Amizade Colorida
14 Desmoronamento
Notas iniciais
P.o.v Laura
Fazia muito calor. Exatamente no dia de finados, o dia em que eu e Rodrigo nos conhecemos, nascia Bolivar, nosso pequeno herói. Demos a ele o nome de um personagem importante na história do estado em que o pequeno nascera.
Rodrigo era um homem perfeito. Me tratava como uma princesa, era um pai excelente, apesar de seu trabalho o impedir de me ajudar como deveria. E além de tudo, ainda atende de graça aquelas pessoas que precisam, doa sangue todos os meses, faz multirões de doações de alimentos aos bairros pobres de Porto Alegre.
Por muitos era considerado um 'pai dos pobres'.
Quando Bolivar ainda tinha poucos meses, fiquei grávida de Anita. Também escolhemos pra ela um nome de uma heroína da sua terra natal.
E foi isso que minha pequena guerreira foi. Uma heroina. Quando nasceu, fez os exames de rotina de um recém-nascido, e foi diagnosticada com uma leucemia rara. Ao invés de não produzir leucócitos, ela nascera com um defeito nas fabricações deles. Vinham todos 'estragados'.
Eu e Rodrigo corremos por nove meses com tratamentos de todo tipo, ou pelo menos aqueles que eram permitidos a um bebê. Ela não só não respondia a eles, como piorava a cada exame, nos fazendo desesperados. Decidimos por outra gravidez logo que descobrimos a doença de Anita, para que o irmão tivesse chance de ser o doador de medula, já que Bolivar não era compátivel. Engravidei logo depois da quarentena.
Infelizmente, Deus não quis que acontecesse assim. Com oito meses, em uma noite que Rodrigo estava em uma cirugia complexa em um paciente necessitado, Anita morreu. Eu estava com minha mãe no quarto do hospital, sem forças e sem chão. Cgorei por mais de uma hora até que Rodrigo chegasse e doutora Flora, a pediatra, lhe desse a notícia. Ele ficou com a filha por horas nos braços, num misto de desespero e culpa.
Desde esse dia, Rodrigo passou a trabalhar só na ONG, e uma vez ou outra era chamado pra uma emergência, mas nunca mais nos deixou sozinhos por um plantão. Decidiu se dedicar a sua família, que era mais importante que dinheiro ou caridade.
Leonor nasceu três meses depois, com saúde de ferro e com as expressões que faltavam em Bolivar, que era a cara do pai. Conforme as coisas voltavam a rotina, e eu voltava da licença luto e depois maternidade, Rodrigo pôde retornar aos poucos ao trabalho, onde voltou a passar longas jornadas.
Era noite de sexta-feira, tudo estava calmo e silencioso, Leonor dormia e Bolivar assistia Pokemon na televisão. Rodrigo trabalhava e tudo estava em paz outra vez.
Certa vez, estive no hospital para entregar o lanche que Rodrigo esquecera. Foi então que Flora me viu, e comovida, me contou que estava de casamento marcado com Bento Amaral. Casaram dois meses depois, numa festa íntima, e há quem diga que nem mesmo casaram no papel. Pra mim não faz diferença, casamento é casamento e ponto.
***
P.o.v. Edgar
Para um advogado, não há nada mais humilhante que ter alguém criminoso na família. Não foi fácil, mas foi a escolha deles.
Eu sabia do caso de Catarina com Nando, e isso não era segredo. Já chegaram a me perguntar se eu não tinha vergonha de ser corno, e seguindo um conselho de Laura, disse que ninguém era corno se tinha um relacionamento aberto. E que mulher tinha os mesmos direitos de um homem.
Quem diria que um cara machista como eu ia ser obrigado a pensar assim um dia, mesmo sabendo que quem me dera esse conselho, era a feminista mais maluca da história.
Laura era contra o aborto, mas não criticava quem o fazia. Era a favor da liberdade sexual da mulher, mas era moralista dentro do próprio casamento. Seu jeito de pensar era legal, eu acho que acabava por entrar na dela.
Nunca imaginei que teria de defender meu irmão e minha ex-esposa por um assalto a um banco. Mas foi o que aconteceu.
Os dois estão presos nos próximos 80 anos.
Sorte Melissa ser tão inteligente quanto eu.
Quem me preocupava com sua falta de percepção era Laura. Podia jurar que Rodrigo estava aprontado ou pelo menos, fugindo de ajudar com as crianças. Ninguém trabalha tanto por nada.
Mas Laura está cega de paixão por ele. Não posso culpá-la, o cara tem um magnetismo impressionante, qualquer um gosta dele.
Mas tem alguma coisa aí.
***
(NARRADOR)
Divorciado e sozinho, Edgar busca na filha um meio de continuar vivendo.
Depois de perder o irmão, Ana e a filha, Laura tem de se ver em duas para criar os fillhos e os sobrinhos, com a pouca ajuda da mãe e sem a ajuda de Rodrigo, que chega cada vez mais tarde em casa, quando chega.
O desmoronamento está completo para oa dois?
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