Ame No Orchestra

1 I- The rain falls like on that day.


Notas iniciais
Perdão pelo atraso, Vi. Ficou simples, mas foi de coração e espero que goste um pouquinho desta experiência bizarra que foi misturar Kaya com Plastic Tree. q ♥
A fanfic é, em sua maioria, composta por um grande flashback representado em itálico. Três capítulos. Sem mais recaditos, enjoy it! :D

Trovão.


O corpo jogado no sofá da sala moveu-se num sobressalto, os poucos pêlos dos braços descobertos eriçados ao passar de uma breve corrente de ar pelo cômodo. Com o susto, os dedos afrouxaram deixando cair o pequeno bloco de anotações que, durante o sono, segurava junto ao peito.


Os olhos negros, pesados pelo desagradável despertar forçado, foram direcionados à janela. Pingos grossos e descoordenados batiam no vidro em uma sinfonia entristecida. Estúpida chuva de fim de tarde.


Reavendo o bloco, sentou-se da devida maneira, sacudindo a cabeça numa falha tentativa de livrar-se daquele estado letárgico. Levantou os braços, esticando o corpo e logo reclamando dos inúmeros estalos dolorosos nas costas. Não acreditava que tinha se deixado capturar pelo sono outra vez, não quando estava finalmente cumprindo seu papel de membro de uma banda e, sabe-se lá por que milagre divino, terminando uma música. Os olhos já mais atentos percorreram a folha de papel, relendo o texto rasurado em inúmeros pontos.


Fechei meus olhos em um choro,

Pagando com lágrimas que se derramaram nos bastidores das minhas memórias

Eu olhei para o futuro

E eu procurei por um amor, amado tão profundamente que se tornou solitário,

Sofrido, lamentável, triste.

Incapaz de ver, no instante em que pisquei meus olhos este momento estava em câmera lenta.



Mordeu a tampa da caneta esferográfica resgatada em meio às almofadas, a seguir batendo-a ininterruptamente contra a coxa em sinal de impaciência. Faltava algo. Faltava... Alguém.



Em uma página em branco, posiciono a caneta e começo a escrever nossas memórias



A ponta da caneta foi posicionada na no espaço vazio abaixo daquele trecho e logo a mão começou a se mover, dando forma a um novo parágrafo.



Quero ver você, mas não posso

A flor que eu persegui e tentei tocar

Estava encharcada

Uma ilusão... (1)



Franzindo o cenho em desaprovação, arrancou aquela página e atirou-a o mais longe que conseguiu. O que estava tentando fazer? No fundo, não queria que aquela música ficasse pronta, sabia que travaria assim que abrisse a boca e o resto das palavras se perderia, pois, ao tentar cantá-la, teria em mente a figura daquele que, sem saber, inspirou-o a escrevê-la.


“Não sei escrever letras” murmurou para si mesmo após um pesado suspiro. “Apenas escrevo o que penso após ouvir cada música”. (2)


Levantou-se, irritado, largando o bloco de papel sobre o estofado e caminhando até a janela. A palma destra tocou o vidro frio, causando em seu espírito um tremor que só o contato direto com as lágrimas do céu em sua pele seria capaz de causar. Gostaria de entender como podia haver tanta água lá em cima para que aquela chuva continuasse caindo. De encontrar um motivo para ainda ter de ouvir sozinho aquela triste melodia.


Durante o dia todo, choveu do lado de fora, como aquele dia

A chuva bate na janela ainda e sempre.



O olhar erguido em direção ao relógio de parede e a posição dos ponteiros fazendo surgir em seus lábios o primeiro sorriso daquele fim de tarde. Embrenhou-se na escuridão do corredor, adentrando seu pequeno quarto de solteiro. Voltou à sala vestindo um casaco preto desabotoado e tendo nas mãos um chamativo guarda-chuva vermelho. Pegando as chaves sobre a mesa, lançou um último olhar ao relógio. Estava na hora de ir.



–


Kyoto, 1999.


Quanto mais corria, mais a rua parecia não ter fim. Não imaginava que aqueles pequenos círculos molhados no asfalto cinzento fossem transformar o mesmo em uma pista propícia a escorregões. Já não bastava estar perdido em uma cidade que supostamente conhecia tão bem para ainda ser pego de surpresa por aquela chuva absurda.

Perdido não era exatamente a palavra certa. “Desviado”, talvez. Havia apenas errado o local onde pegara o táxi para ir a uma casa de shows... (3) De qualquer forma, sua situação não era nada boa e o primeiro espirro lhe deu a certeza de que passaria o resto da semana de cama graças àquele odioso imprevisto. Maldito dia em que resolvera sair de casa sem um guarda-chuva — o que não era nenhuma novidade, afinal, Ryutaro Arimura odiava ficar segurando aquela coisa.

Assim como no escuro todos os gatos são pardos, debaixo daquela tempestade o cenário era o mesmo para onde o moreno olhasse. Não tinha qualquer esperança de encontrar um ponto de ônibus ou um abrigo temporário que pudesse impedi-lo de ficar mais encharcado do que já estava. Para piorar, enquanto corria teve a visão dificultada pela enorme franja caindo sobre seus olhos. Antes que pudesse afastar os fios negros com os longos dedos da destra, acabou colidindo com alguém que vinha na direção oposta e, na força do impacto, foi para o chão junto com ele.

– Olha por ande anda...! – Resmungou Ryutaro, levantando-se irritado.

– Olha por onde corre! – Retrucou a doce voz do rapazote caído sentado à sua frente.

Um jovem pálido e magrinho de não mais que dezoito anos em um uniforme escolar. Traços quase femininos, semelhantes aos de uma moça — e teria sido confundido de imediato caso não tivesse se pronunciado. Olhos grandes e expressivos olhando confusos para o estranho que o havia derrubado e, caídos a seu lado, a pasta e o guarda-chuva vermelho que se desprenderam de suas mãos no momento da queda.

– Desculpe, eu... Hnwr... – Coçou a nuca com uma mão enquanto a outra era estendida ao mais novo para ajudá-lo a se levantar. – Não achei que teria mais alguém andando por aqui com essa tempestade.

– Não achei que teria mais alguém andando nessa tempestade, e muito menos que esse alguém me derrubaria. – O garoto riu baixinho, curvando-se para recolher seus pertences. – Nunca o vi por aqui. Está perdido?

Quis dizer que não, que estava apenas dando uma volta na chuva. Tinha o costume de responder às pessoas de forma estúpida de vez em sempre, mas aquilo em nada o ajudaria. Já estava ferrado demais para ainda tratar mal alguém que havia acabado de literalmente atropelar em uma rua desconhecida. Olhou ao redor e reconsiderou. Não havia simplesmente errado o caminho, estava completamente perdido.

–... Bingo.

– E está sem guarda-chuva também...

– Estou bem assim. A chuva é boa para lavar as ideias – Levou o indicador à testa, exemplificando.

Um novo riso delicado escapou dos lábios cheios do rapazinho, ocasionando em Ryutaro um breve torcer da expressão por pensar que o outro poderia estar zombando de si.

– Do que está rindo?

– Você é engraçado. Está ensopado da cabeça aos pés sem nem saber onde e ainda quer sair dessa sozinho.

O vocal deu de ombros, sorrindo de canto. Era seu singelo e desleixado modo de concordar com algo que jamais admitiria por vontade própria.

– Como você sabe, se a chuva está caindo muito forte, nós perdemos a direção. Nós andamos como sempre, mas não conseguimos enxergar nada à frente, de onde viemos e para onde estamos indo... (4) – Justificou-se o moreno, tentando parecer menos idiota aos olhos do desconhecido.

– E será que eu posso saber para onde estava indo?

– A uma casa de shows...

– Volte pelo caminho por aonde você veio – O braço esquerdo do garoto foi estendido para um ponto ao longe. – Primeira à esquerda. Tem uma casa de shows lá, deve ser a que está procurando.

– Ali? Não, espera, ali mesmo? Acabei de passar por aquela rua e não vi, como isso é possível? Será que tem um par de óculos aí nessa sua pasta?

Mais um risinho contido da parte do menino e a mão esquerda firme no cabo do guarda-chuva foi estendida ao mais velho, oferecendo-o a ele.

– Leve isto com você.

– Eeh? Não posso aceitar isso, é seu! – Ryutaro recusou prontamente, abanando as mãos em negativa.

– Pegue – O garoto apenas recurvou os lábios em um semi-sorriso meigo, impossibilitando a Ryutaro negar o gesto uma segunda vez. Tímido, o vocal tomou em mãos o guarda-chuva, vendo os cabelos castanhos e os ombros não muito largos do rapaz serem rapidamente tomados pelos grossos pingos d’água que visivelmente caíam com mais força.

– Obrigado, mas... E você...?

– Não se preocupe, moro aqui pertinho! – Exclamou o outro junto a um sorriso otimista. – Por favor, fique com ele.

Nisto, o rapazinho saiu correndo, sumindo na escuridão que se estendia ao longo daquela rua, deixando ali um Ryutaro embasbacado debaixo de um pequeno guarda-chuva vermelho como uma rosa.

– Mas você nem perguntou meu nome... – Murmurou desapontado antes de tomar a direção que o garoto havia lhe apontado. – E não me deixou saber o seu.

Notas finais
1- A música escrita por Ryutaro no texto é Fukurou.
2- Modificação de uma resposta de Ryutaro a uma entrevista que achei fuçando no JaME, onde ele explicava as músicas do Strange fruits. O trecho em questão refere-se a Psycho Garden, falando sobre o quadro-negro do estúdio onde ele costumava tocar com Tadashi.
3- Ryutaro realmente se perdeu em Kyoto, mas não há relatos de ele ter encontrado um Kaya de guarda-chuva vermelho no caminho e. q ~ O ano de 1999 foi uma escolha boba da autora mais boba ainda que gosta muito de X-1999.
4- Modificação de outra entrevista. Tadashi explicando como a banda se perdeu em sua primeira viagem a Sapporo mas, ao invés de chuva, era neve.