Amizade Colorida

13 Mortes e divórcios


Notas iniciais
Ei, galera, estão curtindo as férias? Eu to fazendo o máximo pra ficar muito tempo na praia, por aqui em Forno Alegre, o calor tá insuportável.. Mas bem, vamos ao que interessa.

P.o.v Laura

Eu tinha três meses da gestação quando aconteceu.

Rodrigo estava de plantão. Era véspera de ano novo, o trânsito estava caótico na BR116 e existia sempre os motoristas imprudentes. Iámos de Porto Alegre a Gramado, passar o feriado com a avó de Ana. Eu dirigia, minha cunhada no carona, Beto e as crianças no banco de trás.

Júlia e Elias estavam em suas cadeirinhas, eu usava cinto de segurança, mais por medo de ser multada do que por proteção, confesso.

Eu ia devagar, no limite permitido, conversando animadamente com Elias e Ana. Julia e Beto dormiam, pois ainda era cedo, e todos tínhamos acordado por volta das cinco da manhã.

– Mas quero ir ver o papai Noel e a neve, mãe — reclamou Elias, sempre sorridente e bondoso.

Ana sorriu, como sempre fazia quando via o pequeno chamá-la assim.

– Vamos ver se ele ainda estiver na casa dele por lá, tá bom? — ela disse, olhando para trás — A neve você vai ter de esperar...

Não deu tempo que ela terminasse. Mal deu para eu mesma ver o carro vermelho vir na minha direção, tentando ultrapassar e bater ao lado do meu carro. Foram sete segundos.

Segundos fatais.

***

Acordei com o airbag no meu rosto, e uma multidão de pessoas em volta do carro. Ana estava sendo retirada para uma maca, parecia ferida, a batida foi forte do lado dela do carro e o airbag dela parecia não ter funcionado.

Julia estava chorando no colo de um socorrista, e Elias estava de pé ao lado de um saco preto. Estremeci ao ver o rostinho dele, triste e desamparado.

– Senhora — o socorrista ao meu lado chamou — Está acordada? Sente alguma dor?

Fiz que não com a cabeça. Uma parte de mim doía, mas não era fisicamente.

– Quanto tempo faz que ocorreu o acidente? — perguntei — Onde está meu irmão?

Ele apontou o saco preto ao lado de Elias, minhas suspeitas estavam certas. Mordi o lábio, tentando segurar as lágrimas. Em vão, claro.

– Sinto muito — ele disse.

Ele me ajudou a sair do carro, perguntando o tempo todo se eu sentia dor e tontura. Dor sim, no peito. Mas não falei em voz alta.

Peguei Julia dos braços do outro socorrista. Ela estava bem. Elias também estava. Qual foi a falta de sorte do meu irmão?

Finalmente olhei o acidente. O carro vermelho batera — ironicamente — do outro lado do carro, o lado em que Ana e Beto estavam, esmagando o carro, deixando intacto o meu lado.

Vi Ana ser levada para a ambulância, meus dedos tremiam.

– Quero ir junto — falei a um dos socorristas, um que eu não vira ainda.

Eles se estreolharam e fizeram que sim com a cabeça. Entramos eu, Julia e Elias. Este último me olhando com rostinho triste, mas sem chorar.

– Mamãe também vai virar uma estrela? — ele perguntou, olhando Ana ligada a um aparelho de oxigênio.

Franzi a testa.

– Quem te contou sobre papai ser uma estrela? — eu perguntei.

Ele levantou os ombros.

– Uma moça linda, de olhos de flores — ele disse, com olhar sonhador.

Ignorei a imaginação (Será?) dele e esperei a chegada ao hospital.

***

Esperei com meus sobrinhos por mais de horas na recepção. Tínhamos feito exames, mas todos estavam bem, inclusive o bebê. Rodrigo estava sentado ao meu lado, me apoiando.

Quando finalmente o médico, doutor Bento, veio me ver, sua expressão não era das melhores.

– Rodrigo, posso pedir sua ajuda aqui?

Bento Amaral nunca gostou muito de Rodrigo, apesar de ele nunca ter percebido a apatia do outro. Estranhei a atitude dele, mas aguardei.

Quando Rodrigo voltou, quase meia hora depois, me abraçou com força.

– Laura, meu amor — ele tocou a mão no meu rosto — Ana se foi.

O choro rompeu minha garganta, sufocado e soluçado. Elias fez carinho no meu cabelo, ainda não chorava.

– Não chora, tia — ele balbuciou — Mamãe está bem agora. A moça bonita me disse.

Olhei, curiosa, o rostinho do pequeno, que parecia iluminado agora.

– Como era essa moça, Elias?

Ele sorriu.

– Linda como uma flor — ele contou — Tem cheiro bom e seus olhos brilham. E tem a pele de chocolate, como eu.

Isabel me veio a mente, claro. Fiquei entre a tristeza e o entusiasmo.

P.O.V Edgar

Não foi nenhuma surpresa pra mim quando descobri a traição de Catarina.

Ela não me amava, nem eu a ela. Não senti ciúmes, nem rancor. Só o vazio.

– Se quer mesmo ter um caso com meu irmão — avisei — Faça o que quiser, não me importo. Só não quero indiscrições. Se alguém ficar sabendo, vou ser taxado de corno e não quero isso, ok?

Ela concordou. Fazem quase três meses que estão juntos. O mesmo tempo da gravidez de Laura.

Hoje já está mais saliente e irritante. Catarina tem sido absurda, deixando Melissa de lado pra encontrar com Fernando, o que me faz querer esganá-la.

Não por ciúmes. Mas por sua abnegação como mãe.

Está fora de controle.

(NARRADOR)

Laura chorou por horas, depois que chegou em casa, até enfim, ter coragem de ir ao cemitério. Os dois caixões (um deles fechado) trazia uma sensação de morbidade que a deixava ainda mais desolada.

Julia passou o tempo todo com Laura, perguntando seguidamente onde estava papai, ou quando mamãe ia acordar.

Era de doer o coração.

A mãe de Ana estava lá, ridiculamente chorosa, apesar de não ver a filha desde que descobriu a gravidez. Hipócrita.

Alice também estava, a aluna mais velha de Ana, da aula de tênis, e chorava copiosamente, como se tivesse perdido uma irmã.

Mas quem mais sofria era Constância e o marido, que nunca foram vistos tão desajeitados e tristes.

O maior sofrimento era ainda a causa do acidente. O motorista bêbado morrera também, levando junto a namorada. Foi culpado por quatro mortes. Idiota.

Na madrugada alta, Laura saiu para uma caminhada pelo cemitério. O ar da noite estava quente e os grilos pareciam chorar também.

– Alô? — ela atendeu o celular no primeiro toque, era Edgar — Desculpe estar chorando.

Ele suspirou.

– Eu sei, Rodrigo me contou — ele disse, do outro lado — Sinto muito, Laura.

Ela fungou.

– Vou ficar bem.

– Sempre fica.

E foi isso. A conversa mais curta de Edgar e Laura.

– Como está Edgar e Mel? — a voz de Rodrigo, abraçando-a por trás, era preocupada.

– Ele não disse — ela respondeu — Por quê?

– Ele está se divorciando — Rodrigo explicou — Está triste, eu acho. Ela deixou Mel.

Laura ficou surpresa. Deixou que o abraço do marido a consolasse.

Notas finais
Pois é, Amizade Colorida está na reta final :/ Não sei quantos capítulis ainda vai ter, mas vai acabar em breve... Queria escrever ela pra sempre, mas esse ano é de vestibular, terceirão, curso, trabalho... Coisa demais, prefiro diminuir o número de fics, infelizmente... Bom, mas nada de despedidas ainda. Até a próxima ;)