American Gurls
37 Visitation Day.
Notas iniciais
Playlist:
I Am Not A Robot — Marina And The Diamonds
Cher Lloyd — Oath (feat. Becky G)
Dias depois.
Jo
A sala de visitações estava cheia, mas mesmo assim as pessoas não conversavam muito alto. Guardas observavam tudo deixando o tédio transparecer em suas expressões duronas. Como prometido, Kendall me trouxe até a penitenciária feminina onde Camille estava. Quer dizer, depois de eu muito insistir.
Parecia um pouco tarde pra ainda estar tentando digerir toda aquela história. O que posso fazer? Era informação demais pra mim. A Camille da história não tem nada a ver com a Camille que eu conheci. O que havia acontecido com a minha melhor amiga? Como será que está a Camille de quem eu me despedi antes de partir há três anos? Pra ser sincera, eu só esperava que ela ainda existisse.
A ansiedade me fazia chacoalhar o pé e Kendall não estava aqui para me acalmar, pois seu nome não estava na lista de visitas de Camille então ele teve que esperar na recepção. O meu nome estava na lista. Vim pra cá quase sem esperanças de conseguir ver Camille, mas meu nome estava escrito na lista. Camille fez questão de colocá-lo lá. Minhas esperanças de que minha melhor amiga ainda existisse não estavam completamente mortas.
Então eu a vi entrar na sala. Assim que encontramos olhares, abri um sorriso. Um sentimento de nostalgia tomou conta de mim quando vi, não havia nada mudado na sua aparência, parecia a mesma Camille de sempre e com seus cachos trançados por cima do ombro, só aquela roupa bege a apagava completamente. Levantei-me enquanto ela vinha até mim calmamente também sorrindo meio sem jeito. Cumprimentamos-nos com apenas um abraço rápido por conta das regras, mas mesmo assim foi um abraço saudoso. O suficiente pra respirar fundo.
– Você finalmente veio. — A voz de Camille não era mais doce e alegre como eu me recordava. Agora era séria, fria apesar do sorriso. Talvez ela não tenha mudado a aparência, mas por dentro ela com certeza estava diferente.
– Desculpa por ter demorado tanto. Não faz muito tempo que voltei da Nova Zelândia. — Justifiquei, escondendo mãos nos bolsos, afinal eu não podia esconder minha cara.
– Tudo bem. — Ela deu ombros e fez um sinal para que eu me sentasse. Assim que o fiz, ela se sentou também, ficando de frente para mim.
– Também não faz tempo que eu soube das novidades, não mais tão novidades assim. Eu acho que estou bem desatualizada. — Camille deu um leve riso e eu a acompanhei, suspirando ao fim. — Como você está?
– Bem. Aqui não é como nenhuma série do netflix, infelizmente é vida real, mas continuo bem. — Disse, com sinceridade e um sorriso cansado. Após poucos segundos olhando para ela, não consegui segurar minha língua no lugar e tive que começar a perguntar.
– Porque você teve que vir parar aqui, Camille? Por um cara, sério? Você tinha um futuro pela frente.
– Oh, até parece que eu morri. Eu vou sair daqui um dia, você sabe né? Minha pena é longa, mas não é como se eu tivesse pegado prisão perpétua. — Falou com sarcasmo em sua voz. — E não foi só por um cara. Era Logan. E foi por muitas outras coisas que eu não estou com saco pra explicar.
– Eu sei, mas...
– Foda-se, ok? — Quase seu tom de voz se sobressaiu, e meu queixo quase tombou no chão. Acho que é tarde demais pra dar lição de moral numa detenta. Eu nem conseguia descrever o quão chocada eu estava. Nunca vi Camille falar daquela maneira. — Além do mais, já consegui esquecer Logan de vez. Eu conheci alguém.
Franzi as sobrancelhas.
– Aqui dentro? Uma detenta também? — Ela assentiu pra mim. — Então... Você é gay?
– Eu apenas descobri que mulheres podem ser interessantes também, não significa que eu não ache mais que os homens são.
– Wow. Estou feliz que você tenha se descoberto, de verdade. — Pisquei seguidas vezes para ver se aquela Camille era real mesmo. — Você realmente mudou.
– Eu cheguei aqui assim que fiz 18 anos e um dia. É claro que bastante coisa mudou.
Relaxei meu semblante e bufei, tentando digerir a minha nova amiga. Claro que ela iria mudar. Mas eu não conseguia me conformar com isso.
– Sabe, Kendall me contou sobre tudo o que aconteceu antes de eu ser apresentada à Barbara. Eu fiquei com um pé atrás com ela por um tempo, tentando achar algo de tão ruim nela que justificasse você ter feito tudo que fez. E o que eu achei foi uma pessoa normal, com defeitos como todo mundo, mas mesmo assim uma pessoa boa. Não consigo entender porque você a odeia tanto, de onde você tirou tanta maldade dentro de sim.
A expressão de Camille fechou como o tempo num dia ensolarado.
– Até você do lado daquelazinha? Aquela cretina, cínica, manipuladora. — Resmungou com os dentes cerrados para não levantar a voz. — Não acredito que ela conseguiu fazer lavagem no seu cérebro também.
– Ninguém fez lavagem em mim. — Sim, aquilo me ofendeu. Odeio quando me tomam como a fraca e manipulável. — Eu sei distinguir uma pessoa boa de uma ruim. E agora, olhando pra você, nem sei dizer o que você é. Não te conheço mais.
– Ótimo. Eu não preciso de você. Eu não preciso de mais nenhuma ligação com Palm Woods e todo mundo de lá. Quando eu sair daqui eu vou ter vida nova. Um mundo novinho me esperando lá fora. Não preciso da sua compreensão. Você nunca entenderia. Não preciso da sua compaixão, sua amizade, eu não preciso de ninguém. — No meio do ódio em seu rosto, vi seus olhos ficarem marejados. Ela tentou afastar as lágrimas e virou o rosto, fazendo com que os seus cachos caíssem pela sua face e escondesse parte dela.
Camille parecia ter ciência de que mentia pra si mesma, que ela não é Justin Bieber pra continuar tendo uma carreira depois de adquirir uma ficha criminal. Ela não terá mais o mundo de glamour de Hollywood quando sair. Ela estará muitos anos mais velha. O mundo terá a esquecido. E ela sabe disso, mas rejeita essa realidade dolorosamente. Parece que tenta continuar positiva na medida do possível. Como a Camille que eu conheci faria.
Coloquei minhas mãos abertas por cima da mesa, para que Camille as segurasse. De que adiantaria eu questionar, tentar entender o que aconteceu e julgá-la? Como ela mesma disse, eu nunca entenderia. Aliás, o que foi feito já está feito. Camille já está presa. E vai passar um longo período da sua vida aqui. O melhor que posso fazer é não ir embora da vida dela novamente, estar aqui para a minha amiga e ajudá-la a libertar-se da maldade que ela ainda tinha dentro de si. Camille precisa de mim, do meu apoio, por mais que ela diga o contrário e eu repudie todos os crimes dela. Engoli meu inconformismo pra dar continuidade à conversa e àquela amizade.
– Ok, olha. Não importa mais o que você fez, você já está cumprindo sua pena. Apesar de tudo, você continua sendo a minha amiga. E eu não vou te abandonar.
Camille limpou suas lágrimas no ombro da camisa e em seguida olhou receosa para as minhas mãos. Depois de alguns instantes analisando-as, ela fez sua decisão. Ela tirou sua armadura e segurou minhas mãos com firmeza.
– Obrigada. — Disse ela, num fio de voz falhada. — É melhor você não me abandonar mais mesmo. Você tem que estar aqui pra me dar puxões de orelha, conselhos, essas coisas de amiga.
Ri junto com ela.
– Eu prometo. — Assegurei.
– Ei, nada de toques! — Gritou um guarda. Com o susto, puxamos nossas mãos para perto de nós de volta no mesmo segundo. Entre risadas abafadas, tive certeza que Camille, a detenta vingativa, fria e assassina em potencial, ainda era a minha melhor amiga. E eu vou estar aqui pra ela. Por mais louca que ela seja. Ou eu seja.
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