Among Other Kingdoms - Segunda Temporada
8 Capítulo VIII
—Senhores – Lennus havia retornado, tinha um semblante sério – O guardião de Saphira está aqui para levá-los ao rei Perseu – disse e saiu sem reverências, foi outro criado que apontou o lugar onde o guardião estaria.
—Vamos, rei de dois dias, vamos embora – Mandrik tomou a frente da caminhada, William olhou para a Estevão, que deu de ombros.
Estela veio pelo corredor pensando nas palavras de Auterpe, acreditava que Perseu cuidaria do bebê com a própria vida, mas se ele tivesse aceitado que o bebê era seu, o que ele não fez. Respirou fundo, estava com dor, sempre estava dolorida.
—Está bem? – Lennus virou para ela no meio do caminho, Estela assentiu, no entanto diminuiu o passo. – Devo comunicar que a falta de festejos é porque a rainha está sem seu herdeiro, não seria adequado.
—Compreensível – Estela sentiu algo subir sua garganta, estava estranha.
O portal foi aberto na entrada do castelo, a imagem do outro lado era também castelo com rei de cabelos brancos na frente; Perseu parecia cansado, tinha olheiras enormes, como quem não dormia bem há dias, seus cabelos estavam bagunçados embaixo da coroa. Ela entrelaçou seus dedos nos dedos de Estevão.
—E agora? – Leodak perguntou ficando atrás de Mandrik.
—É só atravessar, rápido, fácil, sem incômodo – o guardião atravessou primeiro, sendo prontamente seguido por William, que olhou para Ruphira uma última vez, jamais esqueceria daquele povo e de tudo que viveu ao lado da rainha deles, Auterpe havia sido a primeira mulher que se encaixava nos padrões de amor da vida dele, além disso, ela havia dado o bem mais precioso...E ao mesmo tempo arrancado seu bebê de seus braços para entregar para sabe-se lá quem.
No outro lado do portal Perseu os recepcionou com um sorriso, o melhor que pode, ver Estela aliviou suas dores, como a brisa de verão alivia o calor, percebeu o quanto ela estava linda grávida, mesmo que fragilizada, seu corpo parecia fazer um esforço enorme para prover vida aos bebês dentro do ventre, no entanto ela estava impecável, os cabelos perfeitamente penteados, a coroa firme em sua cabeça.
—É um prazer recebe-los aqui – Perseu apertou a mão de Estevão firmemente, Estela observou a mulher atrás do rei, era muito bonita, tinha os cabelos prateados, belos olhos cinza escuros e usava um vestido em rosa, azul e branco, estava descalça, não usava coroa, será que seria alguma pretendente? Uma princesa? Algo desse gênero? Não, Perseu teria levado a futura rainha quando foi à Calasir, ou talvez ela surgiu nas luas que os separaram. Elas trocaram um sorriso.
—Agradeço por nos receber – Estevão sorria como o bom diplomata que era.
—William? – o rei das safiras estranhou a presença do homem – Achei que ficaria em Ruphira...
—Não – cortou o rei – Gostaria de não falar sobre isso, por favor – William engolia seu choro de raiva, será que esse maluco também entregaria o filho para quem fosse pedir?
—Claro – Perseu assentiu – Vamos entrar – ele guiou para dentro, Estevão percebeu porque o rei havia ficado impressionado com seu castelo, o dele era bem simples, não havia tantos enfeites, nem pinturas enormes de suas conquistas, se bem que não conseguia imaginar que o garoto tivesse muitas delas – Vou deixar vocês se acomodarem, nos encontramos para o almoço – o rei de cabelos brancos sorriu para os convidados antes de os entregar para Navi, foi o conselheiro que os levou para cada aposento.
Novamente o quarto não era tão grande quanto o da fortaleza, mas Estela acreditava piamente que ninguém precisava de um quarto do tamanho de um casa, Estevão achava aposentos simples para um castelo. Mandrik e Leodak foram os últimos a entrar nos quartos, puxando o conselheiro aos beijos.
—Sentimos saudades – Mandrik disse alisando os cabelos do conselheiro de Perseu.
—Também senti – Navi sorriu, Leodak o beijou fervorosamente – Não podemos ser muito explícitos aqui – afastou o garoto – Minha família não irá gostar, você já é comprometido – colocou a mão no peito de Mandrik – Mas venho os visitar – sorriram um para o outro antes dele sair.
Estela se vestia para o almoço, arrumando a franja com delicadeza, a coroa estava bem centralizada no topo da cabeça, assim como o colar no pescoço, Estevão sorriu para o reflexo da esposa, que retribuiu, ela ficou de pé, caminhou até o marido e o beijou, afagando seus cabelos com carinho, ele olhou para os pés dela, estavam descalços.
—E seus sapatos? – ele virou para procurar o par.
—Posso ficar descalça? Meus pés estão doendo – ela sorriu vacilante, Estevão a beijou mais uma vez – Acho que o Rei Perseu não iria se incomodar, a garota que estava com ele não usava sapatos.
—Você não é a garota que estava com ele – Estevão a respondeu – Você é minha rainha – contornou seu rosto com a ponta do dedo.
—Por favor – ela arfou colocando a mão na barriga.
—Claro, meu bem, Perseu entenderá – arrumou o pingente dela, houveram batidas na porta. – Entre – quem abriu foi Navi.
—O rei chama para o almoço – manteve a porta aberta, Estevão entrelaçou o braço na esposa e seguiu para fora, encontrando com Mandrik e Leodak, mas nada de William.
—Cadê o rei mais rápido da história? – Mandrik olhou ao redor.
—Senhor William não estava disposto – Navi respondeu, Estevão sabia que não era isso, seu irmão estava magoado, irritado e triste pelo filho.
Perseu se arrumava em uma sala, tentava alisar o colete o máximo que conseguia, estava nervoso, sua mão estava suada, ele ofegava, ver Estela daquele jeito partiu seu coração, ela parecia que iria quebrar a qualquer momento.
—O que meu rei tem? É um almoço – Merope o analisou, não costumava o ver tão nervoso, nem tremendo.
—Você acha que a rainha está bem? – ela arqueou a sobrancelha.
—A garota? – apontou para a sala de jantar – Meio fraca, mas viva – deu de ombros, não adiantava querer falar sobre isso com a feiticeira, não agora.
—Esquece, vamos – Perseu soltou os ombros sentindo uma pontada no estômago, se Estevão não existisse, se Estela morasse em Saphiral tudo seria perfeito, ele poderia cuidar dos bebês, cuidar dela, fazer uma festa aos deuses quando os bebês nascessem e a deixar totalmente confortável.
A sala de jantar era grande, havia um lustre e grandes janelas com vista para o mar, a mesa era longa num azul escuro, as cadeiras eram altas e pretas, cada um tomou um lugar à mesa, Estela olhou para os pratos, eram brancos com bordas negras, elegantes, as taças eram cristalinas, belíssimas. Perseu entrou, engolindo a tremedeira, Estela estava de mãos dadas com Estevão, ele tomou a cabeceira da mesa e a comida foi servida.
Antes do segundo prato, algo atingiu as costas da rainha, uma dor lancinante, que queimava, pior do que as que já havia sentido, e já tinha sentido várias, fechou os olhos e respirou fundo, os homens estavam muito absorvidos na conversa para prestarem atenção em outra coisa; outra dor a engoliu, dessa vez no baixo ventre, o impacto a fez levantar, derrubando a cadeira no chão, a sala entrou num silêncio sepulcral, todos os olhos viraram para a rainha, suas bochechas estavam vermelhas, seus olhos cerrados, assim como seus dentes.
—Estela? – Estevão ficou de pé ao lado dela, tentando fazer ela levantar a cabeça – Está bem? – assentiu.
—Preciso subir, peço desculpas – acenou para Perseu, que se continha para não a tomar em seus braços e ele próprio a socorrer.
Estevão a ajudou chegar até a escadaria, para onde ela olhou como se fosse um campo de tortura, ele a pegou no colo, ajeitando o melhor que pode, era muito mais fácil quando não havia dois bebês dentro dela; o rei de Calasir deixou a esposa no quarto antes de bater na porta de Linor com fúria, precisava dia serviços do garoto o mais rápido possível, o que estava em risco era o futuro de seu reino, não só os príncipes, mas sua rainha.
—Majestade? Aconteceu alguma coisa? – o curandeiro sorriu ao abrir a porta
—Estela não está bem – o rei parecia apavorado, não era como os outros ataques de dor, ele sentia que era algo diferente – Acho que meus filhos querem nascer – tinha algo nos olhos de Estevão, uma súplica, um pânico.
Estela ficou no quarto sozinha, segurando nos móveis para conseguir caminhar, gritou com outra onda de dor, essa a abraçou por completo, a deixando com a visão turva, sua mão segurou a parede em falso, mas alguém a segurou quando foi cair, era um toque delicado, conhecido, a pessoa a guiou até o sofá, ela encostou as costas com cuidado, uma dor veio de cima e foi avassaladora, a fez se contorcer e gemer.
—Tudo bem, eu estou com você – a voz que sussurrou era de Perseu, ele segurava a mão da rainha – Hera vai te dar um bom parto.
—Está muito cedo – disse entredentes.
—Não, está tudo certo – ele beijou a mão dela, notando o belo anel em seu dedo, engoliu em seco, Estevão apareceu na porta, estava completamente em pânico, um nervosismo tateável – Desculpe pela invasão, ela ia cair – explicou meio por cima.
—Tudo bem, obrigado, rei Perseu – Estevão assentiu, Perseu deu uma última olhada para Estela antes de sair, queria ficar, ser ele a colocar panos quentes em suas costas e qualquer outra coisa que fosse necessário – Linor está aqui, querida – ele tomou o lugar de Perseu – Vai ficar tudo bem – beijou a mesma mão que o outro havia beijado, bem perto do anel de casamento.
—Farei uma poção, majestade, vai retardar o trabalho de parto – o curandeiro começou misturar as ervas que trazia. – Os bebês não podem nascer agora.
William estava em seu quarto, chorava, suas lágrimas eram uma mistura de tristeza e raiva, queria ficar em Ruphira, queria seu bebê, sua rainha e sua felicidade, tudo foi tirado tão abruptamente dele, acordou pensando que poderia conquistar o mundo, mas seu mundo foi arrancado de suas mãos, Orion era seu motivo de alegria, a alegria pura e sincera, a única que sentira por toda a vida, sempre sentiu-se feliz em torturar, matar, estripar e seja lá o que fizesse, havia sido a primeira vez que se sentiu feliz beijando cabelos ralos e sentindo cheiro de leite.
Ele ouviu um grito, era sua cunhada, franziu o cenho pensando que ela deveria estar no almoço, titubeou, outro grito o fez levantar e correr ao quarto deles, batendo na porta de forma quase frenética, Estevão abriu a porta, sua expressão era de preocupação pura.
—O que está acontecendo? – William perguntou, o irmão deu espaço para o outro entrar.
—Os bebês querem nascer – balbuciou e fechou a porta, um grito longo e agudo veio da sala de banho, William se aproximou da porta e espiou, Estela estava imersa em uma água que fumegava, agarrada na borda da banheira como se aquilo fosse salvar sua vida, Linor estava ao lado dela, guardava algo na maleta, levantou e foi até o rei.
—Eu introduzi ervas para fechar a passagem, vamos conseguir reverter – o curandeiro disse um pouco nervoso.
—Certo, quanto tempo? – Estevão olhou para a esposa, ela estava de olhos fechados e mordia os lábios.
—Até a noite – o curandeiro parecia certo que tudo ficaria bem.
Foi só no amanhecer do segundo dia de trabalho de parto que Perseu resolveu intervir, os gritos de Estela ecoavam roucos pelo castelo, conseguia sentir que ela não tinha força mais para gritar, e ele estava certo, a rainha não aguentava mais cada onda de dor, eram quentes, avassaladores, a abraçavam com garras de ferro, naquele meio dia tudo que ela desejava era que as crianças rompessem sua barriga como os dragões fazem com os ovos, no fundo só queria que tudo acabasse, não aguentava mais dor, nem Linor tentando fazer parar o trabalho de parto.
—Merope, ela precisa de ti – o rei chegou para a feiticeira, que mexia em uns vidros de poções.
—Quem? A rainha? – virou, Perseu assentiu nervoso – Ela tem um curandeiro ao lado.
—Ele está tornando tudo pior – disse entredentes – Preciso que você vá lá. – a cada grito da rainha, o coração do rei era partido, ele não entendia porque o sofrimento estava se prolongando tanto, Hera deveria dar um parto rápido.
—Por que meu rei está tão preocupado com o nascimento dessas crianças? – a garota de cabelos prata arqueou a sobrancelha, o rei havia fugido de uma pergunta parecia com essa uns dias atrás.
—Porque um deles pode ser meu – sussurrou, fechou os olhos com força e respirou fundo – Preciso que ajude ela, por favor. – ele deu um sorriso vacilante e Merope assentiu suavemente. Enquanto subiam, Perseu ficava mais nervoso, quase errou os degraus, ele queria entrar, beijar a testa suada dela e segurar sua mão quando chegasse a hora de fazer força; eles bateram na porta suavemente, Estevão abriu, tinha olheiras enormes, cabelos bagunçados e uma expressão cansada no rosto – Rei, essa é Merope, é a feiticeira do reino.
—Majestade, eu gostaria de oferecer meus serviços – Merope sorriu, Estevão não conseguia prestar atenção, sua cabeça estava chiando pela falta de sono.
—Obrigado – ele abriu a porta para que entrassem, esfregou o rosto.
—Acredito que seja bom vossa graça dormir, sua esposa precisará de você quando os bebês nascerem – Merope tinha uma voz suave, calma, o que relaxou o outro. – Nós cuidamos dela – era o sorriso que Estevão precisava para concordar com a ideia, indo para o quarto de William balbuciando algum agradecimento.
Seu irmão estava sentado perto da janela, olhava para o horizonte com uma taça na mão, ele queria ajudar Estela, mas partos lembrava sua experiência com Auterpe, o que lembrava do “sequestro” de seu filho, ainda não conseguia entender como uma mãe faria isso e olha que Joice faria muita coisa. Ele assustou-se quando Estevão entrou.
—Você está péssimo – William riu.
—Não durmo nada há duas noites; Estela grita como se o mundo fosse acabar – ele se jogou na cama e colocou a mão nos olhos – Eu não aguento mais, já estou quase pedindo para Linor abrir a barriga dela e tirar aquelas crianças. – suspirou.
—Não seja louco, você não faria isso – William completou a taça que bebia.
—Não...mas ela me agradeceria – Estevão riu fracamente e antes do irmão responder algo, ele já dormia pesadamente, as noites haviam sido complicadas, pesadas e inquietas. William agradeceu que o parto que presenciou foi rápido e sem escândalos, mas entendia sua cunhada, Auterpe era uma mulher forte, Estela era frágil, havia ficado muito mais frágil durante a gestação.
Linor foi surpreendido pelo rei de olhos azuis e uma mulher que se apresentou como feiticeira, ele estava fazendo um bom trabalho, tinha certeza, a rainha só precisava aguentar as dores um pouco mais e o parto seria revertido. Merope ouviu o que outro estava fazendo com uma cara de descrença, não acreditava que alguém se dizia estudado no assunto fazia tal loucura, ela deu um chá para o curandeiro, que o fez dormir no primeiro gole, Linor também estava cansado. Perseu deixou Merope cuidar dele e foi até a sala de banho, a água da banheira estava ensanguentada e fumegante, Estela estava de olhos fechados, cabelos bagunçados, a boca entreaberta, ele observou a barriga dela contrair e marcar exatamente o tamanho dos bebês, ela segurou a barra da banheira e virou o rosto, rangendo os dentes e gemendo.
—Estela? – Perseu chamou suavemente ao se aproximar.
—Onde está Estevão? – virou para ele, os olhos estavam marejados, a boca arroxeada e olheiras enormes, sua voz saiu baixa e rouca.
—Ele estava caindo de sono – o rei se aproximou, sentou no chão e acariciou os cabelos dela, Estela segurou a mão dele e a apertou fortemente quando outra vez sua barriga contraiu.
—Eu não aguento mais – sussurrou – Está doendo muito – até o sussurro saia rouco, lágrimas começaram descer por seu rosto, as quais Perseu secou pacientemente uma por uma.
—Merope vai cuidar de você – a feiticeira observava o casal, eram um bonito casal, com certeza teriam um filho lindo, mas o rei agiu com o coração, guardando a razão dentro de um baú e jogando a chave fora.
A feiticeira se aproximou, retirou de dentro da rainha as ervas que Linor havia colocado, o que arrancou um suspiro de alívio dela, Perseu passou o braço pelos ombros dela, pousando a cabeça da menina em seu peito, acariciou os cabelos bagunçados enquanto Merope examinava a garota.
—O maluco fez um bom trabalho, mas os bebês ainda querem nascer – pousou a mão na barriga que contraia fortemente.
Merope e Perseu levaram Estela para a cama, ela mal conseguia pisar no chão, para a infelicidade de todos, o curandeiro acordou quando a rainha derrubou um vaso no caminho para o leito, retomando a frente dos cuidados.
A rainha de cabelos brancos e olhos verdes sofreria por mais um dia inteiro.
—Me matem, por favor! – ela gritou naquela manhã, Estevão estava ao lado dela desde o entardecer anterior, depois de seu longo cochilo; a esposa mordia os travesseiros enfurecida, arrancando pedaços de tecidos vez ou outra, Estela estava enlouquecida pela dor e pela pressão que os bebês faziam para nascer, sendo prontamente impedidos pelo curandeiro, que aumentava cada vez mais as doses das ervas – Me mata, por favor! Estevão, me mata! – ela suplicou agarrando a gola da camiseta dele, Mandrik nunca havia visto Estela agindo daquela forma.
—Majestade, precisa ficar calma – Linor se aproximou tentando tocar na rainha, que desviou.
—Preciso que tirem essas crianças de mim! – seus olhos estavam vermelhos, um pouco pelo sono e um pouco pela dor – Por favor, Estevão, me mata! – Estevão não respondia, apenas afagava as costas dela com cuidado, ele sentiu quando outra contração veio, Estela o mordeu com força quando se curvou.
—Vai ficar tudo bem, querida – ele disse a deitando na cama, ela choramingou.
William estava nervoso com a quantidade de gritos da cunhada, mas não podia a ajudar, queria, porém tinha consciência que não estava ao seu alcance, tudo que restava era para pedir para seus deuses ajudarem ela. Perseu estava nervoso, mordia o dedo mínimo tentando aliviar o nervosismo, Merope entrou.
—Já nasceram? – perguntou sem rodeios.
—Não, o doido que se diz curandeiro segue tentando reverter a situação. Já expliquei o porquê isso não está sendo vantajoso, ele não entende – a garota caminhou até um bule e serviu uma xícara de chá para cada, o rei deixou a sua cair pela tremedeira nas mãos. – Lamento informar, mas se seguir dessa forma, logo ela irá para os Campos Elíseos – isso foi pior para Perseu, ele lembrou de Hades dizendo que não haveria uma segunda vez para a tirar do submundo.
"Já a salvei uma vez, a trazer de volta será contra as regras"
—Não! – gritou – Você precisa fazer algo! – segurou o pulso da mulher, a puxando pelos corredores.
Estela não tinha mais voz para gritar, nem força para morder travesseiros, ela só queria morrer, sua visão estava turva, seus olhos sem brilho, olhavam para o teto, no entanto não era isso que enxergava, a garota via a praia, sentia a brisa salgada, acima delas os dragões voavam, não só Jaspe e Sinler, mas também os que haviam na ilha quando ela morava lá, via seus conhecidos, parentes, eles pareciam não a ver, uma figura vinha ao seu encontro, ganhando forma a cada passo que se aproximava.
—Mestre Nandor— ela sorriu para o homem, que também sorriu.
—Querida, estou feliz em vê-la— ele afastou os cabelos do rosto dela – Vê como Deragona ainda vive?— apontou com a mão os dragões e as pessoas – Deragona sempre viverá.
—Sinto saudades daqui— ela sorriu, os olhos cheios de lágrimas.
—Você pode ficar... montar seus dragões... ser livre— os olhos de Nandor brilharam, os de Estela também, voltar para sua terra com as pessoas que amava era seu maior sonho e parecia tão fácil se realizar.
Perseu bateu na porta do quarto de Estevão freneticamente, quem abriu foi Mandrik.
—Majestade, pedimos desculpas pelos gritos, a rat...rainha não se encontra em plenas faculdades mentais – Perseu ignorou o conselheiro e entrou no quarto, Merope logo atrás.
—Estevão, precisamos ajudar ela! – Perseu disse firmemente, o outro o olhou franzindo o cenho.
—Os bebês precisam nascer, majestade – Merope falou suavemente.
—Não, é muito cedo – Linor retrucou. – Seguiremos tentando reverter...
—Você está matando ela! – Merope gritou, o curandeiro deu dois passos para trás com certo medo, Estevão olhou de um para o outro – Majestade, precisamos ajudar os bebês a nascer, não impedir isso – olhou para o rei.
—Não, majestade, precisamos segurar mais uma lua – Mandrik pensou no tamanho do castigo que seria ouvir a garota gritar por mais uma lua.
—Ela vai morrer! – a feiticeira deu outro grito, mas dessa vez apontando para Estela enquanto encarava Linor, Perseu olhou para a mulher na cama, a barriga contraia, mas ela não reagia.
—Ela está sangrando – Perseu balbuciou.
"Eles vão acabar a matando"
—Claro que está, esse maluco está a matando – Merope encarava Linor furiosa.
—Não... – todos viraram para Estela, além dos lençóis e da camisola ensopados de sangue, um fluxo forte saia por sua boca, uma visão grotesca, Estevão foi para o lado dela num salto, ouvindo ela sussurrar “Mestre Nandor”.
—Viu?! As crianças precisam nascer! – Merope ocupou o outro lado do leito – Saíam, fazemos isso, precisamos de espaço – Perseu saiu em passos vacilantes para o corredor, encostando na parede e se deixando escorregar até o chão, Mandrik não o seguiu, mas Merope preferiu não discutir.
Estela ainda estava na praia, estava feliz com a possibilidade de ficar, até a escuridão a abraçar e sua última visão foi ver o sorriso de Nandor se desfazendo e os cabelos deles ficando negros. Ela tornou a abrir os olhos, havia uma silhueta feminina na sua frente e a dor a tomou novamente, Estela se curvou para frente num grito, apertando a mão de Estevão forte o suficiente para doer os dedos dele.
—Me cortem... Por favor... Façam qualquer coisa, só... só tirem essas crianças de dentro de mim– ela sussurrou, Merope sentiu pena, se Linor não tivesse sido inconsequente e inconveniente, a garota não precisaria sofrer tanto.
—Eles vão nascer, meu amor – Estevão beijou a testa suada com gentileza.
—Será rápido, majestade – Merope segurou a mão dela suavemente, Estela sentiu uma corrente passear por seu corpo, parecia fogo, e a atingiu no baixo ventre, houve uma pressão, um encaixe.
Estela não conseguia raciocinar, apenas obedeceu as ordens de Linor e de Merope, fazendo força quando eles mandavam, ela sentiu cada centímetro das crianças descer, era como parir espinhos, houve choro, lágrimas e muito suor; Linor enrolou a bebê que nasceu primeiro, deixando-a de lado para poder recepcionar o que vinha logo atrás, Estela desmaiou no momento que o menino chegou ao mundo. A feiticeira não ficou para saber a ordem dos nascimentos, apenas saiu do quarto a procura de Perseu, que havia levantado quando os gritos voltaram, sentia-se mal por não estar ao lado dela.
—São lindos – Linor entregou o primeiro bebê para Estevão, que desenrolou a manta para ver se era seu menino tão esperado, fazendo uma cara de frustração ao ver que era menina.
—São duas meninas? – perguntou frustrado.
—Não, essa é a primogênita – Linor comunicou, Mandrik se aproximou, agradecendo aos deuses pôr o fazerem cavaleiro e não curandeiro – Esse é menino, mas nasceu depois.
—Essa informação não sai do quarto, ninguém saberá que meu primogênito foi essa menina – entregou a garotinha para o amigo e pegou o menino do colo de Linor, admirando cada detalhe, inclusive seus ralos e brancos cabelos, brancos como os de sua mãe – Esse é o primogênito, Eilon, príncipe de Drakoj e herdeiro do trono – o sorriso estava enorme.
Mandrik olhou para a menina em seu colo, era bonitinha, mesmo que achassem bebês amassados.
—Ela também tem cabelos brancos – o conselheiro observou.
—Sorte dela – Estevão falou sem se importar, mantinha seus olhos fixos no bebê no seu colo, era perfeito, a realização do seu sonho, o futuro do seu reino.
William chorou ao ouvir o choro dos recém nascidos, lembrava de Orion a cada segundo, precisava de seu bebê nos seus braços, queria isso mais que tudo. Limpou as lágrimas quando chegou na porta do quarto de Estevão, girou a maçaneta e entrou, haviam duas mulheres ali, cada uma com um bebê no colo, elas amamentavam sob uma vigilância pesada de Estevão.
—Quem são? – William perguntou, o irmão mantinha um sorriso largo no rosto.
—Amas de leite, Merope as mandou – Mandrik respondeu, uma delas entregou o bebê para Estevão, que pegou como se fosse quebrar, William espiou para o fundo, Estela estava apagada na cama.
—Olhe como é perfeito – se aproximou do irmão, que engoliu o choro – Esse é o futuro rei de Calasir.
—É quase do tamanho da coroa – Mandrik riu, a outra ama entregou o bebê para ele.
—Voltamos em breve – a mais velha disse e saíram.
—São dois meninos? – William caminhou até o outro bebê.
—Essa é uma menina – Estevão comunicou – Eveline – William torceu o nariz.
—Péssimo nome – ele pegou a menina do colo de Mandrik, acariciou os cabelinhos brancos e arrepiados, a cheirou...tinha cheiro de Auterpe – Evie é melhor. – William sorriu pensando que aquela menina seria uma ótima companhia para Orion.
Estela começou acordar, seu corpo doía, parecia que tinha sido pisoteada por um dragão e jogada de uma montanha, sentia seu corpo encolher, sentia-se vazia e faminta, tentou sentar e gemeu pela dor, seus bebês haviam nascido, mas não estavam ali, entrou em pânico, será que tinham nascido de cabelos loiros?! Será que Estevão tinha os matado?! Tateou a mesa de cabeceira e derrubou um vaso, o que fez o grupo, que ela não havia notado, se virar.
—Está tudo bem, querida – Estevão falou com um sorriso no rosto e se aproximou da cama – Olhe como é lindo – ele sentou na cama, ficando lado a lado com ela, Estela suspirou aliviada, o bebê tinha cabelos brancos, como os seus, resmungou, se mexeu e abriu os olhos, para total alegria de Estevão, o pequeno tinha olhos verdes; William sentou no outro lado e mostrou a menina, que também abriu os olhos, William riu para a coloração diferente que tinham, cada íris era metade verde e metade azul escuro.
—Diferente – William riu.
—É linda – Estela tocou suavemente nos cabelos brancos da pequena – Já deu um nome? – virou para o marido.
—Eveline – Estevão respondeu tocando a bochecha do filho, estava absorto com a presença do pequeno.
Merope encontrou Perseu em seu quarto, ele olhava pela janela com lágrimas nos olhos, Estela havia sofrido tanto, de forma tão desnecessária! A feiticeira o tocou suavemente.
—Nasceram, parecem bem – ela sorriu.
—Certo – assentiu, ele poderia a visitar depois, levar algum presente, um conforto – Navi – o conselheiro que estava sentado perto da mesa – Termine de organizar o festival, precisamos de festa.
Ruphira ganhara um herdeiro, um belo e forte príncipe.
Calasir ganhara seu precioso herdeiro, o príncipe tão esperado, tão desejado.
Saphiral também ganhara algo.
Perseu recepcionou Estevão com alguns presentes para os bebês, algumas joias e roupas, pedras preciosas que reluziam, pediu para Navi levar a comitiva para um passeio até a arena, alegando que precisava organizar poucos detalhes para os festejos. Ele subiu para o quarto onde a rainha estava assim que viu Estevão sumir nos jardins, bateu duas vezes suavemente, ouviu uma autorização no lado de dentro e girou a maçaneta, a mão suada que mal firmava; Perseu abriu a porta, Estela estava de pé na frente do berço que haviam colocado ali, usava roupas limpas, seu cabelo estava solto e lavado, ela o olhou surpreso.
—Rei...Perseu – Estela vacilou em falar, ele se aproximou, olhou para os bebês, um dormia e o outro estava de olhos abertos para a mãe – Eilon dorme mais fácil que Evie – Perseu observou a menina, analisou o pequeno rosto, parando nos olhos, eram metade azuis e metade verdes, houve um brilho diferente, como o reflexo de uma estrela cadente, então, rapidamente, eles ficaram num azul escuro brilhoso – Estevão não se importou com os olhos – falou num suspiro.
—Ele percebeu que não é dele? – Estela negou com um aceno, um pouco magoada.
—Na família dele tem olhos azuis – os olhos da pequena começaram a vacilar e as pálpebras foram fechando. – Ele a chamou de Eveline – terminou de cobrir a bebê.
—Estela...eu sinto muito pelo que te disse, você tinha razão, ela é minha – o coração da rainha se encolheu ainda mais quando ele a segurou pelas mãos e a encarou.
—Não, você tinha razão – Perseu a olhou confuso – Eu sou esposa de Estevão, logo, meus filhos são filhos e herdeiros dele.
—Estela, você viu os olhos da menina, ela não pode ser filha dele! – a garota olhou para seus pés, Perseu a segurava pelos braços agora, como fez naquela noite na praia.
—Você decidiu que era – o encarou – Eveline é...
—Princesa e herdeira de Saphiral – Perseu sussurrou encostando as testas um no outro.
—Não – Estela se afastou – Princesa de Calasir, futura esposa de Eilon, filha de Estevão – ela engoliu as lágrimas.
—Ela é minha filha – Perseu disse em tom baixo.
—Você disse que qualquer bebê que tivesse seria de Estevão, pois bem, Eveline é filha dele – o olhou com fúria – Você quis assim. – Perseu saiu secando as lágrimas, não achou que as palavras seriam tão duras, achou que Estela aceitaria a ideia, se aceitasse, poderiam dar um jeito de a manter em Saphiral.
Estela olhou para seus bebês, os dois eram seus, não importava quem era o pai de um e o pai de outro, ambos tinham a mesma mãe e era o que importava para ela.
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