Amor

10 É um encontro!


Todos sabiam.

Essa era a certeza de Nagisa ao ver a sua carteira depois do intervalo do almoço. Havia uma série de rabiscos nela.

Puta do Aki

Morra!

Vadia

Volta pra lixeira

Cabelo de retardada

O pior era o que estava em seu assento. Um grande desenho, de péssima qualidade, mas reconhecível, de um pênis.

Ela ouvia cochichos e risadinhas a sua volta, mas decidiu não procurar por quem. Era melhor eles não verem a face que estava fazendo. Nagisa se ajoelhou e cuspiu na palma de sua mão, para que pudesse apagar a obscenidade.

Essa foi a intenção, mas o melhor que estava conseguindo era um borrão com o seu vigoroso esfregar. Isso não passou despercebido pelos outros alunos, como as risadinhas mais intensas indicavam.

Nisso Nagisa notou pelo vidro o professor vindo para a sala. Não havia mais tempo, mas a lambança que tinha feito poderia manchar a sua saia. Ela então pegou um de seus cadernos e o colocou sobre o assento.

Assim que se sentou, ela ouviu algumas gargalhadas. Nagisa fechou os olhos e respirou fundo. O que tinha feito parecia tão inteligente antes, mas agora sentia em suas nádegas o objeto da vergonha.

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“Então aconteceu contigo também.”

Saindo da escola, Nagisa compartilhou o ocorrido com Aki, sendo surpreendida pela resposta. “Hã?! O que eles colocaram no seu.”

“O de sempre. Que eu sou fraco, marica...” O garoto corou. “Eles desenharam eu com você também... eu acho, ao menos eu reconheci o seu cabelo.”

“É indecente, não é?” disse ela, “tudo bem, pode me contar.”

Aki abaixou o olhar. “Eles desenharam nós... fazendo amor.”

Sim, era indecente, porém Nagisa foi incapaz de sentir repulsa pela forma como ele havia colocado. “Deixa eles pensarem o que quiser sobre nós.”

“Mas... Mas nossos papéis estavam invertidos.”

Ela franziu a testa.

Ele olhou de relance e deu sorriso sem graça. “V-Você estava dentro de mim.”

Nagisa fez uma careta. “Que nojo! Nós temos que denunciar esse vandalismo.”

“Seria péssimo!” Aki enfatizou, “ninguém iria assumir e toda a sala seria punida, até quem não participou, e eles saberiam que fomos nós que deduramos.”

Ela assentiu e respondeu com desânimo, “Você... está certo.”

“Ei Aki!” Takuma veio correndo. “O que é isso? Está me deixando para trás?”

Nagisa veio com um olhar atravessado para ele.

“Eu soube sobre as carteiras, não fui eu,” disse o garoto alto. “Cara, vem comigo hoje?”

Aki respondeu, “Eu estou saindo com a minha namorada.”

“Você não precisa fazer isso sempre.”

“Se ele quiser, ele faz,” Nagisa disse com firmeza.

“Não tô falando contigo.” Após a seca resposta, Takuma retornou sua atenção para o outro garoto. “E então? Homens não abandonam seus companheiros.”

Aki começou a coçar a cabeça. “Bem...”

Nagisa pensava se não seria uma boa idéia pegar ele pelo braço e sair correndo dali. Foi quando avistou um casal bem conhecido.

Assim que chegou, Ayako olhou para Takuma da cabeça aos pés e então perguntou para Nagisa, “Você convidou ele?”

Ela não tinha idéia do que a outra estava falando, mas duas rápidas levantadas em um dos cantos do lábio foram tudo que ela precisou para entender. “Hmmm... Não, eu nem tinha mencionado para ele.”

“Do que estão falando?” perguntou Takuma.

“Nós vamos ao cinema hoje,” disse Ayako, erguendo uma de suas sobrancelhas, “mas seria somente para casais. Você não gostaria de ser a quinta roda, né?”

Confuso com tudo aquilo, Aki consultou a sua namorada.

Nagisa abriu um sorriso e deu uma piscadela.

“Se eu quisesse uma garota pra me incomodar, eu arranjava uma,” disse Takuma, olhando para Sanjuro.

O outro garoto manteve uma expressão neutra.

“Ok. Te vejo amanhã, Kuroki.” Ayako partiu, gesticulando para a outra garota. “Vamos?”

Os dois casais deixaram Takuma para trás, mas não antes que Aki pudesse ver ele visivelmente irritado, colocando as mãos no bolso e andando de um lado para o outro, sem rumo aparente.

Quando eles alcançaram a rua, Ayako não conseguiu mais se conter. “Huhuhahah! Vocês viram a cara que ele fez quando falei sobre a quinta roda?”

Sanjuro se manifestou, nem um pouco feliz, “O que você fez foi perigoso. Takuma não é idiota.”

Ayako respondeu em tom ácido, “Você pode voltar lá para lamber os pés dele, eu deixo.”

Mas ele não se acovardou. “É que eu não gosto de ver a minha antiga amizade com ele sendo usada como escudo.”

“Escudo?!” Ela exclamou, incrédula, “eu não preciso de proteção. Seria até bom que ele me desse uma surra.”

“Ayako-chan?” Nagisa arregalou os olhos. “Por que seria bom?”

“Bastava ele bater em mim bem forte, que deixasse marca.” Ayako se abraçou, fazendo uma cara de vítima. “Logo a escola toda iria saber que Kuroki atacou uma garota indefesa.” Então ela sorriu. “Ele seria chutado para fora no mesmo dia. Vai tarde!”

“Você não enxerga a posição que você estaria me colocando?” Sanjuro ficou ainda mais sério. “Acha que eu deixaria ele fazer isso contigo?”

Ela ficou boquiaberta e semicerrou o olhar.

“O que foi?” Ele ficou confuso.

Ela o abraçou e beijou-lhe a face. “Owww... Meu cachorrinho ficou preocupado comigo.”

Sanjuro continuou emburrado.

Nagisa falou, “Sanjuro-kun tem razão, eu também não quero ver você machucada.”

“Eu só estou sonhando, Kuroki não é tãããão idiota assim...” Ayako olhou para ela. “Mas eu sei como incomodá-lo.”

Nagisa abaixou a cabeça e sorriu. “Obrigada...”

“Não foi nada, bem, se quiser pagar o meu ingresso...”

“Hã?” Nagisa ficou estupefata. “O convite ao cinema era...”

“Unindo o útil ao agradável. Hihiii!” Ayako acariciou o cabelo de seu namorado. “Iria ser só nós dois, mas eu estava curiosa sobre o novo casal da escola.”

Aki, até então quieto, disse, “Vocês não pretendem tirar sarro da gente, não é?”

Nagisa a princípio ficou surpresa em ele dizer aquilo para Ayako, mas aquela dúvida não se dirigia somente a ela, Sanjuro estava ali também.

A garota de olhos verdes cruzou os braços. “Hah! Eu não sou imatura como certos indivíduos... Você devia mostrar mais descontração e confiança perto da sua namorada.”

“E-Eu devia?” Aki olhou para Nagisa.

Ela estava com um olhar e sorriso estranho, forçado, assentindo com a cabeça sucessivas vezes.

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Nagisa nem se lembrava da última vez que tinha entrado em um shopping e aquele era enorme, com quatro andares, sem contar o estacionamento. Havia música, anúncios das inúmeras lojas e muitas pessoas, era fácil se perder ali.

Ayako procurava por uma placa indicando as localizações. “As salas de cinema ficam...”

“Nós viemos aqui tantas vezes e tu ainda não sabe?” indagou Sanjuro.

“Eu me lembro onde é, só não sei a direção. ”

Aki apontou. “Fica para lá, não fica?”

Sentindo-se completamente inútil enquanto ouvia aquela conversa, Nagisa sentiu um pequeno objeto atingir a sua canela.

Era uma bola de borracha que ficou quicando no piso duro.

A garota arregalou os olhos.

Então uma criança pequena veio e pegou a bola, seguida pela sua mãe, sorrindo e se curvando de leve em sinal de desculpas.

Nagisa sorriu nervosamente e acenou com a cabeça em resposta.

“Nagisa-chan! Por aqui.”

A voz distante de Ayako a alertou de que eles tinham seguido por outra direção e ela quase os perdeu.

Os quatro chegaram a entrada do cinema, onde haviam vários cartazes de filmes nas paredes, com os horários.

Ayako parou na frente de um deles. Era a imagem dos pés descalços de um casal em uma rua de paralelepípedos. “Aqui está, ‘Passos Cautelosos’.”

Nagisa estava curiosa. “É sobre o quê?”

“É romance com drama,” respondeu Sanjuro.

Ayako foi mais específica. “É a história de um jovem casal que se muda para uma cidade longe da família depois do casamento e não podem voltar. A idéia é que eles dependem um do outro ou ficarão sozinhos, mas será que isso basta para o amor?”

“Parece ser um bom filme,” Nagisa comentou.

“Claro que é senão nem teria vindo, eu li as críticas,” disse Ayako enquanto usava a cabeça para apontar para uma direção, “mas eu acho que Hidaka-kun vai querer assistir outro filme.”

“Hã?” Nagisa viu que ele estava na frente de outro cartaz. A imagem era de uma cidade em chamas sendo invadida por uma gigantesca criatura marinha que lembrava uma lagosta, mas com um casco de caranguejo. Ela não precisou ler o título.

“‘Kani três: a violação’!” Aki ergueu as mãos e fez um gesto de pinça com ambas. “Rawr!”

“Olha só pra esse cara!” Sanjuro cobriu sua face com vergonha alheia.

Vendo que havia sido flagrado, Aki escondeu as mãos, encabulado.

No entanto, Nagisa fez o mesmo gesto, ainda que fosse mais comedida. “Rawr...”

O garoto loiro ficou vermelho. “Heheee...”

Ela se aproximou. “Esse filme deve ser bom para terem feito um terceiro.”

Ele disse, um tanto surpreso, “D-Deve ser...”

“Deve ser?” Nagisa franziu a testa.

Aki explicou, “Eu assisti os outros dois, mas em casa. Eu não sabia que tinham feito um terceiro.”

“Ah...” Nagisa acenou com a cabeça. “Eu pensava que você ia mais ao cinema.”

“Eu ia com o meu pai, mas agora-” O garoto fez uma súbita e longa pausa. Ele abaixou o olhar enquanto seus lábios procuravam pelas palavras. “Bem, agora eu teria que ir sozinho e não gosto muito.”

Era um tom triste, mas Nagisa sentiu algo mais do que frustração...

Medo.

“Agora você não tem desculpas.” Ayako se intrometeu. “Nagisa-chan, você vai com ele, né?”

“Sim, mas eu não assisti os anteriores. Eu acho que não vou entender nada.”

“Isso não é problema.” Aki sorriu. “Eu conto para você.”

“E isso resolve tudo,” disse Ayako, “ainda bem que os dois filmes começam quase ao mesmo tempo.” Ela pegou a mão de Nagisa. “Vem comigo até o banheiro? Ainda temos um tempo.”

“Hmmm... Sim,” respondeu Nagisa, não vendo muita escolha ao ser puxada.

“Nós vamos estar aqui,” disse Sanjuro.

Ayako olhou para trás. “É claro que vão.”

Aki ficou acenando para Nagisa, até mesmo quando ela já havia sumido de vista.

Até que Sanjuro chegou mais perto.

Ele ficou mais inibido, desviando olhar.

“Diz aí.”

Aki ficou confuso. “O-Oi? Dizer o quê?”

“O que acha da sua namorada?”

“O que eu acho? Eu não sei...” Ele deu de ombros. “Ela é a minha namorada?”

Sanjuro olhou para onde elas foram. “Tem algo de estranho nela.”

Aki olhou para ele. “Os olhos?”

“É... Acho que um dos pais dela não deve ser japonês. Sabe de alguma coisa?”

“Não... muito.”

“De qualquer forma, ela é bonitinha...” Sanjuro veio com um sorriso malicioso. “E então?”

“E então o quê?” Aki ergueu as sobrancelhas.

“Não banque o idiota. Você é da gangue, sabe do que tô falando.”

As mãos de Aki ficaram inquietas. “Eu e ela não fizemos nada.”

Sanjuro balançou a cabeça, quase rindo. “Eu já sabia, eu vejo que vocês nem se tocam. Marica.”

Aki abaixou a cabeça, ficando mais tenso. “Nós só estamos começando o nosso relacionamento.”

“Besteira,” Sanjuro afirmou sem demora, “ela quer. Foi ela que te pediu em namoro.”

“Como você sabe?!”

“Um palpite.” Sanjuro bagunçou o cabelo do outro garoto. “E nem era difícil de adivinhar.”

Aki afastou o braço dele, mas admitiu, “Talvez você tenha razão... mas eu não sei como falar com ela sobre isso.”

Sanjuro ficou mais sério. “Você não fala. Você faz. Seja homem.”

“É... Seja homem.” Aki ficou socando a palma da sua outra mão. “Mas deve haver um jeito de fazer isso certo...”

“Quer uma dica?” Sanjuro apontou para o cartaz. “Você acha que eu estou a fim de ver esse romance?”

Aki sorriu. “Não, mas você está fazendo isso para agradar a sua namorada.”

“Errado.”

“Eh?!”

Agora quem sorria era Sanjuro. “Eu estou fazendo isso para criar um clima.”

“Clima...” Aki fez uma careta.

“Sim, é escurinho, ela começa a ficar emocionada, você está ali para confortá-la... então vem o beijo.”

“B-Beijo.”

A voz de Sanjuro ficou mais suave. “Gostoso, quente, molhado...”

“Ah...” Aki corou e coçou freneticamente a parte de trás da cabeça. “Que loucura. Hehe...”

“Isso é normal, porra!”

A reação dura do outro garoto fez ele recuar. “P-Porque vocês... já estão fazendo isso há um tempo.”

“E como acha que foi a primeira vez?”

Era outra derrota para Aki. “Eu... Eu não sei se ou quando Momoe-san vai querer isso...”

Sanjuro apontou para os seus próprios olhos. “Você tem que prestar atenção nos sinais.”

“Sinais?”

“Uma garota não quer beijar um homem, mas um homem que beije ela,” afirmou o garoto com rabo de cavalo, “para isso há momentos em que elas ‘facilitam’.”

Aki voltou a passar a mão na cabeça. “Isso soa complicado.”

“Tem uma bem fácil que você vai poder checar.” Sanjuro chegou mais perto e começou a sussurrar, “Na sala do cinema, quando as luzem se apagarem, vê se ela não está olhando pra você, sorrindo. Essa é a chance que ela tá dando, cara! Pra um bom beijo.”

“Começar já com um beijo?! Não pode ser um abraço?”

“Não.” Sanjuro revirou os olhos e suspirou. “Marica, tu tem que agir ou ela pode acabar ficando entediada contigo.”

Aki passou a língua em seus lábios e assentiu.

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Com o barulho da descarga, Nagisa sabia que a espera havia terminado.

Enquanto a porta se abria, Ayako continuava a conversa, “Eu sei quais foram as garotas que escreveram na sua carteira. Nós podemos fazer uma vingancinha.”

“Eu não quero começar uma guerra.” Nagisa a acompanhou até as pias. “Mas é bom saber que Kuroki-kun contou verdade quando disse que ele não tinha nada a haver com isso.”

“Ele te disse isso? Mas ele fazia isso com Aki, as garotas só o copiaram.” Ayako lavou as mãos e o rosto.

“Muita gente copia ele,” disse Nagisa, mais melancólica.

“Eles o acham engraçado... ridículo.” Ayako se examinou no espelho. “Está pior.”

“O quê?”

“Veja.”

Nagisa notou uma protuberância avermelhada no queixo da garota. “Espinha?”

“Sim...” Ayako fez uma cara tristonha. “Começou recentemente, tomara que não se espalhe.” Ela abriu a sua mala da escola e pegou uma pequena caixa. “Tenho que reaplicar essa maquiagem. Pelo menos algo de bom veio com isso.”

“Hã?”

“Ah, é que meus pais têm umas idéias antiquadas. Minha mãe não deixava eu usar maquiagem.” Com os dedos, ela aplicou a base no queixo. “Eles também não me deixavam andar pela cidade sem ter um adulto acompanhando. Só mudou quando comecei a namorar.”

Nagisa assentiu. “Ah... É verdade...”

Ayako olhou para ela com certa surpresa.

“Quero dizer, deve ser verdade. Hehe...”

Ayako sorriu. “E sua mãe deixa você usar maquiagem?”

“Acho que sim...” Nagisa ficou inquieta com os dedos. “Mas eu não ligo para isso.”

“E nem precisa mesmo,” afirmou a outra garota, “sua pele é bonita, embora um pouco pálida.”

“P-Pálida?” Nagisa se examinou no espelho, esticando as bochechas.

Ayako estranhou. “Calma garota! Nada que um sol não resolva.” Então uma epifania lhe acometeu. “Ah! Que bom que me lembrei!”

Nagisa ficou curiosa, vendo a sua amiga voltar a vasculhar mala e retirar outro produto de maquiagem.

“Esse aqui é um brilho labial com glíter que eu comprei. Eu sempre esqueço de experimentá-lo.” Ayako o aplicou com um pincel e pressionou os lábios, então perguntou, “o que acha?”

Nagisa viu que os lábios dela pareciam maiores, úmidos, com pequenos pontos coloridos brilhantes. “Ficou legal.”

Ayako veio com o pincel. “Agora é a sua vez.”

“O quê?” Era tarde para Nagisa, pois o pincel já havia tocado os seus lábios.

“Não se mexe ou eu pinto a sua face,” disse a outra garota, com malícia, “ninguém te contou? Você é a minha boneca agora.” Depois, como um toque final, Ayako puxou ambas as bochechas de Nagisa. “Ficou linda!”

“Auuuu...”

“Agora elas ficaram menos pálidas.”

Nagisa olhou para o espelho. Sua boca era pequena, de lábios finos, então aquele produto tinha feito uma evidente diferença.

Ayako pegou o seu smartphone e o ergueu. “Eu quero tirar uma foto.” Ela então aproximou seu rosto com o da outra garota. “Faz um sorriso matador.”

Nagisa ficou envergonhada. “Eu... não gosto de sorrisos matadores.”

“Então faz um fofo!”

Sem escolha, ela olhou para lente e fez o melhor que pôde.

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Sanjuro foi o primeiro a notar as garotas voltando. “Finalmente, hein? Eu pensei que eu teria que assistir o filme com o marica.”

“Nossa, que engraçado...” Respondeu Ayako em tom de sarcasmo. “Dá pra parar de chamar ele assim? Coisa de criança.”

O garoto deu um sorrisinho.

Nagisa olhou com desaprovação para Sanjuro e perguntou para Aki, “Você está bem?”

“Sim. Sim!” Os olhos vermelhos do garoto se arregalaram e ele abriu um largo sorriso. “Estou ótimo!”

Ela ficou um tanto curiosa com a resposta exagerada dele.

“Os filmes estão prestes a começar!” exclamou Ayako ao ver a hora.

“Era disso que eu tava falando,” disse Sanjuro.

Eles correram para comprar os ingressos e entrar no saguão onde ficavam as salas, além de uma lanchonete.

“A gente vai comer depois do filme,” disse Ayako, “eu só vou querer uma água.”

“Ok,” respondeu Sanjuro.

Aki perguntou, “Você vai querer algo, Momoe-san?”

A garota deu de ombros. “Hmmm... Pipoca?”

“Certo...” Ele foi até o balcão. “Eu gostaria de uma pipoca...” Mas voltou a olhar para ela. “Com queijo?”

Nagisa juntou as mãos e abriu um sorriso.

Os dois casais se despediram e se separaram, cada um entrando em uma das salas.

Aki tinha conseguido um bom lugar, não que tivesse sido difícil, pois a sala estava vazia, salvo por algumas famílias com as suas crianças ou homens solitários.

Eles sentaram, colocando suas malas no chão. Nagisa pôs o balde com pipoca entre ela e Aki. “Eu não quero comer tudo.”

“C-Claro...” Ele pegou um pouco da pipoca, mas deixou cair algumas.

Nagisa falou, “Você parece que está tremendo...”

Aki sorriu. “Eu estou? Eu acho que não.” Ele sabia que estava mentindo, pois sentia um aperto em seu peito para o que estava por vir.

As luzes se apagaram e logo a tela recebeu a luz.

Ainda não era o filme, mas a parte com instruções e propaganda. O corpo de Aki ficou tenso, essa era a hora da confirmação.

Nagisa estava olhando para ele, sorrindo.

Aki paralisou, era muito mais que isso.

A luz da tela refletia nos olhos assim como nos lábios, estes parecendo com um céu estrelado. As cores da luz dançavam sobre textura macia do perfil de sua face. Seu cabelo prateado parcialmente iluminado era como um véu divino.

Aki não tinha o que dizer quanto àquela visão, apenas sentir... não apenas sentir, deveria agir, mergulhar naquilo. No entanto, algo invisível lhe segurava.

A janela da oportunidade estava passando. Não adiantava estar no escuro, com poucas possíveis testemunhas, a pessoa mais importante naquele momento saberia o que ele estaria tentando fazer. Ela saberia.

Nagisa perguntou, sem mudar sua expressão, “Hidaka-kun?”

Era para se um natural ‘Sim?’, mas ele estava tão consciente de seus próprios lábios que ele os moveu sem produzir voz alguma.

“Você poderia me contar sobre os filmes anteriores?”

Seu coração se acalmou, a pulsação que sentia atrás das orelhas havia parado. Aí estava. Uma desculpa para parar de tentar o impossível. “Ah... Sim... Vou tentar ser rápido.”

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Os créditos ainda estavam passando quando a pessoas saíam da sala.

Nagisa estava bem satisfeita, “Os vilões eram muito espertos.”

Aki concordou, “Sim, roubar os ovos da criatura para atraí-la até a cidade para destruir tudo pelo caminho.”

“Tudo por causa de um veio rico em um mineral raro que descobriram estar sob a cidade,” ela continuou, “eles iriam usar a reconstrução da cidade como disfarce para as operações de mineração.”

“E criatura levaria toda a culpa,” ele concluiu, “sorte que os biólogos descobriram que ela era fêmea e os ovos antes da cidade ser completamente evacuada, ou o exército teria matado ela.”

Nagisa ficou mais excitada, “O enredo foi tão legal, nunca pude imaginar...”

Aki olhou para ela com as sobrancelhas erguidas.

Ela ficou sem graça. “Eu... pensei que fosse mais bobinho. Desculpe.”

Ele assentiu e sorriu. “Muita gente acha isso porque é voltada para crianças, mas é muito pelo contrário. Elas é que ainda enxergam a magia e acreditam, por isso que é preciso um cuidado especial com os valores que você vai passar para elas. Meu pai pensa... assim.”

“Seu pai é uma grande pessoa.”

Ele abaixou o olhar. “Sim, ele é.”

Eles foram até um bebedouro. Pipoca com queijo era uma combinação salgada.

Nagisa disse depois de terminar de beber. “Eu tento imaginar como é o pai daqueles ovos.”

“Nem pensei nisso. Nos outros filmes a criatura sempre foi tratada como única, talvez seja hermafrodita,” o garoto concluiu antes de começar a beber.

“Hermafrodita?” Nagisa franziu a testa. “Talvez. De qualquer forma, ela está formando uma família.”

Aki terminou de beber, já dizendo, “Isso é um problema que eles devem explorar no próximo filme.”

“Problema?”

“Você viu o tamanho da criatura,” ele continuou, “se ela começar a se reproduzir, trará um grande perigo para a humanidade.”

Nagisa argumentou, “Mas ela é uma criatura marinha e nós vivemos na terra.”

“Nós dependemos dos oceanos e nenhuma ilha ou cidade costeira estaria segura.”

“Nós podemos encontrar uma forma de conviver!” ela insistiu.

“É uma idéia esperançosa.” Aki balançou a cabeça em negação. “Mas por séculos os humanos são a espécie dominante nesse planeta, é difícil acreditar que nós compartilharíamos essa posição com qualquer outra.”

Nagisa nada disse, o silêncio admitindo por ela que aquilo era verdade.

“Mas talvez suas esperanças se confirmem no próximo filme. Quem sabe?”

Dessa vez foi sorriso dela que admitiu que, talvez, ele acreditasse em milagres.

Eles chegaram na frente do cinema, sem sinal de Ayako e Sanjuro.

“O filme deles deve ser mais longo,” comentou ele.

“Sim.”

Os dois ficaram vendo as pessoas passarem. Algumas vezes se entreolhavam e trocavam sorrisos rápidos.

Contudo, o silêncio estava ficando sufocante para Aki. “Já deve estar escuro lá fora.”

Nagisa concordou, “Deve estar.”

E só. A situação continuava a mesma. Aki ouvia o som de sua a respiração e até mesmo a dela... ou seriam suspiros? Ele precisava fazer alguma coisa. “Hmmm... Momoe-san...”

“Sim?”

O coração de Aki disparou. Não era para falar, mas agir. Por que tinha feito isso? Seria um instinto de sempre pedir permissão, por algo do qual ele nem se lembrava mais de tão nervoso que estava?

“Hidaka-kun?”

Ela estava preocupada e era culpa dele. Os olhos de Aki se apressaram para encontrar uma forma de sair do buraco que se meteu. Felizmente um objeto lhe deu uma boa idéia. “Banco. Vamos sentar naquele banco. Não é bom ficarmos aqui em pé, no caminho de outras pessoas.”

Nagisa olhou envolta. “Você tem razão.”

Eles foram até o banco. Aki sentou em uma ponta, enquanto Nagisa na outra.

O garoto notou ela pegar o smartphone. “Vai falar com a Kitomono-san?”

Nagisa olhou para ele, franzindo a testa. “No meio do filme?”

“Ah... É verdade.” Aki abaixou a cabeça, novamente havia falhado de forma miserável em sua tentativa de puxar conversa.

“Eu esqueci de mandar uma mensagem para Mami. Ela deve estar preocupada comigo,” disse ela enquanto escrevia, “você mandou uma mensagem para a sua família?”

Aki pegou o smartphone dele e checou a tela. “Eles devem achar que estou com o Takuma.”

“Você não contou para eles sobre nós?”

Ele balançou a cabeça. “Eu não sei quando é o tempo certo para isso.”

Ela suspirou. “Eu também não contei para a minha tia.”

Nisso o outro casal apareceu.

Nagisa foi a primeira a notar, em especial o fato de Sanjuro ter um pouco de glíter em seus lábios. “Oi... Como foi o filme?”

“Bom. Se quiser, eu posso entregar os detalhes quando formos comer,” falou Ayako, “o que é isso? Estão se conversando por telefone?”

Aki quase riu, “Não, eu nem tenho o número dela.”

“O quê?! Você não tem o número da sua namorada?”

A expressão séria de Ayako drenou todo o humor de Aki.

“Certo...” A garota fechou os olhos e respirou fundo, depois ela foi em direção a Nagisa enquanto apontava para Aki. “Vamos resolver isso.”

Sanjuro sorriu e foi até onde o outro garoto estava.

Nagisa ficou confusa quando Ayako pôs as mãos nela.

Mesma coisa com Aki e Sanjuro.

“Agora!”

Ayako e Sanjuro empurraram, arrastando suas vítimas através do banco até fazerem se chocarem.

“Ah!” Com o impacto, Nagisa quase deu de cabeça com Aki.

Ayako cruzou os braços, satisfeita. “Agora vocês dois parecem com um casal.”

Aki tentava tirar fios de cabelo branco de sua boca. “D-Desculpe, Momoe-san.”

Sanjuro ficou irritado. “Dá pra parar de pedir desculpa? Ela é a sua namorada!”

Aki estremeceu. “Desculpe...”

“Porra, esse marica não tem jeito mesmo...” Sanjuro se virou.

“Troquem os seus números, agora,” ordenou Ayako.

Nagisa olhou para Aki e mostrou o seu smartphone. “Vamos fazer...”

“Uhum...” O garoto estava inibido, pois havia outra troca ocorrendo, a do calor de seus corpos.

Ayako continuava com as demandas, “Até o fim do encontro, eu não quero ver vocês separados, entendeu?”

Nagisa olhou para ela, perplexa, “Encontro?!”

Como uma praga, a perplexidade acometeu a outra garota. “Alô? Terra chamando Nagisa-chan. Você está namorando. Isso é um encontro.”

E tinha feito outra vítima. Aki perguntou, “Momoe-san, isso não é um encontro?”

De súbito, Nagisa virou o rosto para ele.

O coração de Aki parou por um instante, lembrando-lhe do quanto ela estava perto, com a sua íris intensa e incomum. Então o rosto dela começou a ganhar tons rubros e a enrugar.

Nagisa não conseguiu mais olhar para ele, escondeu a face com as mãos e se curvou. “É claro que é um encontro!”

Ayako pôs uma mão em sua própria testa. “Cabeça de vento...”

Aquilo era surpreendente. Ao ver Nagisa naquele estado, Aki sentiu seu coração mais leve. A distância entre eles havia diminuído, não se tratando da distância física, apesar de que ela poderia ter ajudado. O garoto repetiu, cada palavra erguendo um pouco mais o véu intimidador que ele mesmo tinha posto nela, “‘É claro que é um encontro!’... hehe... haha! Hahahahah...”

Nagisa olhou de relance e também começou a rir, um riso abafado, o que a deixou ainda mais vermelha.

Sanjuro virou o rosto para olhar, “Tch... Vocês se merecem mesmo.” Então ele saiu. “Eu vou comer.”

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Na frente da estação de metrô, os dois casais novamente se separariam.

“Então vocês não vem conosco?” perguntou Nagisa.

A outra garota respondeu, “Eu ainda quero passear com o meu cachorrinho.”

“Você está começando a exagerar com isso.” Sanjuro beliscou o quadril dela.

“Aie! Não me morde, cachorrinho!” Ela golpeou ele com a mala.

Sanjuro sorriu, mas logo ficou sério quando olhou para o outro casal. “Não espalhem isso na escola, para o seu próprio bem.”

Aki sorriu nervosamente. “Nós não iremos.”

Ayako disse, “É legal ver um casal novo todo atrapalhado, nós devíamos se ver mais na escola.”

“Péssima idéia,” Sanjuro deu a sua opinião.

“Obrigada,” disse Nagisa, “mas eu não sei quanto a Hidaka-kun, acho que ele fica mais nervoso.”

O garoto loiro abaixou e coçou a cabeça.

“Se mudarem de idéia, sabem onde nos encontrar.” Ayako saiu de mão dadas com Sanjuro. “Tenham uma boa noite.”

“Tchau!”

Já dentro do vagão em movimento, Aki e Nagisa sentavam lado a lado, contemplando a paisagem noturna da cidade.

“Esse foi um dia longo...” Aki pensou alto.

O bastante para ela ouvir. “Eu também acho.”

“Será que é isso que namorados sentem?”

Nagisa tentou encontrar uma resposta. “Eu acho que um dia fica mais rico quando há outras pessoas a sua volta.”

Aki assentiu lentamente, como se estivesse sorvendo cada palavra daquela afirmação.

Até ouvir um longo ronco.

A garota estava com os braços cruzados sobre a barriga e um sorriso embaraçado. “Eu comi demais...”

Ele apontou. “Ou tem uma coisa aí dentro.”

“Uma coisa?!”

“Um alienígena.” Aki começou a fazer gestos sobre a barriga dela. “Você vai ver, logo você vai o sentir chutar, querendo sair de qualquer jeito.”

Nagisa fez uma careta. “Grotesco...”

Ele sorriu. “Mas se o enredo for legal?”

Ela respondeu prontamente, “Grotesco, mas legal... ou legal, mas grotesco.”

“Que escolha difícil!”

Ele estava se utilizando de sarcasmo? Ainda que Nagisa sentia que aquela não tinha sido a primeira vez, não deixou de se surpreender.

O veículo parou em uma estação, que era onde Nagisa desceria.

Vendo a garota perto da porta, Aki perguntou, “O que achou desse encontro?”

“Encontro...” Nagisa forçou um sorriso, lembrando do ocorrido, então respondeu, “Foi bom.”

“Foi? Realmente?”

Ela franziu um pouco a testa, mas continuou a sorrir. “Eu faria novamente.”

Essa era melhor resposta que Aki esperava. “Então... tchau, namorada.”

Ela acenou com a cabeça. “Tchau, namorado.”

Sobre a plataforma da estação, Nagisa viu o trem sair, acompanhando Aki pela janela até não conseguir vê-lo mais.

A estação não ficava longe do apartamento da Mami. Nagisa considerou a possibilidade de usar o metrô para ir à escola para estar com ele por mais tempo, mas viagem seria curta demais para justificar o custo.

Saindo do elevador, entrando no apartamento, deixando os seus sapatos, ela notou que estava ocorrendo uma faxina.

Mami estava com o cabelo preso, coberto com um pano, enquanto limpava as estantes da sala de estar.

Nagisa tinha uma idéia do que isso significava. “Teremos visitas? Madoka?”

A loira olhou para ela, surpresa. “Oi? Eu nem vi você entrar, estou tão atarantada... mas sim, teremos visita. Uma pessoa da escola.”

“Então você está fazendo amigos, que bom...” Nagisa se sentiu culpada. “Se eu soubesse antes, eu teria vindo para ajudar com a limpeza.”

“Não, tudo bem, já estou quase terminando. É bom que você faça coisas juntas com os seus colegas.” Mami apontou para a cozinha. “Eu deixei a janta na geladeira.”

“Eu já comi.” Nagisa foi até o quarto. “Eu vou tomar um banho.”

Nessa hora ela sentiu seu smartphone vibrar.

“Hã?” Nagisa se sentou na cama para ver. “Uma mensagem? Do Hidaka-kun?” Ela sorriu e rolou pelo colchão, excitada em abri-la. O que seria?

—C (O w O) –C RAWR!

Ela pôs a mão na boca para não rir e então deitou-se de barriga para cima, com os braços abertos.

Aquele tinha sido um rico dia.

Notas finais
Próximo capítulo: A responsabilidade