Amor

11 A responsabilidade


Era o fim de mais um dia de aula. Aki e Nagisa tinham chegado à estação.

Tudo tinha sido mais normal do que ela tinha esperado. “Kuroki-kun não nos abordou hoje...”

“Ele chegou a perguntar para mim na sala se eu ia embora contigo hoje. Eu disse que sim e ele não falou mais comigo.”

Nagisa sorriu. “Ele deve ter entendido.”

“Entendido?” Aki franziu as sobrancelhas.

“Sobre não te pressionar. Você sabe o quer.”

“Eu sei, eu sei...” O garoto fez uma tentativa pífia de sorrir. “Só que eu acho que é um pouco cedo para acreditar nisso.”

Nagisa juntou as mãos. “Talvez, mas seria bom. É como Ayako-chan disse, ele precisa amadurecer.”

“É, ele precisa.” Aki olhou para entrada da estação. “Está na hora.”

“Uhum!” Ela assentiu. “Tchau, namorado!”

“Tchau, namorada!”

“Te vejo amanhã.” Com a mala atrás dela, Nagisa começou a andar para trás. “Sentirei saudades.”

Aki ficou surpreso ao ouvir aquilo. “E-Eu também.”

Ela abriu mais o sorriso.

O garoto ficou observando ela com uma cara de bobo, mas então ele se deu conta. “A-A rua!”

“Hã?” Nagisa olhou para trás, vendo um caminhão passar. Então ela voltou a olhar para ele, ainda sorridente, mas com a testa franzida. “Eu sei.”

“Ah... eheheeeh...” Com um riso nervoso, Aki acenou para ela e entrou na estação.

Ele quase perdeu o trem. O vagão estava cheio, como era de costume naquele horário, o que o obrigou a ficar de pé, segurando em uma das barras.

Assim que o veículo começou a se mover, o smartphone fez o toque de mensagem. Não era o momento mais conveniente, mas Aki tinha quase certeza de quem era a pessoa. Ele colocou a sua mala entre as pernas e pegou o dispositivo para checar.

Acabei me esquecendo de perguntar.

Agora que todo mundo sabe sobre nós, não seria melhor que a gente sentasse junto na sala de aula?

A sugestão de Nagisa não surpreendeu Aki. Era o que um casal deveria fazer, apesar de que havia alguns empecilhos para lidar. Ele respondeu, digitando letra por letra com o polegar.

Temos que comunicar um professor para que seja feita a reprogramação das carteiras.

Com quem você vai trocar de lugar?

A resposta veio mais rápido do que ele esperava.

É você que vai trocar de lugar.

Tem uma pessoa que não quer mais sentar perto de mim, então eu pensei nisso.

Aki leu a mensagem várias vezes. Ele estava certo que ela estava tendo problemas por causa dele, apesar de que dessa vez algo de bom aconteceu por causa disso. Contudo, havia outra questão para lidar.

Takuma vai trocar de lugar também.

Ele escreveu mensagem, mas hesitou em enviar. Nagisa viu as cenas humilhantes, agora ela estaria em seu epicentro. Ele temia pela resposta ao levantar esse assunto.

Ele apertou o botão.

Contudo, Aki não sabia se Nagisa estava ciente sobre Takuma. Deixá-la às cegas seria uma atitude egoísta e irresponsável. Imperdoável.

O garoto aguardou ansiosamente, dessa vez a resposta demorou a chegar.

Eu estarei perto.

Ela sabia, pior, essa era resposta que ele temia. O apoio dela era reconfortante, mas também significava que ela se envolveria ainda mais em seus problemas. Aki sentiu essa mistura de emoções e não conseguia traduzir em uma mensagem.

Ok.

A mão que segurava o smartphone tremeu. Se sentiu culpado e fraco, sempre fraco.

Vai ficar tudo bem.

Aki suspirou ao ler a última mensagem.

Saindo da estação, ele precisou andar ainda mais um tempo até chegar ao modesto condomínio onde morava. Nem uma vista decente ele podia ter, pois o apartamento ficava nos primeiros andares.

Mas lar é lar. Ele abriu a porta, anunciando, “Cheguei.”

“Bem vindo,” disse a sua mãe, que estava assistindo televisão. Era uma mulher que apresentava poucas marcas da idade, que ostentava com orgulho um volumoso cabelo alaranjado. “Novamente veio cedo?”

Aki tirava os seus sapatos. “Sim, eu estou vindo cedo. Eu acho que vai ser assim por um tempo, talvez...”

Ela ficou desconfiada. “Não está tendo problema de novo na escola, está?”

“Não estou.” Aki se dirigiu ao seu quarto.

“Não está com fome?”

“Não!”

O quarto era pequeno, por enquanto ainda era proporcional a ele. Suas roupas ficavam em uma cômoda, que às vezes ele usava como escrivaninha também, um baú contendo seu material escolar e um closet.

Seu lugar mágico.

Ao abrir a porta de correr, sua cama foi revelada. Acima dela havia estantes onde guardava alguns brinquedos, mas o que mais ocupava espaço nelas eram as miniaturas de monstros, desde os mais famosos até os obscuros, incluindo os do ocidente. As paredes, até mesmo o teto do closet, estavam forradas de pôsteres de filmes das criaturas. Devido à falta de espaço, em alguns casos foi necessário sobrepor parcialmente um pôster com outro.

Depois de deixar a mala da escola sobre o baú, Aki se deitou na cama e fechou a porta, deixando tudo escuro. Ele acendeu um abajur.

Acima dele, embaixo da primeira estante, havia um grande pôster de uma serpente marinha imponente, se agigantando-se sobre uma embarcação. Esse havia sido um dos melhores filmes do qual seu pai teve participação. No entanto, nada disso estava na mente do garoto, nem o monstro, nem o filme, nem o seu pai.

Era como sua mãe havia dito, ele tinha chegado cedo em casa. Era assim antes, mas não havia essa satisfação que estava sentindo, esse valor.

Ali dentro, apenas sua respiração como companhia, ele podia refletir. Tantas coisas estavam acontecendo nessas últimas semanas. Havia muitos medos e preocupações, sim, mas o vento da mudança o distraía.

E nela balançava mechas de cabelo branco, sob a luz elas pareciam prata. Um céu estrelado, que ele não pôde alcançar, mas podia imaginar o seu calor.

“Nagisa Momoe...” Ele falou, esvaziando a sua mente, abraçando as emoções que emergiam.

Com um barulho súbito a porta se abriu violentamente, seguido por uma voz feminina, “OOOOIIIIIIIEEEEEEEEEEEEE!”

Aki pulou em sua cama. “AHH! IRMÃ?!”

E não seria diferente. A jovem mulher tinha um cabelo loiro muito curto e olhos escarlates, se não fosse a diferença de idade, eles poderiam ser confundidos como gêmeos. “De novo se escondendo aí dentro?”

Ainda surpreso, o garoto respondeu com uma pergunta, “Por que você não está na faculdade?”

Ela fez uma cara de desânimo. “O professor disse que iria faltar à aula por causa de exames médicos. Ela foi transferida para domingo, vê se pode...” Depois voltou a sorrir. “Mas me diga, quem é Nagisa Momoe?”

Aki gelou. “Q-Quem?!”

“É isso que estou perguntando.”

“Hmmm...” Ele desviou olhar e sorriu. “Ninguém?”

Ela cruzou os braços e fechou os olhos. “Você está vermelho.”

Ele levou as mãos ao rosto. “Estou?”

“Uhum...”

Ele logo respondeu, “É que... você fica vindo com essas questões estranhas...”

A irmã concluiu, “Então é um garoto.”

“O quê?!”

“Nagisa pode ser um nome de garoto,” ela explicou, “é por isso que está assim. Mas a sua querida irmã entende! Essa é uma idade que a gente pode experimentar coisas diferentes...”

Aki se exaltou, “Ela não é um garoto!”

A irmã ergueu uma sobrancelha. “Então a nossa ‘ninguém’ é uma garota... hmmm...”

Emburrado, o garoto se virou na cama, dando as costas para ela.

“Eu estou tão feliz! Esperei tanto pelo meu irmãozinho crescer e se apaixonar!” Ela não conseguia conter sua excitação. “Olha! Olha! Eu possa te dar umas dicas bem legais para você se aproximar e falar com ela.”

“Eu não preciso,” ele disse, ainda aborrecido.

Ela não estava muito convencida, “Irmão, eu sei que você não é exatamente tímido, mas lhe falta... a manha. Eu não estou só pensando em ti, eu não vou querer descobrir mais tarde que você assustou ela.”

Dessa vez, ele se virou. “Eu REALMENTE não preciso.”

Ela ficou confusa. “Como assim?”

Aki suspirou e rangeu os dentes antes de dizer, “Ela... Ela já é a minha namorada.” Então ele sorriu, um sorriso orgulhoso. “Eu acho que já tenho essa manha.”

“Ah...” Ela ficou decepcionada. “Então não posso te ajudar... Você cresceu tão rápido que nem percebi...” Depois arregalou os olhos. “Espere! Como é que você conseguiu uma namorada?”

Aki deixou a cama e começou a empurrar. “Por favor, saia do meu quarto. É uma garota, é minha namorada e está tudo bem, não precisa se preocupar.”

“Com o que não precisa se preocupar?” A mãe chegou na porta. “O que foram esses gritos?”

“Aki tem uma namorada,” respondeu a irmã.

Acontecera tudo de repente, já era tarde demais. O garoto pôs as mãos na cabeça. “Droga...”

“O quê?” A mãe foi entrando. “Meu Aki? Uma namorada?”

A irmã confirmou, “Sim e ele está assim, nervoso comigo.”

Aki coçava a cabeça freneticamente. “É claro que vou ficar!”

A mãe perguntou para ele. “E há quanto tempo?”

“É, eu também quero saber,” disse a irmã.

“Não muito,” respondeu o garoto, cabisbaixo, “é por isso que eu ainda não tinha falado com vocês.”

“Filho, por que está triste?” A mãe olhou de mais de perto para a face dele. “Eu estou feliz por ti, só um pouco surpresa.”

A irmã assentiu. “Todos nós estamos.”

“Eu sei. Eu sei.” Ele olhou para ela. “Não precisam me lembrar.”

Ela retornou a falar, “Para com esse drama, só por causa que é a sua primeira namorada.”

A mãe a repreendeu, “Não fale como se ele devesse seguir você como exemplo.”

“Nem começa!” A irmã revirou os olhos, enquanto já saía do quarto. “Eu ainda tenho tempo para achar um homem para casar e deixar você feliz.”

“É bom que comece logo.” Depois das duras palavras, a mulher de cabelo laranja voltou a sua atenção para o filho, abrindo um sorriso.

Não que isso deixara Aki mais confortável. “Hummm... Quer saber de mais alguma coisa?”

“O nome dela.”

“Claro... hehe...” ele respondeu, um pouco hesitante, “Nagisa... Momoe.”

A expressão da mãe foi ficando mais serena, satisfeita, “Você deveria apresentar ela para nós.”

Ele assentiu. “Eu verei isso.”

“Também deve falar com o seu pai.”

Ele assentiu novamente, dessa vez em silêncio, pressionando os lábios.

Sozinho, Aki percorreu o corredor que levava até a porta do quarto dos seus pais, na verdade mais que isso. Ao abri-la, se deparou com um ambiente escuro e um familiar cheiro de óleo.

Um homem magro e calvo, com cabelos que já tinham perdidos suas cores da juventude, trabalhava em sua escrivaninha. Uma lupa articulada com lâmpadas iluminava um relógio de pêndulo, desses que se colocam em uma parede, do qual o homem estava parafusando com uma chave de fenda. Contudo, ao notar outra presença, ele parou e virou sua cadeira. “Filho?”

“Oi pai,” disse Aki, “desculpe incomodá-lo, mas preciso lhe dizer algo.”

Com as mãos trêmulas, o homem colocou os óculos. “Eu tinha ouvido algo. Era você discutindo com a sua irmã?”

“Não, está tudo bem. Ela estava comemorando porque... bem...” O garoto respirou fundo. “Eu tenho uma namorada agora.”

O pai franziu a testa, deixando-a mais enrugada do que já estava, depois sorriu. “Congratulações...”

Aki abaixou a cabeça, sorrindo. “Obrigado.”

“Isso significa que o acordo com aquele garoto está dando resultado. Continue cultivando a amizade com ele.”

Ele parou de sorrir e olhou de relance para o pai.

O homem continuou, “Qual o nome dela? É da escola?”

Aki tratou de voltar a sorrir, erguendo a cabeça. “Nagisa Momoe e é uma nova estudante na minha sala.”

“Nova estudante... hmmm...” O pai se ajeitou na cadeira. “Você precisa apresentar ela para nós.”

“A mãe já disse isso.”

O pai ficou um pouco mais sério. “E é coisa certa a fazer se esse é um relacionamento sério.”

Aki afirmou. “Sim, ele é.”

O homem velho assentiu. “Então tem a minha benção. Faça-a feliz e seja responsável. É o que a família dela vai esperar de ti.”

“Não me esquecerei disso.” O garoto se virou para sair. “Obrigado novamente, pai.”

“Aki.”

Tinha sido um erro, pois a conversa não havia terminado. “Sim?”

“Você ainda está desenhando naquele caderno?”

A súbita questão fez com que Aki não olhasse para ele, balançando a cabeça como resposta.

O pai ficou ereto na cadeira e ergueu o queixo. “Meu filho não tem voz para contar uma mentira?”

Aki fechou os olhos e ficou mais tenso, aguardando pelo o que ouviria. “Eu só estou desenhando um pouco.”

O homem passou a mão no que restava de seu cabelo e suspirou antes de começar a falar, “Nós já conversamos sobre isso. Na minha época, era possível trabalhar com isso sem ter estudo algum. Hoje, no mínimo você precisa estar graduado em uma faculdade e não há garantia alguma.”

O garoto apenas assentiu.

“E veja onde eu estou agora.”

Dessa vez, ele não resistiu e se manifestou, “Mas você tem orgulho dos filmes que trabalhou.”

O homem balançou a cabeça lentamente, com um semblante de decepção. “Eu... tenho, mas longe de ser uma virtude, é mais uma teimosia egoísta.”

“Como?” Aki argumentou, “você construiu um legado, seu nome está em tantos trabalhos...”

“São apenas palavras pequenas, juntas as tantas outras, que brilham por alguns segundos em salas vazias.” Ele olhou para um ponto no vazio. “Quando era jovem eu acreditava nisso, mas tudo foi mudando quando tive você e a sua irmã. Vocês é que são o verdadeiro legado e meu arrependimento é que eu comecei a construí-lo muito tarde.”

“Pai...”

Ele tirou os óculos de sua face tensa, respirando fundo, com lábios tremendo tanto quanto as suas mãos. “Eu oro para que eu tenha saúde suficiente para continuar a trabalhar até pagar a faculdade da sua irmã e sua também.”

Até Aki começou a tremer, sentindo um fardo crescer sobre ele.

O pai disse com firmeza, “Você vai estudar, meu filho, e vai encontrar um emprego para formar uma família. Não cometa os meus erros. Você precisa entender, agora você tem uma namorada e ela apreciaria essa atitude.”

Aki respondeu sem hesitar, “Não é isso que ela pensa.”

Tanto que silenciou o pai por um momento e então ele começou a assentir, não por concordar com o filho, mas para o que estava prestes a dizer, “Ela é jovem. O tempo dirá.” Ele guardou os óculos e virou a cadeira para voltar ao trabalho.

Isso sim era um sinal de que a discussão terminava ali. Em silêncio, com punhos cerrados, Aki deixou o quarto.

Vendo através da lupa, o homem velho usava a chave de fenda para mover os ponteiros do relógio, enquanto sussurrava, “O tempo dirá...”

/人 ‿‿ 人\

O elevador abriu a porta e duas garotas saíram dele.

“Que bela vista,” disse Sasa olhando para cidade além do parapeito.

“Tem certeza?” Mami franziu a testa. “Só há prédios.”

“Deve ser porque você já está acostumada.” A garota baixinha chegou mais perto da sua companheira. “Mami-senpai, o que foi? Você parece preocupada.”

“Preocupada?” A loira procurou sorrir. “Eu devo estar ansiosa. Eu não sei se você vai se sentir confortável em minha casa.”

“Como é?!” Sasa ergueu uma sobrancelha e deu um sorrisinho. “Acha que eu irei me arrepender de ter vindo contigo? Jamais!”

Elas chegaram até porta. Antes de abri-la, porém, Mami falou, “Bem, tem o fato que eu mencionei agora há pouco, que eu terei que apresentar você.”

Sasa levou a mão ao peito. “Sua kouhai não irá decepcionar, eu lhe garanto. Eles ficarão até impressionados com a minha educação.”

“Eles?” Mami segurava a maçaneta.

“Oh...” Sasa sentiu que tinha tomado uma conclusão precipitada, mas então deu de ombros e voltou a sorrir. “Se é só uma pessoa, fica mais fácil ainda.”

“Claro...” Ela abriu a porta.

Enquanto entrava, Sasa foi ficando mais maravilhada. “Nossa... Seu apartamento é bem decorado.”

Apesar dos elogios, Mami não sorriu. “Você acha? Ela já é um pouco antiga...”

“Sim! Eu estava quase me esquecendo de tirar os sapatos por causa disso,” disse a outra garota, “você tem um bom gosto, como esperado da minha senpai.”

“Esse gosto não é somente meu, mas obrigada.” Mami fez um gesto para uma direção. “Vamos até a sala de estar, eu preparei algumas coisas para nós.”

“Eba!” Sasa a seguiu. “E quando você disse ‘nós’, não é apenas eu e você, certo?” Quando chegou na sala, ela logo viu uma outra garota, com longos cabelos brancos e com o uniforme de outra escola, vindo pelo corredor.

“Olá!” Nagisa cumprimentou.

Os olhos de Sasa se arregalaram. “Oi...”

Mami disse para visita, sorrindo, “Eu gostaria de lhe apresentar Nagisa Momoe.”

“Mami não me falou muito sobre você,” disse Nagisa, “mas uma amiga dela é mais do que bem... vinda...”

Sasa tremia, sua respiração estava presa e as veias em seu pescoço estavam saltadas para fora.

Algo que Mami notou. “Sasa-san? Tudo bem contigo?”

“Oi?” Ela voltou a respirar e começou a se acalmar. “S-Sim. Eu só estou surpresa, eu estava esperando alguém mais... velho. Ela é sua irmã?”

Foi Nagisa que respondeu. “Nós não temos o mesmo nome de família.”

“Ah sim...” Sasa, com um olhar malicioso, então sussurrou para Mami. “Mas por acaso você está escondendo que ela é sua filha?”

A loira respondeu no mesmo tom. “Você não acha que eu sou um tanto nova para ter uma filha nessa idade?”

“Você nunca me disse a sua idade.”

Mami arregalou os olhos e quase pulou com o que ouvira.

“Kufufufu...” Sasa pôs alguns dedos na frente da sua boca. “Isso é para ser um elogio, Mami-senpai. Entendeu? Significa que sua beleza jovial durará por muito tempo.”

Vendo a situação que aquela conversa estava, Nagisa decidiu por revelar, “Eu sou a sobrinha dela.”

Sasa assentiu. “Então é isso.”

“Ai! Ai!” Mami fechou os olhos e cobriu parcialmente a sua face. “Está é a Sasa-san que eu conheço. Por um momento achei que estivesse assustada.”

“Eu disse que fiquei surpresa.” Sasa ficou olhando para Nagisa. “Talvez... porque estou em outro ambiente, diferente da escola que eu conheço há tanto tempo.”

A garota de cabelos brancos falou, “Você poderia me contar algo sobre Shirome?”

“Eu já te contei,” Mami respondeu, “não há muito mais o que dizer.” Então ela acenou com a cabeça. “Certo, Sasa-san?”

“É...” A garota deu uma piscadela. “Quem entra lá descobre que não há nada de especial, apenas uma escola.”

Mami instruiu, “Por favor, deixa a sua mala no sofá e se sinta confortável enquanto eu preparo a mesa.”

“Posso usar o banheiro?” perguntou Sasa.

“Claro! Bebe pode te mostrar onde fica.”

Nagisa pendeu a cabeça de lado e piscou.

“Owww...” Mami tampou a sua boca.

Sasa ficou confusa.

“Bebe é o apelido carinhoso que eu dei para Nagisa, só que eu não deveria usar na frente de estranhos.” A loira foi ficando mais nervosa. “N-Não que você seja uma estranha para mim, mas...”

Sasa gesticulou, sorrindo. “Eu entendi. Está tudo bem.”

Nagisa disse, “Você pode me chamar de Bebe se quiser.”

Ela respondeu, “Eu sou Sasa Yuuki, mas pode me chamar de Sasa.”

Isso fez com que Mami colocasse as mãos na cabeça. “Ah não... Eu esqueci de apresentar você de forma apropriada.”

“Fufu... Uma kouhai pode aprender com erros da sua senpai também.”

Mami sorriu de forma forçada e juntou as mãos. “Ok. Então hmmm... Bebe, poderia mostrar o banheiro, sim?”

“Claro, vem comigo.”

Enquanto Mami ia até cozinha, Nagisa levava Sasa pelo corredor até o banheiro. Contudo, quando ela foi mostrar a porta, descobriu que a visitante estava interessada em outra.

Sasa observava por uma fresta. “Esse é o quarto dela? Posso dar uma espiadinha?”

Nagisa deu de ombros. “Hmmm... Sim?”

Ao abriu a porta, Sasa se deparou com um ambiente dominado por temais florais e tons amarelados. “Minha senpai é muito feminina... Esse apartamento é incrível!”

“Sim,” concordou Nagisa, “o meu quarto é mais modesto, mas não tenho do que reclamar.”

“Então você mora com ela.”

A afirmação da visitante não tinha soado com surpresa, mas séria. Nagisa se lembrou de que Mami teria boas razões para não falar sobre isso com a nova amiga. “É recente...”

“Estou com inveja de ti,” disse Sasa, enquanto passava a mão sobre o lençol da cama.

“Hehe...” Nagisa se acalmou, não parecia que ela iria se aprofundar mais no assunto. No entanto, ela notou que a outra garota usava luvas. Isso lembrou ela de histórias de espiões, assassinos e ladrões. Ela tratou de balançar cabeça, como se isso ajudasse a remover essas fantasias. Ela não devia pensar sobre isso de uma amiga de Mami, ainda mais que ela tinha um cheiro delicioso de queijo cheddar.

“Bebe! Pode me ajudar com isso!”

Ouvindo a voz de Mami, Sasa comentou enquanto saía do quarto, “O que é isso? Ela preparou algo grande para nós comermos?”

“Mais ou menos... hehe...” respondeu Nagisa, nervosamente, enquanto via a outra garota ir ao banheiro.

Pouco tempo depois, Sasa voltou para sala de estar e encontrou Mami e Nagisa já sentadas à mesa de vidro triangular. Sobre ela estava vários bolos e tortas, além de chá, café e suco.

A garota ergueu as sobrancelhas. “Tudo isso para mim?”

Mami sorriu, um pouco acanhada, “Bem, quando eu preciso esperar uma torta ou bolo sair do forno ou do freezer, eu penso ‘Com esse tempo sobrando, por que não preparo outra coisa já que tenho os ingredientes?’ e assim vai...”

Nagisa apontou, “Esse cheesecake fui eu que fiz. Tive ajuda, mas só um pouquinho.”

“Então vocês prepararam tudo isso? Não é nada comprado?” Sasa se sentou na almofada que estava disponível.

Mami apenas balançou a cabeça para negar.

Desviando os seus olhos azulados, a garota falou, “Assim vou me sentir mal por abusar de tamanha hospitalidade.”

“Não se sinta assim,” disse a loira, “não é que eu não faça isso em qualquer outro dia.”

Elas começaram a se deliciar com o que havia na mesa.

Durante isso, Nagisa comentou, “Cada uma de nós tem um uniforme diferente...”

“De fato,” Mami concordou.

“Mas só até esse ano,” disse Sasa, “no próximo estarei no ensino médio. Eu não sei seria assim na escola de Mitakihara.”

“No próximo ano nós iremos descobrir.” Mami tomou um gole de chá.

Nagisa ficou surpresa. “Então você sabe.”

A loira franziu a testa. “Eu vi no noticiário. Você devia ser mais atenta com o que acontece a sua volta.”

“Ah...” Ainda que fosse uma voz suave, Nagisa sentiu o golpe da repreensão.

Sasa assentiu, “Eles estão construindo uma escola do ensino médio... Você pretende voltar para lá, Mami-senpai?”

Ela respondeu prontamente. “Não, eu estou ótima em Shirome.”

“Hmmm...” Sasa fechou os olhos e sorriu.

Nagisa pegou um pedaço do bolo com o garfo, mas não o comeu, sentiu que precisava lidar com uma dúvida antes, “Sabe, eu achei isso estranho...”

“Estranho?” Sasa ficou mais tensa.

“Mami fez amizade com alguém do ensino fundamental, mas ela não fala nada sobre as colegas de sala.”

A loira veio com um olhar sério para Sasa.

Era hora de mentir com uma verdade. “Deve ser porque ela é uma estudante transferida. As colegas dela já estudavam lá antes e devem ter entrado no ensino médio com as suas panelinhas já formadas, então fica difícil para ela.”

Nagisa assentiu com a resposta de Sasa.

“Estou ficando viciada nessa torta. Tão cremosa!” A visitante foi mudando de assunto. “Com essa cobertura de chocolate e biscoitos, eu achei que seria muito doce, mas ela é amarga, com toque doce apenas no final.”

Mami ficou lisonjeada. “Essa é uma torta alemã. Na verdade, ela é alemã apenas no nome, é uma receita brasileira. Ela tem esse gosto amargo por causa do conhaque.”

Sasa parou antes de trazer um pedaço até a sua boca. “Eh? Conhaque?”

“Algumas vezes eu uso rum. Eu coloquei um pouco na calda de chocolate, também no leite que eu usei para banhar os biscoitos.”

“Hmmm...” Sasa sorriu, cheia de malandragem. “Então minha senpai quer me embebedar, o que sua mente perversa está reservando para mim?”

Mami balançou a cabeça. “Ora! Eu coloquei tão pouco...”

“Fufuhahaha!” Sasa notou que Nagisa tinha os olhos fixos nela. “O que foi agora?”

“N-Nada.” Ela desviou o olhar. “Suas luvas atraíram a minha atenção... eu acho...”

“Eu tenho um caso ruim de mãos frias,” disse Sasa, “eu acredito que posso até congelar algumas coisas com elas.”

Nagisa ficou impressionada. “Isso é um tipo de mágica?”

Sasa ergueu uma sobrancelha, mas depois sorriu e respondeu, “Não, minha mágica é outra.”

Mami ficou curiosa. “E qual seria?”

“É óbvio!” Ela abriu os braços. “Ser a melhor kouhai para a melhor senpai!”

Nagisa pendeu seu corpo em direção a Mami. “Mas eu sou a melhor kouhai.”

“Como isso seria possível?” Sasa semicerrou o olhar.

Mami olhou para as duas. “Por favor! Não vão começar uma discussão por causa disso, não é?”

“Nem, só estou me usando da lógica,” disse a garota de cabelo castanho claro, olhando para Nagisa, “como ela pode ser uma kouhai se nem estuda na mesma escola? Exceto que ela esteja se referindo a outra coisa.”

Mami também olhou para Nagisa, preocupada com o que ela iria dizer.

Mas a garota não pensou muito para dizer, “Eu sou a kouhai de casa!”

“Kouhai de casa?” Sasa deu um sorrisinho.

Mami abaixou a cabeça, envergonhada.

“Legal!”

Contudo, isso mudou quando ela ouviu Sasa.

“Então a melhor kouhai da escola se alia com a melhor kouhai de casa pelo bem de Mami-senpai!”

Vendo as duas trocarem piscadelas e mostrarem as suas línguas, a loira ficou surpresa, “Vocês... se entenderam tão bem...”

O sol já tinha se pondo quando Sasa se deu por satisfeita. “Owww... Eu acho que vou ficar uns dois dias sem comer.”

“Você não precisava experimentar cada um dos meus bolos,” afirmou Mami.

“Era preciso, pois eu acredito, por mais que você negue, que você preparou cada um deles pensando em mim.” Sasa limpou sua boca com um guardanapo.

Enquanto isso, Nagisa notou que Mami tinha ficado um tanto corada.

“Bem,” Sasa continuou, “eu tenho uma pergunta para você.”

Mami se recompôs. “O que seria?”

“Eu andei conversando com a nossa Bebe e ela me disse que tem um quarto só para ela.”

“Sim...” Mami olhou de relance para Nagisa.

A garota sorriu e desviou o olhar.

“Mas o seu apartamento só tem dois quartos.”

Mami voltou imediatamente sua atenção para a visitante.

“Eu vi os retrato dos seus pais.” Sasa olhou envolta. “Eles estão viajando?”

Silêncio.

Sasa viu Mami abrir a boca e quase assentir, mas então a loira parou e balançou a cabeça, com um semblante de que ela estaria desaprovando algo.

Finalmente, ela falou, “Eles faleceram alguns anos atrás.”

Sasa ficou estupefata. “Mas como... Está me dizendo que nenhum adulto vive aqui?”

Mami respirou fundo e explicou, “O proprietário desse prédio tinha um relacionamento próximo com os meus pais. Em um acordo judicial em conjunto com os meus outros parentes, ficou decidido que ele ficaria com a minha guarda. A idéia era que a minha rotina mudasse o mínimo possível.” Ela ergueu a cabeça e suspirou. “Como se isso fosse possível... mas eu concordei, eu tinha os meus motivos...”

Sasa ajeitou as suas luvas. “Entendo...”

“Ele me visitava com freqüência, mas vendo que eu conseguia lidar com os afazeres domésticos e com o dinheiro que ele me dava, ele parou. Eu tenho plena liberdade agora.” Mami sentiu sua mão sendo tocada.

“E eu estou tão feliz por isso. Você é uma grande e forte pessoa,” declarou Nagisa.

“É... Eu sou uma kouhai sortuda por ter você,” comentou Sasa, com um olhar perdido, então ela ficou de pé. “É hora de ir.”

“Por favor, não vá,” pediu Mami, “desculpe se esse assunto te incomodou. Não se sinta culpada, eu devia ter te contado antes.”

“Não há nada com o que se desculpar.” Sasa pegou a sua bolsa. “Na verdade, está tarde e temos tarefas da escola para fazer, certo?”

Nagisa fez uma careta. “Todas nós temos.”

Mami se levantou e acompanhou Sasa até a porta. “Não quer que eu chame um táxi?”

“Eu já sou grande o suficiente para me cuidar.” A garota baixinha colocou os sapatos.

A loira sorriu. “Tem certeza?”

Sasa semicerrou olhar e apontou para ela. “Ei... não tenta me copiar. Eu sou uma garota muito, muito má.”

Com ela saindo do apartamento, Nagisa se aproximou. “Tchau Sasa-chan, foi bom te conhecê-la.”

“Continue sendo a melhor kouhai de casa!” exclamou Sasa, “cuidado com a concorrência! Fufu.”

“E eu verei a melhor kouhai da escola amanhã?” perguntou Mami.

Sasa ergueu seus ombros, ao ponto deles tocarem as pontas duplas de seu cabelo. “Eu acho que sim...”

Mami se curvou. “Tenha uma boa noite, Sasa-san.”

“Para vocês duas também.”

A porta se fechou lentamente e Sasa aguardou até que não pudesse mais avistar aquele par de olhos de amarelos gentis.

Só então foi até o elevador e o chamou. O dia tinha sido um tanto quente e a brisa daquela noite trazia um agradável frescor.

Contudo, Sasa tinha uma expressão séria quando entrou no elevador. Quando as portas se fecharam, já era de raiva.

Tremendo e com os dentes rangendo, ela foi erguendo a voz, “Kyuubey, seu cretino...” Então começou a pular furiosamente. “Cretino! Cretino! Cretino! Cretino! AHHHH!”

Ela socou o botão para fazer o elevador descer e continuou a reclamar, “Você me disse que Mami Tomoe agia sozinha! Mas ela tem uma garota mágica vivendo sob o mesmo teto!” Ela começou a bater os braços sem controle. “Eu não tenho como fazer uma lavagem cerebral completa sem que outra note. Maldita bola de pêlo! AHHHH!”

Então se acalmou, colocando a mão em sua face e respirando pela boca. “Ahh... Mas a outra garota deve ser uma novata... ah... e eu tinha elemento surpresa. Se eu matasse a Mami, ela entraria em choque, seria fácil.”

O elevador parou e a porta se abriu para uma família com uma criança.

Sasa sorriu e se curvou levemente para eles enquanto saía. “Oi!”

A família retribuiu o gesto e entrou no elevador.

Quando estava novamente sozinha, Sasa arrumou o seu uniforme, novamente séria. “Eu faria uma lavagem cerebral em qualquer testemunha. Elas iriam dizer que viram um homem, um ladrão ou pervertido, tanto faz. Eu podia fazer isso.”

Já na rua, ela parou. “É, eu podia fazer isso...”

No fundo de sua boca persistia um suave sabor doce.

Ela abaixou a cabeça e suspirou. Lambeu os lábios e falou consigo mesma, “Sasa, sua grande idiota...” Ela então resolveu remover a luva da mão esquerda.

No dedo do meio havia um anel metálico com runas e uma pálida gema azul, que no momento estava poluída.

“Preciso purificar de novo...” Ela botou a luva de volta e olhou para o alto, para a janela iluminada do apartamento onde esteve, e desapareceu na noite.

Notas finais
Próximo capítulo: Caminho amaldiçoado