru começou a folheá-lo.
Aki estava extremamente ansioso, aguardando por qualquer reação.
Nagisa estava extremamente tensa, aguardando por qualquer reação.
O sorriso da garota desapareceu enquanto folheava cada vez mais rápido. De repente, ela parou em uma página e riu. “Haha! Eu gostei dessa.” Depois ela voltou a folhear, novamente séria. Cada vez mais rápido, ao ponto de não fazer mais sentido, e o fechou.
Aquilo não era um bom sinal para Aki. “Não gostou?”
“Você desperdiçou seu tempo e páginas com porcarias.” Michiru ofereceu o caderno de volta. “Há tanta dúvida aqui e você continua a insistir...”
Nagisa ficou espantada com a dura resposta.
Desapontado, Aki apenas assentiu e pegou caderno, contudo, a garota ainda segurava com firmeza.
“Esperava que eu dissesse outra coisa?” perguntou Michiru, “algo como ‘Até que está bom’ ou ‘Continue, vai ficar cada vez melhor’.” Ela lentamente balançou a cabeça. “Meias verdades são completas mentiras, Akkun, quantas vezes seu futuro já está machucado por elas?”
A luz que entrava na sala ganhava tons mais escuros e frios.
Aki viu uma sombra cobrir a face de Michiru. Quando alcançou os olhos, o amarelo morreu e pareciam que tinham ficado ocos.
A garota soltou o caderno. “A noite se aproxima. É melhor vocês irem.”
“Sim.” Com pressa, Nagisa pegou a sua mala com o Aki e foi abrir a porta.
O garoto se afastou lentamente, sem dizer nada.
Quem disse foi Michiru, brincando com a bola entre os seus dedos. “Tchau, Akkun. Você decide com o que quer fazer com a sua vida, essa é uma verdade.”
“Tchau... Mi-tan.”
Descendo as escadas com o seu namorado, Nagisa continuava tensa. Só se sentiria melhor quando estivesse no lado de fora. “Não liga para nada do que ela disse.”
“Uhum...”
[Eu quero ver a nossa deusa. Não se esqueça.]
A súbita voz de Michiru em sua cabeça a paralisou.
Deixando Aki preocupado. “Momoe-san?”
Então foram ouvidos baques. Eles olharam para topo da escada, onde a pequena bola de borracha estava descendo, quicando de degrau em degrau.
Nagisa estremeceu. “Vamos indo.”
Enquanto Aki engoliu seco. “S-Sim.”
A ruela estava quase tão escura, mas o ar fresco trouxe alívio.
Foi só então que garoto percebeu que sua respiração estava curta. Ele começou a falar para não parecer mais assustado, “Você chegou a ver em que parte da cidade nós estávamos? Podemos tentar voltar pelo mesmo trajeto para alcançar a estação.”
Nagisa checou bem se tinha fechado a porta. “Mas você não queria conhecer onde eu moro?”
“P-Posso?”
“Claro!” Nagisa se aproximou dele, sorrindo, mas ainda olhando para trás algumas vezes. “Só precisamos sair daqui.” Ela pegou na mão dele e se pôs a caminhar.
Para a surpresa de Aki, sentir os dedos dela entrelaçando os seus. Não era exatamente confortável, mas também não podia dizer que era inconveniente, bem o contrário.
Eles desbravaram mais algumas ruelas até encontrarem uma rua mais movimentada. Através de pontos de referência, foi uma questão de tempo para chegarem até o condomínio.
Nagisa apontou para uma janela. “É ali que eu moro. Tudo está escuro... Acho que Mami não voltou da escola ainda, ela deve ter feito uma parada em um mercado.”
“Vocês moram em um andar bem alto,” comentou Aki.
“Você acha?” Nagisa apontou para outra direção. “A estação não fica muito longe, é só ir por aqui, bem fácil.”
Ele ficou mais sério. “Eu acho que... não vou amanhã para escola...”
“Nós podemos pensar em alguma coisa, temos tempo,” disse ela, “talvez sua família possa ajudar.”
Aki abaixou a cabeça e permaneceu em silêncio, até que sua mão foi segurada novamente.
“Foi um dia difícil, descanse.” Nagisa sussurrou para ele. “Uma vez alguém me disse para nunca perder a esperança. O amanhã sempre pode ser melhor que hoje.”
Com isso, ele assentiu e partiu.
Nagisa exclamou, “Tchau, namorado!”
Ele se virou e seu semblante cansado ainda pôde sorrir. “Tchau, namorada...”
Com ele ficando distante, Nagisa levou a mão que havia segurado a dele até a sua face. O cheiro pungente do queijo Roquefort invadiu suas narinas. Sua boca salivou e seu coração bateu mais forte, enquanto fechava os olhos e pressionava os lábios.
Eu encontrarei uma forma.
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