Amnesia
3 Capítulo 2 - Do You Remember Anything? - Parte 1
Notas iniciais
Senti o vento passar por meu rosto, fazendo cócegas em minha pele. Novamente eu não estava no hospital, mas dessa vez parecia que nem naquele corredor eu estava. Abri os olhos e senti a claridade os cegá-los por alguns minutos. Percebi que estava em uma praça, deitado em um banco.
Sentei-me e percebi que varias pessoas passavam por ali e pareciam não se importar por eu ter dormido no banco da praça, na verdade acho que elas não conseguiam me ver. Joguei a cabeça para trás, estava ficando cansado desses sonhos estranhos.
Senti alguém sentar ao meu lado, tirando-me dos meus pensamentos. Quando me virei para dar a pessoa o meu olhar assassino que a faria ir embora dei de cara com Law. Ele parecia mais magro que o normal e com olheiras mais profundas, ele olhava para frente como se também não me percebesse.
– Oe, Law, o que você está fazendo aqui? – Tentei chamar a atenção dele, mas logo percebi que era idiotice. – Como se você pudesse me responder, isso é um sonho!
– Sim, é um sonho, mas não é como se eu não te ouvisse. – Law sorriu e eu o olhei espantado.
– Como você pode me ouvir e ainda responder? – Perguntei – E como diabos você entrou no meu sonho?
– Você realmente acha que eu sou o Trafalgar Law verdadeiro? – Ele riu – Sinto muito, mas eu sou só fruto de sua imaginação.
– Fruto de minha imaginação? Então você pode tomar forma de qualquer pessoa, certo?
– Sim.
– Então por que o Law?
– Você não acha que é você que deveria me responder isso? – Ele finalmente olhou para mim, seu sorriso aumentou e eu senti minhas bochechas arderem.
– De toda forma, o que você está fazendo aqui? – Perguntei tentando mudar de assunto.
– Essa é uma pergunta meio obvia, Eustass-ya. – Ele respondeu – Estou aqui para fazer-lhe lembrar de tudo.
Vi Law levantar e começar a andar pela praça, levantei-me também e corri para alcançá-lo. Law sorriu para mim quando cheguei ao seu lado.
– Você se lembra desse lugar? – Ele perguntou.
– Sim, é o campus da universidade. – Sorri, vendo o vento levantar as folhas amarelas que estavam caídas no chão. Provavelmente estávamos no outono.
– Exato. – Ele sorriu.
Andamos mais um pouco em silencio, e logo três prédios apareceram em nossa vista. Os três prédios da faculdade eram divididos em Exatas, que era o prédio da esquerda, Humanas, que era o prédio central, e Biológicas, que era o prédio da direita. Andei até o prédio de Exatas, que é onde eu curso Engenharia Mecânica, mas quando cheguei lá vi uma placa, onde dizia:
“Alunos de Exatas,
Em decorrência da reforma, vocês irão estudar nos prédios de Humanas e Biológicas por tempo indeterminado. Na entrada de cada prédio tem uma lista com o nome dos cursos que vão ser lecionados lá.
Desde já pedimos desculpas pelos transtornos
A Reitoria.”
– Tudo bem, desde quando isso aconteceu? – Perguntei para Law.
– Aconteceu quando você tinha 19 anos.
– Eu tenho 19 anos.
– Não, você tem 23.
– Tanto faz!
Law voltou a andar e eu o acompanhei. Fomos até o prédio de Biológicas e entramos lá. Vi todos os futuros médicos, andando de um lado pro outro, não dando importância pro aglomerado de alunos de Exatas que estavam ali presentes.
– Porque estamos aqui? – Perguntei
– Por que é aqui que você vai estudar.
Olhei ao redor vendo que o prédio de biológicas não era tão diferente do de exatas em geral, havia a mesma escada que dava acesso as salas de aula e ficava de frente pra entrada, o corredor da esquerda levava até o refeitório e o da direita a uma área de estudo. As paredes pareciam ser mais brancas e mais bem cuidadas que as do prédio de exatas e humanas, e nelas havia quadros com os formandos de cada ano e de cada curso que ali era lecionado.
Parei de observar o local e voltei a olhar pro aglomerado de pessoas na porta, vi uma pessoa com longos cabelos loiros e uma franja que cobria quase todo o seu rosto. Por alguma razão achei aquela pessoa familiar até que o seu nome veio em minha cabeça, fazendo me sorrirem reconhecimento.
– Ei, aquele é o Killer! – Eu disse para Trafalgar.
– Sim, e o punk de cabelos vermelhos do lado dele é você. – Ele disse apontando para a pessoa ao lado de Killer
– Eu não sou um punk! Eu só tenho um estilo único. – Disse meio emburrado fazendo Law rir
Olhei de novo para o “eu” que estava do lado de Killer e descobri que eu realmente pareço um punk, mas pelo menos eu sou um punk estiloso. Os meus cabelos vermelhos estavam presos por uma bandana preta com detalhes brancos, eu vestia uma jaqueta preta que estava aberta, deixando a mostra a camisa branca que estava por baixo e uma calça jeans igualmente preta, estava calçando uma bota preta que ia até um pouco acima do tornozelo. Eu não me lembrava dessa roupa, mas eu gostei dela.
Percebi que o “eu” estava de mãos dadas com alguém, que reconheci assim que vi os cabelos rosa, era Bonney. Ela estudava na mesma universidade que eu, porém ela fazia gastronomia no prédio de humanas, provavelmente ela só estava ali me acompanhando.
– Aproveite os seus últimos minutos gostando da Bonney. – Law disse me fazendo olhar para ele.
– Eu ainda gosto da Bonney. – Disse e Law riu, uma risada irônica.
– Porque você se engana tanto, Eustass-ya? – Law olhou para mim. – Mesmo com Amnésia você se sente atraído pelo Trafalgar. Você só tenta se enganar, como tentava nessa época.
Suspirei e passei as mãos pelos meus cabelos, a minha mente estava falando umas verdades que eu realmente não queria ouvir.
– Olhe, agora que tudo vai mudar. – Law chamou a minha atenção.
Olhei para o “eu” e ele parecia hipnotizado olhando para algo que estava na escada, decidi seguir o olhar dele e acabei vendo algo que também me deixou hipnotizado.
Law estava descendo as escadas com duas pessoas ao lado. Ele vestia uma blusa branca, um jaleco igualmente branco e uma calça preta provavelmente skinny pelo jeito que se moldava as suas pernas. Também usava um cachecol preto que tinha umas bolinhas amarelas em cada ponta, junto com um símbolo que parecia um emoction sorrindo com algumas coisas distintas ao redor dele.
– Sabe, o seu olhar está igual ao de um peixe morto. – O Law que estava ao meu lado riu um pouco.
– Cala a boca! – Eu senti as minhas bochechas esquentarem e percebi que estava corando.
Vi Law parar de descer as escadas e olhar para o “eu” que estava mais adiante, avaliando-o com os seus olhos cinzentos brilhando em animação, então ele sorriu e piscou o olho direito, rindo um pouco e voltando a descer as escadas falando animadamente com os seus amigos.
Voltei a olhar para o “eu” e percebi que ele estava tão corado quanto eu. Ele balançou um pouco a cabeça em sinal de negação, apertou um pouco mais forte a mão de Bonney, que olhou curiosamente para ele, e voltou a falar com Killer, sorrindo forçadamente.
De repente tudo começou a desaparecer, inclusive o Law que estava ao meu lado, pelo visto estava na hora de acordar, mas antes ouvi a voz de Law dizer algo que ficaria em minha mente por um bom tempo.
– Você sabe que está atraído por ele e sabe que não pode evitar isso.
xXx
Abri os olhos e olhei para o teto pensando porque diabos eu havia tido esse sonho. Já havia se passado uma semana desde a visita de Bonney e desde então eu não havia tido mais sonhos, porém agora eles voltaram e trouxeram junto uma dor de cabeça enorme. Gemi um pouco quando senti uma pontada de dor.
– Ah, você está acordado! Como você se sente? – Olhei para o lado a procura da voz desconhecida que havia dito isso e logo a achei.
Em pé ao meu lado havia um médico loiro com um corte de cabelo meio estranho, parecia um abacaxi, ele me encarava com os seus olhos azuis animados e um sorrisinho de canto.
– Quem é você? – Perguntei, afinal nunca tinha visto essa pessoa antes, pelo menos eu achava isso.
– Sou Marco. Marco Fenwick, seu médico. – Ele disse
– Achei que o Law era o meu médico. – Eu disse confuso
– Esse hospital tem uma norma que diz que médicos não podem operar familiares ou cônjuges, no caso de vocês namorados, e como você teve que passar por algumas operações, Law pediu para eu fazê-las, logo eu sou o seu medico oficialmente. – Marco disse como se fosse a coisa mais obvia do mundo.
– Eu nunca te vi durante esse tempo que passei aqui.
– É porque você está sempre dormindo quando eu venho. – Ele sorriu – Mas fico feliz que você esteja acordado, pois tenho boas noticias.
– Diga – Minha voz saiu mais animada do que eu queria e eu me repreendi mentalmente por isso.
– Você vai receber alta hoje!
Sorri ao pensar que finalmente voltaria pra casa, apesar de isso ser um enorme problema, pois não sabia pra que casa voltaria.
– Você está bem? – Marco perguntou provavelmente ele percebeu a confusão em meu rosto.
– Sim, só tem uns problemas.
– Se quiser compartilhar...
Acabei por falar a historia para Marco, ele ouviu a historia em silencio e quando eu acabei de falar ele pareceu um pouco pensativo, mas logo suspirou e sorriu um pouco.
– Quer um conselho? – Ele perguntou
– Adoraria.
– Vá para casa de Law, pode ser que você se lembre de algo ou não, então se você se sentir confortável fique por lá, afinal mesmo não se lembrando é a sua casa. Caso contrario pegue umas mudas de roupa e vá para a casa da Bonney, então se você perceber que aquele não é o seu lugar você pode voltar para Law, afinal ele te ama e te aceitara de volta.
Sorri com o que Marco falou e percebi que ele estava certo.
– Você está certo! Vou fazer isso! – Disse sorrindo para Marco, que sorriu de volta para mim.
Nesse momento Law entrou na sala junto com outro menino, ambos estavam sorridentes e conversando animadamente. Law trazia dois cafés em suas mãos e o outro menino trazia dois brownies.
– Oh, você está acordado. – Law disse sorrindo. – Trouxemos café e brownie pra vocês.
– Que bom que vocês lembraram da gente. – Marco disse rindo.
– Claro que lembramos! – O menino que entrou junto com Law disse meio emburrado.
Fiquei encarando o menino novo, ele tinha cabelos pretos e ondulados. Ele estava vestindo uma camisa amarela que estava aberta mostrando os seus músculos, não sabia que podia andar assim pelo hospital, mas tudo bem. Ele também vestia uma bermuda preta que ficava um pouco acima do joelho e botas que iam até um pouco acima do tornozelo.
O menino percebeu que eu estava encarando-o e olhou para mim, sorrindo. Fiquei pensando em como era fisicamente possível ter um sorriso tão amplo quanto aquele.
– Oi, Kid! – Ele disse pra mim e eu comecei a me sentir mal por não me lembrar das pessoas que pareciam ser tão intimas comigo.
– Olá...? – Disse enquanto franzia suavemente as sobrancelhas, ou o nada que eu chamava de sobrancelhas.
– Ace! – O menino disse como se fosse a coisa mais obvia de mundo. – Você não se lembra de mim?!
– Sinto muito, mas não. – Eu disse como se fosse a coisa mais obvia do mundo.
– Como assim não? – Jurei ter visto chamas nos olhos do menino.
– Ace, o Kid ta com amnésia. – Marco disse revirando os olhos e logo depois ele se virou para Law – Você não disse isso pra ele?
– Eu tentei, mas ele dormiu. – Law disse entediado.
– Ah, então era essa a coisa importante que você tinha pra me dizer? – Ace se meteu na conversa.
– Claro que era, idiota! – Law colocou as mãos nas têmporas e as massageou.
– Achei que o importante era que a lanchonete do hospital havia acrescentado Brownies no cardápio! – Ace sorriu e colocou uma mão atrás da cabeça, pegando um chapéu laranja que até então eu não tinha visto de colocando em sua cabeça.
Vi Law levantar uma mão como se estivesse pronto pra dar um cascudo em Ace, mas Marco rapidamente puxou o menino para trás dele, fazendo Law bufar.
– De toda forma, diga-nos as novidades, Fênix. – Law sorriu e Marco bufou.
– A verdadeira fênix aqui tem cabelos vermelhos. – Marco olhou de canto de olho para mim – Mas a novidade é que ele pode voltar pra casa hoje.
– Serio? Fico feliz por isso. – Law sorriu, um pouco forçado.
– Bom, Ace e eu deixaremos vocês a sós. – Marco disse e deu uma piscadinha para mim.
– Já?! Mas eu ainda estou com saudades do panda! – Ace disse um pouco emburrado.
– Não me chame de Panda! – Law disse revirando os olhos.
– Vamos logo, Firefist! – Marco segurou os ombros de Ace começou a guiá-lo para fora da sala, mas o menor deu um jeito de se livrar dos braços do loiro, correr até Law, dar um beijo estalado em sua bochecha e pular nas costas de Marco, que corou um pouco e foi para fora da sala carregando o menino.
Uma vez que Marco e Ace haviam saído da sala um silencio estranho se instalou entre Law e eu. O silencio continuou até que Law sentou-se ao meu lado na cama e começou a puxar assuntos aleatórios. Nessa semana que passou eu fiquei muito tempo com Law e acabei por gostar da presença dele, viramos bons amigos, mas sei que isso machuca ele e por isso me machuca também.
Outro silencio caiu sobre nós e eu decidi quebrá-lo, pois além de querer estar mais na presença de Law, eu estava curioso sobre os dois que haviam estado no quarto momentos atrás.
– Então, você é amigo muito próximo de Ace, certo? Afinal, ele te chama de panda. – Perguntei rindo um pouco do apelido estranho que Ace deu para Law.
– Sim, Ace cursou psicologia na mesma faculdade que nós dois e se tornou um dos meus melhores amigos. – Law pareceu um pouco pensativo, mas logo ele ficou um pouco emburrado. – E panda é por causa das minhas olheiras.
Não pude impedir um ataque de risos e acabei por concordar com Ace, as olheiras de Trafalgar realmente o deixavam parecido com um panda. Recebi um olhar assassino de Law e decidir parar de rir.
– Desculpe. – Disse ainda rindo um pouco – Mas e Marco?
– Marco é o melhor médico daqui. – Law disse visivelmente admirado – Ele ficou conhecido como fênix por pegar casos quase sem esperança e conseguir salvar todas as pessoas que pararam em sua mesa de operações. Porém ele não gosta de ser chamado assim e diz que as verdadeiras fênix são as pessoas que ele conseguiu salvar.
– Oh, ele é um médico impressionante então. – Eu disse impressionado.
– Sim. – Law sorriu – Espero ser tão bom quanto ele um dia.
– Você vai ser. – Disse colocando a minha mão por cima da de Law e acariciando-a.
Law corou um pouco e logo eu percebi o que estava fazendo e tirei minha mão de cima da dele.
– Você já decidiu o que vai fazer? – Law perguntou
– Decidi o que?
– Pra onde você vai assim que sair daqui.
Fiquei um tempo pensando no que iria responder e logo me lembrei do que Marco havia dito.
– Vou para sua casa pegar umas mudas de roupas e ir para casa de Bonney. – Okay, isso não foi o que Marco me disse, mas foi perto não é?
Law se levantou e caminhou até a porta.
– Tudo bem. – Ele disse.
– Desculpe. – Eu disse fazendo o parar no meio do caminho
– Pelo o que? – Ele perguntou
– Por não lembrar de você e de nada que aconteceu entre a gente.
– Tudo bem, mas me diga uma coisa. – Ele olhou pra mim por cima do ombro. – Você gosta dela?
– Eu a amo. – Disse mais para tentar me convencer do que para respondê-lo
Vi os olhos de Law se encher de lagrimas e o meu coração apertou. Ele logo se virou para frente e continuou a andar, ele abriu a porta, mas antes de sair disse:
– Eu vou ligar para ela e avisar que você vai ser liberado hoje. Descanse um pouco.
Então ele saiu e deixou-me sozinho com os meus pensamentos, optei por dormir afinal sem Law aquele quarto ficava horrivelmente tedioso.
Não demorou muito e logo o sono me consumiu.
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