Perseu estava deitado em seu leito, o curandeiro cuidava das feridas enquanto os olhos do rei olhavam para o teto e ao mesmo tempo para lugar nenhum. Ele enxergava Estela, não a que ele deixou em Calasir, mas a que matou em Esmerel, suas memórias se misturavam, cenas com Estela na praia tinham sobreposição das cenas com Devana no jardim. Por noites depois do retorno à Saphiral, ele sonhou com aquilo.

Seus sonhos começavam quase sempre da mesma maneira, era noite, uma bela lua brilhava no céu estrelado, sob a luz da lua uma figura caminhava, o vestido verde balançava suavemente acompanhando os passos, ele se aproximava, a garota de cabelos brancos virava e sorria, se entregando em seus braços como nenhuma refém faria, eles se beijavam, tropeçavam na barra do vestido, eram cobertos por uma nuvem de areia, se encaravam, riam, se beijavam novamente, as mãos dela contornavam seu rosto e ela sorria, um sorriso doce e gentil, ele se afundava em seu pescoço, beijava a região e quando retornava a encontrava com o pescoço quebrado, a boca arroxeada e sem aberta, os olhos encarando eternamente a escuridão. Era quando ele gritava. Os gritos eram ouvidos por todo o castelo, pelo menos até ele perceber que era mais um sonho e despencar em seu colchão.

—Já podemos mandar a carta para a rainha Auterpe? – o curandeiro perguntou cobrindo a última ferida.

—Sim, sim – Perseu voltou sua atenção para o homem que o cuidava – Diga que Pardox está segura para seu retorno, mas ressalte que o ideal é ir para Ruphira primeiro.

—Claro, majestade – o homem se retirou, Perseu deu falta de Merope, ela muito bem podia estar cuidando das feridas dele, provavelmente estava ocupada erguendo as proteções do reino.

Ele levantou, caminhou até a janela, o mar se estendia como um lençol azul, estava calmo, sem ondas significativas, a brisa varria o jardins do castelo de maneira delicada, seu corte na costela ardia, o que levava ele de volta para Esmerel e para a personificação de Estela, pensou no quanto ela ficou bonita arrumando a coroa na cabeça de forma tão destemida, queria que fosse verdade, queria que a Estela de verdade fosse destemida e não dócil, queria que ela montasse em seus dragões e descoroasse seu marido, tomasse o poder de Calasir e fizesse sobre suas leis, mas ele sabia que não era assim, jamais seria, havia ouvido William comentar com Auterpe que o país de Estela não tinha rei, nem acreditava em monarquia, o que era meio irônico, ela era rainha, será que havia mudado de ideia quanto a monarquia? Deu mais dois passos pelo quarto, outra coisa ocupou sua mente, ouvia a voz de Devana, que na luta era a voz de Estela, dizer que ele havia a abandonado grávida, não era verdade, queria acreditar que não, mesmo que seu coração dissesse que sim, algo dizia que o bebê de Estela era sua herdeira prometida, se era, ele realmente a deixou nas mãos daquele crápula que se diria pai.

Perseu precisava analisar as possibilidades.

A população de Drakoj estava apreciando o show que os dragões da rainha faziam no céu, Jaspe e Sinler brincavam no ar, o dragão maior estava devidamente selado e com sua cavaleira nas costas, as feras sabiam que não podiam fazer o que faziam antes, quando a gravidez não existia, eles sabiam que precisavam ter cuidado. Estela ria com as piruetas de Sinler, a dragão prateada voava ao redor deles em espiral.

—Majestade, julgo que seja perigoso a rainha voar grávida – Linor disse para o rei, que apreciava seus dragões, todos os cinco, incluindo os dois na barriga da esposa.

—Você está ouvindo? – Estevão ergueu o dedo, o curandeiro olhou confuso – Isso é o som do silêncio, é melhor ela voar do que ficar aos berros dentro do quarto.

—Certo, majestade – Linor acenou antes de se retirar.

Estevão estava orgulhoso, Estela estava se saindo bem, mesmo que as vezes acordasse gritando no meio da noite com os movimentos dos bebês, em alguns dias ele até presenciava o que a esposa chamava de luta, realmente parecia, era assustador ver a força com a qual eles se mexiam e se altura que Estela gritava quando os movimentos eram bruscos. O rei ainda estava remoendo a culpa de trair Estela, jamais poderia contar, jamais poderia cair nos ouvidos errados, sua rainha era perfeita, mais do que ele merecia, muito mais, ela era a mãe de seus filhos, era o futuro do reino e aquele tipo de coisa jamais poderia se repetir.

Jaspe retornou ao covil, Estela desceu dele num pulo, esquecendo por um momento que estava grávida, desafivelou a sela e entregou para um soldado, Sinler a tocou delicadamente com o focinho na barriga, a rainha sorriu e acariciou a fera, que começou a empurrar o corpo da cavaleira com suavidade para dentro do covil.

—O que você quer, Sinler? – Estela perguntou dando caminho para a dragão, que seguiu caminhando até o final, depois dali apenas humanos passavam, o corredor era pequeno demais. Sinler soltou um grunhido – O que houve? – a rainha se aproximou, mantinha uma mão sobre a cabeça da criatura, ali estava um grande ninho, com galhos enormes de árvores imensas, no centro havia três ovos de dragão, Jaspe lançou chamas para cima, não parecia um alerta ou algo assim, era mais uma comemoração, com a luz das chamas Estela viu os três ovos, um era azul, um tom bem vivo, o maior era vermelho bem escuro e o último era cinza – Você também será mamãe – Estela abraçou Sinler, que se esfregou nela, tocando mais uma vez o focinho na barriga da humana – Serão cavaleiros e montarão os dragões que nascerão dos ovos.

Estela voltou pelo bosque, estava cabisbaixa aquela altura, pensando o quanto ela evitava acariciar o ventre, não queria despertar os bebês porque não queria que eles se mexessem, o que a fazia se sentir mal e levemente com inveja, Auterpe adorava sentir seu filho se mexendo, até a flagrou brincando com a barriga vez ou outra, já ela chorava só de pensar que as crianças se mexeriam. A rainha entrou no castelo, sendo recepcionada por Kaila logo na entrada, ela havia conseguido dispensar a criada de a acompanhar até o covil.

—Majestade, precisa de algo? – a menina perguntou examinando a outra.

—Não, agora não – Estela não conseguia esconder a felicidade – Vou falar com meu marido, sabe onde ele está?

—Na sala do conselho, majestade – Kaila olhava cada detalhe em busca de algum gota de sangue, algo que tivesse colocado a rainha e os bebês em risco – A senhora não precisa de nada?

—Não, obrigada, Kaila – ela sorriu uma última vez antes de sumir no corredor em direção à escadaria privativa da cozinha, ela subiu os degraus rapidamente, tanto quanto caminhou até a sala do pequeno conselho, para evitar confusões deu três batidas na porta, ouve uma afirmativa de dentro.

—Querida, o que faz aqui? – Estevão a analisou, havia um sorriso feliz no rosto dela, coisa que Mandrik também percebeu.

—Preciso te contar algo – ela se aproximou e o beijou suavemente – Sinler teve três ovos e são lindos!

—Mais dragões? – Mandrik a encarou.

—Sim, dragões para os bebês – ela levou a mão ao ventre, recebendo um chute, ao qual ela engoliu a dor.

—Isso é ótimo, querida – Estevão beijou a esposa, acariciando seus cabelos com suavidade – Agora descanse, tudo bem? – deu um beijo em sua testa e a levou até a porta, Estela o obedeceu – Ouviu isso? Teremos mais dragões!

—Sim, vou precisar ver como iremos providenciar a alimentação – Mandrik apertou a glabela, os dragões consumiam um ovelha por dia no tamanho que estavam, quantas mais seriam necessárias para mais dragões?

—Podemos separar parte da península para criar ovelhas – Estevão olhou para baixo, havia uma porção de terra não utilizada, seria um ótimo lugar para ter um rebanho.

—Claro, podemos – Mandrik analisou onde Estevão apontou, precisaria fazer uma cerca, organizar pastores, mas não era impossível. Ouviram gritos do quarto do rei e da rainha.

—Começou – Estevão bufou.

Estela havia ido para o quarto, estava contente, estava sendo um dia excepcional, assim que ela entrou na antessala e abriu as janelas, algo fez acordar o outro bebê e a luta começara, sentia cada movimento de ambos, eram como facas flamejantes, como imaginou que garras de dragão seriam. Ela segurou no parapeito, tentando conter o grito, mas tinha certeza que iria morrer a qualquer mínimo movimento, se arrastou até a porta, segurando cada móvel que conseguia, antes que pudesse abrir e acessar o corredor, foi abraçada por Estevão, ele beijou sua testa e a empurrou para dentro.

—Vai ficar tudo bem – foi a última coisa que ouviu antes de mergulhar num poço escuro de seu subconsciente.

Ela caia, se afastando da luz que vinha de cima, estendia os braços tentando se agarrar no invisível, fechou os olhos e o baque em suas costas a fez abri-los, era dia, o céu estava azul, não tinha nuvens, apenas a luz iluminando toda a praia de areias brancas, o mar estava calmo, pequenas marolas quebravam perto de seus pés, olhou para baixo, não usava sua roupa de montaria, usava um vestido fresco, um pouco abaixo do joelho, não estava grávida, tocou sua barriga, era estranho, há instantes estava gritando de dor porque seus filhos lutavam dentro de seu ventre. Girou em seu próprio eixo, a praia era conhecida, passara sua infância ali, ela sorriu, era um sorriso de saudade, tinha saudade de casa, do seu povo, sabia que não sofreria caso a gestação fosse dentro das fronteiras da ilha, afinal, seriam filhos puramente deragonianos e nada passara de desconforto; uma figura surgiu, usava uma longa túnica e cabelos brancos trançados, era mestre Nandor, um dos conselheiros que formavam a liderança de Deragona, o único que votou a favor do ataque com fogo contra os karênes.

—Mestre – ela o reverenciou.

—Estela – o homem era mediano, cabelos longos trançados, olhos verdes quase esmeraldas, a única era cor creme, com a cabeça de um dragão bordado no peito e um cordão verde na cintura.

—Onde estou? Deragona não existe mais – Nandor começou andar e ela o acompanhou.

—Deragona existe e sempre existirá enquanto um filho dela respirar – a garota o olhava confusa – Todos acharam que os dragões de Deragona haviam sucumbido para o veneno e para a fome, mas você os salvou e eles colocaram ovos, que gerarão mais dragões – as pegadas dela ficavam marcadas na areia, ao contrário das pegadas dele – E você, minha querida, gerará filhos do Grande Dragão, crianças que carregarão nosso sangue, que também terão filhos que carregarão nosso sangue e nossa história. Deragona existirá para sempre assim.

—Os filhos que carrego... – levou a mão e se deparou com o ventre vazio.

—Ambos carregam nossa magia, mas só um montará dragões, o outro está destinado a coisas que não podemos imaginar – Nandor sorriu – Você entenderá – um buraco se abriu em seus pés e ela caiu.

Mais escuro.

Novamente em uma praia, mas agora era noite, um lua avermelhada brilhava no céu, as estrelas salpicavam o grande lençol azul escuro, ela caminhou na solidão, haviam lavandas por perto e...um dragão. Estela sabia em que praia estava, era a praia das lavandas, estava de novo na noite que passou com Perseu, caminhou ligeiramente mais rápido e então encontrou a cena que esperava, ela conseguia se ver, observou a delicadeza com a qual ele a tocava, o cuidado com o qual tirou o vestido e o jeito irônico que as coroas ficaram lado a lado na areia.

Quando beijou aconteceu, ela foi sugada para o escuro.

Caiu em seu quarto, viu Estevão sentado na cama bebendo, ele parecia irritado, nervoso, o marido bebeu um longo gole e bateu em sua cabeça.

—Por que eu tenho que a desejar com tanta brutalidade?! Por que me descontrolo perto dela?! – o rei engoliu o grito -Eu não sou assim! – mais um gole entrou pela garganta antes da porta ser aberta, ela sabia o que iria acontecer, Linor a colocou para dentro e fechou o quarto. A noite foi revivida

Outra vez caindo na escuridão.

Estava no corredor, onde aconteceu a breve discussão sobre a paternidade. Estela lembrou do quanto se sentiu péssima com a afirmativa dele, Perseu duvidou de qualquer capacidade dela em sentir algo.

Por sorte a visão não durou muito e ela caiu.

Seu destino foi um quarto desconhecido, havia uma cama, duas poltronas, um belo lustre, as paredes eram azul petróleo com mosaicos na cor rosa, no teto uma coruja dourada prestava guarda, em uma das paredes havia um escudo e uma espada e na outra uma janela enorme com vista para o mar, onde um conhecido rei de cabelos brancos e olhos azuis olhava para o horizonte. Perseu parecia concentrado.

—E se for minha filha? – ele murmurou olhando para baixo – E se for?! – virou sua atenção para o céu – Eu sou um fraco! – e tal como Estevão, Perseu jogou uma cerâmica no chão.

Com o estouro ela mergulhou na escuridão mais uma vez.

Algo a espetou, a arranhou, parecia rasgar, a claridade não chegava nunca, não havia fim naquele túnel escuro, se acreditasse nos deuses de Calasir, poderia dizer que cairia nos braços de Gamora, mas não acreditava neles, então eles não a salvariam, tateou seu ventre, sentia garras saindo de dentro, como dragões quebrando os ovos, não podia fazer nada, seus gritos naquele túnel eram mudos, não tinha luz para enxergar o que estava acontecendo, apenas sentia queimar, doer e estraçalhar.

Estevão se viu apavorado ao ter em seus braços sua esposa desfalecida, Estela estava pálida, os lábios roxos, será que Linor tinha razão e voar não era uma boa ideia? Não, isso era outra coisa, algo que eles não compreendiam. A levou para cama, depositando seu frágil corpo sobre o colchão macio, correu até a corda que tocava o sino de Linor e outra que chamava as damas de quarto; todos responderam ao chamado o mais rápido possível, o curandeiro chegou primeiro, um tanto aflito.

—O que houve com a rainha? – perguntou se aproximando, a pele do ventre estava sendo movimento violentamente do lado de dentro, era possível ver os bebês se mexendo perfeitamente, eram fortes para a idade, assim como eram grandes.

—Ela começou gritar e eu vim ao encontro, normalmente alivia, só que assim que a toquei, ela desmaiou – um medo tomou conta de Estevão, e se Estela morresse? Os bebês eram muito pequenos para serem removidos de dentro dela, não sobreviveriam fora do corpo da mãe. O rei sentiu medo, um medo genuíno, perder Estela significava perder tudo pelo que vinha lutando.

—Tudo bem – respirou aliviado — Sua majestade está viva e os bebês também... olhe como se mexem – Linor estava ficando espantado com aquilo, seu corpo se encolhia em pensar no desconforto que aqueles movimentos causavam, engoliu em seco – Eu não sei o que fazer, rei – confessou – Não tem como fazer eles pararem – Estevão segurou a mão da esposa, estava suada e gelada.

—O que aconteceu com a rainha? – Liandra perguntou ao entrar, tampando a boca com as mãos logo que viu a cena, estava espantada – Pela piedade da Mãe, isso é normal, Linor?

—Eu não sei! – o curandeiro estava suando de nervoso, precisava dar um jeito da rainha acordar e dos bebês diminuírem os movimentos. Estela respirou fundo e sentou subitamente, Estevão assustou-se ao ver o movimento, ela olhou para Linor com os olhos fixos. – Majestade?

—Eu vou morrer – foi tudo que ela formulou antes de sangue subir por sua garganta, o gosto metálico invadir seu paladar e uma fina cachoeira descer por seus lábios manchando-os.

—Pelos infernos, o que é isso?! – Estevão gritou para Linor, iria realmente ficar viúvo?!

O curandeiro fez o melhor que pode, colocou uma bacia de porcelana para que o sangue não chegasse aos lençóis, enquanto Kaila e Liandra engoliram o pavor e foram fazer o que faziam nas crises de dor, colocaram água aquecer na lareira rapidamente, Estevão estava perdido, não sabia o que era ideal fazer naquela ocasião, devia segurar os cabelos brancos? Afagar as costas? Ou era melhor tocar o ventre? Ele estava congelado.

—Estela está com problemas – Auterpe sussurrou para William, que beijou a testa dela.

— Como sabe? – perguntou confuso.

—Os bebês são muito fortes. Um deles ela não foi feita para gestar – Auterpe olhava para a parte em sua frente enquanto segurava sua barriga, onde seu filho mexia delicadamente.

—O que quer dizer? – William a encarou – São metade deragoniano, é, literalmente, o que ela foi feita para gestar.

—Um dos bebês sim, o outro não. Eles não se aceitam e por isso lutam – a princesa parecia hipnotizada – Lutarão até nascer ou se matarão no ventre – William arregalou os olhos, sua princesa não falava coisa com coisa.

—Primeiro, os dois são metade deragonianos – alisou uma mecha do cabelo branco – Segundo, bebês não se matam no ventre – ele deixou escapar uma risada nervosa, Auterpe sabia que sim, conhecia sua raça, um bebê não reconhecia o outro como igual, por isso se atacavam com ferocidade, o suficiente para ferir os órgãos de Estela e a fazer cuspir sangue, bebês normais não teriam tanta força, mas nenhum deles era normal.

Quando a água quente a cobriu, Estela fechou os olhos, Estevão pensou que era outro desmaio e se agarrou na mão dela com força, a levando para os lábios e depositando beijos nervosos, os bebês se acalmaram, Estevão conseguiu ver os movimentos diminuindo até parar; ela o olhou, os lábios manchados de sangue e os olhos marejados.

—Eles precisam nascer – murmurou cansada, abriu a mão e acariciou o rosto do marido, que a olhava preocupado – Eles vão me matar.

—Não, querida, você é forte, não vai acontecer nada – afagou os cabelos dela – Precisa aguentar só mais umas luas, vai ver que depois de nascerem, nem se lembrará dessas dores – ele repetia o que cresceu ouvindo as mulheres falar – Só mais umas luas – Estevão sorriu, sua esposa tinha dois dragões e era fraca como uma cerâmica, conseguia ver os “rachados” nela, o medo que a consumia, o pânico em seus belos olhos, os hematomas espelhados pela barriga, todos recebidos enquanto os bebês se mexiam.

Estela duvidou que as coisas ficariam bem enquanto carregasse dois bebês de dois homens diferentes.

Três dias se passariam na melhor maneira possível, eles estavam comendo do desjejum, Estela também estava à mesa, diferente de Auterpe que atacava bolinhos e biscoitos, a rainha tomava apenas um chá, seu estômago estava extremamente sensível. A princesa de Saphiral viu um brilho vindo do corredor, algo conhecido, todos pararam para observar o que é, afinal, havia sido o único momento que ela levantou a cabeça durante a refeição, estava concentrada demais se alimentando. Era Melerofonte, a fênix de seu irmão, o animal vinha graciosamente pelo corredor, seu voo era mágico e arrancou suspiros de todos, um dos bebês de Estela se mexeu delicamente.

—O que você veio fazer tão longe? – Auterpe perguntou, o pássaro a sobrevoou, largando um pergaminho na sua frente, ela o pegou com urgência, não sem antes admirar que a Fênix pousou no ombro de Estela, que a olhava fascinada.

Auterpe abriu a carta e se pôs a ler, o que estava escrito a deixou ansiosa.

“A invasão dos Rubis Negros teve danos e algumas percas, mas a coroa delas caiu. Não houve mortes ou feridos circunstanciais. Entretanto não gostamos de sua prole. E o duelo real foi sangrento e sujo.

Seguimos para as Esmeraldas, e além de tudo lá ser bonito, existe a maldição de Porcelana, mesmo que a coroa caiu, foi o duelo mais limpo que houve em toda Pardóx, nessa Geração. Entretanto, com ferimentos é seguro avisar que Ruphira está intacta, Pardóx está livre para o retorno da Princesa e Saphiral está se reerguendo como uma fênix

Aguardamos sua vinda à Ruphira, não recomendamos o retorno à Saphiral ainda, pois o Rei precisa se recuperar.

Venham sem medo pelo Portal, nada irá feri-la. Um Mensageiro será mandado quando a visita da Rainha de Ruphira poderá ser realizada.

O Rei manda uma calorosa energia e espera seu retorno com alegria e festa que merece.

—Heratho de Thoyle. Guardião das Safiras

Obs. Os Anfitriões serão bem vindos em Saphiral, se forem bem vindos em Ruphira."

Seu coração bateu forte no peito, ela poderia voltar para casa, finalmente sair de Calasir e voltar para seu reino!

—O que é? – Estevão perguntou.

—É um convite – ela sorriu – Posso retornar para Ruphira, sendo assim, posso levar vocês, se for desejo de todos, claro.

—Fico feliz – Estevão sorrindo – Partimos o mais depressa possível.