American Gurls
14 Across the Continent.
Notas iniciais
Playlist:
Shot in the Dark – Big Time Rush
James
Era 1h da manhã, o apartamento 2J estava escuro e silencioso. Somente a luz da lua, que atravessava a janela de cortinas abertas, e a do notebook iluminavam minha visão na mesa de estudos da sala. Enquanto todos dormiam, eu estava acordado procurando pelo horário do próximo voo com destino ao Brasil. Eu iria comprar lá na hora, no aeroporto, o que sairia duas vezes mais caro, mais aí eu lembrei que dinheiro seria o menor dos meus problemas. A bronca é que ninguém sabe ou pode saber sobre essa minha viagem relâmpago, pelo menos não enquanto eu ainda estiver nesse país, e já estou até prevendo: Todos vão ficar furiosos quando descobrirem. Mas eu tentava não pensar nisso, tentei não pensar nas consequências. E sim pensava em ver Jessica novamente, cara a cara de verdade depois de tanto tempo. Eu iria fazer uma surpresa e tanto.
Achei o horário do voo desta madrugada, seria às 4h. Mandei uma mensagem pra Barbara informando e ela logo me respondeu:
“Assim que sair daí me avisa Jamie.”
Bufei por ela ter me chamado por aquele apelido irritante, maldito o dia em que ela achou a foto do baile hein. Desliguei o notebook e fui arrumar minha mala. Peguei uma mala mediana, já que eu não pretendia ficar muito tempo lá, mas ao mesmo tempo precisava de espaço para os meus produtos de cabelo e, é claro, pro meu pente. E por fim guardei tudo com o máximo de cautela pra não fazer nenhum barulho. Se alguém acordasse eu não teria uma desculpa cabível pra dar.
Finalmente sai do quarto carregando a mala nos braços pra não arrastar as rodinhas no chão. Eu estava prestes a deixar o apartamento, e estava com muito medo de que desse tudo errado, ou que Gustavo me matasse. Respirei fundo e coloquei a mala no chão pra pegar a chaveiro no chaveiro e destrancar a porta.
– James...? O que está fazendo?
Parei de respirar, pensar ou fazer qualquer função motora com o susto que tomei. Nem Bluetooth passava por mim nessa hora.
Carlos estava acordado. Droga, droga, droga, mil vezes droga! Como assim, meu Deus?! Eu cheguei tão perto de sair! Porque essas coisas acontecem comigo?! Que. Droga.
Virei-me para ele com o sorriso mais forçado que pude colocar no rosto. Estava escuro, mas a luz da lua era suficiente pra ver a expressão confusa de Carlos, e o curativo acima de sua sobrancelha.
– Carlos! Como vai o meu amigo? – Desconversei, tentando ganhar tempo pra pensar em algo, mas eu não conseguia pensar em nada “convencível”.
– Ah, eu só vim beber água então eu dei de cara com você prestes a sair, com... Uma mala. Aonde vai? – Perguntou até um pouco preocupado.
– L-lugar nenhum. – Respondi ainda mantendo o sorriso.
– Mas essa mala aí é pra que então? – Ele questionou dando dois passos à frente para me analisar melhor e cruzou os braços. Fiquei sem saber o que dizer. Eu estava completamente vazio de ideias. – James, você ainda não me respondeu. Pra onde você vai com uma mala a essa hora? Espera... Você vai se mudar?!
– Não! Não. – Minha resposta fez Carlos suspirar aliviado.
– Que bom. Mas pra que é então?
A pressão psicológica era tanta que eu nem soube o que fazer. Uou, que nervosismo. Por fim acabei percebendo que mentir não adiantaria em absolutamente nada, primeiro porque estava muito óbvio o que eu iria fazer e segundo porque, uma hora ou outra, todos iriam acabar descobrindo.
– Eu vou viajar.
– Hum... Como eu suspeitei. – De repente a expressão calma de Carlos mudou para uma cara “Você ficou maluco?!”. Carlos é meio bipolar às vezes. – Você ficou maluco?! Por um acaso Gustavo sabe disso?! – Perguntou surtando, mas ainda sussurrando.
– Shh! Não. E eu não quero que ele e nem ninguém saiba, ouviu? – E lá estava eu pedindo segredo para Carlos Garcia, nada conhecido por sua discrição e sim por ser o cara mais sincero que conheço.
– Eu não prometo nada. – Fez jogo duro, começando a ficar aflito com aquela situação. – Você sabe que ele vai acabar descobrindo quando todos perceberem que você sumiu, e depois que ele descobrir onde você está... Você será um homem morto, meu amigo.
– É, eu sei! Mas ele só pode descobrir depois que eu já estiver fora do país. – Merda. Imediatamente coloquei as mãos na boca quando percebi que eu havia falado demais. Carlos arregalou ainda mais os olhos e o queixo caiu.
– Fora do país?! Enlouqueceu?! Eu pensei que você ia visitar a sua mãe, sei lá!
– Sh! Fala baixo! – Reclamei. – Não, eu não enlouqueci, mas vou se eu não fizer isso. Eu prometo que vou explicar tudo quando voltar. Eu não vou demorar. – Agora eu estava começando a ficar muito aflito, minha viagem dependia de Carlos agora. Ele respirou fundo e passou as mãos no rosto, parando para pensar por um momento.
– Espero que saiba o que está fazendo, cara. Só posso te desejar boa sorte. – Ele me deu um tapinha amigável no ombro e eu cedi um pequeno sorriso. Eu confesso estava bastante aliviado por ele não ter ficado magoado, ou com raiva de mim por eu ter surtado com ele e acabar machucando-o hoje cedo, mas eu ainda estava com um pouco de peso na consciência por causa disso.
– Valeu, e... E acho que não te pedi perdão pelo machucado. Desculpe, eu acho que estava meio alterado e confuso naquela hora e acabei fazendo besteira. – Falei arrependido e Carlos deu ombros com um meio sorriso.
– Tudo bem, eu entendo que não foi sua intenção. Afinal, você estava chorando. – Ele disse isso como se fosse uma coisa inacreditável, e era mesmo. – Mas eu tenho certeza de que se eu estivesse...
– Se você estivesse usando seu capacete... – Adivinhei a frase obvia dele.
–... Eu não teria me machucado! Era justamente isso que eu dizia pra Dria. – Ele terminou sua frase e nós rimos. Quando interrompemos nossa risada, dei uma breve olhada no relógio. – Vai logo senão vai perder o voo.
– Verdade. – Peguei minha mala e virei-me pra porta, quando estava prestes a sair, quase me esqueci de reforçar uma coisa. – Por favor, não esquece que se qualquer coisa acontecer você não sabe absolutamente nada sobre mim, ok?
– Ok... – Rolou os olhos.
– Posso contar com a sua palavra? – Perguntei só pra garantir que ele não diria uma palavra sobre essa nossa conversa pra ninguém.
– Claro! Não confia mais em seu melhor amigo? – Ele resmungou de brincadeira me empurrando pra fora. – Tenho uma boa viagem e manda um abraço pra Jessica. – Ele disse e quando ele estava prestes a fechar a porta na minha cara, eu o impedi, parando a porta com a minha mão. Espera aí, como ele adivinhou que eu ia ver a Jessi?
– Como você sabe que eu...
– Primeiro – Carlos levantou um dedo indicando o primeiro motivo. – Todo aquele chilique sobre a conexão ter caído e você ter que falar com a Jessica, o que resultou nisso aqui. – Ele apontou para o seu machucado e eu me senti um pouquinho culpado de novo. – E segundo, agora você do nada vai viajar pra fora do país? Aí fica óbvio, né amigão? Eu sou meio lerdo às vezes, mas não exagera. Eu sei muito bem que 1+1 é 2.
Pensando daquela maneira, acabei percebendo que se qualquer um ligasse os pontos, facilmente saberia onde eu estaria. Pelo visto vão descobrir minha fuga mais rápido do que eu imaginei.
– Certo... Tchau, Carlos.
– Tchau, James. E vê se não demora senão eu vou começar a escrever seu testamento! – Carlos disse, e eu só tive tempo de rir um pouco antes que ele finalmente fechasse a porta na minha cara. Respirei fundo após isso e tentei continuar com o pensamento positivo de que iria dar tudo certo. Mandei uma mensagem pra Barbara avisando que eu já havia saído, e logo ela respondeu mandando-me encontrá-la no saguão. Fiz isso e fiquei no sofá do saguão que estava bem escuro. Não, eu não fiquei com medo! Ok... Só um pouco, quando tocou o barulho do elevador abrindo. Vi Barbara sair dele vestida com um moletom, uma calça de malha, um par de chinelas e o cabelo vermelho despenteado preso num coque alto. Um exemplo de feminilidade.
– Oi... – Cumprimentou-me em meio de um bocejo.
– Oi. – Falei me levantando.
– Vamos? – Ela tirou as chaves de um carro do bolso e girou o chaveirinho circular no dedo enquanto passava direto por mim e eu continuava parado no lugar.
– Você vai me levar? – Espantei-me. Eu não estava à espera de uma carona, pensei que ela só queria, sei lá... Falar.
– Eu estou fazendo um favor a você, então, por favor, não me questione. Eu tive que dispensar meu motorista pra poder pegar o carro. – Disse ela com uma voz muito sonolenta e ainda me deixando pra trás. Conformei-me com a carona de ultima hora e fui atrás dela.
Caminhamos até o estacionamento de Palm Woods, pegamos o carro e Barbara me levou até o aeroporto. Eu estava começando a sentir o peso do sono nas minhas costas, então eu acabei cochilando com a cabeça encostada no vidro durante o trajeto.
.
– Ei, acorda. – Barbara cutucou meu ombro. – Chegamos.
Abri os olhos com dificuldade e suspirei preguiçosamente. Cocei os olhos, bocejei e olhei pra fora, vendo que estávamos parados bem na frente do aeroporto.
– Ótimo. – Falei, e pensei novamente se essa ideia maluca era a melhor decisão. Virei-me pra trás e peguei minha mala no banco de trás e a coloquei no meu colo. Antes de descer do carro, Barbara me deu todas as instruções de como me virar por lá, e me deu um papel com o endereço de Jessica em inglês e português, caso eu fosse precisar. Depois me disse que a primeira coisa que eu devia fazer quando chegasse lá era ir até uma loja de troca de câmbio, pra comprar Reais. Caso eu não achasse, Barbara me deu 100 reais que ela tinha guardado para emergência.
–... E é isso. Qualquer problema me liga imediatamente, entendeu?
– Beleza. – Ficamos em silêncio por um momento. Até que Barbara me olhou como se me perguntasse o que eu ainda estava fazendo ali. Bem, digamos que eu estava criando coragem pra sair.
– Será que isso é uma boa ideia?
– Olha, se é boa eu não sei, mas é a melhor que nós pudemos pensar. Por um acaso está com medo?
– O quê? Claro que não. – Fiz pose de machão. Barbara riu debochando.
– James... – Ela me encarou, pedindo-me a verdade apenas com o olhar.
– Certo, eu estou mais ou menos com medo.
– Mas você ama a Jessica?
– Com certeza. – Minha pele se arrepiou quando percebi que eu não havia nem hesitado para responder aquela pergunta.
– Você faria qualquer coisa pra vê-la sorrir?
– Qualquer coisa. – Respondi sem hesitar novamente. Uau, o amor muda muito as pessoas, vou te contar.
– Então é uma boa ideia. – Ela sorriu.
– Obrigado, Barbie. – Ela não pareceu se importar por eu tê-la chamado de Barbie, e me deu um abraço meio sem jeito por causa da mala no meu colo que atrapalhou, e depois disso eu abri a porta.
– Boa viagem, James. – Ela disse quando eu finalmente desci do carro e acenou para mim, eu acenei de volta e fechei a porta. Barbara não demorou pra acelerar o carro e sumir dali um pouco acima do limite de velocidade.
Agora eu estava sozinho, e tinha que me virar para encontrar a Jessica no Brasil. Senti um frio na barriga. A partir do momento em que eu comprasse aquelas passagens, não teria mais como voltar atrás.
Graças a Deus eu comprei uma passagem para um voo sem escala, por mesmo sem ter, fiquei 11 horas e meia naquele avião. É, eu dormi durante metade do voo, mas depois que acordei eu senti que iria apodrecer de tédio lá dentro. Eu até pensei em escutar musica no meu celular, mas estava com medo de que descarregasse então resolvi deixá-lo guardado. Minha vontade era de pular daquele avião. Mas quando a aeromoça finalmente anunciou que estávamos para pousar no aeroporto do Rio de Janeiro, sentir um frio na boca do estômago que me fez querer correr pra cabine do piloto e mudar a rota de volta pra Los Angeles. Precisei respirar fundo várias vezes pra me acalmar.
Agora eu já havia pego minha mala, e andado por todo o aeroporto procurando a droga da loja de câmbio. Eu me sentia muito desorientado. Eu estava em outro país, sozinho – pelo menos por enquanto –, sem conhecer nada da cidade onde eu estava, e perdido dentro do aeroporto. Depois de muito rodar, finalmente achei o que pensei ser a tal loja, e era mesmo. Troquei somente parte do dinheiro em dólar que eu tinha, afinal eu não queria gastar tudo. O quanto eu tinha naquele momento poderia me ajudar. Após isso caminhei tenso em direção a porta automática que dava para o lado de fora. Era tão estranho... Eu era um avulso ali, além do que eu não entendia uma única palavra do que as pessoas ao meu redor diziam. Quando cheguei do lado de fora comecei a me perguntar “E agora?”. Vi vários taxis parados na frente, e eu resolvi fazer um sinal de positivo para um cara barrigudo de barba rala escorado em seu taxi. Ele deu um sorrisinho forçado, deu a volta no carro e sentou-se no banco do motorista. Eu fui até o carro e sentei-me no banco do passageiro. OK, o que eu faço agora? Hum, tentar comunicação, isso.
– Hum, você fala inglês?
– Quê? – Acho que aquilo foi um “não”. Ainda bem que deixei o papel que Barbara havia me dado num lugar de fácil alcance. Meu bolso. Tirei o papel e entreguei ao homem. Ele analisou e fez um sinal de positivo pra mim, me devolvendo o papel. Suspirei aliviado. Olhei pro relógio que digital que havia em cima do taxímetro. Estava escrito vinte horas, e... Eu não aprendi a interpretar o horário de 24h, e nem podia perguntar que horas significavam naquele relógio. Chequei no meu telefone que horas eram em Los Angeles. Eram quatro da tarde, então mais quatro horas de fuso horário... São oito da noite. Uau, eu pensei que fosse mais cedo, tomei até um susto. A essa hora já devem ter notado meu desaparecimento, mas como assim ninguém me ligou ainda? Que estranho, ou eles estão muito ocupados que nem notaram minha ausência, ou Carlos e Barbara estão conseguindo enrolar eles muito bem. Olhei no meu telefone de novo e vi que ele estava no modo avião ainda, por isso que eu não havia recebido chamadas. Bem, é melhor não mudar o modo ainda, não é? Deixa isso pra mais tarde.
O taxista dirigiu pelo Rio de Janeiro por meia hora, a casa de Jessica parecia ser um pouco longe do aeroporto, mas eu nem me importei com isso, pois eu ficava admirando a cidade pela janela que nem uma criança boba. Era tudo tão... Não conseguia explicar o clima que aquela cidade me trazia. Só o que sei é que é uma sensação maravilhosa. Quando chegamos, aquela sensação se estremeceu dentro de mim. Era difícil acreditar que eu estava na frente da casa da Jessica. A garota que amo. Eu tive coragem de vir até o outro lado do continente, completamente longe de casa e provavelmente correndo risco de vida só para vê-la e cuidar dela. Senti novamente o frio no estomago, mas dessa vez duas vezes mais forte. Só de pensar em reencontrá-la eu ficava todo arrepiado. Paguei o taxista e desci do veiculo com a minha mala. Olhei novamente o papel do endereço onde estava escrito em inglês, e olhei pra casa a minha frente. Era essa mesmo. Caminhei com pernas bambas até a porta. Parei bem na frente dela. Ergui minha mão pra tocar a campainha e percebi que minha mão tremia de nervosismo. Respirei fundo, fechei os olhos e apertei o botão da campainha.
Cada segundo a mais que demorava a abrir a porta, mais eu ficava nervoso e tinha que respirar ainda mais fundo. Será que eu teria um ataque cardíaco antes de poder ver a Jessi de novo?
–Tô indo, calma aê! – Eu não havia entendido nada, mas eu sabia que aquela era a voz da Jessica. Pensei que minhas pernas fossem quebrar de tanto que tremiam. Puxei o pente do bolso rapidamente para ajeitar o meu cabelo e o coloquei de volta. Escondi minha mala atrás de mim para que ela não fosse vista logo e respirei fundo pela milésima vez só hoje. A maçaneta girou e a porta abriu.
E ali estava Jessica, mais linda do que nunca com o cabelo amarrado num coque bagunçado, vestindo um pijama comprido de estrelinhas e com a cara mais assustada do universo.
– J-JAMES?! – Ela falou e esfregou os olhos como se não estivesse acreditando que era eu mesmo ali, como se fosse só coisa da cabeça dela. Eu não sabia nem o que dizer.
– O-oi Jessica! – Sorri. Por um momento eu realmente acreditei que teria um ataque cardíaco de verdade.
– AI MEU DEUS! – Ela pulou em mim para me abraçar, e eu a abracei de volta com força. Eu estava tão feliz por vê-la que até girei um pouco com ela. Quando a coloquei no chão, ela olhou para mim tão feliz quanto eu. Era maravilhoso vê-la sorrir daquela maneira. – O que está fazendo aqui? Você devia estar em Los Angeles, trabalhando, sei lá! Você deveria estar lá!
– Mas eu vim te visitar!
– Jay, você é inacreditável! Você é muito maluco, cara! – “Maluco por você”, eu quis dizer, e ela me abraçou novamente. O cabelo dela cheirava tão bem! Eu não queria largá-la nunca, mas aí ela se soltou de mim. – E porque só veio você? Cadê os outros?
– Eu quis vir só. – Foi só o que eu consegui dizer. Droga, eu havia me esquecido de criar uma historia para dizê-la. Jessica rapidamente sacou qual era a minha, e sua expressão ficou desconfiada.
– James, por um acaso alguém sabe que você está aqui?
– Hum... Barbara sabe. Ah, e o Carlos me viu saindo.
Jessica passou a mão no rosto e suspirou. Eu estava esperando que ela gritasse comigo, mas ela simplesmente me encarou séria. Minhas mãos começaram a suar pelo jeito que ela me olhava. Então ela se inclinou pro lado para conseguir ver a minha mala atrás de mim. Agora ela parecia ter entendido tudo.
Jessica
– Ai, ai... – Sussurrei. – Uh, quer entrar e beber uma água? – Sugeri a James, que se espantou com a minha reação calma. – Meus pais não estão em casa. Meu pai viajou a trabalho e a mamãe foi para um chá de bebê. – Justifiquei e ele se mostrou mais aliviado. Ah, mas aquilo não era nem a fumaça do meu vulcão. Eu estava me segurando pra não brigar com esse maluco na porta da minha casa quase nove horas da noite, afinal, vai que esses vizinhos enxeridos resolvem ficar de platéia, né?
– Uh, claro. – Eu entrei e James veio atrás de mim, e fechou a porta. Fomos para a cozinha, onde ele deixou a sua mala num canto e sentou-se à mesa sozinho. Servi um copo de água para ele e me escorei no balcão, assistindo-o beber. Percebi que ele ficou notavelmente desconfortável com aquilo, mas essa era a minha intenção. James não consegue esconder nada de mim quando está sob pressão. Assim que ele terminou e pousou o copo sobre a mesa, eu continuei encarando-o pronta para começar a bombardear.
– Agora você já bebeu sua água, se sentou... Então, James, eu vou te dar uma chance, ok? Me explica porque você veio aqui. – Cruzei os braços, tentando passar um ar mais sério. Certo, eu confesso que estava explodindo por dentro de tanta felicidade por rever James, ali, na minha cozinha com uma mala. Meu coração derretia só em pensar que ele viajou todo o continente só pra vir aqui, mas essa situação também me desesperou. Eu queria explicações. James não pode simplesmente largar tudo lá em Los Angeles e vir pra cá pro Brasil sem quase ninguém saber, ele é completamente retardado! E eu que não quero ser motivo de confusão e problema na vidinha perfeita dele.
– E-eu, hum... Eu... Senti sua falta...? – Ele disse sem ter certeza, e é obvio que eu não caí nessa. Comecei a desconfiar de qual era o real motivo.
– Fala a verdade, por favor.
James tomou bastante ar e ficou pensando antes de começar a falar. No fundo eu sabia que era verdade sobre ele sentir minha falta, e ele sabe o quanto eu sentia falta dele também, mas tenho certeza que essa não foi a razão principal.
– Eu não sei na verdade porque eu vim aqui. Acho que eu... Eu surtei depois que você me contou aquilo que o – Ele se interrompeu para não citar o nome dele e eu abaixei a cabeça, respirando fundo várias rezes pra não chorar. – Aquilo que “ele” fez pra você. Eu estava enlouquecendo mesmo, então a Barbara me disse pra vir pra cá pro Rio.
– Espere. A Barbara te disse pra vir aqui? – Perguntei sentindo que eu estava começando ficar mais irritada.
– Sim, e como você acha que eu consegui seu endereço?
– Sei lá, mas você contou pra ela sobre o...?
– Contei... Eu não devia? – Ele perguntou desentendido e dei um tapa na minha própria testa, bufando.
– Claro que não, James! Eu disse pra você não contar!
– Você disse? Sério? Mas porque ela não podia saber? Ela se importa com você tanto quanto eu.
– A questão não é essa, é que... – Eu parei, pois realmente não sabia o que dizer. – Eu só, sei lá, não queria que ela soubesse. – Respondi meio confusa das minhas próprias palavras.
Nem eu sabia direito por que queria esconder isso da Barbara, talvez eu não quisesse que ela sentisse dó de mim. E eu não queria me sentir... Inferior. É meio estranho isso, né? Nós sempre estivemos no mesmo “nível”, e então de repente ela vai pra outro país, ser famosa, rica, esbanjar seu talento, enquanto eu fico aqui no fundo do poço. Do ano passado pra cá sempre que nos falamos pelo telefone fica um clima diferente, como se fossemos duas estranhas conversando. Ás vezes sinto como se eu fosse a coitada da história e Barbara a amiga sortuda. É muito chato isso, sabe? E eu não quero que ela se ache na obrigação de me ajudar só porque agora ela tem condições pra isso e precisa causar uma boa impressão ao outros, não quero que ela pense que depois de estamos tão afastadas, eu só vou me aproximar dela de novo para o meu próprio benefício. Eu não sou assim.
– Mas por que você não queria que ela soubesse?
– Ai, para de fazer perguntas, James. – Falei incomodada, coçando minha nuca. – Não é da sua conta. E você não devia ter vindo aqui, sabia? Isso foi idiotice. – Extrapolei sem querer como sempre, fazendo uma bola de neve com a angústia no meu peito.
– É idiotice eu me importar com você? – Ele perguntou indignado.
– Não foi isso que eu quis dizer, eu disse que foi idiotice você ter largado tudo lá em Los Angeles só pra vir aqui na minha casa. Quantas vezes eu vou ter que te dizer que eu não preciso de guarda-costas, de um segurança, um protetor ou sei lá? Eu sei me cuidar.
– Ah, sabe?! – Questionou incrédulo. – Pelo amor de Deus, Jessica, você fala tanto do meu orgulho, mas é tão orgulhosa quanto eu. Você não consegue ver que eu só quero te ajudar?
– Sabe como você pode me ajudar? – Aproximei-me da mesa e apoiei minhas duas mãos nela, encarando James friamente. – Voltando pra onde você veio, pois você não tinha nada que ter vindo aqui. Aposto que veio só pra fazer uma ceninha bonitinha, né? Mas isso aqui não é conto de fadas, James, vê se acorda. Você teria me ajudado mais se tivesse continuado lá, me apoiando e ficando do meu lado, mesmo que fosse só pela tela do computador. Não precisava ter perdido seu tempo, se arriscado só pra vir aqui e mostrar pra mim quão fraca eu sou por precisar que meu amigo viaje todo o continente só pra me dar consolo. – E depois disso ficamos alguns segundos em silêncio, tempo suficiente para eu recuperar o meu ar e finalmente me dar conta do tanto de coisa que eu havia dito, e que pela cara que James estava, parecia que eu o havia ferido fundo dessa vez. Ele se levantou e veio até mim batendo palmas sarcasticamente. Se a missão dele era me deixar mais puta da vida, ele conseguiu naquele momento.
– Jessica, você é definitivamente a pessoa mais orgulhosa, ingrata e teimosa que existe. Você deveria ganhar um premio, sabia? Mas antes, por favor, me desculpe se eu te ofendi quando eu viajei todo o continente só pra ver se você estava bem, porque eu realmente me preocupo com você, mas o seu orgulho é tão grande que você nem vê a gravidade da situação, né? Então deixa eu refrescar a sua memória: Você foi agredida e estuprada dentro de sua própria casa, mas mesmo assim nega que precisa de ajuda. Dá pra ver que você está traumatizada, fora de si, pois essa não é mais a Jessica que eu conheço, mas... Se você acha que eu sou um idiota por ficar preocupado, mil perdões. – Naquele momento, eu estava paralisada, totalmente sem reação. James disse todas aquelas palavras sem nem pestanejar, sem nenhuma pena do tamanho do impacto que elas tem sobre mim. Minha garganta doía de tanto segurar o choro. Tentei permanecer firme e forte enquanto ele dizia aquelas coisas na minha cara, mas nós dois sabíamos que por dentro eu estava desmoronando. Então ele se afastou, pegou sua mala e saiu andando rumo a porta da frente, mas no meio do caminho ele parou, como se houvesse esquecido de algo. – Ah, e sabe qual é o meu maior erro de todos, além de ter vindo até aqui pra nada, Jessi? É que eu me importo com você mais do que eu devia, e mais do que você merece. – Depois disso ele só continuou a caminhar, e a ultima coisa que eu ouvi foi o barulho da porta batendo.
Meu coração começou a bater mais devagar, sem força. Todo o peso do meu corpo despencou no chão frio, eu só deixei a gravidade me levar. Abracei meus joelhos e chorei tudo que estava entalado. Doía tanto, tanto... Que eu acabei percebendo que não importa o quanto eu tente parecer forte, eu não sou. E o que doía mais ainda era saber que agora eu estava completamente sozinha. É, eu tenho os meus pais, mas ele nunca poderão saber de nada dessa história, então acho que isso só piora tudo, pois agora eu terei que esconder deles essa dor ainda maior.
Que merda, James tinha toda a razão. Eu não mereço em um pingo do carinho que ele sente por mim. Por que eu sou tão babaca? Agora eu não tenho ninguém, até James desistiu de mim. Eu sou uma fudida mesmo. Mereço mais é que não ter ninguém mesmo, assim eu não machuco ninguém e nem me machuco.
Depois de alguns minutos, resolvi me levantar e, sei lá, ir dormir. Talvez pra sempre. Caminhei até a escada, mas como ela fica na sala, acabei notando enquanto subia que eu havia deixado a janela aberta. Eu devia tê-la esquecido hoje de tarde, porque estava um calor terrível. Desci os poucos degraus que eu havia subido e fui até a janela, mas antes de fechá-la fiquei surpresa com o que vi lá fora. Era James, sentado na calçada com sua mala ao seu lado esperando algum milagre acontecer, eu acho. Porque ele ainda estava aqui? Ele queria ser assaltado, é? Comecei a ficar curiosa. Fechei a janela e as cortinas e enxuguei o rosto. Fui até a porta e a abri devagar. Por um tempo fiquei lá parada, observando-o ficar cada vez mais frustrado com o sua vida. Então com muita coragem decidi falar alguma coisa.
– Porque ainda está aqui? – Perguntei em alto e bom som para que ele pudesse escutar, e ele escutou tão bem que até tomou um susto. Ele virou para me ver e então se mostrou sério para mim.
– Pegar um taxi nessa rua é mais difícil que pegar na porta do aeroporto.
– Ah. – E foi só o que eu soube dizer. Eu poderia ter dito que ele nunca conseguiria pegar um táxi aqui, e que o mínimo que ele teria que fazer era ir andando até a travessa principal e esperar algum táxi passar por lá que era bem mais provável, mas eu não disse absolutamente nada. James virou-se pra rua de novo, me ignorando por completo. E eu não consegui evitar mais uma vez, e minha garganta contraiu enquanto eu tentava controlar o a frequência com que as lágrimas desciam. Era uma agonia, uma angustia, uma magoa insuportável. Eu não iria aguentar por muito tempo. É, eu preciso mesmo de ajuda, quero dizer, eu preciso do James. – J-james. – O chamei com a minha voz falha, e quando ele se virou para me olhar outra vez, viu que eu estava chorando. Senti meu orgulho ferir nessa hora, mas essa dor nem se comparava a dor de perder meu melhor amigo.
– Oh, não, Jessi... – Ele disse com um tom de voz com culpa e uma feição arrependida, como se naquele momento ele estivesse se sentindo culpado pelo meu choro, o que era totalmente errado por que a única culpada por esse torpor em mim sou eu mesma. James se levantou e veio puxando sua mala até mim e eu corri pro abraço dele. Esse não foi como abraço que demos quando eu o vi primeiramente hoje. Esse foi o abraço que eu vinha implorando há semanas, o único abraço que poderia me acalmar e me trazer paz.
– Eu preciso de você, preciso de você aqui. Eu sei que eu sou uma idiota e falo coisas erradas na hora errada, mas me desculpa, James. Por tudo. Por favor, não vai embora. Não me deixa aqui sozinha. – Eu pedi em meio de prantos e soluços com a cabeça no peito de James, enxugando minhas lágrimas na sua camisa e sendo aquecida pelos seus braços naquele casaco de duas camadas.
– Eu não vou embora, eu prometo. Você não está sozinha, lembra? – Como James conseguia ser esse anjo na minha vida, hein? Nem sei o que eu faria sem ele, sério mesmo. Depois de alguns minutos daquele jeito, nós infelizmente nos afastamos, pois já devíamos estar há muito tempo abraçados. – Não chora, não. – Ele disse enquanto limpava o meu rosto, e após isso aproximou os lábios da minha cabeça e beijou minha testa com carinho. – Odeio te ver triste. – Disse olhando profundamente em meus olhos, me causando arrepios e eu consegui somente assentir. Agora sim eu conseguia admitir para mim mesma que eu estava feliz porque James estava aqui, mas eu só não entendia porque estava tão feliz assim. Ficamos mais um tempo em silêncio, mas agora nos encarávamos com meios sorrisos, e eu podia ver o brilho nos olhos de amêndoa de James. Ele estava tão feliz quanto eu.
E eu vou voltar a ser feliz sempre, daqui pra frente iria ser assim com certeza.
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