Notas iniciais
Tô muito chateada com vocês. De verdade. O capítulo passado foi um dos mais difíceis que eu já escrevi e só uma pessoa comentou. Inclusive, obrigada Luana por não me abandonar. Felizmente, o cronograma da história está ficando mais curto e vou agilizar as coisas pra terminar logo porque, sinceramente, estou cansada. Boa leitura.

Playlist:

Small Bump — Ed Sheeran

Happy — Marina and The Diamonds


Uma semana depois...


A sensação de acordar era como se houvessem me içado de volta, me tirando da escuridão de uma piscina sem fundo que me engolia e sufocava. Era enfim, poder chegar à superfície e respirar o ar puro depois de tanto afundar em água.

Nem sei onde estou. Só sei que a cama em que estou deitada não é muito confortável. Eu sentia uma máscara cobrindo meu nariz e boca, dela saia o ar que eu respirava. Um cansaço pairava sobre meu corpo. Minhas pálpebras pesaram quando abri os olhos e a minha retina se incomodou com a claridade do ambiente.

Onde estou? E porque tudo é tão branco? Um som irritante apitava periodicamente, Deus sabe de onde vinha. Virei minha cabeça para o lado e percebi que estava cansada até para isso. Avistei Logan, dormindo deitado num banco acolchoado perto de mim. Ele parecia estar com frio. Eu queria levantar e cobri-lo, mas o cansaço me puxou para um sono profundo.

Quando consegui acordar de novo, vi Jessica sentada do meu lado. Porque ela estava chorando?

A voz dela sumiu em minha mente assim que o cansaço me puxou para o escuro de novo. Acordei outras vezes, mas em outros momentos eu apenas escutava os sons ao meu redor. Ouvi a voz de Dria, ela falava bastante. Ouvi Kendall, Yuki, até Lewis. Carlos e James também tagarelavam bastante. Uma voz que não ouvi mais que duas frases fora a de Logan.

Abrir os olhos exigia muito esforço. Das vezes que eu os abria e via Logan, ele nunca me respondia quando eu perguntava pela minha filha. Porque ele está a escondendo de mim?

Eu já estava exausta de acordar e não ter forças. Até que certo dia acordei me sentindo mais forte. Apesar de não estar tão disposta como gostaria, ainda assim era um progresso.

O meu campo de visão ainda estava um pouco turvo quando deparei-me com Logan sentado ao meu lado, seu polegar acariciava a costa da minha mão. Sua feição iluminou-se imediatamente ao ver que eu acordara.

– Onde estou...?

– Olha só quem acordou de vez. — Disse ele, parecendo tão exausto quanto eu. — Nós estamos no hospital. — Hã? O que diabos estou fazendo aqui? Levei minha mão livre até o meu rosto para abaixar o aparelho de respiração e notei uma agulha no meu pulso ligada a um tubo. Haviam tantos fios colados no meu corpo que fiquei perdida.

– Isso explica isto. — Falei, olhando para a bolsa transparente pendurada ao fim do tubo. — E aquilo. — Em seguida para a máquina que monitorava meus batimentos cardíacos, apitando constante e irritantemente.

– Sim, explica. — Logan assentiu, rindo leve. Voltei a olhar para ele e de repente as memórias se misturaram em minha mente, me deixando mais confusa.

– O que aconteceu...? Cadê a minha filha?

Os lábios de Logan formaram uma linha reta. Sua expressão ficou tensa.

– O que aconteceu foi... que eu quase te perdi. — Emocionou-se, não entendi por que. Vi seus olhos ficarem marejados e ele ergueu minha mão e a beijou. — Seus pais me ligam todo dia pra saber como você está. É uma pena eles não poderem vir pra cá.

– O que? Meus pais? — Na minha cabeça estava tudo misturado. Depois de passar mais tempo dormindo que acordada, eu não conseguia separar minhas memórias entre sonho e realidade.

– Como você pode não lembrar? Você não bateu a cabeça. — A resposta para sua própria pergunta veio e relaxou seu semblante. — Ah, deve ser uma crise de memória pós-trauma.

– Você ainda não me respondeu onde está a minha filha.

Como se eu não houvesse dito nada, ele continuou.

– Mas isso não explica você estar inventando coisas.

– Oi?

– Eu que te pergunto. Do que você tá falando, Barbara? Nós perdemos nossa filha. — Sua voz falhou ao dizer aquilo. — E como você sabe que era uma menina? — Agora ele parecia tão confuso quanto eu, só que havia mágoa em sua voz. A máquina anunciou a mudança na minha frequência cardíaca.

– Como assim a perdemos?

– É... melhor não falarmos sobre isso, você tem que descansar. Vou chamar a enfermeira.

Fiquei revoltada. Eu não queria mais descansar, eu queria entender o que estava acontecendo! Antes que eu explodisse, as lembranças voltaram bombardeando a minha mente. Tudo se encaixou e fez sentido. Lembrei-me da dor, da faca, da feição fria de Camille. Lembrei-me da escuridão, da minha filha. Ela foi só uma invenção da minha cabeça. Uma ilusão. Fazia parte de um sonho, e agora estou de volta ao pesadelo.

Não deixei que Logan soltasse minha mão e o segurei com firmeza antes que ele se levantasse. Pude sentir a dor em seus olhos. Levei minha mão livre trêmula até o meu abdômen, afastei o lençol e, mesmo por cima do fino tecido da roupa branca que eu estava vestindo, pude sentir o corte que ainda estava com o fio da sutura.

Foi como sentir a dor da facada novamente, fazendo as lágrimas encharcarem meus olhos sem aviso prévio de que estavam vindo.

– Nossa filha... Não está mais aqui? — Questionei, ainda passando a mão pela minha barriga e sentindo um corte ainda maior um pouco abaixo do corte da faca. Como um corte de cesárea.

– Não foi possível salvá-la. — Logan não conseguiu conter suas lágrimas também. — Só puderam me informar que era uma menina.

Eu não conseguia acreditar. Aquela criança que eu consegui aprender a amar cada dia um pouco mais durante três meses havia sido morta, sem ter culpa de nada.

– Você está mentindo! — Acusei-o. Ergui a roupa que eu vestia para ver com meus próprios olhos se aquilo era mesmo real. Ignorei minha nudez por baixo daquele mero pedaço de pano. E lá estavam, duas cicatrizes estampadas na minha barriga. Passei minhas mãos por elas e senti seus relevos. A realidade era mais cortante e dolorosa que qualquer faca. — M-minha filha... Cadê a Camille?! Ela matou a minha filha. — A raiva se misturou ao meu choro. — E eu vou matar ela!

– Calma, ela já foi detida! — Logan me conteve, apoiando a mão sobre meu ombro para que eu não levantasse. Rapidamente, ele me cobriu de volta. — Ela está aguardando o julgamento. Mas, com todas as provas e evidências contra ela, ela com certeza vai ser julgada culpada.

– Mesmo assim eu só vou descansar enquanto eu ver essa cobra apodrecendo na prisão.

Logan assentiu dolorosamente e inclinou-se para beijar minha testa com ternura.

– Ela vai ter o que merece, eu te prometo. — Garantiu, encarando-me nos olhos, me passando um pouco de calma. Respirei fundo para tentar afastar aquela sede de vingança que não me levaria a lugar algum. — E esse pode não ser o melhor momento para dizer isso, mas daqui pra frente, nós finalmente teremos paz.

Acreditei no olhar de confiança dos escuros olhos de Logan, marejados e cercados de olheiras. Segurei-me naquelas palavras e me confortei por um momento, mesmo sabendo que as cicatrizes que Camille deixara em nossas vidas nos acompanhariam para sempre.

Logan então saiu do quarto, quando retornou, estava acompanhado de um médico que me explicou tudo. A facada que recebi atingiu meu útero. Quando cheguei ao hospital, há uma semana, já era tarde. Meu bebê havia morrido, e eu quase morri também, pois perdi muito sangue. Tiveram que fazer uma cesariana para tirar a criança de mim, também recebi diversas transfusões de sangue. Por fim, sobrevivi.

E ainda vou viver muito mais para ver Camille pagar por tudo que fez.


Seis meses depois.


– Logan, tem certeza que preciso colocar todos esses casacos na mala? Não cabe mais nada aqui!

– Acredite. Você vai precisar. — Logan afirmou com certeza, colocando suas cuecas em sua mala. Bufei, tentando quebrar a lei da física que diz que dois corpos não podem ocupar o mesmo espaço enfiando outro casaco na minha mala lotada.

Não, não vamos nos mudar. Só vou passar o natal e o ano novo com a família de Logan em Minnesota. Ano passado eu arrastei ele pro Rio pra conhecer minha família, esse ano é a minha vez.

Eu estava super ansiosa para conhecer a família do Logan, mas era a primeira vez que eu não iria passar o natal com a minha. Tentei não deixar a tristeza me invadir, afinal, a vida tem sido boa a mim nesses últimos tempos.

Meses atrás, o país parou com o escândalo envolvendo Camille e eu. Assim que saí do hospital, comecei a frequentar o psicólogo religiosamente. Se eu não tivesse feito isso, eu provavelmente teria mergulhado em uma depressão por ter perdido minha filha, e foi a ajuda que eu precisei até a minha família chegar e passar o mês de julho inteiro aqui me dando atenção e todo o apoio que eu precisava. Só consegui dar entrevista sobre tudo que aconteceu quando estávamos quase em agosto.

A série American Gurls entrou em hiatus para que eu me recuperasse e também para que pudessem modificar o roteiro, já que Camille foi obviamente afastada das gravações e tem que manter uma distância mínima de 500 metros de mim, além de ter sido sentenciada a passar longos anos na cadeia. Porém, por ter 17 anos, Camille será mantida num centro de reabilitação para jovens infratores até completar 18 anos para só então cumprir sua pena na prisão. Ver a cara dela ao saber de quanto tempo seria sua pena compensou passar o dia com ela num tribunal.

Enfim, tudo está se normalizando na medida do possível. Até meu ginecologista disse que já estou recuperada e que posso engravidar de novo quando eu quiser. Bem, vamos deixar isso pra daqui a alguns anos, certo?

Por enquanto, quero aproveitar para estender ao máximo o tempo de paz que estamos vivendo sem Camille em nossas vidas. Saber que agora todos os meus amigos que me cercam são verdadeiros e querem meu bem, não me destruir, é tirar um peso das costas.

– Logan... Preciso que você fique em pé na minha mala. Não consigo fechar de jeito nenhum. — Falei, depois de finalmente desistir de fechar o zíper da minha bagagem. Logan deu um riso abafado e rolou os olhos.

– Eu sei que eu engordei, mas não precisa tirar proveito disso.

Opa, hora do trocadilho infame.

– Pode apostar como eu vou tirar proveito de você.

Depois de gargalhar, Logan cedeu à minha cantada infalível.

– Hum, sério? — Indagou ele, vindo até mim e fechando as mãos em volta da minha cintura. Assenti, mordendo meu lábio inferior para conter o sorriso. Seus olhos me disseram que ele queria o mesmo que eu. Ah, as malas poderiam esperar.

Logan começou a depositar leves beijos por toda região do meu pescoço, atingindo seu objetivo de me provocar arrepios. Caminhamos sem nos desgrudar até a cama que estava lotada de roupas, caindo por cima delas sem nos importar. Nos beijávamos com calor e sempre com o desejo que nunca deixamos de sentir um pelo outro. Retirei o cardigan de Logan e ele cuidadosamente me ajudou a tirar minha blusa. Ao se deparar com minhas cicatrizes, ele esboçou um pequeno sorriso para mim, se inclinou e beijou cada centímetro delas com ternura. Afastei minhas inseguranças e abracei aquele momento.

Antes eu tinha vergonha. Achava minhas cicatrizes horrendas, que apenas me lembravam de tragédia e passei meses sem usar biquíni. Mas, de uns tempos para cá, com a ajuda do meu psicólogo e de Logan, estou aos poucos aprendendo a aceitá-las e vê-las com outros olhos. Elas não são apenas cicatrizes, elas são marcas que contam a minha história. Não posso ter vergonha da minha história, e elas estão aqui para me ajudar a contá-la ao mundo. Tenho que me orgulhar de ter sobrevivido, de ter suportado a perda de uma filha.

As cicatrizes me contam que estou viva e que ainda me resta muito tempo pela frente. Ainda resta tempo para amar. Ser amada. Elas contam que nada nem ninguém pode mais me impedir de ser feliz, apenas eu mesma. Não quero mais ficar no meu próprio caminho. Eu mereço a felicidade e vou pegá-la.