Amizade Colorida
20 Prazer, me chamo Marina
Notas iniciais
P.o.v Laura
Entrei arrastando os pés no consultório de Rodrigo. Do outro lado da porta, Bento Amaral murmurava sozinho de pé olhando para alguma coisa em suas mãos. Na frente dele, estirada no chão, jazia o corpo miúdo e quase infantil de Alice, completamente sem vida. A menina de só dezesseis anos com rosto de anjo e cabelos cacheados parecia ainda mais nova. Os braços finos estendidos em cima do corpo estavam cobertos de sangue vermelho-vivo e os cortes nos pulsos eram profundos, e iam da palma da mão a altura do cotovelo. A faca usava era dessas que os gaúchos usam e estava cravada na coxa nua. Ela usava um vestido vermelho e curto que deixava a cena ainda mais macabra.
– Foi ela que fez isso? — perguntei, assustando Bento, que não tinha me visto entrar.
– Professora — ele me chamou pelo título que conhecia, o filho mais novo dele, Eduardo, era um dos meus alunos.
– Por que ela fez isso? — perguntei, quase sem entender — E por que aqui?
Ele suspirou.
– Acho que sabe que Alice era filha do seu marido e minha esposa? — fiz que sim com a cabeça, antes que ele continuasse a história — Os pais adotivos a largaram e fugiram, acho que cansaram de ser sustentandos pela filha — ele explicou — Ela colocou a culpa nos pais biologicos, e quis se vingar tirando a própria vida. Aqui mesmo.
Engoli em seco. Rodrigo deveria estar arrasado. Contar meu caso com Edgar agora seria impossível, teria que esperar ele superar aquela tragédia. Não seria humano da minha parte tocar nesse assunto agora.
– Espero que esteja preparada pra superar essas coisas agora, Laura — ele torceu o lábio, eu fiz que sim, claro que seria.
Ele saiu com pressa, fiquei ali, olhando o corpo de Alice, sem saber o que fazer.
***
P.o.v Marina
Prazer, me chamo Marina. Não tenho uma história feliz. Tenho o oposto do que você chamaria de uma pessoa normal, mas ser normal não está entre minhas prioridades.
Tenho 18 anos, trabalho como auxiliar de professora numa ONG, com Laura como auxiliar, ela não é velha, é bem bonita álias, e tem um estilo bem legal. Mas eu gosto do meu. Uso cabelo curto, vermelho e arrepiado, as roupas o mais rasgada e largada possível, curto conforto. Também faço faculdade de pedagogia especial à noite, e é o que queri pra minha vida.
Moro com meu pai. Minha mãe morreu há anos, eu mal lembro dela. Ele nunca se recuperou desde então. Passa a vida bebendo, e eu sou a idiota que tento ajudar. Pelo menos isso sei que sou um desastre.
Sou muito perfeccionista, e sei que sou boa em tudo o que faço. Estudar, trabalhar com crianças especiais. Curto muito essas coisas. Mas com meu pai... nãi sou boa. Ele nunca melhora, está cada vez pior...
– Chega, pai, deita aí — tentei fazê-lo dormir depois de dar uma ducha em cima da cabeça dele — Por favor, pai, preciso ir pra faculdade.
– Você é um saco — ele falou, tão bêbado que não sabia se levava a sério — Odeio você.
Mordi o lábio, fazendo-o deitar enquanto reprimia as lágrimas. Tirei os sapatos e o deixei assim, de roupa molhada. Já estava atrasada. Tranquei a porta do quarto e saí.
–--
O professor novo era de leis da educação especial. Ele era carioca, um advogado. Tinha vindo com os cabelos bagunçados, um ou dois cachinhos caídos na testa. Ele era lindo, um espetáculo sem tamanho. Perdi o folêgo enquanto ele falava, sentado na mesa, com as pernas cruzadas, e levemente inclinado na direção da turma.
– Essa é a lei que chamamos de lei do monitor e se aplica a qualquer criança que tenha dificuldade motora ou precise de cuidados especiais o tempo todo....
Viajei enquanto ele falava, meus olhos vidrados na boca se mexendo e nos cachos caídos sobre o rosto... Achei que estava escutando, mas só quando o sinal bateu que percebi que a aula tinha sido dada e eu tinha me distraído com oa olhos claros do doutor Edgar...
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