Amizade Colorida
8 Fantasmas, doces e trovões
Era uma tarde fria, chuvosa e de pouco movimento na Gemialidades Weasley. George e Vera costumavam aproveitar momentos como esses para conferir e despachar caixas dos kits que eram revendidos em lojas de Hogsmeade e outros povoados bruxos; principalmente porque os principais compradores de suas mercadorias estavam na escola nesse período do ano e o dia dos namorados, que era outro pico, se aproximava.
O foco no trabalho era algo que George cobrava muito de si mesmo. Embora seu espírito fosse livre e sua personalidade espontânea, aquele era o sonho materializado que ele construiu com seu irmão gêmeo e fazia questão de tocar em frente pelos dois. Contudo, além da perda que sofreu, a situação meio incerta com Hermione começava a atrapalhar alguns pensamentos e ele precisava se policiar constantemente para não deixar sua vida pessoal criar raízes na profissional.
Quando o sino da entrada soou naquele finalzinho de expediente, George levantou-se e pediu que Vera continuasse o despacho das encomendas sozinha. Atender pessoas sempre o ajudava:
– Olá, no que posso aju— – ele cumprimentou a pessoa que entrava de forma educada, mas quando viu de quem se tratava, as palavras simplesmente não saíram por segundos que pareciam eternos – Angelina?!

– Olá George. – Angelina cumprimentou tentando pôr um sorriso no rosto – Faz tempo, não é?
– E como! – ele respondeu surpreso –Você… como você está?
– Melhorando. Você está muito ocupado agora? Eu volto em outro momento se….
– Não! Quer dizer… eu vou pedir pra Vera fechar a loja depois que concluir o que está fazendo e podemos conversar no escritório.
Assim que George deu passagem para Angelina entrar na sala, ele ficou observando em silêncio ela processar os mesmos sentimentos que ele teve no primeiro dia do ano. Era incrível como ela o compreendia e pensava na ausência de Fred de uma forma muito parecida com a dele e, após minutos de choro de ambos que nem mesmo o barulho da tempestade abafava com eficiência, George preparou chocolate quente com marshmallows e a convidou para sentar-se mais perto da lareira. Ali eles compartilharam lembranças que os fizeram rir até a barriga doer, celebrando assim a memória de Fred como ele merecia:
– Perdi completamente a noção do tempo. – Angelina disse quando ouviu o relógio de pêndulo tocar – George, me perdoe ficar aqui te atrapalhando!
– Foi uma das melhores noites que tive em meses. – ele respondeu com um sorriso muito genuíno – Ainda está chovendo bastante, se quiser esperar mais eu fico contigo e depois vamos para nossas casas.
– Muito gentil de sua parte, mas eu realmente tenho que ir. Não me molharei muito no lugar que pretendo desaparatar. – ela disse, fazendo um feitiço para limpar as xícaras de ambos – Se não for incômodo, eu gostaria de voltar amanhã.
– Você é sempre bem-vinda. – ele disse a abraçou – Obrigado por compartilhar comigo esse momento.
No dia seguinte, Angelina chegou à loja e teve uma feliz surpresa que um uniforme, o mesmo que ela usava quando vinha vez ou outra ajudar o namorado, a esperava sobre o balcão. Ela o vestiu orgulhosamente e junto com Vera se atualizou dos itens à venda, sendo surpreendida com uma entrevista para o Profeta Diário que George convenientemente esqueceu-se de avisar:
– Não posso fazer isso. Não é minha loja! – Angelina disse, nervosa.
– Você conhece isso aqui tão bem quanto Vera e eu tenho certeza que Fred ficaria feliz, se estivesse conosco, de compartilhar esse momento com você. – George insistiu e a puxou pelo braço – Confie no seu eterno cunhado.
– Podemos começar com algumas fotos? – a repórter que os entrevistava pediu e eles se posicionaram detrás do balcão – Perfeito, agora segurem o “kit sabe-tudo”. Pronto, podemos iniciar a parte das perguntas.
… a entrevista correu num ritmo bom e em menos de trinta minutos a equipe do Profeta Diário já tinha deixado a Gemialidades Weasley e a rotina voltou aos eixos:
– Será que eu falei demais? – Angelina perguntou preocupada – Eu sempre me empolgo quando falo sobre meus sentimentos, ainda mais vulnerável assim.
– Bem, você só complicou pra mim que tive que me fazer de durão pra não começar a chorar. – George brincou e ambos riram – Desculpe não ter contado, não queria que isso parecesse que eu não queria que você viesse quando me pediu ontem, então…
– Eu entendi. – Angelina o interrompeu – Bem, eu vim pra trabalhar, então vou ver com a Vera o que podemos fazer.
✦ . ⁺ . ✦ . ⁺ . ✦
– Oi, a Vera me deixou subir. – Angelina abriu a porta do escritório com cuidado – Ainda sem notícias dela? – perguntou ao ver a cara de George fitando o nada.
– Ontem eu mandei mais uma carta e acho que me humilhei um pouco. – ele tentou sorrir e pediu que ela trancasse a porta – Pedi que ela me falasse diretamente o que espera de nós de verdade, mas… – suspirou – nada de respostas até agora.
– Ninguém deveria ficar triste no dia do aniversário. – Angelina o abraçou com carinho e deu-lhe um beijo no rosto – Por mais difícil que seja, tenta não ficar remoendo. Vocês tiveram um momento intenso num curto espaço de tempo. Entendo ela estar confusa, mas também entendo o quão chato é não haver uma conversa clara entre vocês.
– Eu não devia ter cedido! – ele resmungou enfiando o rosto entre os braços cruzados sobre a mesa – Quando eu achava que ela preferia o Ron eu lidei bem melhor com isso.
– Lidou porque não teve que encarar tão de perto os sentimentos. Acho que teria sido muito pior se ela fosse namorada do Ron ainda, sabe? Do jeito que você falava dela quando estávamos em Hogwarts, por eu te conhecer bem, nem seu tom brincalhão escondia que você tava muito na dela.
– E eu aqui achando que era um ótimo ator. – ele riu e respirou fundo para se recompor.
– Tive uma ideia. – Angelina disse de repente – Vamos sair domingo e você terá passe livre para reclamar o quanto quiser de estar sendo enrolado por Hermione Granger.
– Você vai se arrepender. – ele disse rindo muito.
– Sempre posso te azarar ou lançar um feitiço para tapar sua boca. – ela rebateu divertida e novamente o abraçou – Feliz aniversário, cunhado!
A narrativa de George foi longa, embora abordasse apenas pontos essenciais, e nesse meio tempo, boa parte dos convidados e outros formandos já haviam ido embora. Harry e Ginny ainda socializavam com um ou outro funcionário do ministério que insistia em dar uma palavrinha com o eterno garoto-que-sobreviveu e os demais Weasley haviam se juntado aos Dune; coisas que deram a privacidade que George e Hermione precisaram:
– Eu não estava te enrolando. – Hermione tentou se justificar – Quando eu recebi sua carta me colocando contra a parede, eu fiquei em pânico! Achei que você só estava dizendo aquelas coisas porque estava fragilizado e, se eu falasse o que eu realmente queria, que iria meio que te obrigar a me seguir.
– O problema é sempre esse, você querer deduzir e não perguntar. – ele chateou-se e encheu novamente seu copo – Não importa o que você me disser agora, não tem essa de eu fazer só porque você quer. Eu tenho que querer também e, caso não queira de verdade, é minha obrigação respeitar.
– A verdade é que… – Hermione respirou fundo e pôs a mão sobre o próprio peito como se isso fosse fazer seu coração parar de bater tão forte – não há um dia sequer que eu não pense em você.
– Eu também. – ele disse sentindo-se aliviado e nervoso – Já concordamos aqui.
– Gosto de ser sua amiga e sinto falta de sermos assim.
– Que sejamos amigos, então. – ele disse, desapontado, e levou o copo aos lábios.
– Amigos que se beijam. – Hermione disse, segurando a mão dele – Amigos que dormem de conchinha nas noites frias…
– Tá na hora de irmos embora, não é? – ele engoliu em seco e ela acenou positivamente com a cabeça enquanto sorria de uma forma provocativa.
Fale com o autor