American Gurls
35 Stronger.
Notas iniciais
Playlist:
Seis meses depois.
Jessica
Meu próprio grito me fez despertar. Parei de espernear para me sentar rapidamente na cama. O suor escorria pela minha testa, meu coração parecia querer pular pela minha boca. Passei a mão no rosto e tentei respirar com mais calma.
Um pesadelo. Com Diego, como sempre. Sonhei que eu estava numa floresta densa e escura, eu corria muito. Eu estava fugindo. Porém, quanto mais eu corria, mais ele se aproximava de mim. Por fim, quando eu já não possuía mais forças para continuar correndo, ele conseguia me alcançar, me imprensar contra uma árvore e arrancar minhas roupas com seus dentes afiados. Depois, eu era jogada na terra dura coberta de folhas secas, e ele abusava de mim violentamente. E ao contrário da vida real, eu passava por tudo aqui de olhos bem abertos, encarando a fúria em seus olhos vermelhos. Foi tudo tão real, que até conseguia sentir a mesma dor.
Pelo visto até nos meus sonhos ele não me deixa em paz. Quando eu estava no Rio, eu tinha este mesmo pesadelo com mais frequência, mas desde que cheguei nessa cidade, eu tinha praticamente parado de tê-lo.
É um inferno. Um inferno eu não conseguir esquecer disso. Tornei-me vítima da minha própria mente. Sempre que eu fico um minuto sozinha eu acabo me lembrando de cada momento de terror, cada xingamento e ameaça. Por culpa dele, eu perdi completamente a minha paz.
Eu não consegui mais dormir. Se eu fechasse meus olhos, eu lembraria de cada detalhe do pesadelo e também do que eu passei na vida real. De repente aquele pequeno apartamento pareceu enorme para uma garota sozinha e tão cheia de tormentos como eu. Eu me sentia vulnerável, desprotegida, como se a qualquer momento Diego fosse arrombar a porta e abusar de mim novamente. Pensei em ir à cozinha tomar um copo d'água, mas eu não tinha coragem. Eu estava paralisada de medo na cama. Se eu estivesse na minha casa no Rio, eu provavelmente me conformaria e encararia o teto até amanhecer. Agora eu não estou mais em casa, mas eu tenho outra opção em vez de encarar o teto esperando que ele caia sobre mim. Mesmo que eu odeie parecer fraca, eu precisava de ajuda. Então peguei meu telefone e liguei para James, rezando para que ele acordasse.
James
Um forte chute no meu colchão me fez despertar.
– James! O seu telefone tá tocando! — Carlos resmungava.
E estava mesmo, parecia que todos eles haviam escutado menos eu, pois eles estavam me xingando bastante. Tirei meu telefone debaixo do travesseiro e ao ver o nome na tela, já de cara me veio um arrepio de preocupação. Porque Jessica estava me ligando às três da manhã? Desci do beliche e saí rapidamente do quarto para atender.
– Jessi? O que foi? — Eu estava com uma voz de sono terrível.
– J-james, me desculpa te acordar assim. E-eu tive um pesadelo horrível. Vem aqui, por favor. As chaves estão debaixo do tapete. — Ela estava chorando. Eu nem respondi, apenas calcei uns chinelos e fui o mais rápido possível até o apartamento dela.
Se eu não houvesse me lembrado da chave no ultimo segundo, eu teria arrombado a porta. Entrei no apartamento com cuidado pra não esbarrar nos móveis escuro, e chamei o nome de Jessica umas duas vezes. Em resposta, escutei o choro vindo do quarto. Caminhei às cegas até lá, e ao entrar, a luz da varanda me ajudou a enxergar o corpo encolhido de Jessica, agarrando-se firme ao travesseiro.
– O que houve, Jessi? Com o que você sonhou? — Perguntei, sentando-me ao lado dela e protegendo-a em volta dos meus braços.
– D-diego.
Tinha que ser. Desgraçado.
– Foi só um pesadelo. Ele não vai te fazer mais nenhum mal, só por cima do meu cadáver.
– É sempre o mesmo, James. Nunca passa. Nunca. Às vezes eu queria morrer pra esquecer o que ele me fez.
– Não diz mais isso. — Impus, fazendo-a me encarar nos olhos. — Ouviu? — Ela assentiu e eu limpei suas lágrimas. — Eu vou te ajudar a esquecer isso. Esses pesadelos vão passar, ou eu não me chamo James Diamond.
Jessica deu um riso fraco que me provocou um certo alívio.
– Desculpa te perturbar a essa hora da madrugada.
– Ei, eu te amo e não quero te ver mal. Então sempre que quiser pode me ligar que eu venho correndo.
Mesmo com os olhos marejados, Jessi cedeu um sorriso.
– Você é o melhor namorado do mundo.
Ela pôs sua mão delicada em meu rosto e colou seus lábios nos meus. Seu beijo continuava sendo a 8ª maravilha do mundo. Decidi não aprofundar o beijo, apesar de querer muito, porque Jessi ainda estava muito abalada com aquelas lembranças e eu não queria que ela achasse que eu estava me aproveitando da sua vulnerabilidade.
– Você tá melhor, né?
– Acho que sim.
– É porque eu tenho que voltar pro 2J.
– Porque? Fica aqui essa noite, por favor. Eu não quero ter pesadelos de novo. — A cara de abandono de Jessica me convenceu. Eu não tinha motivos plausíveis para dar a ela, além de ela estava irresistivelmente linda essa noite. Depois de me convencer que eu consigo sim controlar meus desejos mais uma vez, decidi ficar e fazer companhia até ela dormir.
No dia seguinte...
Jessica
De tardezinha, fui caminhar com a Barbara no parque. Quando eu a encontrei na porta de seu apartamento, ela estava radiante.
– E esses olhinhos brilhando, o que aconteceu? — Perguntei descontraída. Ela fechou a porta do apartamento antes de me responder.
– É o Logan.
– O que ele fez?
– Você sabe. Ele é... Incrível. — Disse ela, com uma expressão maliciosa.
– Oh. — Tentei não parecer desconfortável ao saber da vida sexual dela, então esbocei um sorriso.
– E você e o James? Soube que ele foi dormir no seu apartamento. — Ela disse, com uma expressão curiosa e um sorriso sugestivo.
– N-não aconteceu nada. Eu apenas tive um pesadelo e o chamei pra me fazer companhia até eu dormir. Foi só isso.
– Ah... Então vocês não...?
Balancei a cabeça negativamente.
– Nunca?
– Não.
– Entendi.
Agradeci aos céus que aquele assunto acabou, pois ele me fazia lembrar que a única relação sexual que tive na vida foi perturbadora e sem meu consentimento. Eu sentia uma pontada de inveja de Barbara. Uma vida sexual ativa sem traumas. Mas, me conforto por ter encontrado alguém que entende o que eu passei e respeita meus limites. Muita gente não tem a mesma sorte.
Enquanto fazíamos nossa caminhada em volta do parque, Barbara resolveu trazer o assunto de volta.
– Você deveria falar, sabia? Sobre o que você passou.
– Hã? Falar pra quem?
– Pro mundo. Muita gente deve ter passado por isso e você tem muita visibilidade por ser famosa. Você pode ajudar as pessoas. Mostrar que não estão sozinhas.
– Ficou louca? Não, nunca. Eu não conseguiria.
– Bem... É só uma sugestão.
– Eu nem tenho coragem de dormir com o meu namorado, imagine isso.
– Mas se um dia você conseguir superar isso, talvez você consiga ajudar outras pessoas a fazer o mesmo.
– O problema é que eu nunca vou superar, Barbara.
– Ok, desculpa. Não vamos tocar mais nesse assunto.
Ela mudou de assunto em seguida, mas aquela ideia ficou martelando na minha cabeça.
Se eu não fosse tão medrosa, não fosse tão apreensiva em contar isso pro mundo, eu faria. Há milhares de pessoas agora que precisam de uma palavra de apoio. Também, há outras milhares que precisam de ajuda, mas não sabem que estão em um relacionamento abusivo. Ou sabem, mas tem medo de sair dele. Eu posso ajudar essas pessoas apenas com a minha voz. Mas para isso, preciso de ajuda também. Eu preciso me livrar desse medo que me prende.
Mais tarde, convenci James a dormir no meu apartamento alegando medo de ter pesadelos de novo. Depois de assistir filme juntos, fomos nos deitar. O tempo passou voando enquanto James e eu estávamos acomodados na cama. Com a cabeça em seu peito, eu conseguia ouvir seus batimentos cardíacos tranquilos. Diferentes dos meus, que mudavam de ritmo toda vez que eu lembrava de Diego.
Eu preciso esquecer daquela noite, senão eu vou enlouquecer. Mas eu nunca vou esquecer. Eu preciso então aprender a ignorar. Pensar em coisas mais importantes, como na minha carreira; na possibilidade de usar minha visibilidade para ajudar o próximo; em James... O homem que me dá carinho, respeito e que me ama e me passa confiança acima de tudo. Comparado a ele, Diego não merece o mínimo do mínimo de atenção dos meus pensamentos. Eu precisava mudar minha situação.
– James, tá acordado?
– Tô, tô. — Disse, despertando subitamente do seu cochilo.
– Você... faria qualquer coisa pra me ajudar?
– Claro. — Porém, logo ele se corrigiu. — Quer dizer, depende de onde você quer chegar com isso.
– Pode parecer uma ideia maluca, mas... Eu vou tentar te mostrar.
Sentei olhando para James. Com as mãos tremendo, tirei a camisa do meu pijama.
– O que você tá fazendo? — James perguntou espantado e sentou-se. — Veste isso de volta. — E me jogou a minha camiseta. Seria cômico se não fosse trágico. — Como me mostrar seu sutiã vai te ajudar?
– Você não entendeu, James? Eu quero...
Eu não sabia bem como dizer isso. Então olhei para a bermuda dele.
– ... Transar?
– É-é.
– Você não está bem, Jessi.
– Eu juro que nunca estive tão lúcida. É sério, James. Eu quero que você me mostre como é o sexo sem que eu seja forçada a ele. Quero que você me mostre que ele pode ser bom, para eu poder tirar a impressão terrível que eu tenho dele na minha cabeça. Quando eu ouvir as pessoas falando sobre suas experiências, eu não quero ter apenas uma experiência atormentadora para lembrar. Eu preciso dar um basta nisso e eu só confio em você pra me ajudar. Por favor.
Depois de expor tudo que se passava na minha cabeça, senti um pouco de vergonha. Nem sei de onde eu tirei coragem pra dizer tudo aquilo.
– Eu não vou transar com você, Jessica. Você ainda está fragilizada, abalada. Não vou. E se não for bom assim pra você? E se você não gostar nem um pouco? Não quero te traumatizar mais ainda.
Eu sabia bem que James não era mais virgem, na verdade tenho consciência de que ele é bem experiente, mas vê-lo falando daquela maneira preocupado, parecia que ele nunca havia feito aquilo e estivesse com medo de me decepcionar.
– Eu cansei de ser frágil, James! Cansei de ser a garota traumatizada. Eu só quero voltar a ser aquela garota forte que eu era. Quero ter coragem e autoconfiança de novo. Eu quero ser uma garota normal. Se você pudesse entender o quanto isso é agonizante, você me ajudaria. — Lutei contra as lágrimas, mas elas insistiram em cair.
– Não chora, Jessi... — James segurou meu rosto com as mãos, me fazendo olhá-lo nos olhos. Após um longo suspiro, ele cedeu. — Eu faria qualquer coisa por você, sim.
Ele limpou minhas lágrimas com os dedões e me beijou com calma, mas com eletricidade. Aos poucos foi aprofundando o beijo. Um misto de receio e felicidade se formou em mim. Sem pressa, ele pôs as mãos em volta da minha cintura, aproximando nossos corpos.
Até que nervosismo tomou completamente conta de mim sem aviso prévio. Tentei ignorá-lo, mas a minha respiração acelerada e descompassada me entregou.
– Você tá bem? — James perguntou, com desconfiança.
– Tô, tô sim.
– Se qualquer coisa estiver te incomodando, me avisa.
– Ok.
James voltou a me beijar, acariciando minhas costas. Suas mãos subiram até o fecho do meu sutiã e tentaram o abrir. Automaticamente, o empurrei para longe de mim assim que as cenas da noite com Diego me invadiram a mente.
– M-me desculpa, foi sem querer. — Desculpei-me, envergonhada. Ele pegou minha mão e a beijou com delicadeza.
– Jessica, eu disse que você não tá pronta pra isso. Não precisa se apressar. Eu espero o tempo que for, você sabe.
– Mas eu quero, James. Eu juro. Eu só não consigo... — Respirei fundo, tentando resgatar de dentro de mim o pouco de coragem de me resta. — Já sei. Não faz nada daqui em diante. Eu quem vou tomar as atitudes, tudo bem?
– O que você achar melhor. — Concordou com um suspiro.
Nos olhamos por alguns instantes até eu me tocar de lembrar de tomar a iniciativa. Coloquei minha mão no rosto de James e voltei a beijá-lo calmamente, mas aprofundando mais o beijo. Mesmo assim, ele não ousou por as mãos em mim. Eu mesma, com as mãos tremendo, abri meu sutiã e o tirei, sem interromper o beijo. James nem abriu os olhos para ver. Tomei mais um pouco de coragem e puxei a camisa de James para cima para tirá-la. Aquele momento, após atirar sua camisa no chão, foi a primeira vez que James olhou para o meu corpo semi-nu. Tentei disfarçar meu nervosismo com um pequeno sorriso.
James me beijou, mas continuou não tocando suas mãos em mim sem minha permissão. Ele me respeitava de uma maneira inimaginável, não havia porque ter medo.
O nervosismo cedeu um pouco de espaço para o calor. Uma chama acendeu-se dentro de mim e me deu mais coragem.
Peguei James pelos pulsos e o fiz passar as mãos pela minha cintura, sentir minhas costas delicadamente. Em seguida, passeei com elas pelo meu abdômen, me causando calafrios, e as subi até meus seios. Deixei-as lá. Aproximei meu corpo ainda mais perto do de James, sentando entre suas pernas e passando as minhas em volta do seu quadril. Pus meus braços em volta do pescoço de James e aproveitei o beijo enquanto ele acariciava meus seios com cuidado. Nosso beijo passou a ter sede.
Quando James pôs as mãos na minha cintura comecei a pender corpo para baixo, fazendo-nos deitar. Logo, James estava por cima de mim, mostrando que ele também tinha sede.
Porém, acabei abrindo os olhos sem querer, por apenas um segundo. O rosto, o corpo de James assim tão próximos trouxeram imagens que eu queria esquecer. Interrompi o beijo e pus as mãos no meu rosto. Eu queria ir em frente, mas meu subconsciente queria me torturar ao mesmo tempo.
– Está tudo bem, Jessi?
– E-está. Eu vou conseguir. — Eu disse, já com a voz trêmula. — Eu consigo.
Cerrei os olhos com força para afastar as lágrimas e as lembranças. Respirei fundo várias vezes e puxei o rosto de James, beijei-o vorazmente, como se assim elas fossem embora mais rápido se eu apenas as ignorasse.
– Não espere pela minha ordem. Pode fazer o que quiser. — Eu disse entre o beijo, e James me obedeceu.
Ele pousou os lábios em meu pescoço, fazendo chupões e me provocando doces arrepios. E continuou descendo. Sua boca foi generosa em meus seios e abdômen, parece que ele sabia que aqueles eram meus pontos fracos e me causou arrepios ainda mais profundos. Mais embaixo, ele tirou meu short junto com a calcinha. Quis levantar correndo para buscá-lo e vesti-lo novamente, mas me contive. Controlar minha respiração e os batimentos cardíacos era uma missão quase impossível, eu tinha a impressão de que James podia ouvi-los de tão altos.
Ele depositou, carinhosamente e olhando em meus olhos, beijos nas minhas coxas até chegar na virilha. Cravei minhas unhas no colchão para não interrompê-lo. Sua língua começou a dançar calmamente pela minha intimidade, concentrado-se em meu clitóris. Aquilo provocou-me arrepios infinitamente maiores que os anteriores. Com cuidado, James usava os dedos para massagear alternadamente.
Dedos e língua. Instrumentos simples que me fizeram relaxar em instantes e esquecer todas as coisas ruins do passado. James continuou até eu atingir o orgasmo, que foi como uma onda, ou melhor, um tsunami prazeroso que fez meu corpo inteiro tremer. Era êxtase, felicidade e relaxamento juntos. A sensação mais incrível que já senti na vida!
Após aquilo, James tirou sua bermuda, colocou a camisinha que devia estar criando teias de aranha em sua carteira e voltou a vir para cima de mim, este intervalo foi o suficiente pra me recuperar da sensação do orgasmo. Beijei-o com mais confiança e menos medo. Mais amor e menos receio. Quase não senti dor. Fizemos amor durante toda a noite e, ao fim, eu me sentia plena, amada e segura nos braços do único que poderia me desfazer das amarras do passado e me proporcionar prazer ao mesmo tempo, sem deixar de ter respeito e paciência comigo por um segundo. Para mim, aquela foi a minha primeira vez de verdade. O que houve antes dessa noite, apaguei da minha memória.
Há muito tempo eu não sabia o que ser verdadeiramente feliz era. E James me mostrou que ele é a pessoa certa para me fazer sentir assim pelo resto da vida.
Amor: era só isso que eu precisava para me curar.
Semanas depois, eu já estava dando palestras em diversos países sobre abuso e suas diversas vertentes.
Nem sempre abuso é só com o estranho estuprador na rua. O abuso pode acontecer dentro da nossa própria casa. Muitas pessoas não reconhecem que estão em relacionamentos abusivos, permanecem numa eterna fase de negação. Outras reconhecem que vivem o abuso diariamente, mas não sabem como pedir ajuda. Eu estava ali para tentar mostrar todos os tipos de casos de abuso, mas acima de tudo eu estava ali para conscientizar as vítimas de que a culpa nunca é delas e que elas não estão sozinhas nessa luta. Acho que consegui cumprir minha missão.
Quando palestrei no Brasil, pedi a meus pais que fossem assistir. Somente lá eles descobriram que eu sofri abuso do meu ex dentro de casa e eles me deram um apoio que eu poderia ter recebido quando eu mais precisei. Mas que o medo me impediu de ir atrás.
Eu fiquei com receio de reencontrar Diego quando eu estava no Rio, mas, dessa vez, eu não teria mais medo. Enquanto ele poderia ainda ter força física, eu tinha minha voz. E ela nunca mais será calada.
Fale com o autor