Amizade Colorida

23 Capitulo extra Flash On - parte 2


Notas iniciais
Não deu tempo de escrever todo o capítulo... mas tá aqui o final dele

Bento alcançou a toalha a Rodrigo, que se enxugou em silêncio, com gestos lentos e vestiu-se.

–Tá tudo girando — reclamou.

– Faz dois dias que não come — o outro deu de ombros.

Foram para o quarto, onde Laura entrou, trazendo um prato de canja, e sentou-se.

– Tome a sopa, Rodrigo.

Ele sacudiu negativamente a cabeça. Sentia na boca o calor e o gosto da fome, mas tinha medo de comer. Deu de ombros e engoliu a canja, sem sentir o gosto.

Ouviu os gritos dos filhos. Um carro de som alto passava perto de casa. Alguém em algum lugar discutia. Laura estava de olhos secos.

– Abre os olhos, Rodrigo!

Por que estavam tratando ele como criança? Precisava de carinho, sentia-se infeliz, estava fraco, doía o corpo.

– Agora vai ver a Flora — ordenou Laura.

Ele fez que sim com a cabeça, obediente.

– E depois pode comer sozinho. Tenho que dar comida pras crianças.

***

Rodrigo andou até a sala, tudo girando a sua frente, manchas surgindo em frente aos olhos. Viu um vulto, pensou estar louco. O vulto era seu estagiário. Queria xingá-lo pelo calmante, mas chorou abraçado ao garoto.

– Eu matei Alice, Dante! — gemeu ele, com o rosto encostado no peito do outro, que lhe acariaciava as costas.

– Não, doutor. O senhor é médico, sabe que depressão é algo sério. O senhor fez o que pode. Todos fizemos. Mas ela escolheu isso.

Rodrigo endireitou o corpo, enxugou as lágrimas com as pontas dos dedos.

– Vou ver Flora... — balbuciou.

– Fale de Alice, ela precisa chorar...

Rodrigo teve um momento de pânico ao ver a mãe de sua filha, e quase correu. Olhou Dante e se dirigiu a Flora.

De súbito, como uma represa que se rompe, Flora desatou o pranto.

***

Naquele dia ainda, Neco veio ver Flora. Ao passar pelo quarto, Rodrigo lhe olhou de olhos parados e tristes. Neco pôs a mão no ombro do amigo e murmurou:

– Vai ficar tudo bem. Tudo passa.

Outra vez as janelas estavam fechadas e as luzes apagadas. Neco acendeu a luz.

– Não tem explicação. Por mais que eu pense, não compreendo. Quando criança, Flora tinha súbitas crises de depressão. Eu a tratava, pscicologos também. Não me preocupei. Vi quando ela começou a emagrecer, a ficar triste, mal falava. Achei que fosse crise de adolescente...

Calou-se. Neco não disse nada, olhava o chão.

– Ninguém pode me culpar, pode?

– Claro que não!

– Quando vi minha menina lá...

– Agora não adianta falar...

– Mas eu preciso falar!

– Tá bom, então fala.

Rodrigo não falou, lágrimas de novo rolaram pelas faces. Neco esperou.

– Pensa, Neco. Sabe o que é ver um pedaço de mim, minha filha, sofrendo e depois morta, pelas próprias mãos? Não é idiota? A vida não tem sentido!

Cobriu o rosto com as mãos e chorou. Neco o abraçou. E por fim, estavam os dois chorando.

Elias passou aos gritos pelo corredor.

– Dá graças a Deus por seus 4 filhos. Ele sabe o que faz.

– Sou um fracasso, Neco. Um caco de homem. Pensei em me matar também.

– Rodrigo!

***

No dia seguinte, Flora reagiu. Tudo voltou ao normal, menos Rodrigo. Nunca mais ele apareceu no hospital. Se desiludiu com a própria profissão.

Quando por fim, Laura passou a ficar noites inteiras fora de casa, ele teve certeza. Laura estava traindo seu casamento com Edgar.

Sabia que não podia culpá-la, nem ficar revoltado. Ele tinha sido um idiota, ela tinha o mesmo direito, afinal, viviam uma relação de igualdade.

Fez o que pode e deu tempo. Cuidou dos filhos na ausência dela. Fez a comida deles, foi o pai que nunca fora. Deu seu tempo a eles.

Quando Laura chegou naquele dia, ele o viu. O homem que tinha prometido sua morte, o observava de arma em punho. Abraçou Laura sabendo que seria a última vez.

Queria que Laura fosse feliz. Porque ele não foi.

Esse foi seu último pedido a ela.