Among Other Kingdoms - Segunda Temporada
6 Capítulo VI
Estela aproveitou o quarto do navio o máximo que pode, porque, no fundo, não gostava de navios e não ver o resto da embarcação, por mais luxuosa que fosse, era um certo alívio. Navegação a lembrava de Urion e ele era um compilado de lembranças ruins. Ela não sentia as ondas, mas as ouvia, eram ritmadas, suaves, como uma canção de ninar. Respirou fundo antes de autorizar a entrada no quarto, Linor entrou com sua maleta e um sorriso no rosto.
—Como está, majestade? – o curandeiro perguntou se aproximando sob os olhos atentos do pássaro.
—Bem – ficou reta na cama e ergueu as mãos acima da cabeça, Linor apalpava ao redor de sua barriga, ele dizia que era para saber o quanto os bebês tinham crescido e se já haviam virado para o parto, contava orgulhoso que aprendeu tudo isso enquanto estudava em Verena – Você acha possível bebês se matarem dentro do ventre? – a pergunta saiu como um sussurro, os olhos dela demonstravam toda preocupação.
—Bom... – ele engoliu em seco – Às vezes ocorre do bebê morrer antes de nascer, mas não acho que um mate o outro, mesmo em casos...
—Em casos? – a rainha arqueou a sobrancelha.
—Em casos como esse, até aquela tarde eu achei que era impossível visualizar movimentos tão nítidos – ele tocou o baixo ventre e abaixo dos seios, simultaneamente – Sua barriga está baixando, é normal quando o parto se aproxima. Faltam duas luas. – Finalizou com um sorriso – Qualquer coisa me chame.
O curandeiro saiu, ela permaneceu deitada na cama, desceu a mão para a barriga, passando a ponta do dedo suavemente de uma ponta a outra, um dos bebês se mexeu, não era quem ela queria sentir, sabia que não, Estela queria sentir o filho de Perseu, queria saber que ele estava bem e que o sangue inescrupuloso de Estevão não havia o ferido, ela olhou para Melerofonte, a ave, magicamente, entendeu seu pedido e a rainha lembrou porque a presença dela era tão boa, mal havia piscado os olhos quando a pequena guerra foi travada, ela tinha curiosidade para saber como eles brigavam dentro de um espaço tão pequeno, mas não sabia se estava disposta a aguentar aquela tortura por mera curiosidade, com olhos marejados virou para a fênix, que a atendeu novamente, fazendo a briga cessar, não parou subitamente como começou, foi aos poucos, e então os dois bebês pararam.
Estevão a buscou no quarto quando pediram para reunir a tripulação, ele havia virado o marido perfeito, não havia mais discussões, nem grosserias desnecessárias, enfim ele se preocupava com ela e com o que ela tinha a dizer, bom, na maioria das vezes. Eles subiram ao convés de mãos dadas, Estela estranhou o convite, era apenas mar em todas as direções, ela definitivamente detestava o oceano, ele tirou muito coisa dela, carregou invasores para sua casa e a tirou de seu lar direto para as mãos de um maluco, que ela carinhosamente chamava de marido.
A vista melhorou quando o portal foi cruzado, dragões voavam no céu, o que arrancou um sorriso sincero dela, era como estar em Deragona, sonhava que em breve teria esse sentimento em Drakoj, quando os ovos eclodissem e mais feras aladas acompanhassem seus passeios. A experiência no porto também foi muito melhor que sua primeira, o povo era amável, gentil e muito receptivo, eles sorriam, entregavam presentes e pareciam alegres, era por isso que Auterpe achava o povo de Drakoj de triste, talvez todo mundo no outro lado fosse meio triste.
A parte mais assustadora para a rainha foi quando surgiu a mulher pela qual todo mundo se curvou, até Mandrik que era quem mais protestava em reverências, ela com certeza era uma figura de autoridade naquele país e teve certeza quando ela disse para a princesa que seria coroada, aquela estranha tinha esse poder, bem como tinha poder de coroar William como rei, mesmo que não fosse exatamente isso. A carruagem que Auterpe providenciou era confortável e ela explicava para seu futuro rei honorário o que deveria fazer durante a coroação.
—Como foi sua coroação, rei Estevão? – Auterpe estava em êxtase.
—Somos família, princesa, me chame apenas de Estevão, por favor – ele afastou a cortina para observar as construções, era tudo muito bonito. – E eu não tive coroação, o rei anterior me entregou a coroa antes de se jogar pela janela da sala do trono. – a princesa abriu a boca, quando William disse que seu irmão era um rei por conquista, ela achou que ele havia tirado o reino das mãos de um tirano e não de um suicida.
—E em seu país, Estela, como eram as coroações? – a futura rainha virou para a garota, que sorriu pela queda do tratamento de “rainha”.
—Não tínhamos reis e abominávamos monarquias – Estela sorriu delicadamente – a cada duas estações ocorria uma votação para compor o grande conselho.
—É, se tivessem um rei, não teriam sido extintos por piratas – Mandrik não conseguiu se conter, Estevão engoliu a risada, Auterpe puxou um assunto mais leve, mas Estela não abriu mais a boca para dizer qualquer coisa, se afundando no assento o máximo que conseguiu – O que foi, rata? Magoei seus sentimentos? – o conselheiro sussurrou quando desceram da carruagem.
—Não houve nada – ela respondeu num sorriso, não porque não se importava, mas porque sabia que sorrir diante das provocações de Mandrik o deixava mais irritado.
O castelo de Auterpe era belíssimo, não tão grande quanto a fortaleza, mas ninguém precisava de uma construção tão grande, eles adentraram, havia um belo jardim no meio, um grande quadrado com diversas flores e algumas árvores, os caminhos de pedra levavam em todas as direções.
—Peço que me perdoem, mas preciso organizar a coroação – Auterpe controlou os pulos de felicidade – Os espero ao anoitecer! – e sumiu pelos corredores do castelo.
Lennus foi o responsável por guiar os convidados até os quartos.
—Engraçado, Melerofonte não costuma socializar com o povo que não é de Saphiral – o garoto riu ao observar a presença da ave no ombro da rainha – Esse é o quarto, espero que vossas majestades gostem. Ficarei à disposição.
O quarto era bem decorado, com cores alegres, não exageradamente grande, mas era confortável. Estela sorriu ao entrar, gostava desse lado. Tirou a fênix de seu ombro, entendia o propósito do animal, no entanto, estava ficando chamativo e não queria isso. Eles ficaram no quarto até perto do anoitecer; Estevão terminava de vestir a roupa que foi entregue para eles, com a afirmativa de Lennus do quanto era importante usar a cor da rainha, sua camisa era branca, o colete era roxo e tinha botões dourados, a calça era do mesmo tecido do colete, penteou os cabelos meio irritado, aquela cor não o favorecia, o reflexo da esposa surgiu atrás, o vestido dela também era roxo, solto, apenas com uma fita dourada abaixo dos seios, o que marcava a barriga, as mangas eram de um tecido como renda com pequenos brilhos.
—Ficou ótimo – ela o abraçou pelas costas, passando seus braços por baixo dos dele.
—Para você é fácil falar, fica bem com qualquer coisa – Estevão virou e riu enquanto acariciava o rosto da esposa.
—Sou uma versão enorme de Auterpe – acompanhou a risada marcando a barriga com as mãos, ele a beijou, um beijo delicado, carinhoso; a porta foi aberta num rompante e um William apavorado entrou. – Que houve? Aconteceu algo? Auterpe está bem?
—O que eu fiz?! Onde estava na cabeça quando aceitei ser rei? Eu não sei ser rei! – William estava com os olhos arregalados, fechou a porta com pressa.
—William, você não vai ser rei, não propriamente dito, você vai ser um rei honorário, não vai ser nem rei consorte – Estevão sorriu para o irmão – Só precisa estar ao lado da rainha e sorrir.
—E se não for só isso?! – ele agarrou o irmão mais velho.
—Será – Estevão analisou a vestimenta do outro, era bem parecida com as suas.
—Você vai se sair bem, William – Estela sorriu para o cunhado enquanto entrelaçava seu braço no braço do marido.
—A coroação vai começar – Lennus avisou sem abrir a porta.
O trio saiu, seguindo o conselheiro até o pátio dos fundos, onde uma fogueira enorme estava acesa, havia dois tronos na frente dela, as chamas estavam altas, haviam muitas lanternas, decorações e muitos vasos com flores, além de uma mesa enorme repleta de alimentos, quem estava ali eram os habitantes da vila, cada um trazia algo e depositava na mesa. Auterpe entrou, usava um vestido longo roxo, uma capa roxa com penas douradas, ela sorriu para seus convidados, William se juntou a ela nos tronos e novamente houve a chegada da deusa.
—Auterpe, hoje você deixa de ser princesa e se torna rainha. Qual reino você escolhe para exercer tamanha responsabilidade? – a voz da mulher celestial soava claramente para todos os presentes.
—Eu escolho Ruphira – a princesa disse orgulhosa.
—Que assim seja – uma coroa brotou na cabeça de cabelos brancos, era parecida com a de Perseu, mas tinha rubis por toda a volta, uma pulseira também surgiu em seu pulso, um aro de ouro com a mesma pedra cravejada – Espero que você entenda a responsabilidade que carrega, majestade – a divindade trocou um sorriso sincero com a agora rainha – E você, meu jovem, está ciente das responsabilidades de um rei honorário?
—Sim, senhora – William não estava, mas colocou na cabeça que deveria ser a Estela de Auterpe.
—O que você escolhe: pedras ou flores? – a deusa mostrou pilha das duas coisas, Estevão pensou que fosse com ele escolheria pedras, afinal, poderiam ser preciosas.
—Flores – William respondeu, a deusa sorriu com a simplicidade, acenou e um anel se materializou no anelar do homem, era um aro de ouro com um rubi enorme em cima.
—Com vocês, a rainha Auterpe de Ruphira e o rei honorário, William – a deusa os apresentou devidamente e desapareceu.
—Estão abertas as festividades! – Auterpe anunciou e o povo virou um mar de salvas antes de todos começarem a atacar a mesa – Você foi muito bem – ela beijou a mão dele.
—Loucura pensar que meu sobrinho será rei daqui – Estevão sorriu para Mandrik enquanto abraçava a esposa – E daí qualquer aliança ficará mais fácil.
—É, aparentemente o povo é muito amável, não será difícil conquista-los – Mandrik respondeu antes de Leodak o puxar para a roda de dança. Estela se mexeu desconfortável.
—Será que Auterpe se incomoda caso eu não fique para o restante da festa? – perguntou baixinho.
—Não está se sentindo bem? – Estevão a olhou preocupado, ultimamente estava sempre preocupado com a esposa, os ataques de rainha haviam cessado, o que era ótimo para o casamento.
—Não – colocou a mão na barriga no exato momento que um bebê mexeu, o outro acompanhou, ela mordeu o lábio engolindo o grito, Estevão colocou a mão junto a dela e sorriu ao sentir os dois bebês mexendo calmamente, não era o movimento frenético que normalmente ocorria.
—Eles estão calmos – o sorriso alargou e murchou quando o primeiro chute foi sentido – Vá para o quarto, eu digo para Auterpe que você não se sentia bem – a beijou na testa suavemente, Linor, que estava sempre de prontidão perto da rainha, a levou para a cama, fazendo uma última inspeção na garota antes de a deixar dormir.
A festa da coroação durou a noite inteira, só quando o dia amanheceu que todos se recolheram, a grande fogueira havia virado cinzas, a farta mesa não passava de dezenas de pratos vazios, William estava levemente alcoolizado e um tanto nervoso, ele não queria estar a frente de um reino, queria sussurrar nas costas do governante, tal como fazia com Estevão. Ele queria poder? Claro que queria, mas a coroa traria muitas responsabilidades, responsabilidades que ele não estava disposto a ter. William era ganancioso, porém sonhava pequeno, seu ápice era ser conselheiro da cidade, assim conseguia controlar o povo e o rei, sabia que em todo reino existe alguém com esse tipo de poder e normalmente essa pessoa não usa coroas.
O palácio ficou silencioso até o almoço, Estela passeava sozinha pelo jardim interno, aproveitava o sol e o cheiro da grama, seus pés tocavam as pedras que formavam o caminho, o que aliviava a dor do inchaço, sentia que aquele dia seria desconfortável. Ela se aproximou de uma das árvores, o tronco era grosso e num marrom intenso com veias negras, entretanto as folhas eram num verde vibrante, encostou as costas na madeira e deixou o peso a puxar de encontro com a grama, fechou os olhos, era aquilo que ela precisava, de liberdade e de ficar longe do Linor, sorriu com esse último pensamento, o curandeiro fazia seu melhor e por isso era irritante, ele sempre queria a apertar, apalpar e enfiar os dedos dentro dela, como se a gravidez já não fosse desconfortável o suficiente.
Acariciou sua barriga, pensando que seu corpo estava em frangalhos porque um dos bebês era forte demais, ou mágico demais. Lembrou-se das histórias de Deragona, da mulher estrangeira que casou com um cavaleiro de dragão, teve uma gestação caótica, com dores excruciantes, além de um parto tenebroso, dizia a história que a mulher gritou por três dias e três noites e o bebê só nasceu quando ela implorou perdão ao Grande Dragão, pensando agora mais parecia um modo de assustar as jovens, reforçando que deragonianos precisam casar com deragonianos, caso não acontecesse, a mãe pagaria com dor pela transgressão. Será que seu deus estava a punindo pela traição? Afinal trair era um crime capital na ilha, se você escolhia um companheiro para passar a vida, não poderia quebrar a confiança dele; mas ela não escolheu Estevão como companheiro, mesmo que tivesse dito sim ao pedido de casamento, se bem que não havia muitas opções além de aceitar ele como seu marido.
Um dos bebês chutou, seus olhos encheram de lágrimas, era como ser esfaqueada de dentro para fora, lembrou de seu sonho, onde garras rasgavam sua barriga para que ocorresse o nascimento, não ficaria surpresa se fosse dessa maneira, pousou o dedo onde um pé estava saltado, o bebê se encolheu, o que também doeu, Estela respirou fundo fechando os olhos, será que estava fadada a viver seus últimos dias com feras dentro do ventre que quando nascessem a matariam? Sabia que podia contar com Melerofonte para não ter tanta dor, mas conhecia seu marido, mais algum comentário sobre a estranha aproximação da ave causaria discórdia.
—Estela, o que faz aí? – William apareceu, sorriu para a cunhada e se juntou a ela.
—Estava procurando silêncio – ela sorriu – Achei que estava dormindo.
—Cochilei, estou nervoso para dormir – ele olhou para a barriga da cunhada, afinal, era tudo que ela tinha, William não conseguia mensurar o desconforto que Estela sentia, mas conseguia ouvir a respiração ofegante – Eles estão calmos? – pousou a mão em cima do vestido da cunhada, os bebês não responderam ao toque.
—Um pouco – ela respirou – Também estou nervosa – sorriu – Eu tive um sonho...algo assim, nesse sonho eles nasciam como dragões saem dos ovos – o sorriso foi convertido em pânico.
—Não, eles vão nascer como crianças normais – passou o braço pelos ombros dela e a puxou para seu peito — Vai ficar tudo bem – afagou a barriga dela mais uma vez e Estela suspirou no mesmo momento que uma garota a olhou, ela tinha belos cabelos violeta e olhos castanhos que reluziam, se aproximou da dupla, a garota estava em uma das janelas que faziam vista para o jardim e com uma visão privilegiada da rainha.
—O que está olhando, Olho dos Deuses? – Lennus perguntou organizando alguns livros.
—A garota com dois reinos dentro do ventre, um rei e uma rainha que batalharão por toda a vida para ficar com a coroa. – a voz soava misteriosa, suave.
—De quem está falando? – Lennus foi até a janela e acompanhou o olhar, vendo Estela e William embaixo de uma árvore. – A rainha do outro lado não carrega dois reinos, só dois bebês.
—Ainda são dois bebês – a garota de cabelos violeta permaneceu com os olhos em Estela, ela havia visto que não seriam apenas dois bebês, mas dois reinos, dois países, dois mundos e duas dimensões.
Em Saphiral, Perseu estava reflexivo, os pesadelos com Devana continuavam, cada vez mais vivos, mais intensos e mais detalhados, seu sonho daquela noite havia sido o pior, ele encontrava ambas no jardim de porcelana, as duas Estelas se encaravam, uma olhava para a outra, a única coisa que as diferenciava era o olhar, Devana tinha um olhar de soberba, de vitória, Estela tinha um olhar assustado, como um coelho encurralado, ele estava no centro das duas, atrás de Estela havia duas crianças de mais ou menos uns três anos, ambos de cabelos brancos, atrás se Devana duas serpentes se erguiam, ficavam cada vez maiores, Perseu sacava sua espada e gritava para Estela correr, ela o obedecia, Perseu e Devana lutavam e quando o corpo da rainha das esmeraldas jazia no chão, o rei das safiras ia ao encontro da outra rainha, mas quando a encontrava, tudo que tinha era os pedaços dos filhos nas mãos. Ele acordava nesse ponto, seu coração doía no peito, a respiração era ácida.
Será que o sonho era um aviso? Será que queria dizer que os dois bebês eram mesmo de Estevão? Não, Devana não iria atacar filhos de um normal, não teria sentido.
A brisa bateu em seus cabelos, em breve Auterpe daria notícias, seria bom, aliviaria parte de suas preocupações; ele virou quando a porta foi aberta, a ferida em sua costela ardeu.
—Majestade – o rapaz fez uma breve reverência – O senhor tem visitas – ele parecia assustado em dizer aquilo, Perseu o seguiu de forma quase desorientada sem dizer nada.
Na sala do trono havia um homem alto, usava uma capa longa e negra como uma noite sem lua, os cabelos eram feitos da mais pura escuridão, a mão que segurava o cajado que terminava num garfo de duas pontas era branca como papel e pálida.
—Ora, ora, meu rei – a voz era grossa, assustadora, o homem virou e uma névoa acompanhou o movimento, ele reconheceu o rosto assustador.
—Deus Hades – Perseu se curvou o melhor que pode pensando no que havia feito para o deus do submundo entrar em seu castelo, seu reino nem tinha uma vila para ele – A que devo a honra?
—Eu conheci alguém, me lembrou sua irmã – a névoa seguia o homem enquanto ele falava – Mas não era Auterpe, era uma garota com os mesmos cabelos brancos, mas os olhos eram verdes, muito bonita...
—Estela? – a interrupção saiu num sussurro.
—Oh, esse é nome? Bonito, dócil, combina com ela – um sorriso brotou nos lábios do deus – Ela passou por maus bocados ultimamente, tanto que parou nos campos Elíseos. Bati um papo com ela, a pobre tem muito amor pela terra dela – Hades caminhou para perto do rei, girou ao redor dele – Você sabe o que fez, Perseu?
—O que? – Perseu sentiu os dedos frios dele tocar sua pele.
—Os bebês estão tentando se matar – a informação fez sua respiração parar – E vão acabar matando ela com ritmo que estão crescendo – a capa roçou os sapatos do rei – Já a salvei uma vez, a trazer de volta será contra as regras. – Perseu sabia que não poderiam ressuscitar Estela uma segunda vez, mas gostaria de entender como ela havia parado nos Campos Elíseos.
—Como vossa divindade se apresentou para ela? – Hades sorriu com o medo do garoto.
—Ela me chamou de Nandor – o sorriso se manteve – Mas sei que está curioso para saber o porquê ela acabou no submundo – Perseu assentiu nervoso – Os bebês a machucaram internamente, um é muito mais mágico que o outro, você imagina por quê?
—Por que é meu? – isso também saiu como um sussurro.
—Você é muito esperto, garoto – a mão fria apertou seu ombro, o que doeu – É, um dos bebês é seu. – Hades caminhou em direção ao trono, o cajado batendo no chão – Enfim, achei que seria do seu interesse saber do meu encontro com sua garota. – Perseu quase sorriu com isso, gostaria que Estela fosse sua garota.
—Sou muito grato pelo que fez por ela – Perseu se curvou novamente.
—Você fica em dívida comigo – Hades parou em frente ao trono – Mas foi a única chance, cuide para que não precise tirá-la dos Campos Elíseos novamente – isso soava como uma ameaça, era um tom diferente. – Nos vemos, rei Perseu – a névoa se tornou negra e logo virou uma coluna de fumaça que quando dispersou levou tudo, incluindo o deus do submundo.
Perseu sentiu uma pontada de culpa, Estela havia passado por isso e era culpa sua.
Em Ruphira, Auterpe levava seus convidados para um passeio até os dragões, estava contente de estar de volta em casa, seu lar era tudo para ela e em breve, seria tudo para seu bebê. Eles chegaram até um monte, onde três das bestas repousavam, os dois azuis e um roxo, um dos azuis levantou a cabeça quando a comitiva se aproximou, Auterpe foi até o dragão roxo e dedilhou seu focinho, fazendo um gesto para Estela se aproximar do dragão azul, ela o fez, tocando o pescoço da fera de forma calma.
—Ele gostou de você – Auterpe sorriu – Podemos todos voar, o que acham? – William não pareceu tão ansioso quanto Estevão, que sorriu largamente.
—Acho uma ótima ideia – Estevão sorriu, William se encolheu.
—O que foi? Não gostaria de me acompanhar? – Auterpe sorriu para ele – Está com medo? – William corou quando todos olharam para ele.
—Vamos – engoliu o medo e montou no dragão com Auterpe; Estevão se aproximou de Estela, que ainda acariciava a fera, essa baixou o pescoço para que montassem, o rei de Calasir engoliu em seco, nunca havia feito isso nos dragões que mantinha em seu reino, nunca o permitiam se aproximar.
Os dois dragões subiram em espiral, Estevão olhava para baixo a cada metro, era incrível, imaginava aquela visão em uma batalha, era vitória na certa, conseguira ver e atingir seus inimigos com o mínimo de aliados feridos; ele entrelaçou as mãos na barriga da esposa, que gemeu.
—Está bem? – Estevão sorriu beijando o ombro da esposa.
—Estou, está desconfortável voar com a barriga desse tamanho – ela sorriu – Vou te mostrar algo – o sorriso aumentou quando o dragão começou subir até que furou a nuvem, a visão era linda, parecia um mar de algodão, Estevão suspirou encantado – É lindo.
—É sim – ele beijou o pescoço dela e afagou a barriga – Será a visão costumeira que nossos filhos terão – ela assentiu sorrindo, tudo melhoraria quando os bebês nascessem.
Quando o voo terminou, todos estavam em êxtase, Estela ficou para trás, caminhando mais devagar, com a mão pousada sobre a barriga, deixava o vento envolver seu corpo, a brisa levar suas dores, ela apenas queria paz.
Faltavam algumas horas para o sol nascer quando Auterpe acordou com dor, era uma dor diferente, irradiava de suas costas em direção à sua barriga, essa ficou dura por uns instantes, ela sabia o que significava, seu herdeiro iria nascer...
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