American Gurls
17 Broken Pieces
Notas iniciais
Primeiramente: MIL PERDÕES. Foram pouco mais de dois meses, né? Caraca. O mais legal era que toda semana alguém ia na minha ask do tumblr perguntar se eu havia abandonado. E é resposta é... Não! Acho que disse isso várias vezes, eu não vou abandonar essa fanfic nunquinha. Me desculpem se eu demorei tanto. Parece que eu passei da minha fase de criatividade instantânea, quando eu postava 1 capítulo por semana.
E só pra avisar, as falas em português são as que estão completamente em itálico. Ah, e me digam o que acharam da capa nova!
Vou tentar não demorar pra postar o próximo, ok? Tenham uma boa leitura!
Xoxo, morrissey!
James
Durante toda a minha vida, eu pensei e acabei me convencendo que eu era o sonho de toda garota. Lindo, charmoso e bom de papo. Eu nem me esforçava para ter quem eu quisesse em minhas mãos, era só preciso um sorriso e um “Hey, eu sou James” que eu já tinha um encontro. Mas depois que eu conheci a Jessica, tudo virou do avesso na minha cabeça. Ela era tudo do qual eu não estava acostumado a lidar. Uma garota difícil, complicada, astuta, forte, marcante. Se antes eu vivia pensando só em mim 24h por dia, depois que Jessi apareceu, ela começou a dominar os meus pensamentos desde a hora que eu acordava até a hora que eu ia me deitar. E de repente, eu vi que ela era o meu sonho. Jessica era tudo o que eu queria, tudo que eu precisava. Apesar de todos os obstáculos (lê-se Diego e distância) que eu tive que enfrentar, que acabaram fazendo demorar tanto para conseguir o que eu queria, agora que eu consegui, eu não vou largar Jessica jamais. Estou até pensando em sequestrá-la e levá-la na minha mala.
E poder beijá-la é tão mágico e inacreditável que às vezes eu me belisco só pra saber se eu não estou sonhando, como muitas vezes eu sonhei.
A melhor semana da minha vida. Apesar de eu não concordar e nem a mãe dela, Jessica estava deixando de ir aos retornos escolares pra me mostrar a cidade. Nos últimos dois dias, nós já fomos à praia de Ipanema – Jessi fica deslumbrante de biquíni, só pra deixar claro –, fomos ao Pão de Açúcar, andamos de bondinho, e visitamos o famoso Cristo Redentor. Ah, e namoramos várias e várias vezes por todos esses lugares. Jessica estava mesmo decidida e me fazer conhecer todo – eu pelo menos parte – o Rio de Janeiro em apenas uma semana. Hoje à tarde Jessi me levou para um lugar chamado “Lapa”. Um lugar não, um bairro. Eu fiquei encantado com tudo daquele lugar. Os casarões antigos, as ruas estreitas de pedra, até as escadarias! Tudo ali tinha cor, vida, história. Nem preciso comentar que eu quase fiz um book de fotos. Depois Jessi me levou para andar de bonde, e eu parecia uma criança animada. Passamos por cima dos “Arcos da Lapa” bem na hora do pôr-do-sol, e eu fiquei maravilhado com tudo. Quando acabamos nosso tour, a noite já havia chegado, e Jessica me levou para almoçar num restaurante que ficava num dos casarões antigos da Lapa. O lugar era pequeno, cheio, mais muito animado. Havia uma banda tocando ao vivo, e eu escutei o samba ao vivo pela primeira vez. Definitivamente, essa foi uma das noites mais divertidas da minha vida.
Após o jantar, Jessica e eu vimos que já estava na hora de voltar para casa e fomos caminhando para o ponto de táxi mais próximo. Mas quando estávamos chegando, do nada Jessica paralisou no lugar, porém eu continuei andando sem notar. Como eu estava segurando sua mão, eu acabei ficando “preso”. Eu me virei para olhá-la, e seus olhos castanhos mal piscavam e sua expressão de terror era eminente, o que me deu calafrios.
- O que foi, Jessi?
- D-diego.
Jessica
O ar fugiu instantaneamente dos meus pulmões. Eu sabia que tudo estava indo bem demais para ser verdade. Ali, a alguns metros a minha frente estava o meu pesadelo de todos esses dias. James voltou uns passos para trás para ficar ao meu lado no momento que ele também avistou Diego, e passou o braço em volta do meu ombro, como uma forma de me proteger. Porque de todos os lugares possíveis do Rio, ele estava justo aqui?
No momento em que Diego nos avistou, ele paralisou, assim como eu havia feito. Ele estava tão diferente. Mesmo sendo noite e ele estando relativamente distante de mim, eu conseguia perceber o quanto a aparência dele estava acabada. Diego estava maltrapilho, sujo, desgastado, morto. Então ele começou a andar em nossa direção, e meu corpo inteiro estremeceu de medo de ter que encará-lo novamente. James percebeu isso.
- Vamos embora, Jessi. – James me puxou, e eu não protestei. Eu queria fugir mesmo dali. Mas assim que viramos as costas para irmos, aquela voz que atormentava meus sonhos exclamou.
- Ei! Jessica! Aonde vai? Por um acaso se esqueceu de mim? – Diego perguntou de maneira provocativa, o que me fez virar de frente de novo. Que pergunta mais idiota. E Diego sabia muito bem que a resposta dela era “não”. Agora que ele estava mais próximo, o meu medo dobrou, no entanto eu não conseguia sair do lugar.
- F-fique longe de mim. Você disse que ia me deixar em paz. – Eu consegui falar com a minha voz já falhando. James me apertou mais em volta do seu braço, eu senti que ele estava tão tenso quanto eu. Diego ergueu os braços em redenção e riu de forma sarcástica.
- Calminha, Jessica. Eu só queria saber como você tá, mas parece que eu nem preciso perguntar, né? Tem até um namoradinho novo. – Ele disse olhando para James, que não tinha a mínima ideia sobre o que estávamos falando, mas ele não estava gostando nada disso.
- Vamos embora agora. – James ordenou, me puxando pelo braço e começando a me levar pra longe de Diego. Mas ele era persistente, e continuou vindo atrás de nós.
- Peraí, esse é aquele seu amiguinho americano? – Eu tentava continuar andando e ignorar a voz dele, mas era difícil. – O que ele faz aqui, Jessi? Me responde! Ah, eu sabia que assim que eu saísse da sua vida, você o aceitaria de braços abertos! Ou melhor, de pernas abertas.
Neste momento eu não aguentei. Parei de andar e me virei de frente para Diego novamente. Mas agora eu não tinha medo, eu tinha ódio. Ódio desse ser desprezível.
- Cala a sua boca! Seu vagabundo! Estuprador! – Exclamei, sentindo o choro lutando para desabar, e sentindo também a mão de James a me puxar inutilmente. Então eu livrei meu braço de James, eu não era mais a menininha frágil que precisava de proteção.
- Aposto que você contou tudo pra ele, né?! Mas você não muda mesmo, sua vadia fofoqueira! E você pode até se fazer de vítima pra quem você quiser, mas eu sei que você gostou!
James podia até não entender a nossa língua, mas ele entendeu que o que Diego havia falado não era coisa boa no instante em que ele viu meus olhos vermelhos e as lágrimas de raiva caindo deles.
- Fica longe dela, filho da puta!
–James avançou, empurrando diego para trás com as duas mãos.
- Ui, o viadinho ficou bravinho! – Diego caçoou e riu ironicamente.
A partir do segundo seguinte, tudo aconteceu assustadoramente rápido.
James deu um soco certeiro no rosto de Diego, fazendo-o cair no chão. Eu gritei o nome de James com horror, pois eu nunca o vi tão bravo. Diego não teve chance nem de se levantar, porque James já estava por cima dele, agredindo-o brutalmente.
- James, pare! James! – A visão dele brigando era horrível, e por mais que eu chorasse e pedisse para ele parar, ele não me escutava. Se não fossem os dois homens que logo apareceram para tirá-lo de cima de Diego, James teria batido nele até ele morrer.
Um homem segurava James, que se debatia, para mantê-lo longe de atacar Diego novamente, e o outro homem tentava manter o corpo fraco ensanguentado de Diego em pé. Eu corri para James e o abracei pela cintura.
- Por favor, acabe com isso. Já foi o suficiente. Vamos pra casa, por favor, Jay. Eu te imploro. – Eu dizia em meio ao meu pranto. Então James parou de se debater e o homem o soltou, permitindo assim que James passasse seus braços em minha volta.
- Você não quer que chamemos a polícia, moça? – Perguntou o homem que segurara James. Eu me desvencilhei do abraço e me virei para respondê-lo.
- Não, não... Não é necessário. Deixe que eu chamo a ambulância. – Mesmo depois de tudo que Diego havia feito para mim, dava pena de ver ele naquele estado.
Diego foi posto deitado em um banco e eu tratei de ligar para a emergência. Foi difícil ignorar os curiosos que ficavam nos rodeando, mas ainda bem que em pouco tempo a ambulância chegou, e quando fui perguntada sobre o que havia acontecido com Diego, eu menti, dizendo que já havia o encontrado daquela maneira. James se manteve longe o tempo inteiro, talvez para que não fosse levantadas suspeitas sobre ele, ou talvez porque ele não achasse certo o que eu estava fazendo.
Assim que levaram Diego, James voltou a se aproximar de mim e ele passou o braço em volta do meu ombro enquanto caminhávamos até o ponto de táxi, numa forma inútil de consolar o meu choro incessável que havia voltado. James me pediu desculpas até a hora em que entramos no veículo, e eu não sabia se eu chorava nos braços dele ou me afastava de medo ao relembrar a forma como ele agrediu Diego. Então, eu escolhi me afastar. Durante todo o caminho para casa, eu fui encolhida ao lado janela, e James acabou percebendo que eu queria ficar sozinha, chorando. Então ele também se afastou para a outra janela.
Eu estava muito assustada ainda. Eu nunca imaginei que James poderia ser tão brutal, tão frio. É horrível admitir que ele pareceu-se com Diego, fazendo outra pessoa apanhar sem piedade. Apesar de saber que James nunca me machucaria, eu estava com muito medo. Sentir isso era involuntário.
Chegamos em frente de casa, e eu simplesmente saí e deixei James lá para pagar o táxi. Eu entrei, não falei com a minha mãe e subi direto para o meu quarto, onde eu me tranquei. Esse era um daqueles momentos em que eu não queria ouvir ninguém. Eu só precisava ficar sozinha com os meus próprios pensamentos, tentando me convencer de que tudo isso vai passar e que eu vou ficar bem de novo.
James
Eu sei. Dessa vez eu extrapolei de verdade, mas confesso que não me arrependo. Sei que eu não deveria ter deixado o cara praticamente inconsciente, mas eu não consegui me segurar. Foi mais forte que eu. Aquele Diego precisava pagar por tudo que ele havia feito, precisava sentir na pele e dez vezes pior a dor que Jessica sentiu quando ele a agrediu. Ele mereceu.
Porém, por outro lado, estou com peso na consciência. Eu não tive a intenção de assustar Jessica daquela maneira, eu só queria protegê-la. Porque eu a amo. A coisa que eu mais odeio no mundo é vê-la chorar, e no momento em que o vi o rosto dela vermelho, eu não agi por mim. Mas parece que Jessi não lidou muito bem com essa forma de demonstrar meu amor. É, eu notei, porque por mais que eu pedisse desculpas, ela não me escutava. Eu acabei percebendo que ela só queria ficar sozinha, então eu respeitei isso. Quando isso passar, eu tento conversar com ela de novo.
Desde que chegamos, Jessica se trancou em seu quarto. Ainda bem que a minha camisa era escura e a mãe dela não notou as manchas de sangue de Diego. Maldito, sujou a minha blusa de marca. Passaram-se quase duas horas. Eu já havia tomado banho, colocado roupas mais leves, e fiquei me entretendo no meu celular dentro do meu quarto temporário. Então eu comecei a ficar preocupado, pois Jessica não havia saído do seu quarto até agora. Consegui ouvir daqui a mãe dela batendo à porta dela e falando coisas que eu não entendo, mas não houve resposta de Jessi. Em seguida a mãe dela apareceu na porta do meu quarto que estava sempre aberta e ficou parada me olhando por pouco tempo. Acho que ela queria dizer alguma coisa, mas ela sabia que eu não entenderia. Em sua feição havia tristeza, isso eu entendi perfeitamente, e eu logo soube o porquê. Nenhuma mãe gosta de ver sua filha triste, ainda mais sem poder saber o motivo. E eu creio que a mãe de Jessica já cansada de ver sua filha triste e nunca ter explicações. Então eu levantei e caminhei em direção ao quarto de Jessi, passando pela mãe dela no caminho, que me olhou com um sorriso agradecido. Parei na porta do quarto e bati três vezes.
- Jessi. Abre a porta, por favor. – Pedi, encostando a minha testa na madeira. Não houve resposta. – Eu sei que você queria ficar sozinha. E eu já te dei seu tempo, agora abre a porta, me deixa entrar e fala comigo. – Pedi novamente, mas eu não obtive resposta de novo. Ou ela estava dormindo, ou eu fui apenas ignorado mais uma vez. Pelo visto eu ia ter que partir pro discurso. Bem, se era a única maneira de fazê-la abrir a porta desse quarto, então que seja. – Jessica... Por favor, vamos conversar. Me desculpa, eu sei que você não gostou do que eu fiz, eu sei muito bem. Mas eu não pude evitar, ok? Eu não consegui aguentar te ver chorando de novo e não poder fazer nada. Eu fiz aquela besteira por que... Enfim, você sabe. – Eu não tive coragem de completar a frase, então eu resolvi deixá-la inacabada.
De repente, a porta se abriu, e eu quase caí pra frente porque minha testa estava apoiada nela, mas eu consegui recuperar meu equilíbrio rapidamente. Jessica estava parada a minha frente com um de seus pijamas grandes e estampados, olhando para mim com uma cara inchada, vermelha, e nada feliz. Ela não disse nada, apenas abriu caminho para eu passar e em seguida fechou a porta.
Jessica
Assim que eu tranquei a porta, eu voltei para a minha cama onde eu havia passado as duas últimas horas e abracei meu panda novamente. Eu olhei seriamente para James, esperando ele falar alguma coisa.
- Você não queria tanto entrar? Pronto. Já está aqui dentro. O que quer? – Eu não sei porque falei com tanta frieza. Talvez fosse a TPM, ou talvez fosse o peso de tudo que já aconteceu só neste ano comigo.
- Eu quero conversar com você, eu quero te ouvir. Ou você acha que eu ia te deixar ficar trancada a noite toda aqui?
Eu dei ombros, e engoli o choro. Por mais que James houvesse tido as melhores intenções possíveis, por mais que ele me pedisse desculpas, nada iria me fazer tirar a imagem perturbante dele agindo desumanamente com Diego.
- E o que você quer ouvir, James? Quer ouvir sobre o quanto eu fiquei horrorizada por te ver agindo daquela maneira? Ou você quer ouvir que, ao agir daquela maneira, você se pareceu tanto com Diego? – Eu o enfrentei, já com a minha voz falha. James ergueu as sobrancelhas, não gostando muito do que escutara. Acho que ele não gostou de ser comparado a Diego. Mas o que eu posso fazer se era a mais pura verdade?
- Eu não acredito que você está do lado dele.
- O quê? Eu não estou do lado dele. Eu não estou do lado de ninguém. Eu só me assustei com o que você fez, pois eu não esperava nada daquilo. Eu sabia que você tinha raiva dele, mas não sabia que chegava àquele ponto. E apesar de você saber que eu não gosto quando você tenta dar uma de "super-herói", eu entendo que você só queria me proteger, mas tudo aquilo foi desnecessário. Você não precisava tê-lo agredido daquela maneira.
- Você quer dizer, da maneira como ele agrediu você? – Ele revidou. Eu engoli o choro novamente. – Só o que eu fiz foi o fazer sentir a mesma dor que ele causou em você. Eu só fiz ele pagar na mesma moeda pelo enorme erro que ele cometeu ao encostar a mão em você. – James veio até a cama e sentou-se de frente para mim, me encarando sério. Eu recuei. – Eu não me arrependo do que eu fiz, Jessi. Ele mereceu. Aquilo foi para ele aprender a nunca mais machucar uma mulher, ainda mais uma mulher tão importante pra mim como você.
Eu abaixei a cabeça, porque eu senti que não dava mais pra prender as lágrimas. Eu não sabia mais o que fazer. Eu não queria outro namorado agressivo. Um já havia sido demais. Mas no fundo eu sabia que James não era capaz de fazer isso com uma mulher, pois eu sei como ele trata a todas muito bem. Porém o medo não saia de mim.
- Não chora, por favor. – James tentou me abraçar, mas eu o empurrei. – Jessi...? – Ele estranhou por eu ter rejeitado o abraço, então eu só enxuguei minhas lágrimas. Em seguida, acabei sentindo James lendo os meus pensamentos. – Não me diga que você está com... Medo de mim, está?
Não respondi.
- Olhe pra mim. – Ele pediu, e eu lentamente levantei o rosto inchado de tanto chorar para olhá-lo. – Está com medo de mim? Por causa do que viu? – Eu apenas afirmei levemente com a cabeça, então James segurou as minhas mãos juntas e encarou com seus olhos de mel o fundo da minha alma. – Eu nunca, ouviu bem?, nunca te machucaria. E eu nunca faria nada que você não quisesse. Nunca. Está me entendendo?
- A-aham.
- Eu sei que eu agi que nem um maluco, mas eu só fiz aquilo pra te defender. Eu não iria aguentar ver ele te magoar de novo. Eu só fiz toda aquela cagada, toda aquela besteira, por que eu te amo muito.
Wow, James realmente sabia como usar as palavras com uma garota. E como sabia. Eu encostei a minha testa com a dele, e encarei aquele rosto tão próximo de mim. James era mesmo um anjo, disso eu não podia duvidar. Então, devagar, nós aproximamos nossos lábios e nos beijamos. Um beijo leve, suave, calmo. Apenas os meus lábios colados nos dele. E eu continuava chorando, como sempre. Talvez eu devesse achar um remédio que me fizesse parar de chorar, pois já estava se tornando chato ficar choramingando toda hora. Saudades do tempo em que eu achava que era feita de pedra, até conseguirem me quebrar.
- Eu também te amo muito. – Acabei confessando, para único homem que conseguia colar meus pedacinhos quebrados.
- Não diga isso. – James disse com uma carinha de dar pena.
- Por quê? – Perguntei confusa.
- Por que senão eu não vou conseguir mais ir embora daqui. – Então ele conseguiu me arrancar um riso, mas um riso triste, pois eu lembrei que uma hora ou outra, ele teria que ir embora para L.A., e me deixaria aqui. – É... Eu vou ter que te colocar na minha mala. É o único jeito. – Ele brincou, me fazendo dar um riso um pouco mais alegre.
Eu acho que eu nunca desejei tanto caber numa mala.
No dia seguinte...
James
Jessica se sentia muito melhor hoje, fazendo consequentemente eu me sentir melhor. Até a mãe dela estava sorrindo mais. Hoje não saímos de casa porque eu obriguei Jessi a ir estudar, mesmo hoje sendo sábado, afinal passamos a semana só passeando, mas ela deu a condição de que só iria estudar se eu a ajudasse. Eu ri muito alto, porque, fala sério, eu sou a pior pessoa pra ajudar alguém nos estudos. Eu sou só bonito, não inteligente. Enfim, eu disse que o máximo que eu poderia fazer era observá-la estudando, e ela concordou. Jessica ficava na escrivaninha estudando, e eu ficava observando-a horas a fio. Eu poderia fazer isso o dia todo.
- Para de me encarar. – Jessica disse de repente, rindo.
- Mas tudo que é bonito tem que ser encarado. Digo isso por experiência própria.
- Cala a boca. – Riu ela, envergonhada.
- Ok, então o que você sugere que eu faça?
- Ah, sei lá...
De repente tive uma ideia.
- Hum, não diz nada, já sei. Onde está o seu violão? – Perguntei, mesmo sabendo que ela nunca me emprestaria seu violão.
- O meu violão? Ah, ele está debaixo da cama. Vai praticar.
- Sério? – Não esperava por uma resposta afirmativa. – Eu acho que estou meio enferrujado, não quero estragar seu violão precioso.
Jessi se virou e me olhou com ironia, mas mal conseguia segurar o riso. Nem eu.
- Pega logo isso e me deixa em paz.
Eu ri e enfiei meu braço embaixo da cama, tateando até onde eu conseguia alcançar, então senti a textura da capa do violão e o peguei. Quando o coloquei no meu colo, percebi que estava bem empoeirado.
- Uau, parece que eu não sou o único que está enferrujado. Há quanto tempo você não toca?
- Hum... Eu não sei. Faz tempo. – E só com a entonação deste "faz tempo", eu já havia entendido tudo com facilidade. Ela provavelmente não tocava desde que Diego a machucara. Eu não sabia que era possível, mas isso me fazia odiar ainda mais esse cara. Ele tocou em Jessica. Ele abusou dela. Ele a machucou. Ele a fez chorar. Ele a traumatizou pra sempre. O nível de raiva que eu sentia dele era infinito. Nenhumas das que eu deixei no rosto dele ontem pareceram suficientes para fazê-lo pagar.
Tirei o violão da capa e passei a mão na poeira, com o dedo contornei as cordas. Posicionei o violão corretamente sobre as minhas coxas, e tentei pensar numa música com notas fáceis de tocar, afinal eu não tenho muita habilidade ainda. Lembrei da técnica das três notas, e tentei testá-las numa música. Eu arrisquei tocar o refrão de I won’t give up, uma música que a banda e eu cantamos numa rádio há um tempo.
I won't give up on us
Eu não desistirei de nós
Even if the skies get rough
Mesmo que os céus fiquem violentos
I'm giving you all my Love
Estou te dando todo o meu amor
I'm still looking up
Eu ainda estou olhando para cima/melhorando/procurando
Oh
E esse foi o máximo que eu consegui tocar. Quando terminei vi que Jessica estava com o pescoço virado com os olhos paralisados em mim.
- Eu não sou tão bom quanto você nisso. – Confessei. Jessi riu e voltou a olhar para o caderno. – Eu adoraria te ver tocar. – Sugeri com um sorriso.
- Não vai acontecer. – Ela disse logo.
- Por quê? Eu sempre quis te ver tocando, tipo, ao vivo.
- Eu tenho que estudar, James, não tenho tempo pra te fazer um showzinho particular.
- Ah, deixa de ser chata. – Eu disse quando me levantei, e fui até ela. Cheguei por trás da cadeira, juntei o cabelo de Jessi e joguei por cima do ombro dela, depois me inclinei e passei meus braços em torno dos seus ombros. Quando comecei a beijar sua nuca, Jessica resmungou.
- James... Você está me distraindo.
- Toca uma música pra mim que eu paro de te distrair. – Sussurrei no seu ouvido. Ela se virou para me olhar diretamente e, entre um riso, rolou os olhos.
- Ok... – Ela pressionou seus lábios nos meus antes de se levantar da cadeira. – Você é muito insistente.
Jessica pegou o violão e se sentou na cama escorando-se no travesseiro e de pernas cruzadas, posicionando o instrumento no seu colo em seguida. Ela passou os dedos pelas cordas como se estivesse tentando reconhecê-las, como se houvesse desaprendido a tocar. Pelo computador, eu sempre vi Jessi tocar como se fosse feita pra isso, mas hoje ela parecia tão desnorteada quanto eu em começar a tocar. Mas a culpa não era sua disso.
- Ponha pra fora.
- O que? – Perguntou ela, confusa.
- Isso que está te prendendo. Ponha pra fora. – Eu sentei de frente para Jessi na cama, e mandei um sorriso encorajador. – Eu sei que você consegue.
Ela suspirou, posicionou os dedos nos lugares corretos, e começou a tocar. Não como antigamente, mas ainda com coração.
Jessica
Não devia ser, mas parecia tão difícil voltar a tocar violão agora. Trazia-me muitas lembranças. Muitas lembranças boas principalmente, e na época que eu parei, era desse tipo de lembrança que eu queria esquecer. Pois eu havia parado de tocar quando eu parei de falar com James. Não havia sentido pra mim continuar tocando se, enquanto eu tocasse, a pessoa da qual eu queria esquecer ficasse rodeando meus pensamentos em cada nota. Mas agora que James está comigo de novo, sinto motivação pra voltar a tocar.
A música que eu estava tocando era a que não saia da minha cabeça há muito tempo. Todas as noites, antes de James chegar, eu a escutava antes de dormir, e chorava até adormecer. Mas quando James chegou, eu parei de escutá-la. No entanto, ontem, eu escutei essa canção antes de dormir. Ela descreve tudo, e o nome dela é Dear John, da Taylor Swift. Se de algum modo eu pudesse mudar Dear John para Dear Diego, seria a música perfeita.
Long were the nights when my days once revolved around you
Longas foram as noites quando meus dias giravam ao seu redor
Counting my footsteps praying the floor won't fall through again
Contando meus passos, rezando para o chão não cair outra vez
My mother accused me of losing my mind
Minha mãe me acusou de ter perdido minha cabeça
But I swore I was fine
Mas eu jurei que estava bem
You paint me a blue sky, and go back and turn it to rain
Você me pinta um céu de azul, e volta para transformá-lo em chuva
And I lived in your chess game, but you changed the rules everyday
E eu vivia no seu jogo de xadrez, mas você mudava as regras todos os dias
Wondering which version of you I might get on the phone tonight
Pergunto-me qual versão de você eu pegarei no telefone hoje à noite
Well, I stopped picking up
Bem, eu parei de atender
And this song is to let you know why
E essa canção é para que você saiba o porquê
Dear John, I see it all now that you're gone
Querido John, eu entendo tudo agora que você foi embora
Don't you think I was too young to be messed with?
Você não acha que eu era muito jovem para você ter mexido com?
The girl in the dress cried the whole way home
A garota de vestido chorou durante todo o caminho de casa
I should've known
Eu deveria saber
Well, maybe it's me and my blind optimism to blame
Bem, talvez a culpa seja minha e de meu otimismo cego
Or maybe it's you and your sick need to give love then take it away
Talvez você e sua necessidade doentia de dar amor e depois tirar
And you'll add my name to your long list of traitors who don't understand
E você vai adicionar o meu nome a sua longa lista de traidores que não entendem
And I'll look back and regret how I ignored when they said:
E eu vou olhar para trás e me arrepender de como eu ignorei quando disseram:
“Run as fast as you can”
"Corra o mais rápido que puder"
Dear John, I see it all now that you're gone
Querido John, eu entendo tudo agora que você foi embora
Don't you think I was too young to be messed with?
Você não acha que eu era muito jovem para você ter mexido com?
The girl in the dress cried the whole way home
A garota de vestido chorou durante todo o caminho de casa
Dear John, I see it all now it was wrong
Querido John, eu vejo agora como foi errado
Don't you think 19's too young to be played by your dark twisted games
Você não acha que 19 anos é muito jovem pra você jogar seus jogos obscuros
When I loved you so?
Quando eu te amava tanto?
I should've known
Eu deveria saber
You are an expert at sorry and keeping lines blurry
Você é um expert em desculpas e em manter as linhas borradas
Never impressed by me acing your tests
Nunca me impressiono com seus testes
All the girls that you've run dry have tired, lifeless eyes
Todas as garotas que você seca tem olhos cansados, sem vida
Cause you burned them out
Porque você as queimou
But I took your matches before fire could catch me, so don't look now:
Mas peguei seus fósforos antes que o fogo pudesse me pegar, então não olhe agora:
I'm shining like fireworks over your sad empty town!
Estou brilhando como fogos de artifício sobre a sua cidade vazia e triste!
Nessa hora, eu desabei a chorar. Não havia mais condições de eu continuar tocando. Enfiei meu rosto em minhas mãos e solucei entre a cachoeira de lágrimas. James retirou o violão do meu colo e me abraçou forte, me protegendo nos braços dele enquanto acariciava os meus cabelos. Eu me senti mais segura instantaneamente. Essa música me trazia tantas memórias, tantos pesadelos, todos os meus sentimentos estavam descritos naquela canção. Acho que se James não estivesse aqui para me amparar, se eu estivesse sozinha, eu enlouqueceria. Naquele momento, eu agradeci infinitamente à Deus por tê-lo colocado na minha vida, e rezei para que ele não tivesse que tirá-lo de mim nunca. James era o meu anjo.
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