American Movie
15 Well, here...
Notas iniciais
Ela sorriu, deitando a cabeça em meu peito. A envolvi em meus braços.
– Por que você me chama de pequena, mas não me chama de Ally? — perguntou, curiosa, sem se levantar.
– Porque todos te chamam de "Ally", ficaria sem graça. Já de "pequena", só eu posso te chamar.
Tá, não era bem por isso. Eu não sei, na verdade, o motivo. Não a chamo de "Ally", pois apelidos significam intimidade, mas se usarmos essa lógica "pequena" é muito mais íntimo...
Ela, porém, pareceu satisfeita com minha resposta, pois sorriu docemente, envolvendo meu tronco com seus braços.
POV Ally — 25 de fevereiro de 2014
Abri os olhos pela quinta vez na mesma noite.
Hoje é segunda-feira, e apesar de ser apenas 1:00 da manhã, eu não consigo permanecer dormindo.
Não sei exatamente o que está havendo, mas não consigo dormir. Eu acordo de meia em meia hora, com um pressentimento estranho.
– Acordou de novo? – perguntou Austin, remexendo-se na cama.
– Sim – bufei – Acho que vou dar uma volta... Não consigo dormir de jeito nenhum.
Levantei-me da cama e caminhei até o armário, procurando uma roupa qualquer para vestir.
– Você não vai sair essa hora na rua sozinha, Allycia.
– Vou sim – contrariei.
– É muito perigoso, garota, acorda. Quer ser estuprada e morrer em seguida?
Sua voz continha irritação e ironia, mas eu não me importei.
– Preciso tomar ar puro, Austin. Não vou conseguir fazer isso com você respirando na minha cara – ri fraco.
– Você é mesmo muito teimosa... – comentou o loiro, levantando-se da cama – Eu vou com você.
– Você vai deitar na cama, ficar quieto e voltar a dormir – resmoneei – Eu sei me virar sozinha.
– Não importa o que diga, eu vou com você.
(...)
– Eu ainda não acredito que você veio mesmo de pijama! – gritei, rindo.
Austin ria também. Já havíamos caminhado por uns 50 minutos, mais ou menos. Estávamos próximos a um parque, que a essa hora estava fechado.
– Eu preciso sentar – resmunguei, cansada.
– O único banco que vamos encontrar nos próximos vinte minutos é aquele ali – disse, apontando para um banquinho de madeira dentro do parque.
– Mas o parque está fechado!
– Vamos pular o muro.
Austin segurou-se na grade, escalando-a. Em alguns segundos, o garoto já estava do outro lado.
– Vem, Allycia.
– Eu não farei isso, estou de vestido!
– Blá blá e blá, já terminou o discurso? Ótimo, agora pula.
Tentei repetir que estava de vestido mais algumas vezes e recebi como respostas “Então! Melhor ainda!” e “Eu prometo que não vou olhar, Allycia.”.
Decidi não relutar mais. Comecei a escalar a grade do parque. Austin me encarava com um sorriso convencido.
– Viu? Não foi tão difícil...
Sentamo-nos sobre os banquinhos e começamos a apreciar as estrelas. Encostei minha cabeça, singelamente, no ombro do Austin e senti sua mão afagar meus cabelos.
– Deite-se – sugeriu.
Estiquei meu corpo sobre o banco e deitei minha cabeça no colo de Austin. Encaramo-nos por alguns segundos. Seu olhar desviou-se para o meu pescoço e uma de suas mãos tocou a mancha.
Voltamos a encarar as estrelas, em silêncio, até Austin quebrá-lo.
– Você gostava dele?
Suspirei.
– É, eu acho que gostava.
– Hm.
Lembrei-me automaticamente da frase dita pelo loiro na piscina: “E se eu te disser que não sei se quero mais ser só seu amigo?”. Austin sentia algo por mim? Gostava de mim? Não, não é possível, nós... nós nos conhecemos verdadeiramente há poucas semanas!
– Ele te tratava bem? – perguntou, tocando a mancha.
– Não muito, na verdade – engoli em seco. Por que estávamos falando sobre o Dallas mesmo? – Quer dizer, ele me beijava com carinho e me... me tocava com carinho, mas nunca teve amor de verdade.
Austin assentiu. Não estávamos olhando um para o outro. Acho que essa conversa estava sendo um pouco constrangedora para ambos, mas eu sabia que Austin e eu estávamos deixando de sermos apenas “colegas” e estávamos passando a ter um pouco mais de intimidade, então... Por que não começar falando sobre o assunto mais íntimo?
– Na hora, ele foi carinhoso com você? – perguntou, parecendo preocupado.
– Ahn? – olhei para Austin, desentendida.
– Na sua primeira vez...
– Ah... – desviei o olhar, sentindo meu resto queimar – Bem, na verdade, não – Austin me encarou, sério, como se pedisse mais informações – Ele não sabia que era minha primeira vez.
– Ele te machucou?
Sua mão tocou minha face levemente e eu fechei os olhos, aproveitando o carinho. Por que tão fofo, Austin, por quê?
– Não, na verdade. Eu... fiquei bem depois – ri, sem humor – Mas eu nunca quis, de verdade, transar com ele.
Austin me olhou um pouco vermelho. Parecia vergonha por um de nós ter finalmente pronunciado a palavra omitida durante toda a conversa, mas pode ter sido de raiva também. Eu não sabia definir.
– Ele te for...
– Não! – o cortei, preparando-me para ajeitar minha frase anterior – Ele nunca me forçou a nada, ele apenas me convenceu a fazer. Eu não sabia se queria fazer aquilo naquele momento... Eu estava um pouco receosa e ele meio que me encorajou.
Austin soltou um pouco de ar.
– Por que estamos falando sobre isso? – perguntei, corando.
– Quantas vezes vocês transaram?
Prendi a respiração. Ele iria mesmo me ignorar e fazer perguntas cada vez mais íntimas para mim.
– Não sei – respondi verdadeiramente – Acho que 20, 30... Não sei. Nós namorávamos há três anos, então, transamos várias vezes... Ele queria sempre estar ali, o tempo todo... Mas eu não permitia. Qual é? Eu sou uma adolescente americana e não uma prostituta.
Austin parecia cada vez mais irritado com as minhas respostas, mas o que eu podia fazer? Eu apenas estou respondendo as perguntas que ele me faz. Sendo sincera.
– Podemos mudar de assunto? Falar sobre minha vida sexual está me incomodando.
Austin assentiu, sem me olhar.
Observamos as estrelas novamente. A noite parecia cada vez mais bonita.
Senti meu corpo relaxar e fechei meus olhos. O sono finalmente havia chegado.
POV Austin
Eu havia voltado com Ally para sua casa. Ela dormia, mas eu já estava acordado — e pronto para a escola — há alguns minutos.
Acariciei os cabelos da morena. Por que tão bonita?
Sua face serena, com lindos lábios carnudos e rosados, e lindas bochechas brancas... Que vontade de beijá-la!
– Allycia... – a chamei – Allycia?
– Ahn?
– Já são sete horas. Se demorarmos demais, perderemos a segunda aula também.
A garota levantou, espreguiçando-se. Pude observar seu vestido subir levemente, dando-me a perfeita visão de suas lindas coxas estonteantes.
Ally se trocou rapidamente e sai do banheiro, parecendo outra pessoa.
Estendi minha mão para ela, que aceitou rapidamente.
Caminhamos para escola em passos rápidos, para não nos atrasarmos mais.
Ao chegar na escola, Allycia encontrou com Cinthia, a professora de música, e pediu-me que fosse entrando. Disse que conversaria com ela sobre alguns assunto da próxima aula e já me encontrava lá dentro.
Assim que passei pelo portão, senti duas mãos cobrirem meus olhos e uma voz feminina informar:
– Adivinha quem conseguiu fugir da escola e veio te visitar?
– TRISH! – gritei.
A baixinha retirou as mãos do meu rosto e eu pude finalmente me virar, encontrando Trish e Dez.
– Que saudades! – abraçamo-nos ao mesmo tempo.
Olhei para o ruivo a minha frente. Está igualzinho: cabelos ruivos tigelinha, roupas coloridas e sardas no rosto.
– Dez! Que falta você faz, cara! – reclamei e ele riu.
– Sei como é, amigo, sei como é.
– Onde você estava, Austin? Nós estamos procurando você há duas horas! – reclamou a baixinha.
– Estávamos no parque – respondi, simplesmente.
– Estávamos? – Dez perguntou.
Antes que eu pudesse responder algo, Allycia apareceu ao meu lado e segurou minha mão.
A morena, ao perceber que se tratava de Trish e Dez, sorriu timidamente e desfez o gesto, em milésimos de segundos.
– Allycia Dawson? – perguntou Dez – Você está saindo com Allycia Dawson?!
Allycia olhou para o chão, com as bochechas rubras.
– Não estamos saindo, Dez, somos amigos – afirmei.
– Amigos? – perguntou Trish, parecendo enojada.
– Ally não é mais popular, Trish. Dallas a traiu e eu a ajudei.
Trish riu. Uma risada estrondosa e provocativa.
– Ela teve o que mereceu – deu de ombros.
– Ela ainda está aqui, Patrícia! – gritou Dez, parecendo irritado – Deixe de ser imprestável uma vez na vida e veja que a garota sofreu.
Allycia ainda olhava para o chão, quieta. Trish encarou Dez, magoada. Acho que muitas vezes a baixinha se importa com o que o ruivo pensa sobre ela.
– Trish, eu não quero que fale assim da Allycia – Trish me olhou, parecendo um pouco culpada – Eu sou amigo dela agora e sei que ela não é nada do que pensávamos. Pelo contrário, ela consegue ser a menina mais dócil e humilde dessa escola.
Trish sorriu fraco, um pouco envergonhada pelo comentário anterior. Já Dez abriu um enorme sorriso emocionado e, subitamente, abraçou a minha morena, com força. Espera, minha morena? Ah, esquece.
– Posso ser seu amigo? Posso??? – pediu.
– Ér, pode... – Allycia sorriu, sem jeito.
– Uhuhh!! Eu sou amiga de Allycia Dawson, invejosos!
Trish se aproximou de Allycia e começou:
– Desculpe-me, Ally. É que você passou sua vida toda torturando o Austin e ele é meu melhor amigo... Eu estava meio que na defensiva.
A menina murmurou um “tudo bem” e abraçou Trish.
– Vocês ainda não me disseram o motivo de estarem aqui – comentei.
– Ah, como você sabe o Marino tem o melhor ensino dos Estados Unidos... Então percebemos que estávamos adiantados em todas as matérias da nova escola e resolvemos vir te visitar – Dez contou rapidamente.
– Hm, entendi. Bom, querem ir comer? – sugeri.
– Depois – Trish respondeu – Quero conversar com a Ally primeiro – ela sorriu malignamente – Assim você pode colocar seu papo em dia com o Dez, tchauzinho.
Observei Trish arrastar a pobre morena para longe. Ela me olhou com um sorriso de canto e acenou.
– Cara, você está babando por ela – Dez comentou.
– Eu sei, cara, eu sei.
POV Ally
Trish e eu andamos até o quarto de Austin — que é meu também, em silêncio. Assim que entramos, ela exclamou:
– Esse quarto fica muito maior sem três camas!!
Ri um pouco e sentei-me em “minha cama”.
– Falando nisso... Onde você dorme? – perguntou maliciosamente.
– Bom, aqui.
– E o Austin?
– Bom, aqui.
– Vocês dormem juntos? – ela arqueou uma sobrancelha e sorriu travessa.
– Sim, nós dormimos juntos, não vejo nada demais nisso.
Desviei o olhar, sorrindo como uma boba.
– Você gosta dele? – foi direto ao ponto.
– Não sei... Você gosta dele? – perguntei, curiosa.
– Não, não. Digamos que eu gosto do amigo dele – ela sorriu apaixonada e eu logo soube que ela estava falando do Dez.
– Bom, nesse caso, talvez eu goste dele.
E ela sorriu novamente.
– Talvez?
– É, eu não tenho certeza. Quero dizer, nos conhecemos há pouco tempo e nós nem podemos ficar juntos, por causa do meu pai, então...
Seu sorriso se desmanchou, entendendo-me.
– Vocês já se beijaram?
Enrubesci.
– Já, na verdade.
Ela soltou um gritinho estridente e eu ri, envergonhada.
– Quantas vezes?
– Hã, deixe-me ver... Nós demos um selinho e um beijo para provocar o Dallas, depois um beijo de verdade, depois um selinho e um beijo técnico para uma peça de teatro, depois um beijo de verdade que eu não sei exatamente se foi para a peça ou não, e por fim um beijo de verdade, na piscina.
– Uau... Na piscina? – ela sorriu maliciosamente e tocou em meu pescoço – Foi ele?
Assenti, sentindo meu rosto queimar. Que vergonha!
– Meu Deus, vocês transaram?!
– Não, não! Nós somos amigos, nós não, que horror... – respondi rápida e desajeitadamente, cobrindo meu rosto com as mãos – Nós não transamos.
Trish assentiu, parecendo entender o que estávamos passando.
– Quando foi o último beijo de vocês, o da piscina? – perguntou, curiosa.
– Sábado – sussurrei.
– Hm, eu diria que vocês estão ficando, então...
POV Austin
Dez e eu nos sentamos em baixo da videira do pátio.
– Então você está apaixonadinho pela metidinha? – perguntou
– Eu não estou apaixonado – contrariei – E não chame a Allycia de “metidinha”, ela não é metida.
– Totalmente apaixonado – concluiu.
– Cale a boca!
Ele riu, achando graça da minha desgraça.
– Gosta dela?
– Acho que sim.
– Eu tenho certeza que sim.
Ficamos em silêncio, por alguns minutos, mas eu me pronunciei.
– E você, gosta dela?
– Da Ally? Não, claro que não, eu não!
– Não da Ally, Dez! Da Trish!
– Ah – ele desviou o olhar e encarou o corredor vazio que dava acesso as salas – Gosto, gosto sim.
– Estamos ferrados, amigo.
– É, estamos sim.

I'm thinking out loud
Maybe we found love right where we are...
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