Amazona
12 O Cap X
Notas iniciais

“I want to hide the truth
(Eu quero esconder a verdade)
I want to shelter you
(Eu quero abrigar você)
But with the beast inside
(Mas com a fera dentro)
There’s nowhere we can hide
(Não há onde nos escondermos)
No matter what we breed
(Não importa o que fazemos)
We still are made of greed
(Ainda somos feitos de ganância)
This is my kingdom come
(Este é o meu destino)
When you feel my heat
(Quando você sentir o meu calor)
Look into my eyes
(Olhe nos meus olhos)
Don’t get too close
(Não se aproxime muito)
It’s dark inside
(É escuro aqui dentro)
It’s where my demons hide
(É onde meus demônios se escondem)
Marlon Dixon
Maio – Dez anos antes
Não pude evitar fazer uma careta ao constatar que todas as vezes que precisasse ir até Bears Bay — como decidimos chamar o refúgio paradisíaco —, teria que me espremer pela passagem estreita da caverna e afundar naquela água gelada demais para o meu gosto.
A madrugada estava fria, contrariando a chegada eminente do verão dali algumas semanas. As ondas batiam com força contra as rochas, e o vento uivava para a lua. Os primeiros raios solares ensaiavam aparecer no horizonte, enquanto arrastava o manto azul da noite para o lado oposto.
Uma luz fraca vinha da caverna descoberta no fim do paredão a um par de meses. A fogueira era tímida crepitando baixinho, dançando e formando figuras animalescas nas paredes de pedra.
Passei o olhar pelo local, apenas para me certificar se teríamos problemas aquele dia. Joguei no chão os malotes que carregava, fazendo o som ecoar alto demais e chamar a atenção de quem eu não queria. Sabine escondia os próprios malotes em meio aos cobertores emaranhados no fim da caverna, e virou-se sobressaltada com a minha presença.
Me encostei em uma pedra grande e alta, estancando a ferida aberta no braço esquerdo com um pedaço do que em algum momento fora a minha camiseta. Segurei para não fazer uma careta maior quando ela parou o que estava fazendo para me analisar.
Eu sabia que ela iria ralhar a qualquer momento, reclamar por não a ter ouvido e escolhido pegar um atalho pela rua Doze, contrariando tudo o que havia dito aquela manhã enquanto repassávamos o plano. Entretanto, se o ferimento e o chão ensanguentado queriam dizer alguma coisa, era que ela estava certa e em se tratando de Nakayma, aquilo já bastava. Sádica!
Observei-a voltar para os cobertores jogados de qualquer jeito no chão, bufando e muito provavelmente mordendo a língua para não dizer algo. Ela puxou um kit de primeiros socorros e bateu o pé impaciente até parar a minha frente.
A filhotinha de cobra teve a audácia de estapear a minha mão e tirar o tecido para que pudesse analisar o estrago. Refreei um palavrão porque se havia qualquer chance de Sabine amenizar aquela dor infernal não seria eu a impedi-la com minha boca suja.
— Precisa de pontos. Não poderei fazer muito sem agulhas, fio, anestésico ou anti-inflamatórios. Não temos um arsenal tão complexo. – pontou fazendo força contra a carne aberta para estancar o sangue.
— Onde Willie se meteu, afinal? – aquela garota podia muito bem me desacordar e me deixar sangrar até a morte ali, num lugar onde ninguém acharia meu corpo. E se havia essa possibilidade, eu queria uma testemunha, nem que fosse uma imparcial como William.
— O nome Katherine te diz algo? – ela rolou os olhos indiferente.
— Kate! – aquele nome saia como um ronronar felino todas as vezes que eu tentava dizê-lo e, bem não é como se eu tivesse qualquer culpa sobre. — Ótima pedida!
— Se é o que diz! – ela deu de ombros. Hora de cutucar um pouco mais!
— Me parece uma ideia promissora. – alfinetei notando-a morder o lábio inferior concentrada. — O que me diz?
— Do que exatamente estamos falando, Marlon? – ela apertou o algodão com antisséptico propositalmente e mesmo a contragosto fui forçado a trincar o maxilar. Maldita, ela sabia muito bom a que me referia!
— Comemorar, Sabine. – usei a outra mão para afastar o cabelo de seu rosto e encará-la melhor. As maçãs ganharam cor e a concentração em trabalhar no ferimento duplicou.
Apertei a cintura fina reflexivamente, quando o ardor aumentou. Ela sempre era maldosa, principalmente quando queria jogar. Senti o corpo esguio se aproximar mais do meu, emanando calor e cheiro de desejo.
— Olhos de Tigre! – o apelido saiu como um sussurro erótico, porque sou incapaz de me controlar quando ela me encarava com aqueles orbes verdes. E, é claro que ela sabia. Aquela serpentezinha me observava, e havia aquele brilho ao mesmo tempo estranho e convidativo.
Sabine sorriu e mordeu o canto do lábio. O oceano verde me puxando pro fundo, me enlouquecendo, me perdendo. Maldita Nakayama, feiticeira cruel, hipnotizadora, encantadora de homens!
— Não queria comemorar Marlon? – ela umedeceu os lábios, a deixa perfeita para eu jogá-la contra a parede de pedra e prendê-la sob meu corpo. — Vamos jogar. – era uma ordem e, Deus, eu a obedeceria sem questionar.
Capturei aqueles lábios com afinco e devoção, pedindo passagem com a língua, para senti-la me massageando com a sua, brigando por espaço na minha boca. Minhas mãos subiam automaticamente pelo corpo de Sabine, explorando a carne macia por baixo da blusa molhada.
Quanto mais a garota projetava o próprio quadril para perto do meu, mais eu a pressionava inconscientemente contra a parede gélida e úmida. Senti os dedos finos se embrenharem pelos fios do meu cabelo, e o arrepio na nuca me desestabilizar completamente.
Nakayama aproveitou-se da situação para me empurrar em direção aos cobertores, me fazendo desmoronar deitado com ela no colo. Observei-a sentar em meus quadris, sorrindo ao sentir minha extrema excitação.
A questão não era estar faminto por sexo, ou ter nenhuma experiência sobre o assunto, não. O ponto era ser exatamente ela a estar ali, a garota que — ao contrários das outras inúmeras com quem estive — tinha gominhos na barriga, aos quais não resistir tocar. Era sobre Sabine ser excêntrica e única, e por esse motivo gemi alto incentivando-a a intensificar o beijo.
A garota passou a blusa molhada pela cabeça, deixando o tronco parcialmente desnudo me dando total visão dos seios medianos e turgidos. Eu nunca a vi como agora, com desejo lascivo e indomável, nem mesmo das outras vezes em que nos embrenhamos nesse joguinho delicioso, que começou no Natal do ano passado.
A textura da pele bronzeada era incoerente, o suor misturava-se aos resquícios de água salgada e descia perturbadoramente pela barriga. Tomei impulso e tirei-a de cima de mim, virando e prendendo seu corpo quente debaixo do meu.
Beijei o pescoço molhado, sentindo que ela ansiava por diminuir a distância entre nós. Desci as carícias pela mandíbula e clavícula, deixando a morena mole e suscetível. Percorri um caminho tortuoso do colo ao vão dos seios, descendo pela barriga e seguindo a linha dos músculos adquiridos recentemente com extensas séries de exercícios todos os dias.
Puxei o short quase seco, escorregando-o pelas pernas torneadas e bronzeadas, beijando e mordendo toda e qualquer parte de carne a vista. Ela deixou escapar um gemido baixo quando lambi a parte interior de sua coxa.
Amassos e carícias mais íntimas não eram novidade para nós. A tensão sexual que se estabeleceu entre Sabine e eu, após o episódio no Solarium’s Garden era sufocante e vez ou outra nos deixávamos envolver naquele jogo gostoso de se pegar. Ah, aquele Natal abençoado, aquele presente de aniversário suculento!
Parei com o carinho, me afastando para tirar a bermuda sob o olhar faminto de Sabine. Voltei a provar de sua boca suculenta, deixando que minha mão tomasse o rumo da intimidade feminina. Esfreguei o clitóris duro ouvindo-a gemer felinamente o que, particularmente, me arrebatava os sentidos.
Quanto mais rápido eu a acariciava, mais ela rebolava, buscando o próprio prazer e meu orgulho se inflava por saber que, mesmo que houvessem outros caras, nenhum deles poderiam a satisfazer de igual modo e por esse motivo eu me empenhava em fazê-la não esquecer disso.
— Porra, Sabine... – xinguei, quando ela teve a brilhante ideia de invadir minha boxer e segurar meu amiguinho com aquela mão macia. — Temos que parar antes que... – antes que nada, eu não tinha forças para terminar as frases. Não, quando era ela quem me masturbava tão impiedosamente. Meu membro latejava de desejo e eu já podia sentir o pré-gozo escorrer.
— Vamos parar, é só que... – Bine sentou no meu colo, afundando os dedos na minha nuca e puxando meu cabelo com força, obrigando-me a encará-la. Aqueles olhos diabólicos e luxuriosos. Um sorriso maroto e cheio de veneno estampou o rosto dela. — Eu preciso de mais.
Senti-a morder meu lábio inferior até cortá-lo e o gosto salgado do meu sangue invadir a boca. Honestamente, eu nunca me importava com as peculiaridades de Sabine, ela gostava de me torturar e eu gostava quando era ela quem tomava as rédeas.
Para uma garota virgem, ela era autoritária e ardilosa demais e, talvez por esse motivo, eu sempre tive lá minhas dúvidas de que realmente fosse tão pura quanto dizia ser. Ou, pelo menos era o que William pensava. Merda, Will!
Me afastei brusco e longânime, Sabine é a irmãzinha do meu melhor amigo que droga eu estava fazendo? Até mesmo o jogo erótico que fazíamos, havia limites e, tirar a virgindade dela era um deles.
Por outro lado, tê-la ali, lambendo meu pescoço e me masturbando ferozmente era divino e infernal ao mesmo tempo. No mais, ser o primeiro e único a possuí-la como mulher era um pensamento prazeroso demais para ignorar.
Procurei o fecho do biquíni dela. Eu vou parar, quando tiver que parar. É só um passo a mais, nada além do limite, certo? Sorri ante a voluptuosa sensação de ter o seio de Sabine em minhas mãos. Ela também sorriu, me incentivando a abocanhá-los. Obedeci, porque ela era a dona daquele jogo afinal, minha dona!
Senti ela jogar a cabeça para trás, e segurar nas minhas coxas para se equilibrar, gemendo descaradamente desta vez. Loucura muito combina comigo, agora. Meu único pensamento era fodê-la de muitas formas diferentes, que se deleitasse, rosnasse meu nome, literalmente subisse pelas paredes!
Me afastei para encará-la, as íris outrora intensamente verdes, agora estavam translúcidas dando a ela uma aparência felina. Olhos de Tigre!
— Você vai acabar me fodendo por isso, Sabine! – minha voz saiu rouca de lascívia, e aproveitei sua distração para apertar aquelas coxas grossas e impulsionar meu quadril para que ela sentisse meu pau roçando em sua intimidade.
— Não é para isso que estamos aqui, para nos foder? – ela gemeu esfregando-se mais contra meu quadril. Um sorriso ladino brincando em seus lábios, o rosto iluminando-se conforme os primeiros raios solares adentravam a caverna.
— Há limites... – tentei usar a racionalidade que me restava, o que sinceramente já não era muito.
— Para o inferno com os limites, Marlon! – me levantei bruscamente, sustentando o peso dela enroscada em minha cintura, e joguei o corpo feminino contra a parede dura. Não conseguimos refrear o gemido alto que ecoou, ao sentirmos nossas intimidades se chocarem separadas apenas pelas peças de baixo.
Sabine começou a morder meu pescoço, puxando meus cabelos com mais força me obrigando a descontar todo o tesão em suas coxas e bunda dos quais apertei com muito boa vontade, obrigado.
Soltei-a a contragosto, permitindo que ela sustentasse o peso do próprio corpo, fitando-a com desejo contido. Os olhos verdes me afogando, e eu sufocaria com imenso prazer se a última coisa a fazer fosse estar com ela.
Me ajoelhei sem quebrar o contato visual e capturei o sorriso presunçoso nos lábios, ela estava deleitando-se pela fato de me ter a seus pés. Por nenhuma outra garota eu me humilharia a esse ponto, mas por Sabine... Ah, por Sabine eu me arrastaria como um cão vira-latas!
Puxei sua calcinha, revelando a intimidade com poucos pelos. Suspirei fascinado, a maioria das garotas— pelo mesmo a que estiveram comigo —, se orgulhavam de manter aquele local exatamente como vieram ao mundo, lisas. Mas aquela cobrinha era peculiar até mesmo nesse aspecto, mantendo uma quantidade pequena de pelos agraciada pela genética havaiana da qual não me recuso a agradecer.
Umedeci os lábios sedento, beijando sua intimidade úmida. Os lábios dela brincavam com os meus, abrindo e fechando sempre que minha língua passava entre eles, correspondendo ao beijo íntimo.
Senti o corpo esguio arquear e as mãos procurar por apoio freneticamente, mas tudo o que conseguiram encontrar foi a parede enregelada a suas costas e, aquilo teria que servir.
Continuei com todo o “trabalho sujo” massageando o clitóris rígido, fazendo-a se remexer com os choques elétricos de prazer. Era excepcionalmente satisfatório vê-la lutar para manter-se equilibrada sob as pernas firmes. Torturá-la era sempre gostoso.
Os pelos curtos de Sabine roçavam contra meu queixo, me inebriando e estimulando a chupar o pequeno músculo com maior devoção, como a uma fruta suculenta e doce. Ela era suculenta devo admitir, mas não doce. Ao contrário, ela era salgada, agradavelmente salgada.
Observei sua expressão congelar, o desejo era quase palpável. Os lábios finos estavam entreabertos permitindo que sua respiração saísse estrangulada. Os olhos fechados, o nariz contraído exibindo suas linhas de expressão. Ela é linda, a sua maneira, mas inegavelmente linda!
Intensifiquei os movimentos com a língua, mantendo a agilidade e compasso. Ela se contorcia, puxando meus cabelos e pressionando minha cabeça contra seu sexo molhado. O quadril redondo e volumoso se movimentou em círculos, dançando ao som da pulsação sanguínea.
— Vamos Sabine. – incentivei com a voz abafada pela carne quente. — Goze pra mim. Goze Sabine! – ordenei.
Os gemidos altos dela ecoaram por toda a caverna, os fluidos quentes escorreram por suas coxas, descendo por meus lábios queixo e pescoço, me lambuzando de seu deleite. Havíamos avançado um sinal perigoso, mas ainda nos mantínhamos dentro dos limites. Até quando, eu não fazia ideia.
Me levantei, limpando o rastro de gozo muito grosseiramente com as costas da mão. Lascívia ardia em seu olhar, e uma pontada aguda acordou meu amiguinho novamente. Não que em algum momento ele tivesse adormecido, é claro.
Capturei seus lábios com afinco, fazendo-a sentir o próprio gosto em minha boca. Desci as mãos pelas laterais de seu corpo, apertando o vão entre as coxas grossas e a bunda, puxando-a para cima com um solavanco e sustentando seu peso com o quadril pressionado contra sua intimidade descoberta.
Liberei meu membro ereto e duro, ansioso para ser abocanhado por Sabine, caso ela fosse uma garota muito má e decidisse me presentear com aquela carícia. Esfreguei a glande lubrificada sobre a entrada dela, torturando a ambos. Meu pau pulsava desejoso por se enterrar ali.
— Não podemos... – comecei, a racionalidade voltando outra vez junto a imagem do meu melhor amigo, irado por eu ter transado com sua irmãzinha.
— Não, nós não podemos. E porque parece tão certo, se é tão errado? – sussurrou ela com aquela voz felina que me arrebatava ao Olimpo. — Porque eu quero tanto...
— Me peça Sabine, peça e te darei o que quiser. Você é a minha dona e basta que ordene, e assim o farei. Sabe disso, não sabe? – reprimi um rosnado, tonto pela ideia de penetrá-la.
— Me foda Marlon, fundo e forte! – ordenou. E quem sou eu para desobedece-la?
Contra todas as represálias que meu cérebro resolveu me enviar justo naquele momento, forcei meu quadril de uma vez contra ela, penetrando-a com força como havia me ordenado.
Ela gritou e por um segundo me arrependi de tê-la invadido. Ela era uma garota virgem, o que estava pensando? Estava pronto para começar a me martirizar, quando notei que os gritos eram de prazer e ela remexia o quadril louca por mais contato. Uma masoquista ordinária, afinal. O quanto mais posso me apaixonar por essa garota e sua subjetividade?
Sabine começou a rebolar em meu pau, e eu sei que ela o sentia duro e grosso, batendo contra seu útero. Aquela era a melhor sensação do mundo, e eu aceito morrer por tê-la sentido. Deslizei-me pela cavidade úmida, era deliciosamente inebriante a forma como era apertada, e me abocanhava com seus músculos internos.
Ela se soltou da minha cintura, me forçando para trás obrigando-me a deixa-la. Pronto, era agora que ela se arrependia de tudo e sairia correndo contar a Willie? Não, a serpentezinha se virou, recostou o rosto e as mãos espalmadas na parede de pedra, se empinando todinha. Gemi por antecipação.
Guiei meu membro de volta para sua entrada, penetrando-a novamente com força. O impulso jogou o corpo feminino de encontro ao paredão irregular, produzindo um som erótico.
Capturei sua mão, prendendo-a sob a minha. Puxei os cabelos negros afastando-os do pescoço, e beijando o local sem pudor. Mantive seus cabelos presos firmemente em um rabo de cavalo, ouvindo-a gemer a medida que as estocadas intensificavam-se e minha púbis se chocava contra suas nádegas. Que balanço, que visão!
Ambos estávamos entorpecidos pela maresia misturada ao suor e ao cheiro do sangue que desprendia do meu braço ferido. Era como um veneno mortal. Apertei seu pescoço asfixiando-a levemente. O eco dos gemidos dançavam ao som dos nossos corpos se batendo, carne contra carne. Ela estava louca pelo prazer da asfixia, eu estava louco pelos miados dela. Tudo soava como um ritual antigo e perigoso. Um instinto quase animal nos envolvia, selvagens. Como animais no cio, sedentos insaciáveis, primitivos. Um pacto de sangue despudoradamente irrevogável.
Mal pude conter o urro canino, quando cheguei ao meu ápice e me deixei derramar dentro de Sabine, quente, molhado e voluptuoso. O ego inflado por tê-la feito gozar pelo menos quatro vezes, segundo minhas contas.
Me afastei para que ela pudesse se virar, me encarando profundamente com aqueles orbes verdes reluzindo de luxúria e satisfação. Ela passou a língua pelos lábios umedecendo-os e aquela foi a deixa perfeita para me incentivar a guardar meu amiguinho seguro dentro da boxer antes que tivéssemos alguma outra ideia maluca que me ferrasse ainda mais.
Merda. Meu coração começou a acelerar de um modo nada agradável. William vai me matar. Vai comer meu fígado no jantar, dará os restos aos cães e penduraria meu membro decepado num mastro defronte à sua casa, para que servisse de aviso aos futuros namorados de Sabine. Não que agora eu o fosse.
A morena colocava as próprias roupas despreocupada, eu podia sentir seus olhos me estudando. Havia indecisão em mim entre sorrir pelo que acabara de acontecer, ou me martirizar por ter traído meu melhor amigo.
— Não precisa se torturar, Marlon. – ela começou num silvo. Cobra encantadora de homens. — Não significou nada para mim também sabe, não é como se tivéssemos que assumir algo a alguém.
— Nós temos algo. – pontuei, jogando um balde de água na fogueira, dando fim a ela. — E seja lá o que for, eu prezo por isso! – ela riu descrente.
Porque era tão difícil acreditar em mim? Que eu a venerava, que ela era e significava literalmente tudo nessa merda que é minha vida, que havia um sentimento enorme dentro de mim dedicado especialmente a Sabine Nakayama?
— Vá para Oyster Bay, Marlon. As garotas o farão esquecer o que houve aqui, tenho certeza.
— As outras garotas são incapazes de fazer a mim o que acabou de fazer. – frisei, pegando a mochila esquecia a um canto. — Há algo de mim em você e o mesmo de você em mim, agora. Nos pertencemos, entende? – como eu a faria perceber que nenhuma outra garota me teve como ela tinha eu não sabia, mas me esforçaria até o último suspiro para fazê-la entender. — Vamos, eu te dou carona.
— Não irei a parte alguma. Esperarei Billy trazer os malotes dele.
Um chama se acendeu dentro de mim e antes que eu pudesse me refrear, empurrei-a contra a parede segurando seu maxilar com força. Ela não seria capaz de me delatar, não poderia!
— Não vai abrir essa boquinha, Nakayma. Willie não precisa ter conhecimento de coisas das quais não deve se preocupar. – intensifiquei o aperto para me fazer claro.
Ela me empurrou com vontade, cuspindo uma quantidade razoável de sangue no chão e massageando as bochechas.
— Quantas vezes terei que repetir que não há nada de importante entre nós do qual Billy deva tomar conhecimento. Isso tudo não é nada, Marlon. N-A-D-A!
— Ótimo. Que bom que tem a cabeça no lugar garota! – rosnei, dando as costas e saindo da caverna.
Eu sabia que tinha me deixado levar pela carnalidade, que nunca deveria ter cedido. Eu sou um traidor cretino e merecia morrer nas mãos do meu melhor amigo. Contudo, a única certeza que tinha quando ganhei o mar deitado sob minha prancha, era a de que eu teria que fazer das tripas coração para conseguir mais grana e fugir com Sabine daquela maldita ilha. Só longe dos olhos venenosos de Janeth, é que eu poderia pedir o consentimento de Will, e fazer da garota com olhos de tigre, minha mulher para sempre!
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Julho – Dez anos depois
Deixei o corpo desacordado de Sabine no banco de trás do carro de Peter. Maxí ocupou o assento ao lado, se recusando a deixa-la sozinha. Não era função dele protege-la, não era sua responsabilidade. Mesmo assim, ele a seguia como um abutre desde que se subentendia por gente.
Voltei para a cozinha encontrando Will sentado em uma das banquetas, os cotovelos sob a bancada, as mãos juntas na frente da boca, o olhar vago e aterrorizado.
— Você está bem? – dei a volta, pegando água gelada e estendendo o copo para que ele o pegasse.
— Eu pensei que estava acontecendo de novo, Marl. Entrei em pânico. As imagens daquela noite vieram todas de uma vez e... – ele sorveu um pouco de água suspirando consternado. — É muito abominável da minha parte estar aliviado por ser as automutilações de novo, e não um aborto?
— Sabine fez aquilo a ela mesma? – meu irmão apenas balançou a cabeça tomando um pouco mais da água gelada. — Porque? Porque hoje, porque agora?
— É o jeito dela reprimir os pesadelos, eu acho. – ele suspirou engolindo o choro. — A gravidez de Sarah, Behorn em casa, todas as essas coisas provavelmente a fazem lembrar do aborto e, consequentemente, trazem os pesadelos na bagagem.
Deixei Willie com seus próprios monstros, e sai para a praia. Então, Sabine desenvolveu táticas para fugir dos pesadelos? Bem, ela não era a única, afinal.
Sentei na areia gelada, não havia qualquer possibilidade de voltar a dormir e, suspeito que Will muito menos. Se foi pesaroso pra mim ouvir a garota gritar por socorro minutos quase infinitos, pro meu irmãozinho deve ter sido como reviver aquela noite. Ele esteve lá, ele a assistiu matar meu filho!
Bem, se a automutilação era a forma de Sabine lidar com a atrocidade de assassinar o próprio filho, se essa era a maneira de superar o remorso e a culpa, então eu não devia sentir pena ou qualquer um desses sentimentos que estão dentro de mim agora. Ela merecia!
Senti minhas mãos tremerem e os batimentos cardíacos estavam acelerados em demasia, todos efeitos da minha “forma de lidar” com aquela noite. Se Nakayama pensava que era a única a encontrar meios nada ortodoxos de seguir em frente, estava redondamente enganada.
Eu estive despedaçado, mutilado por dentro. Ela me tirou a razão pela qual decidi viver e renunciar tudo, me fez o homem mais feliz do mundo passando noites em claro imaginando como seria o rosto do meu filho, e depois arrancou isso de mim sem qualquer piedade, como se valesse menos que a matrícula daquele maldito Colégio Militar ao qual se enfiou.
Como fui estúpido, me deixando apaixonar pela irmãzinha do meu melhor amigo. Uma garota mais nova, mas inalcançável. E, o que eu poderia esperar vindo de uma Nakayama? A cobra mãe era ardilosa o suficiente para ter se adiantado em ensinar a arte da dissimulação e persuasão a filha. Instruir e introduzi-la ao jogo da hipnose e encantamento masculino.
Fui envenenado, picado e envolvido pelas presas de Nakayama e, o pior de tudo, é que a garota não parecia – ou não queria – se dar conta de que tinha todo esse poder sobre mim. Eu a amei insana e intensamente. De formas que nunca saberia explicar.
Eu seria capaz de entrega-la o mundo, mesmo que pra isso tivesse que assaltar bancos. Sabine merecia mais, muito mais do que um pobretão como eu era suposto a oferecer. Ela era dona do mundo e eu não a daria menos que isso!
Porque ela não conseguiu enxergar isso, que eu estava fazendo tudo por ela? Por qual razão escolheu me confrontar após sairmos escapados do aniversário de nove anos do Nick?
“— Vamos contar ao Billy. Chega de assaltos Marlon, isso acaba aqui. – meus olhos rolaram observando as luzes da estrada correrem pelo para-brisas, tamanha a velocidade que o carro alcançava.
— Será o último olhos de Tigre, eu prometo. É a única chance que temos de fugir desse inferno, não vê? – meu pé pesou no acelerador, fazendo o motor roncar.
— Billy vai encontrar uma solução melhor se souber de tudo. Poderemos pensar em algo juntos.
— Você não vai contar nada ao William. Ele vai abrir a boca pra Nakayama e depois disso estaremos ferrados, ela vai dar um jeito de te levar pra longe. – eu estava um bocado tonto pelas garrafas de bebida que havia tomado aquela noite.
— Eu sou emancipada, lembra? Janeth não pode me obrigar a nada. – ri com escárnio.
— Ela pode sumir com você, ou com meu filho. Pode tentar mata-lo Sabine, não vê? – Deus sabe que a cobra era mesmo capaz.
— Nesse caso, nada de filho para ambos. – pontuou taxativa. — Se não existir filho, sumir do radar de Janeth seria mais fácil e... – parou ao me encarar nos olhos.
— Você não ousaria... – o que ela não ousaria nunca saiu da minha boca porque, naquele instante, meus olhos não estavam mais na estrada, tampouco puderam ver o segundo em que o automóvel atropelou Samantha Jones, ou em que o corpo de Sabine foi espremido dentro do sinto de segurança, e minha cabeça bateu contra o painel.”
Engoli em seco. Ela ousaria e ousou. Abortou um filho meu para não ter que enfrentar Janeth Nakayama. Para ter uma desculpa ao sair da ilha, sem suspeitas. O colégio Militar eu posso compreender, três anos sob a inspeção da mãe para manter o álibi até que a velha a deixasse em paz. Mas, porque o exército depois disso? No fundo ela sempre foi uma cópia fiel da mãe e bastaram apenas alguns anos sob as rédeas militares para comprovar esse ponto.
O dia já estava amanhecendo e o mormaço banhava a praia maldosamente. A inquietude dentro do meu peito não podia se aplacar nem mesmo com a calmaria das ondas matutinas.
— Tio Willie concordou em surfar comigo hoje, disse que seria uma boa distração pra ele. Tem algum problema pra você? – Behorn afundou a prancha que Iosha o havia presenteado no último aniversário, e sentou ao meu lado.
— Não. – puxei-o de lado para um abraço paternal. — Tio Willie está realmente precisando de alguma distração.
— Ele está bem preocupado, não está? – beijei o topo da cabeça loira do meu filho, libertando-o para que eu pudesse encarar seus olhos marrom esverdeados. — Quero dizer, tenho que admitir que eu também fiquei bem assustado!
— Não fique pensando nessas coisas Behorn, são assuntos de adultos. Você só tem treze anos, não entenderia. – ele piscou um pouco contrariado. Intrometido como a mãe!
— A vovó precisou tomar dois calmantes noite passada. Me parece que as pessoas nesta casa estão surtando e caindo, como em uma fileira de dominós. – esperto e inteligente como o pai. — Eu só queria saber quem é que derrubou a primeira peça!
— Pare de tentar encontrar um culpado, e se concentre em ajudar a amenizar os danos. A vovó vai precisar da tua atenção, assim como tio Willie e quem mais se mostrar minimamente abalado pela coisa toda. – ele suspirou convencido.
— E a tia Sabine, ela ficará bem? Ela parecia estar com medo, sabe?
— Sabine é mais forte do que pensa homenzinho. – procurei por algum cigarro esquecido dentro do bolso da bermuda.
— Ela irá voltar? – ele me observou acender o maço.
— Não sei! – soltei a fumaça consternado.
A maré estava alta, as ondas batiam com mais força àquela hora, o vento corria pela praia semideserta e o sol começara a esquentar e fazer a fina névoa da manhã se dissipar.
As gargalhadas animadas de Behorn ecoavam em meus ouvidos todas as vezes que William caia da prancha. Meu irmãozinho estava perdendo o jeito enfurnado naquele escritório abafado, ao invés de vir surfar nas férias como os reles mortais. Mas, as bolsas debaixo dos olhos e a noite mal dormida — se é que ele dormiu — também tinham lá sua contribuição.
“Tia Sabine parecia estar com medo, sabe?”
Medo. Eu só posso rir com muito gosto para a afirmação inocente do meu filho. Nakayama não fazia ideia do que era sentir medo.
Pavor, foi o que senti com a ideia de Will descobrir que eu havia desvirginado a irmãzinha dele e a engravidado. Que eu tinha feito justamente aquilo do qual ele me fez jurar protege-la.
Pânico, ao me dar conta que meu melhor amigo me esfolaria, tiraria meus órgão e daria aos cães me fazendo pagar cruelmente pela traição, e que abandonaria Sabine por ter mentido para ele. E eu sabia que ela não suportaria não ter o apoio do irmão.
Terror, era o que esteve estampado na voz de Willie ao me ligar do outro lado do pais aquela noite, apavorado porque tinha encontrado a irmã desmaiada no chão do banheiro de hotel. Graças ao advogado que Josh me arrumou, eu estava esperando o inquérito policial em liberdade e, caso não fosse isso, William tão teria conseguido me contatar.
Queria eu nunca ter atendido aquela ligação, e ficado ignorante ao fato de Sabine ter abortado nosso filho. Ansiava nunca ter ouvido o choro, a respiração pesada, os gritos de Will tentando reanima-la. Sentindo o nó na garganta que me impedia de responder a única pergunta que lhe importava naquele momento. Acovardado, impossibilitado de pedir perdão.
O assunto nunca mais veio à tona. Havia uma concordância mútua e subtendida de que fingiríamos que aquilo nunca tinha acontecido, e que o enterraríamos. Contudo, a vala em que enfiei aquela questão foi cavada dentro do meu próprio peito e, sinto em dizer que foi a pior das escolhas. Logo os pesadelos vieram, me impedindo de ter sequer uma noite de sono em paz. A voz do meu melhor amigo me assombrava todas as vezes que fechava os olhos e deitava a cabeça no travesseiro. Eu estava ficando louco, alucinado, derrotado.
Se Sabine tinha encontrado um jeito de fugir de toda essa merda eu nunca arriscaria julgá-la, porque eu também encontrei a minha. Ecstasy.
Quando minha prisão preventiva foi decretada sem chances de revogação, a oportunidade surgiu como uma luz no fim do túnel. Nathan — o colega de cela —, recebia uma porção de drogas semanalmente de seus subordinados durante os banhos de sol e, farto de ser acordado aos gritos madrugadas seguidas, me ofereceu algumas de suas mercadorias.
Meia dúzia delas tinham efeitos duradouros e prometiam alucinações a longo prazo. Entretanto, não é como se eu quisesse me tornar um viciado devendo pra um traficante meia boca, e diminuindo as chances de sair daquele armagedom. Tudo o que eu precisava eram de poucas horas de sono e manter a lucidez.
O irônico da coisa toda, é que eu estou chapado de Ecstasy desde que Sabine retornou, mas sem nenhuma expectativa de encontrar noites tranquilas pela frente.
Behorn gritou ao se chocar contra uma onda gigante. Vi meu filho remar apressado enquanto os olhos esverdeados procuravam a nascente das ondas. Will vinha logo atrás, se esforçando mais que o necessário para se manter equilibrado.
A imagem daquelas duas criaturas tão distintas e conectadas por um único propósito, me fez pressupor que se a gravidez de Sabine tivesse perdurado, se meu filho com ela estivesse vivo, Willie estaria ali ensinando-o a surfar com o meio irmão.
Não, eu estava errado em pensar que meu amigo faria algo assim, principalmente se soubesse quem era o pai de seu sobrinho morto. Talvez o conhecesse depois de alguns anos, o Nakayma era sentimental demais para ignorar uma criança. Contudo, se a fisionomia do moleque o fizesse lembrar de seu cruel melhor amigo, decerto ele nunca agiria com naturalidade da mesma forma que o fazia a Behorn.
Me perdoe William, por ser um traidor, aproveitador, manipulador imperdoável!
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