American Movie
29 Last Night
Notas iniciais
– Oi, filha — começou o meu pai, com um sorriso cínico no rosto. Em seguida, encarou Austin e, com ódio, continuou — Olá, Austin Moon.
Oh, não.
(...)
Papai dirigia rapidamente. Penny estava ao seu lado, calada.
Encarei Austin, sentado ao meu lado esquerdo, e apertei sua mão.
Assim que papai começou a gritar na sala do diretor, o mesmo sugeriu que fôssemos para casa e discutíssemos lá.
Estávamos ferrados. Eu sabia, Austin sabia, todos sabíamos.
Desejei que demorasse horas o caminho para casa. Ainda existia em mim uma pontinha de esperança. Esperança de que meu pai aceitasse nosso namoro e nos deixasse em paz.
Saímos do carro e entramos em casa, todos em silêncio. Sentei em um dos sofás com Austin. Mamãe sentou em uma poltrona e papai, na outra.
– Eu cheguei no meu trabalho hoje e recebi um dia de folga. Como estava muito cansado, resolvi ir ao clube — começou meu pai — Mas sabe o que é muito engraçado? Quando eu fui assinar a lista, notei que Austin Moon havia passado por lá. "Moon? Não, não pode ser" pensei. Entre no clube e resolvi ligar para o hotel em que minha filha ficara hospedada com o seu namorado, que supostamente, se chamada Austin Turner, mas sabe o que eu descobri? — ele elevou a voz — Que uma pessoa chamada Austin MOON reservou um restaurante para dois!
Apertei os olhos com força. Tudo estava acabado.
– Você mentiu para mim — papai acusou, apontando o dedo para mim.
– Senhor, a culpa é toda minha — Austin interrompeu.
Apertei sua mão com força, prevendo uma grande briga.
– Fique quieto — bravou meu pai, nervoso — Você não tem moral para abrir a boca nessa casa.
– Pai, não fale assim com ele — pedi, interrompendo-o.
– Quieta, garota. Você é suja e me dá nojo.
– Lester, ela é sua filha! — mamãe se intrometeu.
– QUIETA VOCÊ TAMBÉM! — gritou ele.
Todos ficamos em silêncio. Penny meneou a cabeça, decepcionada com a atitude do meu pai. E então eu percebi: Não existia mais esperança.
– Eu vou falar tudo o que eu tenho pra falar agora — começou o sermão — Eu criei você, Allycia, a sua vida toda, com tudo de bom e de melhor. Eu te comprei as roupas mais caras, as jóias mais brilhantes e os amigos mais decentes. E sabe como você me retribuiu? Dormindo com um pobre! — ele riu irônico — Você não vê como isso é paradoxal? Você é nojenta! Por que acha que nunca deixei você andar com gente desse nível? Porque eles são sujos, Allycia. E eles não têm nada. Você teria que sustentar seus filhos sozinha, teria que trabalhar e se matar para colocar comida na mesa, porque pobre é pobre. O que mais me deixa nervoso nisso tudo, Allycia, é que você mentiu para mim!
– Eu gosto muito dele! — contrariei, com lágrimas escorrendo por entre minhas bochechas — Você já parou para pensar que talvez eu goste muito dele?
– Gostar não é amar, querida. E como eu te conheço, sei que você nunca amaria alguém pobre — cuspiu as palavras.
– Sabe o que é nojento, pai? Você é nojento! Porque você tem tudo! Você tem a mamãe, tem a mim, tem dinheiro... Mas ao mesmo tempo você não tem nada! Sabe por quê? Porque seus amigos todos só estão ao seu lado por causa do seu dinheiro.
– Quem precisa de amigos? — riu, sarcástico — Allycia, eu tenho dinheiro. Eu posso comprar qualquer coisa, até mesmo amigos.
– Não os verdadeiros, pai. Você não pode comprar aquele amigo que vai estar ao seu lado quando nenhum outro estiver — olhei para Austin, respirando fundo -, aquele que vai te abraçar e fazer você se derreter só de olhar para os seus olhos. Ou aquele por quem você vai se apaixonar e querer estar junto.
Austin sorriu para mim e aproximou seu rosto do meu.
– Se você tocar minha filha, eu te mato, seu pobre desgraçado!
Austin se afastou rapidamente. Mamãe levantou do sofá e se sentou ao meu lado.
– Você está sendo injusta com a nossa filha, Lester. Ally gosta muito desse menino, você não vê?
– Por que você deixou Dallas, minha filha? — perguntou papai, implorando por uma resposta.
– Ele me traiu, pai. Dormiu com a Kira.
– E daí?
Ri incrédula.
– E daí que ele me traiu! Você me dá ânsia, pai.
– Você sabia, Penny? — perguntei papai à mamãe — Sabia?
– Eu sabia sim.
Lester cerrou os punhos, nervoso.
– Chega! Chega! Acabou, Penélope! Você tem até amanhã para arrumar as suas malas e voltar para África! Eu não admito que você continue na minha casa!
Arregalei os olhos. Não. Não. Não.
– Não, pai! A mamãe não tem culpa de nada!
– E você, Allycia... — papai continuou, sem me ouvir — Você vai junto com a sua mãe.
– Eu o quê?!
Austin, que até então estava quieto, exaltou-se.
– Você não pode fazer isso!
– Eu posso! — contrariou meu pai, pegando o celular do bolso — Nesse exato momento, estou ligando para o meu advogado e pedindo guarda compartilhada da Allycia!
– Você não pode fazer isso! — Austin gritou, abraçando-me de lado — Ela é sua filha, seu idiota.
– Austin, acalme-se — pedi — Eu não vou a lugar nenhum.
Alguns minutos depois, meu pai desligou a ligação e sorriu, satisfeito.
– Arrume suas malas, Allycia. África te espera.
– Mãe... — implorei.
– Desculpe-me, filha. Eu não posso fazer nada — respondeu minha mãe, decepcionada.
– Eu não posso ir pra África! Eu tenho uma vida aqui! Tenho a escola e tenho o Austin! Austin. Você pode vir com a gente, não pode?
– Eu não tenho dinheiro, Alls.
– Mãe? — pedi, chorando — Por favor, mãe. Austin pode ir com a gente?
– Eu não tenho dinheiro, Allycia! Não tenho! — Penny colocou as mãos no rosto e chorou exasperada.
– Eu não disse, Allycia? Tudo termina em dinheiro — concluiu meu pai — Tenha uma boa viagem.
POV Austin
Fiquei acordado com Allycia até um pouco mais de meia-noite. Ajudei-a a escolher as melhores roupas para colocar na mala.
Conversamos muito pouco. Eu não queria acreditar que esse era o nosso fim, mas não tinha como acreditar que não seria.
– Ei — chamou Ally, sentada na cama. Sentei-me ao seu lado — Quero que você fique com isso.
Peguei a corrente em sua mão. Era um colar em formato de coração.
– É de ouro? — brinquei, fazendo-a rir um pouco.
– Quando eu tinha cinco anos, passei em frente a uma loja de bijuterias — ela começou.
Algumas lágrimas escorreram de seu rosto e eu senti meu coração se despedaçar. Eu não podia mais viver sem ela.
– E eu vi esse colar e me apaixonei — continuou — Meu pai não queria comprá-lo, pois era uma bijuteria barata. Não deve ter custado mais de 5 dólares. Mas mesmo assim, eu me apaixonei por ele. Assim como eu me apaixonei por você.
– E veja que coincidência — brinquei — Eu também não devo custar mais de 5 dólares.
Ally riu, em meio as lágrimas, e tocou meu rosto com carinho.
– Você vale muito mais do que pensa, Austin.
Suspirei, colando nossas testas.
– Posso passar a noite com você, né?
– Será nossa última noite — Ally murmurou, com a voz rouca — É claro que pode.
Deitei-me na cama, ao lado de Ally. Minha pequena deitou a cabeça em meu peito e abraçou meu corpo.
– Sei que deveríamos tornar essa última noite inesquecível e que deveríamos fazer amor para que fosse realmente nossa última noite, mas... Podemos só ficar abraçados? — ela pediu, com a voz embargada.
– Quem disse que precisamos fazer tudo isso, pequena? Tudo o que eu mais quero é ficar abraçadinho com você.
E então suas singelas lágrimas se transformaram em choro.
– Eu não quero te deixar — murmurou.
Apertei seu corpo com mais força, tentando acalmá-la.
– Por favor, não me deixa — implorou.
– Eu nunca vou te deixar — prometi.
– Não diga 'nunca', Austin... Eu não sei quanto tempo vamos ficar sem nos ver. Podem ser dias, meses ou anos. Eu não posso te prender a mim.
– Nem começa com esse papo. Não vamos terminar.
– Austin, você não entende... Eu não posso ir para África, sabendo que você pode conhecer uma garota superlegal e não ficar com ela, por ainda estar preso a mim, entende? Eu quero que você seja feliz, muito feliz. Mas isso não vai acontecer se você depender da minha volta.
– Eu não vou querer ficar com nenhuma outra garota superlegal, Ally. Eu quero te esperar voltar. Eu vou te esperar.
– Se você conhecer outra garota superlegal, promete que vai ficar com ela e tentar me esquecer?
Senti meus olhos se encherem de lágrimas. Algo dóia muito em meu peito.
– Que tipo de namorada pede isso, meu Deus? — resmunguei — Então, se você conhecer um cara legal, promete que vai tentar ser feliz com ele?
Ally chorou mais forte. Afastou-se de mim e se sentou na cama. Vê-la naquele estado me destruiu.
Sentei-me também e puxei-a para o meu colo, colocando suas pernas em volta da minha cintura.
– Eu preciso te dizer uma coisa antes de ir... — Ally murmurou, enterrando a cabeça em meu ombro, na curva do meu pescoço.
– Pode dizer.
– Eu... Austin, eu... eu te... Ahn, eu consigo. Austin, eu...
– Shh, tá tudo bem — sussurrei, já sabendo a frase que ela tentara dizer e não conseguira — Não precisa dizer nada. Não precisa dizer isso para que o momento seja perfeito, está bem? Eu e você sabemos que não é preciso. Somos muito felizes e não nos amamos, certo?
– Certo — Ally fungou — Obrigada.
– Agora vem cá, bebê. Porque eu quero que passemos nossa última noite juntos abraçadinhos.
– Não será nossa última noite — Ally contrariou — Eu vou voltar e, quando nos encontrarmos, ainda vamos sentir as mesmas sensações e sentimentos um pelo outro. E então terão muitas outras noites pela frente...
Eu gostaria de acreditar nela. Gostaria de acreditar que tudo aquilo aconteceria mesmo. Mas o nosso destino estava na mão de Deus, e eu sabia que não podia fazer nada a não ser esperar.
Deitamos na cama, naquela posição mesmo. Ally dormiu por cima de mim, com as pernas ao meu redor.
Também gostaria que aquela noite fosse eterna. Mas quando abrimos os olhos, no dia seguinte, e lembramos de que ela iria embora, percebemos que tudo teria que acabar.
Mas... Tudo que acaba, termina?
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