Amnesia.
1 Memórias roubadas.
Notas iniciais
Espero que gostem da história...
É um tema fora da minha zona de conforto, então talvez não tenha ficado assim tão boa.
Vou parar de colocar defeito antes que eu desista de postar.
Boa leitura.
Abri meus olhos devagar e, assim que minha visão fosca se ajustou, notei que estava deitada em um colchão velho e detonado no chão de uma "kitnet" mal iluminada. Na minha volta, via também um sofá bem usado, uma cozinha aberta com móveis de baixa qualidade e janelas com venezianas quebradas tapando-as. O forte cheiro de nicotina misturado com álcool era enjoativo e me causava náuseas.
O pior de tudo era que eu não lembrava de nada. Nem meu próprio nome, nem de onde vim, e muito menos de onde eu estava. Era como se a minha mente tivesse sido tomada por um completo vazio. Além disso, meu corpo todo doía como se eu tivesse sido atropelada.
"Eu moro aqui?", pensei.
Me levantei com dificuldade e caminhei lentamente até um espelho médio e cheio de ferrugens na parede mais próxima. Eu deveria ter uma idade entre vinte e vinte cinco anos, minha pele era clara e com algumas sardas espalhadas pelo rosto e ombros, olhos âmbar (ou também conhecido como cor-de mel), cabelos castanhos escuros e, mesmo estando magra ao extremo, tinha as curvas do corpo bem definidas. Pelo visto, eu parecia não ter comido faziam -se semanas. No corpo, usava uma camisa — que ficava gigante em mim — um tanto velha e com cheiro de desodorante masculino, e uma calça jeans gasta.
Com movimentos lerdos, toquei meu rosto sem tirar os olhos do espelho, como se quisesse ter certeza que eu era real. Não, eu não era uma ilusão (e por que diabos eu seria?). Então, com o canto dos olhos notei que no canto da sala — mais precisamente saindo do banheiro — estava um cara com a pele morena, cabelos escuros, corpo "estrutural" e uma toalha na cintura. Quando o vi, gritei e tropecei no colchão ao lado dos meus pés, caindo assim no chão. Ele aparentemente demorou para entender a situação, mas uma vez que conseguiu entender, ficou com uma expressão de surpresa e disse com uma voz lenta e engasgada:
— Você finalmente acordou.
Olhei na minha volta à procura de algo para me "defender" caso algo ruim acontecesse em seguida, porém apenas encontrei algumas latinhas de cerveja no chão. Sem hesitar, tateei a mão direita até elas e peguei algumas, em momento algum tirando os olhos do estranho que se encontrava alguns passos de mim.
— Quem diabos é você?! — indaguei em pânico enquanto jogava algumas dessas latinhas nele (errando a maior parte delas).
— Calma, calma! Solta essas latinhas e vamos conversar! — ele disse como se estivesse tentando domar um animal.
— Uhm. — obedeci com receio, porém permaneci em uma posição "defensiva" e afastada.
— Caramba, achei que estivesse morta ou sei lá... — ele murmurou.
— Como assim? — indaguei desconfiada.
—Você passou, tipo, quase uma semana inteira dormindo.
Levantei a minha sobrancelha esquerda com uma expressão de ceticismo. Semi-cerrei os olhos e fiquei encarando aquele cara por alguns longos segundos, na tentativa de encontrar algo que mostrasse que este estava mentindo (se estivesse, é claro). Entretanto, não consegui nada além de notar que ele parecia meio preocupado.
— Sei... — murmurei mantendo a mesma expressão. — Pode me explicar como vim parar aqui?
— Olha, podemos fazer assim, eu vou colocar alguma roupa, você vai se trocar e podemos ir até uma lanchonete para conversarmos melhor, O.K?
— Uhm... — mordi a parte interna da minha bochecha direita enquanto pensava na proposta — ...Pode ser.
— Ótimo, sua blusa está ali em cima do sofá. — ele respondeu com um sorriso idiota.
— Certo. Pera...
— O que?
— Por acaso foi você quem trocou minha blusa?
— Sim, po--
— SEU PERVERTIDO! — interrompi ele e joguei a latinha mais próxima em seu rosto, acertando pela primeira vez em cheio.
— Ai... — ele resmungou enquanto esfregava a mão onde fora acertado. — Você é sempre assim com quem te ajuda?
— "Com quem me ajuda"?
— Tsh, logo você vai entender. Agora se me dá licença... — ele andou até uma cômoda de madeira mofada e apontou com a cabeça para o banheiro com uma expressão do tipo "Pode sair?".
Bufei, peguei minha blusa no sofá e entrei no banheiro no qual ele acabara de sair. O ar lá dentro estava quente e pesado, muito provavelmente pelo banho quente que o homem tomara pouco antes. Enquanto colocava minha roupa de volta, o pensamento de ter aquele estranho trocando-as invadiu minha mente. Credo.
Assim que saí do banheiro, o homem já estava vestido com uma calça jeans, uma camisa bem parecida com a que eu usava antes (só que da cor preta), tênis gastos e uma jaqueta de couro bege. Em seu ombro, ele apoiava um bastão de baseball e em seu rosto mantinha um sorriso bobo.
— Vamos? — ele perguntou com certa pressa.
— Para quê diabos está levando essa coisa? — apontei para o bastão.
— Hã? Ah, sim, isso... Para defesa, claro. Mas não se preocupe, eu juro que vou me comportar e não usarei em você.
— Você é estranho...
— E você reclama demais. Vamos logo!
E assim, saímos do "apartamento" fedorento e tomamos rumo à uma lanchonete qualquer do enorme centro urbano no qual nos encontrávamos. Haviam muitos prédios e lojas, além, é claro, das centenas de pessoas e carros que rondavam por lá. Era uma daquelas cidades grandes iguais as doas filmes, cheia de barulhos e ar poluído.
Entramos em uma hamburgueria com uma atmosfera agradável e sentamos bem na janela, onde podíamos ver a rua movimentada. Fizemos nossos pedidos em seguida e, enquanto esperávamos, fiquei analisando meu acompanhante com cuidado.
Ele tinha olhos avermelhados e penetrantes, usava piercings um pouco discretos abaixo dos lábios inferiores e tinha uma expressão sarcástica e despreocupada que me deixava irritada. Notei algumas vezes que ele tentava olhar discretamente para o "decote" da minha blusa, e todas as vezes, eu lançava um olhar raivoso para ele, seguido de um chute nos joelhos dele por baixo da mesa. Por incrível que pareça, ele parecia se divertir com a minha "ira". Ele era detestável.
— Então, não ia me explicar o por que de eu ter acordado na sua casa? — indaguei com impaciência.
— Claro. — ele pigarreou — De forma resumida, há quase uma semana atrás, quando eu estava saindo de uma "rave", encontrei você sem consciência no chão.
Fiquei batendo meus dedos de forma sincronizada na mesa enquanto ouvia a "história". Uma onda de ansiedade corria pelo meu corpo, eu realmente queria entender o que diabos estava acontecendo.
— Então, fiz a única coisa que me veio em mente: Te levei pra minha casa. — ele continuou — Eu sabia que se de deixasse lá, algo muito ruim poderia ter acontecido, desde estupro até... sei lá, morte. Tem muita gente ruim por aqui... não que eu seja uma pessoa boa, claro... — ele completou com uma risadinha sarcástica.
— Por que não me levou para a polícia ou pro hospital? Faria muito mais sentido, seu idiota. — comentei.
— Não é como se eu pudesse chegar na polícia completamente bêbado, sob influência de drogas com uma garota inconsciente e dizer "Ah, eu achei ela desmaiada aqui, podem me ajudar?". — ele disse revirando os olhos.
— O.K, seria meio suspeito, mas ainda sim faria muito mais sentido. E mesmo que eles te investigassem, você diz que não fez nada para mim, então não teria nada demais nisso.
— A situação é mais... uhm... "delicada" que isso.
— Explique, então.
— Bom, eu meio que não tenho uma boa ficha, sabe? Já fui preso algumas vezes e atualmente sou procurado.
— Agora eu tenho um puta motivo pra duvidar de você. Meu Deus como vim parar aqui... — disse com preocupação enquanto colocava as mãos na testa.
— Nah, eu não sou assim como imagina. Fui preso por motivos bobos, tipo "brigas de bar".
— Ninguém é procurado por "brigas de bar".
— Olha, relaxa. Não é como se eu fosse um psicopata que vai arrancar seus órgãos e estuprar seu cadáver. — ele riu com ironia.
— Isso foi algo repugnante de se dizer...E nesse ponto, eu não duvido nada.
— Para com isso!
Nesse momento, nossos sanduíches chegaram e, em silêncio, comemos eles. Tentei o máximo possível não olhar para aquele ser estranho que estava sentado na minha frente, mas era complicado. Eu não sabia se acreditava ou não nele, afinal, naquele ponto, eu não sabia o que fazia mais sentido. Fechei os olhos com força e respirei fundo.
— E aí, qual seu nome? — ele perguntou enquanto mordia o sanduíche.
— Não fale de boca cheia. — resmunguei — E eu não me lembro do meu nome.
— Oh, perdoe-me "madame eu-não-me-lembro-do-meu-nome". — ele retrucou com um um sorriso petulante e cheio de malícia.
— "Ha-ha-ha". Assim que eu souber quem sou, nunca mais quero te ver.
— Ah é? E por que não faz isso agora mesmo? — ele disse mantendo o mesmo tom e expressão.
— Por que eu... — engoli em seco. — ... não tenho muita opção.
— Admita que precisa de mim.
— Nunca.
— Vamos, nós dois sabemos que sim.
— Cala a boca...
— Repita comigo: "Albert, eu preciso de você".
"Então o nome dele é Albert..?", me perguntei.
— Nem fodendo. — respondi cruzando os braços.
— Certo, então eu não me importaria em te deixar sozinha na rua, sem dinheiro, correndo perigo, com frio...
— "Albert..." — respirei fundo de forma frustrada — " E...Eu preciso de você." Feliz?!
— É claro que você precisa. Agora vamos passear por aí!
Ele se levantou, puxou-me pelo braço e foi andando furtivamente até os fundos do estabelecimento, onde abriu uma pequena janela e indicou para que eu saísse.
— Não vamos pagar a conta?! — perguntei em um sussurro.
— Tsh, claro que não. — ele respondeu com naturalidade — Agora vai rápido antes que alguém note.
— Mas...
— Vai logo!
Eu podia não me lembrar do passado, mas tinha certeza de que nunca fizera algo daquele tipo. Pulamos os dois pela janela e saímos correndo livremente por entre os becos com os corações saindo pela garganta. Como ele ainda conseguia rir, eu não sabia, mas eu estava tão nervosa que poderia ter uma crise.
A corrida só acabou quando chegamos na frente de um barzinho antigo no mesmo bairro da "casa" de Albert. O som do "Blues" seduzia qualquer um para aquela espelunca, que em seu interior, era fracamente iluminada, tinha um bar de madeira polida, uma mesa de sinuca e um cheiro bem parecido com o da moradia do Albert.
— Al, trouxe companhia hoje? — perguntou um homem loiro de cabelo com comprimento médio e barba mal feita que se encontrava no bar.
O homem parecia ter em torno de uns vinte nove anos e sua expressão era de cansaço com alguns traços de malícia. Ele tinha diante de si um copo que continha o que parecia ser "Whiskey" e fumava um cigarro.
— John... quanto tempo. — respondeu Albert de forma seca. — Onde estão seus encostos, o Gian e o Heinz?
— Hmpf... — "John" resmungou — O Gian deve estar com aquele "protegido" dele, o Mathias. E o Heinz... não sei onde ele está, provavelmente vendendo coisas ilegais por aí.
— Sei...
— E quem é a belezinha..? — John apontou com o cigarro para minha direção.
— Não tenho a menor ideia, por que quer saber? — respondi com certa irritação e diretamente.
— Ué... como não sabe seu próprio nome, senhorita?
— Olha, John, é complicado de explicar agora. Mas de forma resumida, ela está com algum tipo de "Amnésia". — Albert disse cortando a pergunta do outro.
Do jeito em que Albert colocou, aquilo parecia ser algo muito idiota. Aliás, era mesmo uma situação idiota, mas não havia explicação melhor.
— Heh, agora entendo por que ela está perdendo o tempo dela saindo com você, não é, Al?
— Eu não estou "saindo" com ele. — bufei. — Estou apenas sendo "ajudada" por ele.
O.K, aquilo que eu disse pareceu ainda mais idiota.
— Abra o olho, garota, ele não consegue ajudar nem a si mesmo. — riu John.
— O que..?
Aquilo realmente parecia ser verdade. Albert não parecia ser o tipo de pessoa "responsável" que sabia como ajudar alguém. Porém, mais uma vez, eu não tinha muita opção por ora.
— Aliás, Al, o Mattie anda perguntado por você. — O homem comentou após da uma tragada em seu cigarro.
— Não diga para ele que me viu aqui. — Albert disse de forma nervosa.
— Eu posso manter minha boca fechada... — o outro respondeu ao soprar a fumaça — Mas está me devendo essa.
— Albert, já volto... — murmurei para ele baixinho.
Sem dar tempo para o mesmo responder, andei de forma apressada até o toalete do bar.
Notas finais
Bleh.
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