American Movie
19 With him, in that bus, forever...
Notas iniciais
– Obrigada, Austin! Obrigada — murmurou, chorando novamente em meu pescoço.
Ainda em meu colo, ela se afastou um pouco, apenas o suficiente para colar seus lábios aos meus, beijando-me em frente a sua mãe. Não me importei com esse último detalhe, pelo contrário, levei uma das mãos que estavam a segurando até seu rosto, emaranhando-a em seu cabelo e aprofundando o beijo.
Era impressionante o choque eu sentia quando sua língua tocava a minha. Ficamos ali, apenas demonstrando o quanto estávamos conectados, por alguns minutos.
Separamo-nos, sem ar. Allycia encarou sua mãe, envergonhada. Soltei-a. Seus pés tocaram o chão de maneira tão delicada, que ela quase caiu. Segurei sua cintura, colando seu corpo ao meu.
– Espero que você tenha gostado da surpresa — murmurei, ofegante.
– Eu amei, Austin. Obrigada.
POV Ally — 27 de fevereiro de 2014
Austin, minha mãe e eu caminhamos até em casa, onde Austin decidiu que nos deixaria conversar.
Subi para o meu quarto e sentei-me na cama, ao lado de minha mãe.
– Então... Conte-me todas as novidades! — exigiu.
– Oh, mãe, tanta coisa aconteceu...
– Eu reparei! Digo, e Dallas? Kira? Cassidy? — perguntou, confusa.
– Dallas me traiu com Kira. E Cassidy, bom...
Mamãe me encarou assustada.
– Como assim, Ally?
– Como assim o quê? Eles ficaram, simples assim.
Sua mão segurou a minha com carinho e fez um leve carinho com o polegar.
– Como você se sentiu? — questionou, preocupada.
– Péssima. Mas se você quer saber, aquela foi, de todas as formas, a melhor noite da minha vida — ela abriu a boca para falar, mas eu continuei — Austin me encontrou no pátio, chorando, debaixo de uma videira. Ele me abraçou e... Bem, na verdade, eu o abracei — rimos — e depois ele me levou para o quarto, cuidou de mim e me fez esquecer o Dallas.
– E agora você está apaixonada por ele — concluiu.
– É, acho que sim — respondi, indiferente — Eu gosto dele. E ele de mim. Mas tudo é tão complicado...
– E por que é complicado, querida?
– Porque papai não o aceitaria... — murmurei.
– E por que não? Os dois parecem se dar tão bem! Estão lá na quadra, jogando basquete!
– Papai acha que o sobrenome do Austin é Turner.
– Turner? Tipo, Cassidy Turner?
– É... Mas o nome dele não é Austin Turner, é Austin Moon... E ele é órfão.
Mamãe abriu a boca, chocada.
– Você mentiu para o seu pai?!
– Eu gosto dele! — justifiquei-me — Sabe, mãe, o Austin foi a primeira e única pessoa que não se aproximou de mim pelo meu dinheiro ou pela minha popularidade. Ele se aproximou, porque acreditava que eu podia ser diferente do que aparentava. Ele acreditou que por trás daquela Ally cruel, que caçoava todos, existia uma garota doce e com um coração. E essa Ally existe! E sabe o que me faz mais feliz?! É que essa Ally é a Ally que eu estou sendo agora.
– Só tome cuidado, querida... Seu pai um dia descobrirá e eu sei que ele não ficará contente com isso tudo.
– Eu sei disso, mas eu realmente quero aproveitar o agora. Eu nunca me senti tão bem! — um sorriso involuntário escapou de meus lábios — Austin me faz bem.
A imagem do garoto loiro apareceu em minha porta com um sorriso sacana.
– Então... Eu te faço bem?
– A-Austin, você... O que está fazendo aqui? — eu com certeza estava corada agora.
– Mayra está chamando para um lanche. Você virá?
Encarei minha mãe envergonhada.
– Ally? Ally?! O que aconteceu?!
Sacudi a cabeça, afastando Austin de meus pensamentos.
– O que foi? — perguntei.
– Você estava encarando a porta com um sorriso idiota. Aconteceu algo? — seu riso se transformou em um sorriso malicioso — Estava tendo um devaneio?
– Eu acho que sim, argh, ele não sai da minha cabeça.
Mamãe sorriu e antes que pudesse dizer qualquer coisa, Austin apareceu, dessa vez de verdade, na porta.
– Mayra está chamando para um lanche. Você virá?
Mesmo sem motivos, não pude deixar de corar ao assentir. Austin segurou minha mão e, juntos, descemos as escadas em direção à sala.
(...)
Papai sorria para mamãe discretamente.
Isso estava sendo muito estranho!
Austin estava sentado ao lado de meu pai na mesa, e eu, ao lado de mamãe e de frente para o Austin.
Papai fazia comentários sobre como ele e mamãe eram felizes, sobre os passeios que faziam, sobre o primeiro encontro, o primeiro beijo e a primeira vez. Sim eles estavam conversando sobre isso.
As coisas estavam andando normalmente, até papai começar a sorrir para mamãe, de forma encantadora, e ela corar e começar a gaguejar.
– Sua mãe ainda gosta de seu pai — Comentou Austin, em um murmúrio.
– Acho que percebi isso.
– Com licença — pediu papai — Vou ao toilet. Volto logo.
Assim que meu pai saiu, encarei mamãe, reprovando-a.
– Você está disfarçando muito mal!
– Disfarçando o quê? — questionou, fazendo-se de sonsa.
– Você ainda o ama! — não pude conter um gritinho de felicidade — E ele ama você também!
– Que bobagem, Allycia!
– Sim, sim, sim! Por que terminaram, se ainda se amavam?
– Oh, Ally! Tanta coisa impede relacionamentos... Tempo, distância, dinheiro...
– Dinheiro? — Austin perguntou, deixando a ironia transparecer.
– No nosso caso, exatamente. Lester sempre se importou demais com o dinheiro e isso estava me deixando irritada! Ele não mostrava seus sentimentos com carinhos e palavras, mas sim com dinheiro. Lester me deixava gastar quanto quisesse, em que quisesse, demonstrando que eu era, na verdade, mais importante que todo aquele dinheiro. Mas eu estava enlouquecendo! Eu não queria mais joias e roupas! Eu queria amor, Ally.
Sorri tristemente para mamãe, mas logo desfiz minha expressão, vendo que papai voltara.
– Austin e eu temos um anúncio!
Austin sorriu, presunçoso.
– Ally, eu sei que você e o Austin mataram aula segunda, terça e hoje — começou meu pai — Eu estava pensando em relembrar os velhos tempos... E, bom, eu queria propor, Ally, que vocês dois viajassem por quatro dias, emendando a semana toda, e me deixasse sozinho com a sua mãe.
– Sozinhos? Pra que vocês vão querer ficar sozin... Oh.
– Nós dois, Lester? — perguntou minha mãe — Mas por quê?
– Oh, querida, eu quero matar as saudades!
– Mas ela acabou de chegar! — contrariei — Eu queria passar mais um tempo com ela!
– Ally, — Lester riu fraco — sua mãe ficará aqui conosco até o fim de março.
– Mais um mês? — perguntei, animada — Isso será ótimo!
E, bom, passar quatro dias sozinha com o Austin, em outra cidade, também. Oh, meu Deus! Sozinhos! Isso será tão... tão... Oh.
– O que me diz, Allycia? — perguntou Austin, um pouco tímido.
– Para onde vamos?
– Será surpresa!
Fiz um bico e recebi em troca um selinho rápido. Meu estômago se revirou com aquele simples toque e minhas bochechas queimaram.
Austin, por Deus! Meus pais ainda estão aqui!
– Quero que saiba, Ally, — papai começou — que eu não tenho um dedo nisso.
– Como não? — perguntei, confusa. Com "eu não tenho dedos nisso" meu pai queria dizer "eu não dei nenhum dinheiro para que isso acontecesse".
– Eu bancarei nosso passeio, Allycia — Austin disse, sorrindo.
Abri a boca, incrédula. Não, isso é demais!
Papai e mamãe se retiraram, afirmando que iriam jogar buraco.
– Como você vai pagar quatro dias de viagem sozinho, Austin?
– Eu... Tenho o dinheiro, Allycia. Eu só quero te ver sorrir, sinceramente.
– Austin, não! Você não pode gostar tanto comigo, não pode!
Eu estava nervosa. Mas não nervosa do tipo brava, e sim nervosa do tipo... Ansiosa. Eu não podia acreditar que Austin estava fazendo aquilo para mim.
– O ônibus parte hoje à noite, eu arrumaria minha mala, se fosse você.
– Ônibus? — perguntei.
– É... — ele coçou a nuca, envergonhado — É o que deu para pagar com o dinheiro.
– Aus...
– Não, está tudo bem. Eu devia ter imaginado que isso seria demais para você — ele parecia desapontado — Você não precisa ir se não quiser, eu vou entender, Allycia...
– Eu não disse que não quero ir, Aus... — toquei seu rosto com carinho — Eu vou adorar andar de ônibus pela primeira vez em minha vida.
E então Austin sorriu, beijando minha testa.
(...)
Comecei a arrumar minha mala.
(...)
Troquei alguns beijos com Austin, em minha cama.
(…)
Voltei a arrumar minha mala.
(...)
Beijamo-nos mais algumas vezes, até rolarmos da cama, caindo no chão.
(...)
Terminei de arrumar minha mala.
(…)
Fiz uma aposta com Austin de que não nos beijaríamos até o dia seguinte. Austin acreditava que conseguiríamos. Eu acreditava que não.
(...)
Austin e eu estávamos na rodoviária, aguardando o horário do ônibus. Fazia frio e ventava bastante. Eu usava uma calça jeans e um sobretudo vermelho, enquanto Austin usava uma calça, também jeans, e uma jaqueta de couro. Ele ficava sexy com aquela jaqueta...
– Aus! Posso ir na janela? — pedi, animada.
– Claro, não tem problema.
Dei um pulinho de felicidade e Austin riu.
– Tudo bem, tudo bem. A viagem será de cinco ou seis horas e você provavelmente dormirá.
– Provavelmente não... Eu com certeza dormirei! Mas e você? Não vai dormir?
– Ahn, não, eu não vou.
– E por que não?
– Porque eu passarei a noite te observando, para ver se você está dormindo bem.
Oh. Isso foi tão... possessivo.
Eu estava quente. Nossa...
Austin entregou as passagens ao motorista e deu nossas malas, para que ele as guardasse no bagageiro. Procuramos nossos assentos e nos sentamos.
O interior de um ônibus era realmente divertido. O banco deitava! Havia uma cortina com velcro, para fechá-la, caso necessário. Havia também uma luz e uma saída de ar no topo de cada assento.
Austin sorria o tempo todo e eu, por um momento, imaginei o que havia em sua cabeça.
Eu. Ele. Sozinhos.
– Onde vamos dormir nesses quatro dias? — perguntei, curiosa.
– Há, essa é a parte engraçada... — ele, mais uma vez, estava com vergonha — Eu não tive dinheiro para alugar dois quartos, então dormiremos no mesmo.
– Na mesma cama? — perguntei, já um pouco ofegante, sentindo meu corpo esquentar.
– Sim, na mesma cama. Fazemos isso todos os dias, não será tão diferente.
Ah, Austin, é claro que será diferente! Geralmente, estamos na escola, onde há um inspetor e regras! Mas dessa vez estaremos em um quarto de hotel, sozinhos, sem ninguém para nos impedir de fazer o que bem queremos.
– Estou começando a pensar que os seus pensamentos são bem maliciosos e pecaminosos no momento... — Austin ofegou e eu sorri, mordendo o lábio.
– Não estava pensando em nada — desconversei.
Uma pergunta ainda rodeava minha mente... Como? Como?
– Aus, posso te fazer uma pergunta?
– Claro, pequena...
– Como conseguiu o dinheiro?
Austin soltou um pouco de ar e hesitou em dizer:
– Eu vendi minha guitarra.
ELE O QUÊ?
– VOCÊ O QUÊ?
– Shiiiiii!!! — algo em torno de dez pessoas disseram, em uníssono.
– Eu vendi minha guitarra.
– Mas o quê? Por quê?
– Porque eu queria te trazer para esse passeio!
– Austin, isso não era necessário — reclamei.
– Você está brincando? Allycia, o que eu mais gostava de fazer da minha vida era tocar aquela guitarra! Mas sabe o que me fez sorrir muito mais do que tocar minha Jackie? Sabe? Ver você sorrindo, por causa desse passeio! Por entrar em um simples ônibus e por sentar na janela! Simplesmente por isso! O seu sorriso se tornou aquilo que me faz sorrir, e nada, nem a Jackie, nunca me fez tão feliz.
Aquelas palavras saíram de sua boca e me acertaram como um tiro.
– Você... Ahn... — eu estava sem palavras — Deu o nome a sua guitarra de Jackie?
Austin me encarou bravo e em poucos menos de cinco segundos estávamos rindo como dois loucos.
– Acho que deixei escapar meu segredo obscuro...
Rimos mais um pouco, até nossas barrigas começarem a doer.
Suspirei, encostando-me totalmente no banco. Minhas pálpebras ficaram pesadas.
– Acho que estou com sono... Posso dormir em seu ombro? — pedi.
– Oh, pequena, é claro que sim.
Deitei minha cabeça em seu ombro, enterrando meu rosto em seu peito. Seus dedos se entrelaçaram aos meus e eu senti que poderia viver ali, com ele, naquele ônibus, para sempre.
– Austin?
– Sim?
– Eu posso te beijar?
E ele sorriu, beijando minha cabeça. Desejou-me um "boa noite" rapidamente e apagou nossa luz.
É, eu poderia viver ali, com ele, naquele ônibus, para sempre.

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