Amizade Colorida
22 Capitulo extra Flash On
Notas iniciais
(Narrador)
A morte de Alice fez Rodrigo ficar em um desespero profundo. Ainda no cemitério, quando Flora caía desmaiada nos braços do marido, Rodrigo abraçou o corpo da filha e pôs-se a gritar em um doido desespero. Foi Dante, seu estagiário, quem lhe deu uma injeção calmante, mesmo este também chorando como uma criança.
Horas mais tarde, quando acordou, ficou como que um zumbi, caminhando pela casa com ar de sonâmbulo, murmurando coisas sem nexo, os olhos vazios e parados, a boca entreaberta, os lábios moles — e assim andou pelos quartos como quem, tendo saído em busca de alguma coisa, no caminho se houvesse esquecido o que era.
Laura o seguiu por toda parte, sem dizer nada. Quando a viu, sua expressão entre o medo e o pânico, Rodrigo soltou um gemido, deitou-se na cama e chorou convulsivamente. Ficou ali horas e horas, e quando a mulher tentava tirá-lo de lá, gritava: "Me deixa morrer, Laura!"
No quarto, as janelaa fechadas, fazia um calor abafado. Anoiteceu, e ele nem sequer ligou a luz. Ouvia passos e vozes, sentia Laura parar atrás da porta. Odiava todo mundo. Odiava a vida. Não ia deixar ninguém entrar. Não queria comer. Ia morrer de fome e sede.
Sentia o suor escorrendo pelo corpo, que doía. Fazia dias que não tomava banho, nem trocava de roupa. Sentia o próprio cheiro, ficava com raiva de si mesmo, e com isso se castigava pela culpa que sentia. Ah! Ele não tinha perdão. Como um médico neurologista pode deixar a própria filha tirar sua vida? A Medicina é uma farsa. Se Deus existia, por que o castigava tanto?
Que ia fazer de sua vida? Mexia-se na cama, a sede o consumindo. Pensou em abrir a janela, respirar onar da noite. Mas não merecia aquele alívio. Onde Alice estava só existia noite e morte.
Então veio a mente que Alice estava apodrecendo. Soltou um grito, levou as mãos aos olhos — Não! Não! — tentou não pensar nisso. Mas foi inútil. Começou a bater a cabeça na parede, cada vez mais forte, até que doesse. Chorou outra vez, tendo certeza que era um castigo. Rolou na cama, mordeu o braço, fazendo-o sangrar. Ele era podre. Não queria mais viver.
***
As horas passaram.
Houve um momento em que Rodrigo ficou deitado de costas, as mãos sobre o peito, como um morto. Tentou se mover, mas não conseguiu. Tentou falar, mas não houve som. Viu vultos. Ouviu vozes. Olhou em torno, e por alguns segundos, ficou apavorado, sentindo o coração disparar.
Pesadelo... Enxugou com a ponta da colcha o suor do rosto. Desejou de novo abrir a janela, sentia-se asfixiado. A sede aumentava.
Veio então, a ideia do suicídio, o que lhe deu esperança. Pensou no canivete que tinha na gaveta. Se abrisse as veias dos pulsos, morreria sangrando na cama. Seria uma morte boa. O sangue alagaria o chão, escorreria pra fora do quarto... Quando Laura ou os filhos arrombassem a porta, encontrariam só seu corpo. Tudo acabaria.
Que horas são? Laura e as crianças devem estar dormindo. Deus era testemunha do que queria. Queria morrer, precisava morrer. Era um assassino. Tinha matado os pais de desgosto. Tinha matado Anita. E era também culpado pela morte de Alice.
Sabia que tinha sido negligente.
Se ao menos pudesse tomar um pouco d'água. Sua bexiga parecia que ia estourar. As mãos tremiam. A fome lhe dava ânsia.
***
Quando acordou, a janela estava aberta, e Laura ao lado da cama. Ficou olhando a esposa por minutos. Ergueu-se sentindo a cabeça pesada e dolorida, um gosto amargo na boca.
– Bento me ajudou a arrombar a porta.
– Fecha a janela.
– Não, Rodrigo.
– Essa luz nos meus olhos.
Ela ignorou.
– Bento e Flora estão aqui.
– Me deixa em paz — gemeu.
– Não. Já deu o que tinha que dar. Tá todo mundo preocupado contigo, e to com medo, Rodrigo... Sabe que horas são? Quase meio-dia.
Rodrigo fechou os olhos, apertando as pálpebras, como as crianças fazem quando fingem estar dormindo.
– Por favor, Rodrigo — implorou Laura — Por que pensa que só você está sofrendo? Flora tá numa agonia danada, passou a noite em claro, não conseguiu chorar. Devia ajudar ela, meu amor. Sempre pensei que fosse muito mais forte que eu, que fosse um homem.
Ele a olhou, os olhos lacrimejantes.
– Me insulta, Laura, eu mereço.
Rodrigo sentia calor, ardia na pele.
– Vamos, Rodrigo, sai da cama — choramingou Laura.
– Por favor, minha prenda, me deixa aqui.
– Rodrigo, já chega — ela foi firme agora — Toma um banho e faz a barba, pelo amor de Deus!
Rodrigo virou-se deitado de bruços.
– Escuta o som das vozes das crianças, Rodrigo. Lembra que ainda tem quatro filhos. O mundo não acabou.
– Acabou pra mim. Sou um mau marido e um péssimo pai.
Laura revirou os olhos.
– Amanhã passa essa culpa, conheço você.
– Você não entende, Laura, nunca traiu alguém. Nunca foi castigada com a morte de suas filhas.
Laura baixou a cabeça, a culpa batendo forte. O marido percebeu, mas fingiu não ter notado.
Bento surgiu na porta, irritado. Ignorando Laura e a última cena que viu, puxou Rodrigo e o arrastou como um boneco. Rodrigo deixou-se levar até o banheiro.
Bento tirou as roupas do homem e sua frente, o colocando em baixo do chuveiro. Estava ali por Flora e Laura, odiava aquele homem. Ficou com tanta raiva que rasgou a calça do outro, com fúria.
–Agora toma teu banho, Rodrigo — resmungou — Por que tá chorando agora?
Rodrigo tomou a água do chuveiro, e finalmente rendeu-se e tomou banho.
– Laura tá me traindo, Bento, eu vi nos olhos dela — ele cuspiu as palavras — E é claro que o cara é o Edgar.
Bento riu.
– Aqui se faz, aqui se paga, e na mesma moeda, Rodrigo.
Rodrigo arregalou os olhos, surpreso.
– Você...
– Eu sei de tudo — ele tinha um sorriso sarcástico — Alice deixou carta e fotos contando tudo. Ela se matou por sua culpa, sabia?
Rodrigo fez que sim, a expressão desolada.
– Não vou perdoar, Rodrigo, vou matar você — ele gargalhou — Só vou esperar você perceber com os próprios olhos que você é corno.
Ninguém falou.
– Laura acha que você tem que ajudar Flora.
– Como?
– Ver você vai fazer ela chorar.
– Não quero ver a Flora.
– Por quê?
– Tenho medo.
– Deixa de ser idiota uma vez na vida, Rodrigo! Você chorou por horas. Ela não. É como ter uma bola na garganta, é horrível.
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