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11 O Cap IX- parte 2


Notas iniciais
Hey Galerê, td certo? Como esta sendo o ano de vcs? Eu sei, os espaçamentos das postagens estão maiores. Contudo, acredito que como eu, vocês também devem estar de férias e/ou viajando, então... escritoras de fanfic também merecem um descancinho certo? Agora, quanto ao cap, espero que vocês estejam munidos de capacete, colete a prova de balas, coturnos e fuzil, porque não esta nada leve! Vamos ver um pouquinho do lado da Sabine nessa história toda de aborto e Marine! Preparados? Segue: O CAP IX- parte 2!

“Laying on the bathroom floor, feeling nothing

(Deitado no chão do banheiro, sem sentir nada)

I'm overwhelmed and insecure, give me something

(Eu estou sobrecarregado e inseguro, me dê algo)

I could take to ease my mind slowly

(Que eu poderia tomar para relaxar minha mente lentamente)”

In My Blood – Shawn Mendes

Entrei e subi as escadas automaticamente, o monstro guardado a sete chaves se remexeu dentro do meu peito, enforcando meus pulmões e trazendo o caos à tona novamente. O sangue corria em minhas veias transportando aquele sentimento horrível para todo o meu corpo, me intoxicando e sufocando um segundo após o outro.

Tranquei as portas do banheiro conjugado, consciente de que era uma atitude retrógrada, mas que se dane toda aquela merda despejada pelo psicólogo nas sessões monitoradas clandestinamente por Janeth, eu queria alívio, precisava respirar, amedrontar o monstro para que ele voltasse para o fundo e me deixasse em paz!

Abri o armário de remédios, eu a vi ali na madrugada anterior, tinha certeza que tio Peter a guardara entre as gazes e curativos. Fucei mais um pouco e respirei fundo, sentindo a frieza do metal sob os dedos.

Me enfiei ainda vestida debaixo do chuveiro ligado, congelante o suficiente para adormecer todos aqueles sentimentos que borbulhavam na superfície do peito. A lâmina cirúrgica era um instrumento ao qual estava desacostumada a usar e, provavelmente faria um estrago considerável. Contudo, o estrago dentro de mim era igualmente grande para balancear as cosias.

Senti a pele se abrindo a medida que eu deslizava o bisturi na parte interna da coxa, e o sangue rubro escorreu de imediato, manchando o chão branquíssimo do box. Toda a pressão, o sufocamento, o peso desceu pelo ralo junto com o líquido e, somente depois de sentir uma leve tontura, larguei o objeto do meu eterno martírio e me dei por satisfeita.

Não me olhem desse jeito. Sim, eu sei como estão me olhando, com essa cara de pena julgadora, me sentenciando a um caso perdido. Pobre garotinha, apegada a atos desesperados porque não conseguiu lidar com um aborto! Para o inferno com a pena de vocês!

“— Ela está sangrando Marlon! – a voz desesperada do meu irmão soou em algum ponto bem distante na minha mente. — Está perdendo muito sangue, isso não pode ser normal. Por favor cara, me diga o que fazer, me diga que ela não mentiu para nós, que Sabine não está abortando uma criança propositalmente!

— Vamos Bine, acorde. Por tudo o que é mais sagrado, eu juro que vou me redimir e te proteger. Eu falhei com você Bine, Gomen. Apenas não me deixe, Onegai! – um soluço.

Ouvi Billy colocar o celular no piso frio do banheiro, deixando as mãos livres para tentar sustentar o meu corpo. Dizer o momento exato em que adormeci ou desmaiei no chão daquele banheiro, era impossível. A dor aguda era incômoda, e havia a tontura, a náusea, o remorso.

— Me diga Marlon, quem foi o desgraçado que a engravidou? Quem se atreveu a forçar Sabine a abortar? Se você souber quem foi o ... – desespero, dor e mágoa estampavam a voz do meu irmão.

— Eu não sei Willie! – a voz do infeliz saiu estrangulada pelo viva voz.

— Então, faça-me o favor de descobrir quem foi o filho da puta que fez isso a minha irmã, e mate-o! – o rosnado de Billy fez minha cabeça doer, e por um segundo achei que iria desmaiar novamente.

— Eu farei o que for preciso para puni-lo Will. Mas, agora ajude a tua irmã. Peça uma ambulância, nós não podemos perde-la também! – um fungado, foi isso mesmo o que ouvi?”

O chão estava tão confortável, a frieza do linóleo e da água que batia contra minhas costas me mantinham alerta, mesmo que o sono entorpecente me quisesse arrebatar a cada segundo. Eu me sentia desarmada, crua, vazia.

“Matou o meu filho”

A voz daquele cretino alfinetava minha mente com força. Não, não fui eu quem o matei, Marlon!

“Você o deixou escorrer por entre as pernas”

Se tivesse que escolher, eu nunca o teria permitido. Mas, o que queria de mim? Meu corpo era fraco demais para sustentar uma gravidez, ainda mais depois de um acidente.

“Você matou o meu filho, Sabine!”

Não!

Cutuquei a ferida recém-aberta, precisava me manter acordada, focada. Não podia me deixar afundar naquele limbo de novo. Seja forte Sabine, reaja!

Eu nunca quis ser mãe, é verdade. Não nasci para ser maternal, tanto quanto Janeth e, trazer uma criança ao mundo para que andasse na diretriz imposta por uma avó controladora, uma mãe despreparada ou um pai possessivo, era um destino cruel demais para alguém que sequer havia nascido. Entretanto, eu nunca seria capaz de matá-lo, ao contrário do que William ou Marlon pensavam. Era uma vida, uma criança, merecia viver mesmo que nunca soubesse quem eram os pais que o colocaram no mundo!

Sim, eu pretendia fugir. Não por ciúmes, não por medo. Mas por segurança, pela segurança do meu filho. Criança alguma merecia pais criminosos, que mentiam sobre a vida que levavam, que escondiam a coisa que tinham. Como poderíamos viver com isso, com o fato de que não podíamos simplesmente ter um filho juntos?

Marlon não podia assumir a paternidade. Não, quando sabia nada sobre ser um homem minimamente descente. Ademais, a prova de que não servia pra coisa estava naquela casa dormindo no sótão, assombrando meus pensamentos. Behorn não soube o que era ter um pai até os três anos, eu não queria dar esse destino ao meu filho.

Que grande merda Sabine, você devia ter se protegido, evitado que acontecesse! Sim, eu devia. Todavia, quantas pessoas no mundo engravidam na primeira vez? Isso é estatisticamente — não impossível, apenas — improvável. E lá estava o senhor Destino brincando de saracotear com a minha vida. Eu precisava ter levado a genética fértil dos Dixon em conta!

“Você matou o meu filho, Sabine!”

Ah, caro Marlon, seria um enorme prazer te dizer quem foi o verdadeiro responsável pela morte do filhinho querido! Te deixar saber que, enquanto o corpo de Samantha Jones era levado para o necrotério e você tinha a cabeça costurada por paramédicos, meu corpo lutava para manter o nosso filho a salvo.

Grande ironia, não é? Contudo, é nada mais que a verdade. O acidente provocado pelo “pai do ano”, não só matou uma garota inocente que atravessava a rua, como também ceifou a vida do fruto de um relacionamento escondido.

Desliguei o chuveiro, quando percebi que a ferida já estava estancada o suficiente. Para meu azar, as agulhas e fio de sutura não estavam no armário de remédios. Nada eu poderia fazer sobre isso, se não tentar fazer um curativo que estancasse o sangramento.

Me troquei, e sai do banheiro notando que meu irmão não estava no quarto. O que Billy acharia se algum dia descobrisse que o pai do sobrinho morto era ninguém menos que o melhor amigo? De uma coisa tenho certeza, ele não aceitaria de bom grado. Seja pela diferença grande de idade, sobretudo porque Marlon era de maior e a irmãzinha não, ou porque sabia que Marlon era um canalha de marca maior. Ambos os motivos eram igualmente aceitáveis pra mim!

Eu estava disposta a contar sobre a gravidez, sobre Marlon, sobre tudo. Veja, eu nunca escondia nada do meu irmão, ele sempre lia as coisas em mim através daqueles olhos âmbar. Entretanto, todas as tentativas foram interrompidas por Dixon e todas as vezes que eu o confrontava as respostas eram as mesmas:

“O teu irmão não entenderia, Sabine. Will nunca me perdoaria caso eu estragasse a tua vida. Se quer mesmo deixar as claras o que anda acontecendo, espere mais algum tempo. Me deixe guardar mais alguma grana para te tirar desse inferno, para fugirmos juntos. Depois disso, eu mesmo abrirei o jogo para ele. Me dê mais tempo, Menininha!”

Evidentemente, tempo era algo do qual não tínhamos o luxo de dispor. Billy já havia notado meu estranho indispor e mal estar, não demoraria pra juntar as peças e chegar a uma conclusão. Marlon, por outro lado, se mostrou cuidadoso em demasia para com a minha pessoa, e a ira habitual contra os garotos que — segundo ele — me assediavam, se elevou em níveis alarmantes.

William não merecia essa apunhalada pelas costas. Por isso, quando o advogado da família Nakayama apareceu no hospital para me assegurar, me aproveitei da situação dolorosa, transformando-a em um álibi. Deixei o advogado encarregado do suborno que apagaria as fichas médicas que registravam um aborto espontâneo por estresse pós-traumático, e dei meu depoimento responsabilizando Marlon pela morte de Jones.

Já que não havia mais feto, meu irmão não precisava saber que ele um dia existiu. O que Billy não sabe, Billy não sente. Contudo, eu não contava com um procedimento de curetagem mal feito, no que acarretou o episódio no banheiro do hotel dias depois.

Meu irmão ficou ressentido, eu podia ver em seus olhos. A ideia estapafúrdia de me proteger a todo custo — e encarregar o amigo desmiolado do mesmo — não era apenas uma coisa tola, no fim das contas.

Eu consigo imaginar, o desespero, a angústia, o ódio que sentiu ao me encontrar quase desacordada no banheiro do hotel em Nova York. A irmã que nunca lhe escondia nada estava abortando quando sequer sabia que ela estava em um relacionamento. Provavelmente se sentiu traído.

E havia aquela dor. Sempre, haveria aquela dor, que me fazia automutilar para aliviar a pressão e sufocamento. Exatamente como hoje, no banheiro conjugado dos garotos Dixon. No começo eram apenas aranhões superficiais, mas conforme o alívio me acometia todas as vezes que sentia a lâmina enregelada cortando minha pele, mais eu buscava fazê-lo pra me manter longe dos pesadelos e da dor.

Não era — ou é — algo do qual eu deva me orgulhar. Eu nunca o faria, caso tivesse uma outra alternativa, e talvez por descordar da solução temporária que encontrei, William se afastou me deixando definhar com meu rancor, masoquismo sanguinário e sede de autopunição.

E, querem saber, eu não o culpo. Sabine Nakayma não era uma boa companhia, não podia oferecer uma amizade saudável, e tudo o que me acalmava eram os exercícios de guerra o que — mais tarde — descobri ser mais eficaz do que as mutilações.

No fim, eu realmente era uma traidora. Prometi que o Colégio Militar era temporário, e que serviria apenas para que eu colocasse a cabeça no lugar. Entretanto, ao invés disso, eu me alistei para uma missão de mais de dois anos numa guerra de verdade, em um lugar esquecido por Deus e os homens.

Irônico que a coisa que mais me acalmava era o caos de uma guerra. Talvez o fato de me fazer sentir útil e importante, tomada por adrenalina capaz de destruir ou salvar, o que fosse necessário!

Kuso.

O vento entrou pela janela entreaberta trazendo o cheiro da maresia e o som distante das ondas quebrando. O que eu não daria por um par de aviões caça sobrevoando Two Harbors, ou um bombardeio que tivesse me impedido de adormecer!

Acordar toda a casa aos gritos no meio da noite havia se tornado uma rotina muito inoportuna e cansativa. Aquele pesadelo foi vívido demais, mais para uma lembrança horrível, se querem saber. Ademais, meus pensamentos não pareciam estar no lugar.

Eu estava plenamente acordada, e conseguia enxergar o quarto tomado quase que a força pelos Dixon, mas minha consciência ainda estava presa ao pesadelo como se estivesse sonhando de olhos abertos.

— Não toque em mim! – gritei, quando notei que Billy se aproximaria. Minhas mãos apertavam a base da barriga com exagerada força, o suor frio escorria pela nuca e coluna.

— Eu só quero ajudar Sabine, onegai me deixe ajuda-la! – meu irmão deu mais um passo em minha direção e eu conseguia ver a posição de alerta de Maxí atrás dele, com a visão turva. Não ouse chorar Sabine, engula!

— Isso não pode acontecer Billy, eu não posso perde-lo novamente! – a dor no baixo ventre estava me torturando, exatamente como naquela noite.

— Nós não vamos permitir que aconteça. Eu prometo! – sussurrou como se falasse com uma criança. Não há nenhuma criança aqui. Não tem criança. Não tem MAIS uma criança!

— Sabine querida, me deixe examiná-la, sim? Talvez eu seja o único que possa ajuda-la, compreende? – tio Peter tomou as rédeas da situação, saindo de detrás do escudo protetor (?) que Marlon fazia, para que ninguém se aproximasse. Bem, havia uma verdade naquele ponto, se tem uma pessoa capaz de impedir que meu filho se vá, esse alguém inegavelmente é o pediatra da família.

— Saia da frente, Marlon. O que pensa que está fazendo? – Maxí se alterou, notoriamente nervoso pelo irmão estar impedindo-o de chegar até a cama onde eu – vergonhosamente – estava encolhida.

— Eu não vou sair da frente, Maximilliam. Já falhei com Sabine uma vez, não cometerei o mesmo erro. Você é quem deveria sair daqui, seu abutre! – a discussão acalorada que se seguiu aumentou drasticamente minha dor de cabeça. Eu só queria que meu filho permanecesse a salvo, era pedir demais?

Fechei os olhos com exagerada força, aquela maldita cobra dentro de mim estava estrangulando meus pulmões novamente. Me deixe respirar, onegai! Me agarrei aos lençóis molhados de suor e sangue, puxando ar com todo o afinco que minha sanidade permitia.

— Todos vocês saiam daqui, já! – ordenou tio Peter dando fim as brigas fraternais. — Antes que acentuem o ataque de pânico em Sabine.

— O que ela tem? O que está havendo? Porque ela está sangrando assim? Merda tio Peter, é como da última vez... – ouvi a voz embargada do meu irmão. Sim, exatamente como da última vez, Billy!

— Acalme-se William, o sangramento não é o que está pensando. – o médico pediu licença para examinar a ferida na costela, depois afastou os lençóis gentilmente para dar a conclusão. — Sabine está ardendo em febre, os cortes estão inflamados...

— Cortes? — Vão ficar ai de conversinha, ou deixarão que tio Peter impeça um aborto?

— Num primeiro rompante, imaginei que seria a ferida da qual tratei noites atrás. Contudo, não está tão ruim. Então, como pode ver, me parece que a nossa Menininha andou tendo lá seus infortúnios. – senti a mão profissional começar a cutucar a ferida na coxa. É muito errado eu estar agradecida pela dor que me mantinha acordada e lúcida?

— Porque a tia Sabine não contou ao vovô que estava ferida? Teria sido tão menos complicado! – Ah Behorn, seu moleque intrometido. Contar ao tio Peter que o neto dele estava indo pelo ralo abaixo não seria algo muito cortês a se fazer, seria?

A dor no ventre se intensificou, me obrigando a apertá-lo e cruzar as pernas numa tentativa muito nobre de manter meu filhinho dentro de mim. Senti o sangue escorrer pela minha coxa. Não, de novo não, onegai não!

Gritei. Não importa o que eu fizesse ou o quanto me esforçasse, eu nunca seria capaz de impedir meu filho de morrer. Juntei as pernas contra minha barriga em posição fetal, me encolhendo o máximo que conseguia. Senti as lágrimas turvarem minha visão. Gritei. Chorei. Queria espernear, mas não correria o risco de dar abertura para que aquilo acontecesse de novo.

— Ela está presa num delírio perigosos Will, precisaremos leva-la ao hospital imediatamente. A febre está aumentando, os ferimentos precisam ser tratados...

— E-eu não... – Billy resfolegou. — Eu não posso, não consigo!

— Deixe que eu a carrego até o carro... – tapei os ouvidos com ambas as mãos. Não queria ouvir a voz de Marlon. Ele estava ali daquela vez, mas nada parecia diferente. Ele também não tem o poder de parar com isso.

— NÃO TOQUE EM MIM! – avancei empurrando o corpo do jovem amigo do meu irmão para longe. O ouvi bater contra a cômoda antes de voltar para minha posição fetal.

— Ela não vai deixar ninguém se aproximar, sobretudo você Marlon. – Maxí começou. — Papai não tem mais idade pra carrega-la, Will não está em condições então eu...

— Porque ainda está aqui, abutre? – Marlon rosnou para o irmão. Todos já haviam saído do quarto, ao menos os que eu me lembrava terem aparecido por ali. Porém, Maxí continuava ao pé da cama, tão angustiado quanto.

— Me perdoe Menininha, é para o teu bem. – distingui a voz de tio Peter próxima demais para meu gosto, depois senti a agulhada no braço e segundos depois a escuridão me acometeu.

Escuridão acolhedora. Sem discussão, sem a dor, sem Marlon ou Billy, sem pensamentos, sem Sabine!

Notas finais
Eai, o que acharam? Bine não esta tão sã quanto fazia parecer! Me digam vocês, qual a tua opinião sobre tudo isso agora que sabem o lado da Sabine sobre o ocorrido? Já dando um spoilerzinho: o próximo cap será sob a perspectiva do Marlon, então vamos saber como foi a primeira vez deles (sim vai ser +18), e como ele se sentiu quanto ao aborto, a fuga da Bine e tudo mais. Ansiosos? Eu TBM! Lembrando que vai demorar no mínimo uma semana pra próxima postagem, espero que compreendam! Me deixem saber o que estão sentindo com essas revelações todas! Até mais, Kissus'