American Movie
5 Thank you.
Notas iniciais
Arregalei meus olhos, surpreso. Wow. Nunca pensei que diria isso, mas tenho dó dessa menina.
– E-eu sinto muito.
– Não, não sente — disse voltando a chorar — Acho que o karma² existe mesmo. Estou tendo tudo que mereço.
– Não, claro que não! Ninguém merece uma coisa dessas!
Pensei que ela diria algo, mas não. Ela apenas me abraçou.
POV Austin
A garota permaneceu abraçada a mim, durante uns três minutos. Eu, assustado com sua reação, não sabia o que fazer, apenas a envolvi em meus braços e ela enterrou sua cabeça em meu ombro.
Quando o abraço terminou, ela me olhou um pouco hesitante.
– Desculpe-me — disse de cabeça baixa.
– Ahn, tudo bem... Não tem problema.
Ela limpou as lágrimas que escorriam pela sua bela face e respirou fundo.
– Papai vai me matar.
Olhei para a garota sem saber o que dizer exatamente.
– Vai ficar tudo bem...
– Não, não vai. Eu vou ficar de castigo eternamente, meu pai vai me matar quando descobrir que não sou ninguém.
– Não diga isso. Seu pai te ama, independentemente do que você é na escola.
– O seu pai pode até ser assim, mas o meu não é.
Abaixei a cabeça, triste. "Você ao menos tem pai" pensei.
– O diretor já passou nos quartos, aonde você irá dormir? — perguntei
– Não sei, provavelmente, sob essa videira.
– Vem comigo.
A garota me olhou surpresa, e logo meneou a cabeça.
– Não. Eu não posso.
– Você tem outro lugar para passar a noite?
– Não, mas... Amanhã eu falo com o diretor e explico o que aconteceu. Eu posso trocar de quarto...
– É contra as regras — contrariei.
– Eu tenho dinheiro, posso mover alguns pauzinhos...
– É, eu sei disso — concordei — Não virá mesmo? Vai passar a noite aqui?
– Não há nada que eu possa fazer.
– Pode vir comigo — sugeri novamente.
Realmente, essa menina não merecia minha pena. Ela deveria passar a noite ali e aprender com seus próprios erros.
Mas havia algo nela que não me permitia largá-la ali.
Allycia começou a tremer. O céu, agora já enegrecido, e o vento frio me lembraram de que pegaríamos um resfriado se continuássemos aqui.
Em um gesto cavalheiro, retirei meu casaco e a envolvi.
– Obrigada — agradeceu abraçando o casaco.
– Vamos para o quarto. Você não vai querer pegar um resfriado, vai?
– Obrigada por todo o cavalheirismo, mas não posso aceitar.
Suspirei frustrado. Levantei-me, e em um gesto diligente, a ergui em meus braços.
– Mas...O quê?
– Você vai pro quarto comigo.
A garota soltou um muxoxo e encostou a cabeça em meu peito.
Caminhei por entre os corredores do Marino e, ao chegar em meu quarto, coloquei a garota sobre minha cama. Notei algumas lágrimas escorrendo pelo seu delicado rosto.
Abri meu guarda-roupas e tirei de lá dois cobertores. Estiquei-os no chão, um sobre o outro, formando um pequeno colchão.
– O diretor já passou fazendo a inspeção. Pode ficar tranquila.
A garota assentiu e se encolheu na cama.
POV Ally
O que ele está fazendo?
Depois de encontrar-me chorando no pátio, Austin me trouxe para o seu quarto e decidiu que eu dormiria aqui.
Apesar de ser grata a ele, não posso aceitar isso.
Sempre fui uma pedra no sapato do Austin, impliquei com ele durante anos, fiz brincadeirinhas de mal gosto... E agora ele está aqui, ajudando-me.
Austin colocou-me na cama e fez uma cama improvisada no chão. Quando o garoto tirou a blusa para colocar um pijama, desviei meu olhar, corada. Ouvi uma risadinha cínica.
– Allycia, eu tenho uma blusa que te servirá como camisola. Aceita?
Assenti, agradecida.
Confesso que essa mania que ele tinha de chamar-me de Allycia irritava-me um pouco, mas tudo bem.
Austin estendeu-me a "camisola" e disse que eu poderia usar o banheiro. Levantei-me e entrei no cômodo azul. Assim como os banheiros das meninas, o seu possuía apenas um vaso sanitário, uma pia e um espelho. Os banheiros com chuveiros ficam nos corredores e eram "comunitários".
Troquei-me e avaliei meu reflexo no espelho. Eu estava horrível. Olheiras profundas e maquiagem borrada marcavam meus olhos. Lavei o rosto, tentando melhorar minha aparência.
Sai do quarto e encontrei Austin deitado sobre a cama improvisada.
– Pode deitar — disse ele, apontando para a sua cama.
– Ahn, não, eu vou dormir ai no chão.
– O quê? Não, fique tranquila, pode deitar na minha cama.
Ele não iria fazer isso, iria?
Cruzei meus braços, sentando-me no chão.
– Aceitei dormir em seu quarto, mas não dormirei em sua cama, enquanto dormes no chão.
– Não dormirei em minha cama, sabendo que tenho visita dormindo no chão. Ainda mais sabendo que a visita é uma garota.
– Ótimo.
– Ótimo.
– Tá.
– Tá.
Suspirei. — Não brigaremos por isso, né?
– Durma na cama. Você está frágil e é uma menina.
– Se você não vai dormir na cama, dormiremos juntos nesse tapete!
– Então vamos dormir juntos na cama.
Revirei os olhos. Que garoto teimoso!
– Tudo bem. Vamos.
Seu quarto possuía um formato retangular. De um lado a porta, e do outro a cama. Esta possuía uma das laterais grudadas na parede. De um lado da porta, o direito, em relação à cama, havia um escrivaninha cheia de livros e papeis. Já no esquerdo, havia um armário marfim. O banheiro, logo ao lado. Ao lado da cama, havia uma estante com mais livros, e alguns CDs. Ao pé da cama, havia um puff, e no meio do quarto, um grande tapete azul felpudo.
O quarto era todo azul claro. Notei que atrás da porta havia um violão e uma guitarra. Interessante.
Deitamos na cama, um de frente para o outro. Austin estava na beirada da cama, e eu, encostada na parede. Mantínhamos uma distância grande.
– Austin...
– Sim.
– Obrigada, por tudo, de verdade.
Ele deu um sorriso de canto.
– Não há de quê.
(…)
Acordei na manhã seguinte com o irritante barulho do despertador.
Abri os olhos lentamente e assustei-me ao ver Austin tão perto. Suas mãos estavam em minha cintura e minha perna esquerda, sobre as suas, puxando-o para mais perto. Ele parecia tão assustado como eu.
Levantamos rapidamente. Austin entrou no banheiro para se trocar e eu informei que iria buscar uma roupa.
Sai do quarto e, com cautela, andei até o quarto de Dallas. Abri a porta sem bater e quase vomitei ao ver que Kira estava deitada com ele, nua.
– A-Ally? O que faz aqui? De quem é essa blusa? — perguntou o garoto, acordando.
– Nada do que eu faço ou deixo de fazer é de sua conta, idiota — disse pegando um vestido e saindo do quarto, batendo a porta.
Entrei no banheiro das meninas e avistei Cassidy.
– Ally?
– O que é? — perguntei um pouco nervosa.
– Olha... Você sabe que eu não tive nada a ver com o que aconteceu, não é? Eu estava um pouco distraída ultimamente e também não notei a aproximação dos dois. Eu não quero te deixar, amiga. Eu me preocupo com você — disse verdadeiramente.
Dei um sorrido forçado: — Tudo bem, Cassie. Sem poblemas.
– Que ótimo, amiga. Agora me diz... De quem é essa camisa? Ela tem um perfume masculino... — cantarolou, com um sorrisinho malicioso.
Senti minhas bochechas queimarem.
– É do Moon.
– Austin? Austin Moon? Austin Mônica Moon?
– O próprio. Ele foi todo fofo ontem, me ajudou e me chamou para dormir com ele.
Cassie fez uma cara pervertida e eu me prontifiquei a corrigir-me.
– Para dormir na cama dele! Digo, não, quer dizer... — coloquei as mãos no rosto, envergonhada.
– Tudo bem, eu já entendi, não precisa ficar assim — riu — Eu tenho que ir. Tchau, Ally.
Murmurei um "tchau" e entrei em uma das cabines para me trocar. Assim que terminei, sai do banheiro e rumei à sala 56, de Educação Filosófica.
POV Austin
Allycia saiu do quarto e eu caminhei até a sala 56, de Filosofia. A professora, Juliana, vive inventando maneiras de aproximar os alunos. Não que isso dê certo...
Allycia estava lá. E ela me viu.
Juliana logo entrou e anunciou que faríamos um novo projeto. A mulher começou a explicar algo que para mim não fazia sentido, pois eu estava ocupado de mais trocando olhares com Allycia. Ela murmurou um "obrigada" e eu pisquei para ela, fazendo-a corar.
– Um amigo secreto? — questionou Kira com sua voz enjoada.
– Sim, vai ser divertido! Venham tirar os papeis!
Sério? Uma amigo secreto? Fala sério!
Peguei o primeiro papel que vi.
Cassidy
Droga, eu não conheço a garota direito! Isso vai ser complicado...
A aula acabou em alguns minutos. Antes que eu pudesse sair da sala, ouvi Allycia me chamar.
– Sim?
– Eu quero ir falar com o diretor sobre os quartos. Você pode vir comigo?
– Eu tenho aula agora...
– Sim, eu também, mas é que... — ela suspirou — Deixa quieto, eu vou sozinha.
Seus olhos marejaram e mais uma vez eu cai na dela.
– Eu vou com você.
– Sério? — sorriu — Obrigada.
(…)
– Mas, Sr... Eu não posso dormir com ele!
– Allycia, eu não posso fazer nada.
– Troque-me de quarto! Ele me traiu! Estava transando com outra, aqui na escola! Isso não é proibido?
– Sim, claro que é. Mas se eu te trocar de quarto, questionarão o motivo... Dallas tem dinheiro... Eu não posso contrariá-lo.
– Eu também tenho dinheiro!
– Desculpe-me, Allycia.
Allycia cerrou os punhos e tomou o livro de regras que o diretor estendera a ela nas mãos. Depois de alguns segundos, disse:
– Aqui diz que não é permitida a troca ou transferência de camas. Eu não sou uma cama!
– Allycia, com quem você dormiria? — perguntou o diretor, com uma pitada de humor.
Allycia ficou quieta.
– Comigo — disse, pronunciando-me pela primeira vez.
Allycia sorriu de canto.
– Acho que os outros alunos não ficaram felizes em saber que você deixa os mais ricos transarem no colégio... — Allycia disse, chantageando-o.
– Tudo bem, tudo bem! Vocês podem dormir juntos! Mas não leve isso para outros lados, okay?
– Obrigada, diretor — disse Allycia, sorrindo convencida.
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