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9 O cap VIII


Notas iniciais
Hey Galerê, voltei!!!! Esse cap tá curtinho, longe dos mais de 3k habituais. Mas, tenho uma surpresa pra vocês lá nas notas finais, okay? Então tá. Fiquem com: O CAP VIII

Se minha vida fosse um barquinho de papel, com certeza esse seria o momento em que a suprema entidade chamada Destino, estaria juntando seus diabólicos lábios e soprando-o pra um rumo indesejado. A ilha do pesadelo, eu diria!

Onde é que eu fui amarrar os meus cavalos? Você poderia, simplesmente, ter ido direto pra casa, Sabine. Enfrentaria a megera Nakayama, porém, ao menos, ela teria a decência de ignorá-la pelo mero prazer de ser minimamente diplomática.

— Kuso! – uma senhora que atravessava a rua me olhou feio. Precisamente, de alto a baixo. Camiseta masculina até o meio das coxas não deve condizer com a “elegância” de Catalina, pelo visto! Hipócritas!

Parei no meio da calçada, em frente ao Solarium’s Garden. A praça – estufa fazia jus ao nome. O teto era coberto por treliças envidraçadas para que o sol pudesse atingir as pessoas do lado de dentro. Grandes colunas e vigas grossas sustentavam a estrutura metálica, onde algumas plantas silvestres e trepadeiras subiam como parasitas. No centro da praça, haviam pares de mesas de ferro enferrujado dispostas em torno da fonte de pedra de aparência secular.

Comecei a dedilhar os dedos distraidamente — ou nem tanto — retornando ao velho hábito, vulgo tic nervoso, de contar até três seguidas vezes. Julguem como quiser, mas, na minha opinião, essa é forma mais sadia de liberar a energia acumulada!

Atravessei o portal de entrada, já sentindo o ar gélido da climatização artificial bater contra meu rosto. Sabine e plantas atípicas agradecem! Me aproximei de uma das mesinhas retorcidas, sentindo as borbulhas de enjoo retornarem, ao constatar para onde meus pés traíras haviam me trazido.

Escolhi uma das cadeiras retorcidas, acomodando-me, agradecida pelas lufadas de ar frio. Era tão difícil respirar quando a garganta se fechava com um bolo ácido intragável.

Intragável, na realidade, eram as lembranças que o ‘Destino’ estava tentando enfiar-me goela abaixo, como algum remédio amargo. Ri da minha própria analogia. Era exatamente o que o “projeto de psicólogo” do batalhão me diria. Algo sobre remédio não ter um bom gosto, mas ser particularmente necessário para a recuperação!

Eu — com toda certeza — deixaria claro o meu ponto, se o fizesse saber que lembrar da noite do acidente me causava enjoos. Que as consequências daquela noite foram irreparáveis e me estilhaçaram. Que lembrar a forma com que Marlon me manipulava, e tudo ao seu redor para que minha vida em particular estivesse sob o efeito de suas próprias rédeas disposta ao deleite de seu bel prazer, me desestabilizava cruelmente.

Entretanto, fazê-lo saber era uma coisa totalmente incabível, uma vez que este se revelara uma peneira de informações para Janeth. Eu não desejaria que ela soubesse, nem minimamente, o quanto estava certa sobre certos aspectos daqueles acontecimentos. Ademais, sobre Marlon.

Marlon. Tudo sempre retorna para ele, não é? Até mesmo agora, aqui, consigo vislumbrar os dedos brancos dele fazendo jogadas com a minha vida. Exatamente aqui. Solarium’s Garden. Quando eu tinha apenas quinze anos. Contudo, aquela época, não haveria como saber que ele estaria por trás de tudo, sempre!

Eu estava sentada na mesa de um quiosque, perto da fonte na parte central da praça. Esperava Léon Gonsaléz, sorvendo um refrigerante já quente. Olhando, periodicamente e num curto espaço de tempo, para o relógio de pulso. Léon não era de atrasar. Eu sabia que não. Ele nunca se atrasava para as nossas monitorias de espanhol. Algo devia ter acontecido. Algo sempre acontece!

Levantei-me cansada de esperar. Quinze minutos de atraso, num histórico impecável de pontualidade, não devia ser um bom sinal. Joguei algumas notas no tampo da mesa, agradecendo ao atendente do quiosque com um aceno ameno de cabeça. Ele fora bem efusivo em me oferecer o cardápio par de vezes aquela tarde, enquanto eu aguardava a companhia que nunca chegou.

Suspirei resignada, decidida a ter uma conversa franca com o colombiano na segunda-feira. Afinal, ele havia marcado o encontro. Veja bem, um encontro! Não era mais uma monitoria sem graça, onde ele me auxiliava com o espanhol. Era um encontro, de verdade!

Passei por um grupo de garotas do último ano, que estavam sentadas conversando em frente ao carrinho de sorvetes. Consegui distinguir Samantha Jones entre elas, os cabelos loiros escorridos até o fim da cintura. Ensaiei retribuir o sorriso, que ela me enviou quando capturou meu olhar, porém saiu mais como uma careta desestimulante. Não éramos amigas, nem nada mas, curiosamente — ou não — as garotas do colégio sempre viam-me com outros olhos quando descobriam meu parentesco com Billy. Interesseiras de grau maior. Fiquem alertas!

Contornei um arbusto silvestre distraída, contando até três repetidas vezes, como sempre fazia quando estava inquieta. Estagnei no meio do caminho, relutando em acreditar no que meus olhos revelavam. Um emaranhado de mãos, bocas e um cabelo enrolado e muito ruivo, travavam uma guerra por espaço.

Seria um fato completamente irrelevante, e eu teria passado direto sem que ambos os envolvidos notassem a minha presença. Contudo, não eram quaisquer pessoas. Tratava-se de Léon, e — aqui sim cabe a palavra — uma garota qualquer.

Percebi quando o colombiano afastou a ruiva com brusquidão, olhando-a confuso. Ele estava preparado para falar com ela, quando eu percebi que não poderia ficar ali, assistindo aquela cena. Virei para ir embora, mas...

— Sabine? — a voz dele saiu entrecortada e mais rouca do que o habitual. — Sabine, espere eu...

— Me desculpe, Léon. Eu não queria atrapalhar... — olhei dele, com resquícios de batom vermelho nos lábios inchados, para a acompanhante, buscando uma palavra boa pra descrever. — isso! Quando terminarem, me avise. Precisamos conversar, a sós! – a coisinha dissimulada ao lado do colombiano levantou uma sobrancelha debochada.

— Eu não a conheço. Não conheço essa garota, ela... – ele começou quando viu que eu partiria sem dar-lhe a oportunidade de explicações. Porque, não é como se tivesse uma, não é mesmo?

— Não a conhece? – falei ultrajada. Como ele tinha coragem de mentir tão descaradamente? — Não me pareceu que a boca dela lhe era estranha! – respirei fundo, me dando conta da cena enfadonha que estava protagonizando. — Honestamente Léon, eu não me importo com as bocas em que se enfia. Contanto, que não me tome por burra, Okay? Achei que havia alguma coisa rolando. Só não imaginava que não se absteria apenas a nós dois! – senti os olhares das terceiranistas atentos a conversa.

— O quê? Yo estava .... estoy ... – suspirou, atrapalhando-se com o idioma. — Eu, realmente, estou certo de que HÁ alguma coisa rolando entre nós. – ele sustentou o olhar. Não haveria como mentir me olhando nos olhos, e ele sabia disso. Ponto para Gonsaléz! — Acredite em mim Sabine, a garota surgiu sabe Deus de onde e me beijou. Eu não estava esperando, eu...

— Eu acredito... – comecei por sobre o discurso dele, interpelando-o. — ... que ela não está aqui lhe beijando a força há quinze minutos. Porque, caso não saiba, é exatamente o quanto está atrasado!

— Sim, estou ciente disto. Tive complicações no meio do percurso. Mas, eu estava a caminho. – reparando bem, haviam vergões vermelhos nos pulsos brancos dele. — Estou aqui, Sabine. Contra todas as recomendações, e indicações. Eu-estou-aqui!

— Contra as recomendações, você diz? – cruzei os braços requerente.

— Você ao menos tem ideia de quantos garotos já quiseram chegar até este ponto? Este, em que estamos. Com um lanche na praça, cinema, encontros. A coisa toda? – ele parecia incrédulo, vendo algo além do que eu mesma poderia.

— Acredito que todos eles desistiram. Sabe, pensaram melhor ao reconhecer que eu não sou minimamente atraente. Ou, digna de companhia, que seja!

— Não seja obtusa, Sabine! Não foram esses os motivos das “desistências”, se quer saber! – ele deu um passo em minha direção, sondando o quão segura seria uma aproximação. — Você é a garota mais incrível que eu já conheci, e não se trata de aparência ou atratividade. Você está além disso, de toda essa coisa física e ... – os olhos castanhos vagaram para um ponto atrás de mim, ele recuou um par de passos, e um certo grau de medo e tensão percorreu sua expressão – até aqui – segura. — Contudo, eu acho que não há nada em mim que mereça tudo o que você é! – a frase saiu robótica, como se ele estivesse escutando alguém assopra-la por um ponto de comunicação em seus ouvidos. Seus olhos estavam desfocados e, eu notei que ele não conseguiu mais me encarar. Covarde!

Me virei exasperada, completamente ciente da atenção que toda aquela conversa havia atraído dos transeuntes, especialmente das garotas do colégio. Não conseguia encarar qualquer um que fosse, tamanha a humilhação que sentia. Segui meu caminho até trombar com um corpo, posto propositalmente a minha frente.

— Desculpe! – soprei. Pretendia continuar andando, sem olhar para trás, porém, uma mão branca me segurou pelo pulso, forçando-me a encará-lo. — O quê...? – Marlon encarou-me sério, como se analisasse minha integridade física. Depois, voltou sua atenção para Léon, ainda paralisado no mesmo lugar. Vi quando um sorriso sádico e amarelo foi destinado ao colombiano, antes do loiro se virar para mim novamente.

Marlon puxou meu queixo, forçando-me a sustentar o olhar. Passou o polegar pelo meu lábio inferior, e eu estava pronta para protestar ferozmente, quando ele se abaixou capturando minha boca com seus lábios exageradamente grossos.

Aquele não era nem de longe o idiota a quem estava acostumada a conviver a contragosto. A mão esquerda voou para minha nuca, os dedos enregelados fazendo cocegas entre meus cabelos. A direita massageou a base da minha coluna, puxando-me bruscamente mais para perto do seu corpo.

Eu podia sentir a língua dele explorando minha boca, buscando conhece-la em todos os seus ângulos. Senti-o chupar a minha língua, provando-a, degustando-a, descobrindo o seu sabor, como quem come uma fruta suculenta e doce pela primeira vez.

Pode me chamar de louca desvairada, mas eu sentia como se Marlon desejasse aquilo a um longo tempo dada a forma com que desfrutava dos meus lábios sem esperar por represálias. Completamente sem defesas. Desarmado.

Aquele era um aspecto que eu nunca esperaria enxergar naquele rapaz, em particular. Havia sinceridade no beijo. Não era vingança, não era chantagem, ou algum tipo de moeda de troca. Não havia o ódio implícito. Era intenso, calmo, proveitoso. Como se um buraco no espaço-tempo se abrisse, e nos jogasse numa realidade paralela onde não nos repudiássemos fortemente.

Tão repentinamente começou, o beijo terminou. Marlon afastou-se encarando-me nos olhos. Pela primeira vez me permitindo enxerga-lo. Cru, sem vergonha ou arrependimento pelo que acabara de fazer. Contudo, a máscara de arrogância se ergueu, e ele voltou a ser aquele Marlon. O odiável.

— Entendeu bem o recado, Léon. – o loiro voltou-se para o colombiano que, como o grupinho maravilha do terceiro ano, estava boquiaberto. — Sabine merece mais do que um covarde! – cuspiu e, sorrindo vitorioso e ameaçador, saiu do Solarium calmamente.

Fiquei ali parada encarando o nada, apenas mantendo a expressão séria e despreocupada para não deixar transparecer o terror da situação. Léon saiu consternado. Samantha aproximou-se sorrateira, como uma gata.

— Por favor Nakayama, me diga como se sente? – encarei-a com um esgar de confusão. — Você acabou de ser beijada por um cara mais velho, e é como se não fosse nenhuma novidade! – ri pelo nariz dando de ombros. — Oh meu Deus, não foi a primeira vez. Já aconteceu, não foi Sabine? – olhei para as outras garotas que pareciam esperar uma resposta. Sai sem confirmar ou negar, deixando-as interpretar como quisessem.

Ganhei a rua, sentindo o ar abafado pela falta da climatização da estufa. Procurei pelo idiota ladrão-de-beijos e encontrei-o recostado sobre a motocicleta, estacionada na avenida a direita. A postura relaxada e despreocupada acendendo um cigarro, parecia já estar me esperando ir tirar satisfações. Cá estou, e eu as quero!

— Qual o teu problema, Dixon. Por acaso anda me vigiando? – senti o ódio me esquentar as entranhas. De volta aos velhos hábitos!

— Apenas cuidando dos meus interesses! – ele deu de ombros soltando uma nuvem de fumaça. — Estava passando e vi toda a movimentação. Só quis garantir que nenhum idiota se meteria a besta com você!

— Eu sei me cuidar, baka! – ele apenas riu debochado. — Billy mandou que me seguisse?

— Não ouse dizer uma palavra sobre o que aconteceu aqui a teu irmão! – ele se levantou rápido, avançando perigosamente para cima de mim como uma ave de rapina caçando uma presa.

— Não é com a minha palavra que deve se preocupar. Se quisesse descrição, não deveria ter feito o que fez na frente do fã-clube do teu amigo.

— Eu sei que saberá muito bem demover qualquer boato que venha a surgir sobre o ocorrido! – ameaçou soprando o hálito de nicotina perto demais das minhas narinas.

— Como desejar. De qualquer forma, Billy não acreditaria em uma história tão infundada quanto o melhor amigo beijando sua irmãzinha na praça do Solarium, acreditaria? Ele sabe que a única palavra que vale, é a minha! – ele esmurrou o banco da motocicleta, me encarando sério.

— Abra a boca a respeito disso Sabine, e eu a farei desejar não tê-lo feito! — E, pela primeira vez na vida, eu tive medo de Marlon.

— Não se preocupe Marlon, aquilo não foi algo tão importante ao qual Billy precise saber. Não significou nada! — cuspi ofendida pela ameaça.

— Então, se fosse o covarde lá dentro a te beijar, seria importante o suficiente para Will querer saber? – soltou o riso escarnecido pela nariz — Dê-se por satisfeita por eu ter te livrado de um idiota como Gonsaléz! – franzi o cenho, e deixei a questão passar.

É claro que naquela época eu ainda era ingênua demais para ligar os pontos. Não passaria pela minha cabeça que, algum tempo mais tarde viria a descobrir que Marlon ameaçava todos os candidatos a interesses amorosos que me surgiam. Que havia um aviso implícito entre os garotos do colégio, que eu era zona proibida para todos eles. E, especialmente, que toda aquela “proteção” não tinha em nada haver com o acordo entre ele e Billy, em não me deixar envolver com qualquer garoto.

Covarde, não era nem de longe o que Léon fora aquele dia. Afinal, ele fora o único corajoso o suficiente para derrubar a barreira que Marlon construiu, e bolar um encontro de verdade. Contudo, na tarde daquele dia, o melhor amigo do meu irmão o amarrou deixando dependurado pelos pulsos, ameaçando-o e torturando até que desistisse. Só para deixar claro o nível da canalhice de Malron!

Solarium’s Garden não podia me oferecer nenhuma boa lembrança. Pois, tudo o que eu via ali, naquela praça, diante daquela fonte, era o quão manipulada a minha vida era. Tanto por Marlon, quanto por Janeth. O quão amarrada, e entrelaçada, eu estava com toda aquela merda no ventilador. Seja outrora, ou agora. Não importava o algoz, a minha vida nunca seria efetivamente minha.

Notas finais
Eai, gostaram, odiaram...? Olhem só, dona Samantha Jones aparecendo vivinha da Silvasauro aqui pra vocês gentem. Aproveitem, não irão ver muito dela (viva, pelo menos)! uHulll, nossa Sabine do passado vai ter seu primeiro encontro, vejam quem cresceu!!! Ah, a primeira desilusão amorosa a gente nunca esquece! Quiça tivéssemos um Marlon em nossas vidas pra fazer-nos esquecê-las com a mesma facilidade, né nõn? Gente, que beijo foi esse? O.o Quem queria Marlon + Sabine (isso aqui é com vc AnaChan), aí está. Bem sutil, mas não se acostumem, Marine é mais complexo que isso! Marlon torturador de futuros pretendentes da Sabine uhn, quem diria? Eu nunca duvidei e se Sabine tá dizendo, quem sou eu pra descordar!! Quem sentiu peninha do Léon? Eu senti, bixinho! Nosso soldadinho abatido resistiu até os últimos minutos! RIP Léon Gonsaléz (ou não ;] ) Quem lembra da surpresa que prometi? Certeza que ninguém esqueceu! HAHAHA Enfim, estou elaborando (ouvi dizer que está quase 100% pronto), um especial de Natal com bastante Marine pra vocês, que será postado no dia 24 de Dezembro. Não será um cap, e sim uma nova história que postarei paralela a essa aqui. Fiquem atentos!!! Vai ser meu presente de Natal pra vocês. Já que Papai Noel tá de folga devido ao calor do Br, se contentem comigo, sim? Espero vocês dia 24! Kissus'