American Movie
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Notas iniciais
POV Ally – 22 de abril de 2086
Sinto algo quente escorrer por entre minhas bochechas. Aperto a mão enrugada de Austin com força.
– Senhora, afaste-se, por favor – pede uma enfermeira.
– Ele é meu marido – choramingo, sem soltar minha mão da de Austin.
– Entre na ambulância, senhora. Vamos levá-lo ao hospital e tentar ajudá-lo.
Assinto. Cumprimento Amanda Santonelli, a doce jovem que fica na recepção do asilo em que Austin e eu moramos há seis anos e saio, entrando na ambulância.
Austin entra em seguida, deitado em uma maca.
– Ele vai ficar bem, doutora? – pergunto a mulher que nos acompanha.
– Ele já tem idade, Sra. Dawson – diz a mulher.
– Sra. Moon – corrijo, sentindo meu coração apertar.
(...)
A enfermeira aparece na sala de espera com um sorriso triste no rosto.
– Onde está o meu marido? – pergunto, sentindo as lágrimas brotarem em meus olhos.
– Sinto muito, Sra. Moon. O seu marido não resistiu à cirurgia.
Caio de joelhos, sentindo meus olhos arderem. Meu mundo parece desmoronar em poucos segundos. Sinto meu coração arder e meu corpo todo fraquejar. Megan, minha filha mais velha, e Jason, meu caçula, se ajoelham ao meu lado e me abraçam.
Jullia, minha netinha, filha de Meg, me abraça, perguntando o que aconteceu. A pequena tinha oito anos.
– O vovó virou uma estrelinha, Jú — diz Meg, apertando a filha nos braços.
– Uma estrelinha? – pergunta Laura, filha de Jason. Esta tinha apenas três aninhos.
Abraçados, Jason e Laura de um lado do meu corpo, e Meg e Jullia do outro, choramos pelo meu falecido marido.
Aquele me ensinou o que é o amor.
Aquele que eu amava.
Aquele que eu sempre vou amar.
POV Ally – 11 de março de 2014
Sentei-me em uma cadeira no canto da sala, como de costume. A professora sorriu para mim, piscando em seguida. Essa era a última aula do dia, música.
Austin se sentou ao meu lado e apertou minha mão com carinho.
– Vamos começar? Peguem uma folha de papel e anotem músicas que gostam! Vou sortear uma e escolher alguém para cantá-la!
Peguei meu fichário e o abri, puxando duas folhas. Entreguei uma a Austin e escrevi "No Way No — MAGIC" no meu papel.
Cinthia passou, recolhendo as folhas. Subiu no tablado de madeira e puxou uma das folhas do monte.
– Cool For The Summer da Demi Lovato — anunciou, sorrindo — Quem quer cantar?
Dallas levantou a mão, fazendo todos rirem. A professora sorriu, achando um pouco engraçado também.
Dallas subiu no palco e começou sua performance nada gay...
– Sabia que ele jogava no mesmo time que você... Só desse jeito pra te trair.
Torci o nariz de maneira fofa para ele e fiz beicinho, recebendo um selinho rápido.
POV Austin
Agora estávamos perdidos. Sabia disso, pois vi quando Kira observou Ally sair da sala no meio da aula.
– Allycia Dawson, favor comparecer a sala do diretor.
Fechei os olhos com força. Acompanhei Ally até a sala do diretor, onde Kira e Cinthia já nos esperavam.
– Austin Moon, alguém te chamou aqui? — perguntou o diretor
Engoli em seco, entrelaçando os dedos de Ally aos meus.
– Desculpe-me, — comecei — mas se Ally fez algo, eu fiz junto.
Ally negou, mesmo de cabeça baixa, e perguntou:
– O que eu fiz agora?
– Kira disse que você cometeu uma violação das regras do Marino, juntamente com a Professora Cinthia — explicou o diretor.
Sentei-me em um sofá, ao lado de Ally.
– Allycia tem glossofobia, medo de se apresentar em público — Kira disse de uma vez só.
Ally arregalou os olhos e me olhou desesperada. Eu sabia!
– Acontece que Cinthia dá apenas metade das aulas para Ally, a parte teórica. A parte prática, dá na casa dela, em particular, e arquiva as notas como se ela fizesse com todos os outros – continuou Kira.
– Isso é ridículo — afirmou Cinthia.
– Como ela descobriu isso? — perguntei, sussurrando, a Ally.
– Dallas — respondeu, no mesmo tom.
– Eu jamais faria isso — afirmou Cinthia.
– Ally? Quer se pronunciar? — questionou o diretor. Ally meneou a cabeça em negação. — Se assim for, terei que aceitar a denúncia de Kira e tomar as seguintes providências.
– Que seriam? — perguntei.
– Expulsar Ally e demitir Cinthia, visto que ambas conhecem o regulamento.
Ally suspirou.
– Acho que só tem uma coisa a se fazer... — ciciou, colocando-se em pé.
O diretor a encarou confuso, assim como Kira e Cinthia. Eu já imagina o que ela diria e mal acreditava. O orgulho dentro de mim era enorme.
– Junte todos da escola no pátio. Vou provar que não tenho Glossofobia.
O diretor concordou, dispensando todos. Assim que saímos, Ally abraçou-me com força e chorou desesperada.
– Calma... Você vai conseguir — tentei encorajá-la.
– Não, não consigo...
– Olha pra mim — pedi.
Ally obedeceu, fungando. Sequei suas lágrimas com a ponta dos dedos e colei minha testa na sua.
– Não importa o que a Kira vai pensar, o Dallas, o diretor, a Cinthia ou qualquer outro vão pensar... Enquanto cantar, olhe para mim. Eu, não importa o que aconteça lá em cima, vou gostar e vou te aplaudir de pé — Ally sorriu e assentiu, dando-me um selinho rápido.
Ally subiu no palco em que o diretor estava. O homem disse algumas coisas em seu ouvido. Ally assentiu e pegou o microfone de suas mãos.
– Oi, pessoal. Eu sou a Allycia Dawson e vou cantar Listen – anunciou.
Ally olhou para mim e respirou fundo. Assenti, tentando transmitir-lhe confiança. O instrumental começou e ela fechou os olhos para cantar os primeiros versos.
Listen to the song here in my heart
A melody I start but can't complete
Listen, to the sound from deep within
It's only beginning
To find release
Ally abriu os olhos e respirou fundo. Sorri para ela, encantando.
Oh, the time has come
For my dreams to be heard
They will not be pushed aside and turned
Into your own
All cause you won't
Listen
E meu Deus Que voz era aquela? Eu estava pasmo.
Listen, I am alone at a crossroads
I'm not at home, in my own home
And I've tried and tried
To say what's on my mind
You should have known
Misericórdia. Kira deve estar chorando sangue nessas horas.
Oh, now I'm done believing you
You don't know what I'm feeling
I'm more than what you made of me
I followed the voice you gave to me
But now I gotta find my own
Meu coração se apertou em meu peito ao vê-la tão linda. Ally sorriu ao notar-me e continuou cantando, um pouco menos receosa.
You should have listened
There is someone here inside
Someone I'd thought had died
So long ago
Oh, I'm screaming out, and my dreams will be heard
They will not be pushed aside on words
Into your own
All cause you won't
Listen
Com ainda mais força e mais vontade, Ally continuou.
Listen, I am alone at a crossroads
I'm not at home, in my own home
And I've tried and tried
To say what's on my mind
You should have known
Oh, now I'm done believing you
You don't know what I'm feeling
I'm more than what you made of me
I followed the voice you gave to me
But now I gotta find my own
Eu ainda não havia caído na real. Aquela voz maravilhosa não podia pertencer a minha namorada.
I don't know where I belong
But I'll be moving on
If you don't
If you won't
Listen to the song here in my heart
A melody I start
But I will complete
Oh, now I'm done believing you
You don't know what I'm feeling
I'm more than what you've made of me
I followed the voice you think you gave to me
But now I gotta find my own
My own
Ally terminou sendo aplaudida por todos, de pé.
– Obrigada – agradeceu, emocionada, e correu em minha direção, abraçando-me. Suas pernas rodearam minha cintura e eu a segurei em meu colo, beijando-a.
POV Ally
O diretor nos chamou em sua sala mais uma vez. Já havia virado costume...
– Ally, tenho duas pessoas que precisam resolver algumas coisas com você. Três, na verdade. Vamos começar por Kira e Dallas.
Os dois entraram na sala em que Austin, eu e o diretor nos encontrávamos.
– Kira e Dallas, vocês estão sendo convidados a se retirarem da escola – começou o diretor – O que vocês dois fizeram com Austin e Ally foi muito feio.
– O que fizemos? – indagou Dallas, cínico.
– Você a traiu, teve relações sexuais na escola, fez bullying com eles e ofendeu moral, psicológica e fisicamente Allycia Dawson.
– Nunca toquei um dedo nessa menina – Kira defendeu-se.
– Vai negar que foi você quem congelou a piscina? – Austin lembrou.
Kira e Dallas se calaram. O diretor avisou que seus pais iriam à escola mais tarde para assinar a carta de expulsão.
Eu estava me sentindo extremamente bem, até que o diretor chamou a terceira pessoa com quem eu teria que conversar.
– Oi, filha – começou o meu pai, com um sorriso cínico no rosto. Em seguida, encarou Austin e, com ódio, continuou – Olá, Austin Moon.
Oh, não.
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