Amazona

10 O Cap IX - parte 1


Notas iniciais
Hey galerê, td certinho com vcs? Cap bonitinho pra vcs neste ano novo. Não é cap especial, mas também serve né? Vejo vcs lá embaixo. Boa leitura!

“I thought that I've been hurt before

(Eu achei que já havia me machucado antes)

But no one's ever left me quite this sore

(Mas nunca ninguém me deixou tão ferido)

Your words cut deeper than a knife

(Suas palavras cortam mais do que faca)

Now I need someone to breathe me back to life

(Agora preciso de alguém para me trazer a vida)

Got a feeling that I'm going under

(Sinto que estou afundando)

But I know that I'll make it out alive

(Mas eu sei que conseguirei sair vivo)

If I quit calling you my lover

(Se eu parar de te chamar de meu amor)

And move on

(E seguir em frente)”

Stitches – Shawn Mendes

As horas pareciam arrastar-se preguiçosamente, permitindo que o sol quente se escondesse atrás de uma grande nuvem cinzenta, que trazia consigo uma refrescante garoa tropical.

As gotículas de água batiam contra o telhado das casas de Eagles Rock, pontuais como os ponteiros de um relógio antigo e, embora a maior parte das pessoas estivessem protegidas dentro de suas casas, eu podia ver uma ou outra criança brincando nas poças de lama do jardim da frente de suas casas.

O bairro vizinho ao dos Dixon não era tão luxuoso quanto o outro, as casas eram mais simples e, a grande maioria delas, pertenciam aos trabalhadores da Oyster Bay – INC., uma companhia náutica que prestava serviços para toda a ilha e a costa da Califórnia, fazendo pequenas viagens e transportando mercadorias.

Conheço bem o tipo de pessoas que moram nessa parte da cidade, pessoas simples e de remuneração razoável para o estilo de vida que levavam. Pessoas como os Dixon, ao menos quando mudaram-se para a ilha. Esse pensamento era completamente perturbador e incômodo.

Veja, as casas de Two Harbors eram, no mínimo, três vezes mais caras que as de Eagles Rock, e precisavam de uma pequena fortuna anual para serem mantidas. Fortuna esta que os Dixon não possuíam na época, tampouco até anos atrás, quando tio Peter foi promovido no hospital, e os filhos passaram a trabalhar e cooperar com a renda familiar.

No ano em que os Dixon apareceram na ilha, tio Peter havia acabado de iniciar sua residência no Catalina's Memorial Hospital e, segundo Janeth, não tinha dinheiro nem para trocar de calças. Rebecca estava de licença da escola primária em que trabalhava como professora, e grávida do quarto filho, Maxi. Os garotos mais velhos completariam três anos dentro de uma semana, e Marlon tinha pouco mais que um ano. "Reproduzem-se como coelhos. Os coelhos Dixon", mamãe vivia ultrajada pela ousadia de outras famílias, sobretudo os vizinhos, de serem capazes de ter mais que dois filhos.

É claro que, em tratando-se de Janeth, eu poderia esperar qualquer coisa, até mesmo uma história desenxabida qualquer para manchar a imagem deles. Porém, comentários parecidos eram tecidos pelos outros vizinhos, curiosos demais para manter suas línguas dentro da boca. O esquadrão fofoca, lembram? O fato é que, até mesmo eu ficaria curiosa a respeito de como tio Peter conseguia sustentar três filhos, uma esposa grávida e uma casa caríssima, sendo nada menos que um residente no hospital da capital.

Tudo poderia ser resolvido com um diálogo desinteressado com meu melhor amigo, mas não é como se eu realmente fosse ser intrometida a esse ponto. Se os Dixon tinham seus meios para se manter, sejam eles quais fossem, não era exatamente da minha conta, era?

A garoa começou a se transformar em uma chuva consistente neste ponto. Era hora de retornar para casa, antes que mandassem um batalhão — meu irmão e os garotos, não meu subordinados de Nova York — atrás de mim. Meu estômago roncou no instante em que consultei o relógio de pulso, era quase hora do jantar.

Bem, eu não estava tão afim de estar com os Dixon, precisava convencer Billy a voltar para casa ainda hoje, antes que uma bomba explodisse dentro de mim e eu machucasse mais alguém. Kuso. Era apenas o Blaize, um garoto inteiramente ignorante sobre qualquer coisa.

A chuva tropical já havia dado trégua quando cheguei a rua de casa. Estava encharcada da cabeça aos pés, a camisa do recruta colava em meu corpo, os pés cheios de lama, o cabelo desgrenhado, uma imagem deprimente de se ver. Tirei a camisa e espremi-a. Precisarei fazer algo a respeito antes de devolvê-la ao idiota.

E como se evocado do além, lá estava ele sentado na entrada de sua casa, um saco de gelo pressionado contra o nariz inchado, o olhar distante. Suspirei sentindo-me contrariada, eu não estava certa em tê-lo agredido, porém, era meio que difícil eu me desculpar por coisa alguma.

Um sorriso sem graça brincou em seus lábios, quando ele me notou ali parada observando-o. Sentei-me ao seu lado sem encará-lo efetivamente.

— Me desculpe! – fui direta. Não era o que diziam, tirar o curativo de uma vez pra não prolongar a dor?

— Está tudo bem Sabine, não foi nada! – ele silvou. O fato de ter me chamado pelo primeiro nome – e não pelo apelido questionável que criou – era uma evidência de que sim, foi alguma coisa e ele estava magoado com isso. Porque jovens-adolescentes tinham que ser tão sentimentais? — Você está bem? O que foi aquilo? O que aconteceu?

— Não pode tocar as pessoas daquele jeito Blaize, algumas delas não são tão receptivas a contato direto! – repreendi, mesmo consciente que ele não poderia saber sobre isso. Eu, por outro lado, tenho conhecimento de causa!

— Ainda somos amigos? – ele arriscou me olhar. Quê?

— Não seja obtuso moleque, nunca fomos amigos! – sim eu sou dura, porque tenho paciência alguma com esse negócio de sentimentalismo. — Billy é o cara bacana, se apegue a ele e é tudo o que terá de um Nakayama! – ele se acendeu por motivos que eu sou incapaz de descobrir.

— Belo soco, Nakayama! – Iago vinha saindo pela porta da frente, parou a certa distância e bateu uma continência meio desajeitada.

— Vê, eu poderia prender esse pirralho em meu molho de chaves e usá-lo como chaveiro! – o mais velho fechou a cara ofendido. — Aprenda a respeitar o espaço pessoal dos adultos como teu irmão. Quem sabe algum dia alcance o posto de meu Blaize favorito? – Isso Sabine, incite uma disputa nada saldável entre irmãos, bem maduro da tua parte!

— Então o posto já foi reivindicado, porque Iago não é um Blaize. Ele é um Santa Cruz! – berrou o desmiolado para que pudesse ser ouvido enquanto eu me afastava em direção a casa ao lado.

— Não importa, ele continua invicto! – gritei.

— Hijo de una perra manca!— foi baixo e ele se dirigia ao irmão, mas eu ainda podia ouvi-lo. E pra quem não entendeu, ele acabou de ofender a própria mãe insinuando que ela ganhava a vida de formas não tão ortodoxas.

— Espero que tu madre no te oiga!— meu espanhol é péssimo eu sei, desculpe Léon você foi um bom professor, eu é que não fui boa aluna!

— Mierda!— o caçula gargalhou com o desconforto do outro ao ser pego no flagra.

Estava prestes a entrar em casa, quando Billy me interpelou no meio do caminho. A expressão séria demais. Tudo bem, eu mereço represálias, mas será que não podia esperar? Deve ser algo de irmão mais velho!

— Como se sente? – requerente demais pra uma bronca.

— Eu estou bem Billy, não vou avançar me mais ninguém, fique tranquilo. – garanti, mesmo não tendo cem por cento de certeza sobre isso.

— Antes que entre – ele recomeçou quando notou que minha mão foi para a maçaneta da porta de entrada. — Antes que entre preciso que respire fundo e ponha a cabeça no lugar, sim? Há alguém lá dentro com Marlon, e eu não quero que surte novamente.

— O que acha que estive fazendo rodando pela cidade até agora, piquenique? – ele bufou com minha falta de interesse. — Eu não vou agredir uma mulher grávida Billy, porque todos acham que seria capaz de fazer algo assim?

— Não é sobre Sarah...

— Bem, então sobre quem quer que seja, eu posso superar, certo? – interrompi, largando o coturno sujo de lama ao lado da porta e entrando de uma vez.

As vozes alteradas vinham da sala de estar. Apertei a camisa do recruta que ainda estava em minha mão, com mais força. Eu não precisava entrar na sala para chegar até a cozinha, mas teria que passar por ela se quisesse fazê-lo e bem, eu queria!

As almofadas estavam agora jogadas sobre o tapete, e o cômodo jazia em puro caos. A tv estava ligada e um par de zumbis iam e vinham a medida que eram bombardeados. Marlon estava jogado no chão em meio as almofadas, o console de vídeo game esmagado pelas mãos brancas, a língua brincando sobre os lábios protagonizando uma careta muito estranha.

— Eu já disse que não adianta Marlon, desse jeito quando chegarmos ao armazém vamos morrer! Corre Marlon, corre! – o garotinho estava empoleirado no sofá, berrando e movimentando o console, como se assim fosse capaz de fazer o avatar correr mais depressa.

Uma cena piscou em minha mente, fazendo um sentimento de repulsa pinicar meu peito. Afastei-a balançando a cabeça. Não quero saber, e não é da minha conta!

Avancei pelo longo corredor que levava a cozinha onde, provavelmente, a Sra Dixon estaria envolvida com panelas e condimentos preparando o jantar. Os sussurrou me alcançaram antes que eu pudesse me refrear.

— O foi que fizemos de errado Peter? – a voz de tia Becca estava desestabilizada e embargada. Eu não queria entreouvir a conversa, parecia algo muito íntimo e, vocês me conhecem, se não é da minha conta eu saio fora. Mas, a dor na voz da matriarca fez um novo bolo se instalar na minha garganta.

— Não pode culpar-se pelas escolhas de Marlon, Rebecca. Não é sensato ou saldável ficar se martirizando pelos erros cometidos por nossos filhos. Já se passaram muitos anos, não há nada que possamos fazer se não esquecer e manter tudo como está. – a voz de Peter estava firme e pacífica, um dos benefícios de lidar com crianças, eu acho. Era sempre ele quem tomava o controle da situação quando algo desandava.

— Marlon deveria ter tomado a primeira vez como lição e, ao menos tentado se precaver para não acontecer novamente. Não bastou o sofrimento da própria família, da própria mãe, Peter? – um soluço escapou, e eu sabia que ela estava fazendo força para não desmoronar ali.

— O resultado não é completamente ruim, percebe? Vamos lá Becca, tente me convencer que não fica feliz toda vez que ele vem nos visitar? – o sorriso maternal brincou nos lábios finos. Sim, me atrevi a espiar. Sabine feia, pare! — No mais, vamos deixar esta conversa para um momento em que não tivermos visitas em casa, sim? Por hora, tente apenas ser complacente. Consegue fazer isso, Becca? – silêncio, provavelmente a matriarca se limitou a balançar a cabeça para evitar que outro soluço ressoasse pela cozinha. — Vou pegar um calmante...

— Eu estou bem Peter, não é necessário. – ela sussurrou. — Tomarei um quando for me recolher e ficarei bem, não se preocupe!

Antes que eu pudesse disfarçar — me fazer de desentendida e fingir que tinha chegado agora — tio Peter surgiu no corredor me encarando condescendente. Ele afagou meu braço molhado e saiu andando, plenamente consciente que eu tinha entreouvido a conversa, pelo menos em algum grau.

Rebecca ainda soluçava de costas para a porta, remexendo algo na panela com uma colher de pau. Ela parecia cansada além do que meus olhos conseguiam captar, a postura sempre firme se desmanchara e em seu lugar havia um esgotamento sem fim.

— Tia Becca? – a loira aprumou-se, enxugando os olhos com um pano de prato repousado sobre o ombro. Ignorei os olhos vermelhos e inchados, ou o fato de eu tê-la chamado pelo apelido de infância sem qualquer represália.

— Precisa de algo, Sabine? – o tom frio está lá novamente, como se nunca tivesse saído, me penetrando como uma navalha.

— A senhora está bem? – se é que possível, a expressão da mulher se abriu e por um par de segundos imaginei que ela sorriria.

— Sim, eu estou. Os meninos estão lá em cima praticando ou discutindo sobre algum jogo irrelevante, se correr pode encontrar o assunto ainda inacabado. O jantar irá atrasar um pouco! – a matriarca recomeçou com o trabalho, mexendo nas panelas, recolocando ou tirando tampas, ocupada demais para olhar-me nos olhos. Aliás, nota: desde que nos reencontramos ela nunca me encarou diretamente.

— Na realidade, quero oferecer ajuda, se a senhora não se importar. Só preciso tomar uma ducha rápida, não quero contaminar a cozinha ou os alimentos. – quando parecia que ela iria recusar, fui obrigada a interrompê-la. Porque estava fora de questão permitir que tia Becca cozinhasse sozinha para o equivalente a um batalhão. — Volto em um instante para auxiliá-la!

Corri para o andar superior sem dar chances para argumentação. Passei apressada pelo quarto, onde uma discussão acalorada acontecia. Fiquei tentada a acrescentar coisa ou outra no discurso de Maxí? Fiquei. Mas, não havia tempo para isso.

Entrei debaixo do chuveiro ligado, ainda com as roupas no corpo. Retirei peça por peça, lavando-as e retirando todo o resquício de areia que estavam grudadas nelas. A camiseta emprestade de Blaize foi acrescentada no pacote “lavanderia manual”.

Tomei meu banho em tempo recorde, refiz os curativos na costela que, — Tio Peter não me ouça — acho que estavam infeccionando. Coloquei um moletom folgado que usava para fazer os exercícios físicos no batalhão, uma das inúmeras camisetas cáqui que me faziam parecer pálida, e saí do banheiro em quinze minutos.

— Aprenda Nick, nem Nakayama que é uma mulher precisa mais que meia hora no banho. Eu ficaria envergonhado se fosse você! – Iosha alfinetou o caçula, enquanto tentava esconder seu naipe de cartas dos olhos bisbilhoteiros de Maxí.

— Cuide da tua higiene, que eu sei cuidar muito bem da minha, obrigado! – Nichollas soou ofendido demais para alguém com orgulho de ser o mais higiênico dos irmãos.

— Higiene é uma coisa, vaidade desmedida é outra bem diferente! – Um ogro personificado, veem? Joguei minha toalha molhada em cima das cartas de baralho sobre a mesa. Ignorei a onda de protestos dos garotos do lado de dentro do quarto, descendo o lance de escadas dois degraus de uma vez.

Rebecca estava mais calma e compenetrada, os olhos menos vermelhos mas ainda inchados. Ela apontou para meia dúzia de batatas em cima de uma tábua sobre o balcão, quando notou minha presença espreitando-a pelas costas.

Ora, trabalhar com tubérculos era a minha especialidade, uma vez que em grande maioria era tudo o que conseguíamos para comer na base militar. Comecei a descascar enquanto observava tia Becca empilhar presunto defumado numa cama de ricota sobre o pão de centeio.

— Smorrebrod? – eu sabia que a mulher era uma chefe de cozinha as escondidas, mas nunca imaginei que a veria se aventurando em pratos nórdicos.

— O prato preferido do Behorn! – a economia de palavras e o suspiro maternal fizeram meu estômago revirar, pela milésima vez só naquele dia.

O garoto na sala de tv não era um estranho afinal, só não esperava revê-lo, nunca mais para ser específica e honesta. Me lembro de ter visto Behorn a dez anos, quando ainda era um bebê. A cena interessante que ele protagonizou ainda estava nítida em minha memória, de sua mãozinha branca puxando o lábio inferior do pai, do sorriso orgulhoso do mais velho ao vê-lo pela primeira vez. Da combinação estranha que faziam pai e filho, destoante — delicadeza infantil e rudeza paternal.

Senti a pergunta formigar na ponta da língua, mas obriguei-a a descer raspando pela garganta. Eu sabia exatamente quem o garoto era, não tinha o porquê me fazer de desentendida, tampouco ignorá-lo inteiramente. Tudo o que poderia fazer no momento, era esconder o incômodo que a presença dele me fazia sentir. Precisa ignorar o elefante branco na sala!

Então era sobre Behorn que meu cuidadoso irmão estava tentando me alertar mais cedo. O baka sabia que eu não estaria pronta pra isso. Porque tudo tem que acontecer de uma vez, não posso ter um minuto de paz? Mas, não vou dar a Billy o benefício de estar certo, Deus sabe o quanto ele me martirizaria por isso.

Tia Becca me pediu para sovar uma massa, enquanto checava o andamento da vitela assada. O cheiro estava maravilhoso e meu estômago roncou faminto. Só espero conseguir não colocar tudo para fora caso meus nervos ataquem, vocês não merecem uma cena dessas novamente.

— Não vejo Joshua e Anikka desde a partida de futebol, esta manhã. – comentei, notando a ausência de lugares, quando segui a matriarca até a sala de jantar para ajudá-la a preparar a mesa algumas horas mais tarde.

— Josh era suposto a entregar algo ao editor esta tarde, eles só vieram para festejar o aniversário do Nick conosco. – explicou ela colocando os pratos milimétricamente enfileirados sobre a mesa. — O jantar será servido as sete, com ou sem Dixons o suficiente a mesa! – a mulher precisou berrar para ser ouvida pelos filhos empoleirados no andar de cima, e para sua voz sobressair aos sons estranhos de zumbis e tiros que vinham da sala de tv.

As sete, todos já haviam se lavado para o jantar, ocupando seus lugares a mesa. Tio Peter sentou-se a cabeceira como de costume, seguido pela esposa a direita e Collin a esquerda. Billy acomodou-se próximo a Rebecca, e eu corri para ocupar o assento ao seu lado. Maxi veio depois, deixando a outra ponta da mesa para o irmão mais velho. Behorn preferiu ficar de frente com meu ex-melhor amigo, assim poderia ouvir as piadas do ruivo de farmácia em primeira mão, obrigando Marlon a sentar-se desconfortavelmente e a contragosto a minha frente.

— Pode dar Graças, Behorn? – tio Peter fechou os olhos e abaixou a cabeça levemente, esticando as mãos para que a esposa e o filho as segurasse.

— Certo! – todos deram as mãos e inclinaram a cabeça em níveis diferentes de inquietude. Com o banquete que a senhora Dixon preparou, nem eu estava me aguentando! — Querido Deus, agradecemos pela refeição que estamos prestes a saborear, por estarmos todos reunidos, e por minha mãe ter finalmente cedido e concordado em me deixar passar o restante das férias com Marlon. Isso é um milagre, ponto para o Senhor! – segurei o riso a tempo, mas Iosha parecia não ter o mesmo autocontrole. — Se não for pedir demais, preciso rogar que segure a língua da minha madrasta irritante para que ela não...

— Behorn! — repreendeu tio Peter.

— Okay, me desculpe! – o pirralho suspirou contrariado — Por tudo Te damos Graças, amém! – finalizou em um fôlego.

Todos sussurraram um ‘amém’ faminto, avançando na comida comportadamente. A vitela assada era a protagonista da noite, suculenta e saborosa em medidas surreais. Haviam também algumas tortinhas de batata com queijo disputando lugar no prato de, pelo menos, meia dúzia dos Dixon. Eu poderia fazer pouco caso da escolha do cardápio para aquela noite em específico, não fosse a torte de maçã como sobremesa, cujo nome era Frugtkage, se não me engano.

— Você se superou esta noite, Rebecca. A vitela esta digna de honrarias! – começou Marlon terminando de mastigar um pedaço da carne. A maioria de nós estava aguardando a sobremesa, mas ele parecia ainda ter espaço para mais uma porção de comida.

— A palavra “mamãe” não está em desuso por aqui, Marlon! – alertou Maxi repreensivo.

— Mãe é um título dedicado a quem exerce a função apesar de tudo, e não para as mulheres que expulsam os filhos de casa por causa de um deslize! – a voz do loiro começou a ficar alterada. Já notaram que por aqui as coisas nunca são de maneira pacífica, não é?

— Um deslize? Você sabe que não foi apenas um deslize, Marlon. – Iosha falando sério sobre coisas igualmente sérias não é algo que se vê todos os dias, aproveitem!

— Que seja, não me importo comigo. Mas a mamãe poderia muito bem pedir desculpas a Sarah, por aquele episódio de histeria. – Marlon abocanhou uma das tortinhas de batata, provavelmente esperando a mãe se pronunciar.

Tia Becca por sua vez, terminou de mastigar mantendo a postura despreocupada, mal encarando o filho rebelde. Não fossem os comprimidos que tio Peter a forçou a tomar após um par de minutos depois que saíra da cozinha mais cedo, provavelmente a matriarca Dixon estaria em pé de guerra com o loiro desaforado.

— Poderei ensinar Mitsuko a chama-la de Sarah? – Behorn fez sua voz infantil soar por cima da camada de tensão que envolveu a mesa. Sou contra crianças vocês sabem, mas tenho que agradecer ao gaki aqui por esfaquear a atmosfera constrangedora e... espere, ele falou Mitsuko?

Pousei os talheres sobre o prato, tentando forçar a comida a parar de dar saltos nauseantes dentro do meu estômago. Apertei os dedos nervosa, eles já estavam começando a tremer, e um fio de pânico corria por minhas veias. Se segura Sabine, é só se levantar devagar e sair sem levantar suspeitas! Fácil de falar, difícil executar. Meus pés estavam grudados no chão. Senti os dedos de Billy apertarem os meus com certa força, tentando me manter focada.

— Você chama tua mãe de Leelan? – Maxí levantou uma das sobrancelhas – aquela com um piercing— curioso.

— Não, é claro que não! – o loirinho respondeu como se a resposta fosse óbvia. — Mas veja, Lellan é mãe em tempo integral, enquanto Sarah parece esquecer que tem uma pessoa ali dentro! – impressão minha ou o coisinho estava ultrajado?

— Tudo bem, já chega! – Marlon levantou de um rompante, espreguiçando-se. — Termine logo o teu Frugtkage Behorn, precisaremos acordar cedo amanhã se quiser pegar boas ondas!

— Está ai Behorn, algo que a tua irmã iria querer que você a ensinasse! – Kuso, cale a boca Sabine! — Ensine Mitsuko a surfar, e não a chamar a mãe pelo primeiro nome! – pronto, agora já era, podem me internar, porque não estou tendo controle nem da própria língua.

O garotinho loiro sorriu agradecido pela sugestão, e saiu da sala de jantar murmurando um boa noite animado. O pai foi arás dele e, somente sem os olhos inquisidores de Marlon sobre mim, é que eu pude me levantar e sair.

— Puxe a escada e suba Behorn, a vovó arrumou a tua cama no sótão. Subo em um instante! – ouvi a voz grossa do melhor amigo do meu irmão – e meu pesadelo – ecoar escada a cima, quando passei pela porta de entrada rua afora.

Eu estava certa que — agora ou em outro momento — alguém viria atrás de mim para saber o que estava acontecendo e, sinceramente espero que não seja Marlon ou Billy. Eu precisava apenas de mais algum tempo sozinha para respirar. Fugir!

Não estava pronta para ter aquela conversa com quem quer que fosse. Era doloroso e, Marlon tinha o dom de cutucar feridas abertas. Ou era uma regalia dedicada apenas a minha pessoa, sinceramente eu não duvido de mais nada!

Não consigo imaginar qualquer outro motivo para roubar-me algo tão íntimo, e o expor como seu para o mundo todo ver. Ele me ouviu dizer naquela ocasião, deixei claro o bastante que Mitsuko seria o nome da minha filha, que era o meu objetivo manter viva a memória de Baa-chan através de uma terceira geração. Como ele pôde, como teve a coragem de me tirar tudo, sobretudo algo tão precioso?

“Podem te roubar tudo nesta vida querida, exceto quem você é, e o que representa. O seu nome. Poderão haver muitas Mitsuko neste mundo depois de mim, mas para você, Billy, Oji-san, ou Thom, Mitsuko será o sinônimo de uma coisa singular e subjetiva. Compreende?!”

A voz de Baa-chan ainda ecoava no fundo da minha mente todas as vezes que a memória de nossa última conversa me invadia. Seu corpo debilitado em cima da cama de hospital, mas sua voz impetuosa e confiante. Ela não tinha medo, apesar de tudo e mesmo sabendo que morreria a qualquer momento, ela nunca temeu.

— Está fugindo Menininha? – a porta da frente bateu oca, e os passos pesados ecoaram na noite silenciosa.

Mesmo de costas para a casa, eu sabia que ele estava parado no deque, as mãos nos bolsos procurando um cigarro ao qual acender e tentar controlar os próprios nervos. A conversa era tão perturbadora para mim, quanto para ele. Então por que entrar nesse terreno minado?

— Tenho motivos para fugir? – me agachei ali mesmo, no meio da rua, tentando recuperar o ar. Estou prestes a desmoronar, eu sinto!

— Me diga você, já que é especialista em fugir quando as coisas tomam rumos mais complicados.

— Não. – fui econômica tentando iniciar o mantra de contar até três inúmeras vezes.

— Precisamos conversar! – o cheiro de nicotina não estava contribuindo com meu exercício respiratório. Ele estava se aproximando, eu sentia seus olhos de tempestade queimando em cima de mim.

— Não Marlon, nós não precisamos conversar. Não temos que fazer isso! – fui taxativa na esperança de demovê-lo da ideia de tocar naquele assunto. Mas, Marlon é incisivo demais para se deixar persuadir.

— Sim temos, e nós vamos! — senti o loiro se abaixar ao meu lado, afastando uma mecha do meu cabelo grudada na testa molhada de suor. Isso é humilhante, francamente! — Você me deixou no escuro por dez anos, Sabine. Consegue imaginar o que é isso?

— O assunto morreu a dez anos. Deixei-o enterrado, e esperava que permanecesse assim pelo resto da minha vida. Não há chances de termos essa conversa sem que um de nós, ou ambos, saiamos feridos. – fechei as mãos em punho, apertando-a até sentir as unhas perfurarem as palmas. — Eu já passei por tudo isso sozinha, já engoli a dor e, como disse, está enterrado.

— Você se lembrou dele, não foi? De tê-lo visto...

— Não é como se estivesse tentando esconder o teu filho, era Marlon? Caso quisesse fazê-lo, deveria ter instruído Behorn a ser mais econômico com as palavras! – não sei o porquê do cretino ter mudado de assunto repentinamente, mas a angústia dentro de mim estava se transformando em ódio e despautério com uma facilidade perigosa.

— Não me refiro a esta noite. Você soube sobre Behorn, muito antes disso!

— Bem, então me perdoe se me recordo com precisão do dia em que sai da minha primeira ultrassonografia e encontrei-o agarrado ao garoto! Você esconde os teus negócios muito bem Marlon, não queira me fazer acreditar que estava em Avalon com um bebê de três anos por acaso, descuido não combina com você! – me levantei num rompante, cambaleando no meio do processo. Os pontos negros tingiram minha visão, mas não o suficiente para me fazer não desviar das mãos brancas que vieram me amparar.

— Foi naquele dia que decidiu desistir e fugir, levando meu filho pra longe de mim? – a voz imperiosa agora tinha um sabor amargo. Engula, Marlon!

— Talvez tenha sido. Não vou negar que a visão enjoativa do “papai de primeira viagem”, não tenha contribuído minimamente para isso! – voltei minha atenção para o fim da rua, um dos postes piscava freneticamente, e me peguei contando as falhas em pares de três.

— Fugiu por ciúmes do meu filho, Sabine? Ao menos consegue enxergar a infantilidade disso?

— Isso soa tão obsoleto da tua parte! – acreditariam se eu dissesse que estava encarando qualquer coisa, para não ter que olhá-lo?

— Olhe para mim! – senti os dedos enregelados puxarem meu queixo forçando-me a encará-lo. As íris dilataram, indo perigosamente de encontro as bordas cinzentas. — Vamos, olhos de Tigre! – sussurrou, a fumaça branca e o cheiro do cigarro me atingindo. — Te conheço como a palma da minha mão. Não tente mentir, não pra mim!

— A decisão de acabar com os assaltos já havia sido tomada a bastante tempo. Estava farta de viver uma aventura louca para que você pudesse enriquecer e fazer sabe Deus o quê. Se estava fugindo de alguma coisa, era da lama para a qual teus planos estavam nos levando! — a mão ainda em meu queixo estremeceu.

— Ora por favor Sabine, não finja que não sabia pra quê eu precisava da grana. Fugir desta maldita ilha sem que Janeth Nakayama tenha conhecimento, custa uma certa quantia, você sabe! Eu só precisava de tempo pra te tirar dessa merda, e você me traiu!

— Eu não queria ser mais uma das garotas na tua estante, Marlon. Não seria mais uma Leelan, presa a você por um laço inquebrável, obrigada a dividir minha vida com você!

— Pensei que o fato de estar fazendo tudo o que fiz, tivesse deixado bastante claro que você não era simplesmente mais uma! – a voz de Marlon começou a subir de tom. — Você não entende, não conseguia enxergar a minha felicidade? A nova paternidade me fez rever o quão idiota eu estava sendo com Behorn, em não conhece-lo, não estar ou ser presente para ele. – uma lágrima dependurou no cílio muito loiro. Desviei o olhar, concentrada na dor aguda que me cutucava a costela ferida. — Eu estava prestes a ter um filho com a única garota que amei na vida!

Fui obrigada a rir. De escárnio, é claro. Meus olhos começaram a pinicar, e meu punho se fechou involuntariamente. Eu tinha vontade de socá-lo pela audácia!

— Você é incapaz de amar! – berrei? Sim, perdi o controle. Porque se Marlon tinha o despautério de dizer que fui a única que ele amou, eu tinha a coragem de esfregar a verdade na cara dele com muito bom gosto, obrigada!

— Olhe-se no espelho, e diga isso a mulher que matou o meu filho! – o grito amargurado ecoou pela rua vazia, e eu conseguia captar o som da cortina de alguma janela sendo escancarada para acompanhar o pequeno show que Sabine Nakayama protagonizava aquele dia. Ótimo!

— Billy é um bocudo! Ele tinha que te contar, não é? – senti a pedra de gelo bater contra o fundo do meu estômago com força demais para ser considerado saudável.

— Sou o melhor amigo dele, o que esperava? – ele riu amarelo, como se eu estivesse falando algo infundado. — Pra quem ligaria se sua irmãzinha estivesse desmaiada dentro de um banheiro de hotel, abortando de um filho que você sequer sabia existir, até vê-lo escorrendo por entre as pernas dela? – o que era uma lágrima solitária, tornou-se uma cachoeira em questão de segundos. Uma tempestade dentro dos olhos cor de chumbo.

— Para a emergência, Marlon! William deveria ter ligado para uma ambulância e... – era o pensamento lógico? Sim, era. Mas em se tratando do meu irmão, ele atirava primeiro e questionava depois.

— Ele queria saber quem era o pai. — interpelou, tamanha a necessidade de despejar toda a frustração guardada pares de anos. — Me interrogou desesperado, porque precisava se certificar de que eu também não saberia dizer em que momento a irmãzinha dele se entregou para um cara qualquer, sem que nós tomássemos conhecimento! – as mãos brancas voaram para os cabelos puxando-os com força o suficiente para arrancar um tufo considerável.

— Nós sabemos muito bem o porquê dele não saber quem era o pai! – minha voz saiu entrecortada e baixa, mas eu sabia que ele tinha ouvido. — Foi por isso que nomeou a tua filha de Mitsuko, para homenagear o feto que como você disse eu “deixei escorrer por minhas pernas”? Se sente melhor com isso, Marlon? A consciência ficou mais leve? – o rapaz avançou, encurtando o espaço entre nós, os olhos injetados. Ódio, mágoa remorso, todos unidos em um ato desesperado e homicida.

— Ei! – Billy puxou o amigo imbecil antes que o aperto em meu pescoço se intensificasse. Tossi e encarei-o séria. — O que há com vocês, o que está acontecendo aqui?

— Nada! – em uníssono, porque o nível de canalhice em mentir descaradamente era alto.

— Bine... – eu não aguentaria o olhar de pena de William sobre mim. Na pobre cabecinha desmiolada dele, provavelmente estava pensando que meus surtos se deviam a convivência forçada com crianças ou mulheres grávidas, o que era um gatilho poderoso para trauma em perder um filho. Em partes ele estava certo, devo admitir, mas haviam coisas mais as quais ele nunca sonharia em saber.

— Vou pegar minhas coisas, nós vamos embora Billy! – decretei encarando-o tempo o suficiente para que ele pudesse ler o desespero em meus olhos. Onegai Billy!

— Vamos com calma Bine, amanhã pela manhã partiremos para Avalon, eu prometo. Aguente só uma noite, descanse e durma um pouco, sim? Não podemos sair no meio da noite, desesperados e descontrolados até o outro lado da ilha, é loucura! – ele só pode estar brincando, dormir definitivamente é a última coisa que vou querer fazer.

— Pegarei o primeiro voo para o Japão amanhã, vou ficar com o Oji-san queiram ou não! – respirei fundo, piscando uma dezena de vezes até ter certeza que as lágrimas não cairiam. Porque chorar na frente desses dois desgraçados estava fora de cogitação. — E você Billy, se vire para explicar a minha fuga aos oficiais, sobretudo o motivo que me levou a isso! – apontei para meu irmão desafiadora.

Eu avisei que era uma péssima ideia, não avisei? Fiz saber que era mais saudável me deixarem sob a guarda de Oji-san, se era tão importante não me deixar sozinha. Mas, me ouviram? Não! Agora quem é o militar filho da puta que está aqui pra lidar com isso por mim? Pois é, NENHUM!

Notas finais
EITA PORR@!!! Eu avisei que os próximos caps não estariam leves, não avisei? Caso não tenham captado, a pessoa misteriosa que apareceu atrás no Billy na narrativa dele, era a tal Leelan levando nosso Behornzinho pra passar as férias com o pai! Olha só, Sabine oficialmente tem um bibelô (Iago Blaise/Santa Cruz)! Tia Becca tá muito abalada, perceberam? O que acham que anda acontecendo a ela? O que acharam de Behorn? O nome foi inspirado em Beorn (O Senhor dos anéis) e Bjorn Ironside (Vikings), Porque pra ser filho do Marlon não poder ser pouca coisa! Sabine esta definhando meu povo, bora dar as mãos e rezar pra que ela consiga se reerguer, porque olha.... não tá fácil não! Marlon é tão rude, né? As palavras dele doem em mim as vezes! Já sabemos porque Bine está tendo surtos. São muitos gatilhos vindos na direção dela, notaram? Enfim, Marine já tá as portas dando Olá pra todo mundo! Mostrando que foi uma coisa complexa e complicada! No mais, muito obrigada por lerem até aqui! E espero que continuem acompanhando essa loucura ano que vem! Um feliz 2019 pra todo, Feliz ano novo! Kissus' P.S: Pra quem não sabe, tem um Especial de Natal sobre Marine, caso queiram ler é só procurar no meu perfil.